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Com 19 anos, negra e transexual, é Maria Clara Araújo que nos Representa nesse Dia Internacional da Mulher

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No nosso dia, conheça a história dessa mulher que é símbolo de luta, revolução e transformação.

por Diane Lima
 Capa: Ilustração do Vitor Teixeira

 

Foram 2 dias molhando os olhos até a data exata da entrevista com a Maria Clara Araújo, ativista transexual, negra, nordestina e dona de uma das histórias mais emocionantes que já passaram aqui pelo NoBrasil e que nós agora, com muito respeito, compartilhamos nesse dia muito simbólico e representativo que é o Dia Internacional da Mulher.

Na verdade, o nosso contato com Maria Clara se iniciou ainda lá no Rio de Janeiro, quando por pouco nós nos encontramos no set de gravação do filme Kbela e que culminou na última semana, através da ponte feita pela Yasmin Thayná, diretora do filme, no SIM da Maria para participar do Elas Nos Representam, nosso especial que homenageia as mulheres de todo o Brasil e traz à tona, discussões imprescindíveis sobre a importância da nossa representatividade e empoderamento.

Ela que do Recife foi convocada entre os mais de 6 mil aprovados no SISU para ocupar uma vaga da Universidade Federal do Pernambuco, contou para o NoBrasil ainda muito emocionada, o que a sua vitória representou para ela e para o movimento: “Foi sem dúvida muito importante porque é preciso que fique claro que a universidade não foi feita para pobre!  Quando eu ia em alguma universidade, para uma roda de conversa ou para dar uma palestra, eu sempre achava aquele ambiente extremamente elitizado, em sua maioria ocupado por pessoas de classe média e que faz qualquer pessoa de onde eu vim pensar: nossa, eu nunca vou estar aqui dentro! E quando eu vi que eu estaria ocupando esse espaço, não mais somente como visitante ou como objeto de estudo, mas como estudante, foi uma realização para mim, pra minha família e acredito que também uma realização para o movimento ter uma menina trans, que é marginalizada constitucionalmente e socialmente, estar ocupando esse espaço. Tenho certeza que vou conseguir construir coisas muito bonitas lá dentro”.

Nesse video emocionante, Maria Clara fala sobre dentre outras coisas, da importância da sua mãe na sua vida.

Mais do que a felicidade da aprovação de qualquer jovem da periferia do Recife numa Universidade Federal, o feito da Maria Clara vem para reforçar sobretudo, a urgência sobre a importância da representatividade de transexuais e travestis em espaços institucionalizados de poder e o combate também à própria fetichização desse corpo, como ela mesma explica ao lembrar da fala de uma pessoa que se disse “espantada por vê-la andando naturalmente à luz do dia como se fosse algo natural”: “tanto mulheres negras cisgênero quanto mulheres negras trans, sofrem esse problema da fetichização e exotização do corpo. Na verdade, toda mulher tem seu corpo vendido na grande mídia, o nosso corpo no entanto é mais endossado nessa questão, seja sendo a mulata ou a travesti que normalmente é a prostituta. Isso tudo é muito complicado porque as pessoas nunca se perguntam porque essas meninas trans ou travestis estão naquela rua ou porque elas apenas tiveram aquela rua como possibilidade de vida, né? Esse porque, foi o que fez com que nós ganhássemos esse status de figuras da noite que estão ali apenas para satisfazer essa grande massa masculina.  Então, pra mim sou apenas eu, uma jovem de 19 anos indo na praça conversar com meus amigos o que me faz pensar que apenas o fato de existir enquanto mulher trans é algo muito grande. Eu entrar na universidade, eu ter um relacionamento, eu ter uma conversa com minha mãe, isso são coisas que na vida de outra pessoa são coisas comuns, mas na minha vivência de mulher trans isso não é algo comum, é uma vitória”.

“É sempre importante refletir sobre por quê somos seletivos em quais discursos levar a sério.

Por que quando a travesti de rua morre, vocês ignoram, mas, eu, vocês escutam?

Por que quando a mulher negra do bairro quer ser sexualmente liberta, vocês recriminam, mas a feminista branca vocês aplaudem?

Por que quando a bicha pão com ovo apanha, pouco se comenta, mas quando há um personagem gay higienizado na Globo, todos assistem?

Hora de se perguntar por quem estamos lutando.”

Na nossa conversa com a Maria Clara, um frase nos marcou muito: “É preciso que as pessoas tenham consciência que elas não convivem com pessoas trans” e isso só nos faz refletir o quanto precisamos avançar para que as demandas transfeministas sejam incluídas não somente na agenda dos direitos humanos mas que sejam discutidas, principalmente, dentro do processo de educação, de modo que o próprio sistema de ensino seja capaz de conduzir e orientar esses momentos de descobertas na adolescência, comumente marcados por um processo solitário e de pouco amparo familiar, já que muitas sofrem com o medo da rejeição. Além disso, a busca dela por verbalizar a sua condição e seus desafios através das redes sociais, vem para provar o quanto o papel da internet está sendo decisivo por dar visibilidade e amplificar a voz de milhares de outras meninas que como ela, estão em busca de apoio e encontram na rede, através de diversos grupos de amparo e causas sociais, ajuda especializada, amigos e outras companheiras de luta: “a minha descoberta se deu mais especificamente aos 15 anos quando eu vi na TV uma matéria da Lea T. Foi a primeira vez que eu vi a transexualidade sendo mostrada de uma outra forma na mídia. onde ela falava dos preconceitos que sofreu, das penalizações da vida e sobre a questão da família. Foi uma perspectiva da visão sobre a transexualidade muito nova, não somente para mim mas acredito que para outras pessoas também porque os veículos de comunicação escolhem passar a visão sobre o que é ser transexual de uma forma muito limitada: sempre relacionada a prostituição, como a travesti que sai com o jogador ou a travesti que aparece morta.  Então, foi ali que me vi de frente com a transexualidade e a partir dali eu comecei a pesquisar o que era ser transexual e fui em busca, seja vendo documentários ou conversando com amigos. É preciso dizer ainda, que aquele momento, não de aceitação mas, de decisão, foi muito duro porque eu me sentia como se tivesse em uma ponte onde de frente estava um leão e atrás um tigre. Se eu andasse para frente e me assumisse mulher trans eu poderia perder a minha família, não teria emprego e sofreria preconceito ainda mais do que eu já vivia todos os dias mas, se eu fosse ao tigre e continuasse sendo lida como rapaz,  eu seria extremamente infeliz. Então eu resolvi andar para frente e já tem dois anos que eu me assumi como mulher trans.”

2Agridulce – Imagens Reprodução/Facebook

“o transfeminismo parte da premissa da libertação dos corpos das mulheres trans visando amparar essas vítimas ao entender que essas mulheres são marginalizadas institucionalmente por viver sobretudo em um país que é o que mais mata travestis e transexuais no mundo, o dobro do segundo lugar que é o México.”

Apesar de ser tudo muito novo na sua caminhada e de haver uma batalha muito maior com o próprio Estado para que se desburocratize a mudança de nome de registro e que haja a desconstrução da visão da identidade trans como uma doença – ambas causas contempladas no projeto de lei conhecido popularmente como Lei João W. Nery e que encontra-se ainda em tramitação, Maria Clara já é responsável por uma grande vitória: o reconhecimento para o uso do nome social na Federal de Pernambuco: “eu me senti na responsabilidade de chamar atenção na mídia para que houvesse uma pressão popular para que a UFPE reconhecesse a importância desse passo.  Hoje o nome social foi regulamentado enquanto portaria e fico feliz que eu tenha sido útil para o movimento e que outras meninas agora possam também usufruir.”

No embate ainda da própria aceitação do movimento transfeminista dentro do feminismo tradicional, Maria Clara contou ainda como o seu despertar sobre ser trans andou de mãos dadas com a sua construção sobre ser uma mulher negra: “o fato de eu estar militando, falando abertamente da minha história acabou ainda proporcionando momentos incríveis na minha vida como a própria gravação do Kbela, que foi um despertar muito grande sobre a minha consciência racial. Eu venho de uma família adotada, então todas as minhas primas tinham cabelo liso….quando criança, além de eu verbalizar que eu queria ser uma garota, eu sempre falava que queria ter o cabelo liso das minhas primas, porque eu vivia num meio em que esses cabelos eram super valorizados e eu me lembro de muito cedo, quando eu ia no mercado para minha mãe, sempre pedir o Xampu mais caro, porque eu pensava que o mais caro iria fazer do meu cabelo tão liso quanto o delas. Perceber que isso tinha tudo a ver com outros fatos como por exemplo, quando já mais velha, fugia do sol para ficar mais clara, como também alisar o meu cabelo e a me submeter a todo esse processo de embranquecimento, foi muito marcante na minha vida”.

Feliz com a escolha pelo curso de pedagogia, Maria Clara Araújo agora pensa no futuro. Quer revolucionar a educação do país com a sua presença e militância, empoderando, conscientizando e inspirando milhares de outras mulheres de todo o Brasil para que como ela, sejam um símbolo de força e grite aos quatro cantos cheias de orgulho: A revolução será travesti!

+ Leia na íntegra o Manifesto escrito pela Maria Clara clicando > aqui

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