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TOQUE!

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“e se Exú é seu amigo, é meu também, e esta casa não faz mal a ninguém” [ponto de Exú]

Imagens e vídeos criados com o iPhone SE
Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos Tupis
Sou Tupinambá. Tenho os erês, caboclo Boiadeiro
Mãos de cura, morubixabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curare, flechas e altares
A velocidade da luz
O escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José,
Todos os pajés em minha companhia
[Maria Bethânia in Carta de Amor]

 

Crepúsculo. Bairro de Mangabeira, João Pessoa. Procuramos o Ile Asé Odé Ibualama de Mãe Novinha – Edvania Ferreira Martins Santos – Dofona de Oxóssi no Candomblé Ketu. Na passagem lateral à entrada da casa, diversas imagens dos Orixás nos recebem. Nos fundos do terreno, uma mesa com esculturas em gesso de pomba-giras, jarros de barro e flores formam o altar. Uma imagem em especial nos chama atenção: um homem careca, desfalecido e abraçado à uma garrafa de cachaça. Ele usa um terno azul celeste, camisa amarela mal cobrindo sua barriga proeminente e uma gravata vermelha desproporcionalmente curta que mantém, a despeito da situação, seu colarinho impecável. Sua cabeça é de um Buda com as bochechas coradas. Seu rosto possui feição ambígua entre a serenidade e o deboche. É Mestre Zé Bebinho, uma das entidades que Mãe Novinha recebe e a quem atribui a filiação e a proteção absoluta da casa.

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Imagem do Mestre Zé Bebinho

Mas a festa, o toque de jurema é para Mestra Ritinha Genézia. Esta mestra foi prostituta da zona portuária de Recife. Conta sua história que aos quinze anos foi assassinada pelo amante e seu espírito trabalha principalmente nos casos que envolvem romances, insídias e amparos emocionais. A mesa para ela está coberta por uma toalha vermelha com brocados dourados. Sobre a mesa pousa um bolo torre de três camadas, de pasta americana branca com fitas vermelhas e douradas; além de inúmeras garrafas de Martini rosé, sua bebida preferida. Ao lado da mesa, posicionam-se o microfone, o atabaque e outros instrumentos.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Mestra Ritinha Genézia em Mãe Novinha

O dirigente do toque de jurema é o Pai Léo de Ayrá que iniciou Mãe Novinha no Candomblé. Ao microfone, ele abre a gira com os pontos de Exú. A gira começa com os convidados formando a roda com os homens separados das mulheres. Os trajes dos homens são túnicas similares ao vestuário africano e a das mulheres são vestidos e saias rodadas coloridas. Ao toque do atabaque, as cores sucedem-se vertiginosamente em sentido anti-horário.  Seguem-se pontos da jurema até a chegada da Mestra Ritinha incorporada em Mãe Novinha, pelas mãos de Pai Léo. Ao som do refrão Ritinha fogosa, traga o meu amor, ela entra triunfante na roda, balançando o quadril, exibindo o decote dourado e fumando uma cigarrilha na piteira longa. Libidinosa, ela saúda o ogan e oferecendo martini aos seus convidados, faz descer as outras entidades. Como em um efeito dominó, eles vão chegando: Mestra Paulina, Zé do Cangaço, Cigana Esmeralda, e outros tantos boiadeiros e mestres que dividem o pequeno espaço com seus cachimbos, cervejas, leques e bailados. Entre eles, vão se cumprimentando, dançando e festejando. Aos poucos, vão distribuindo conselhos a nós, até então, meros espectadores.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Mestre Zé do Cangaço  e  Mestre Chapéu Amarelo

A experiência do êxtase

por Suzy Okamoto

Na roda, danço ao som do tambor com um copo de martini em minha mão. Chega Zé do Cangaço, me saúda e diz coisas que só eu sei (como saberia ele a respeitos das minhas questões?). Reflito sobre suas recomendações, agradeço seu axé e me divirto permanecendo em movimento. Chega Netinho, o filho da Mãe Novinha, que me oferece um copo de Jurema. Aceito, bebo um gole. Levo o copo ao Rafael que ocupado entre fotos e gravações, declina o brinde. Ao mesmo tempo, a Cigana Esmeralda se aproxima. Ela me reconhece da jurema de chão de outra data e da outra casa. Me cumprimenta, dá um abraço envolvendo-me em sua saia de renda. Quando a sua saia cobre a minha cabeça, perco o controle do meu corpo em movimentos frenéticos. Não sei se giro ou se balanço. Sinto Netinho tentando me conter. Ele diz coisas incompreensíveis bem perto do meu ouvido, da qual a única coisa que eu entendo é um imperativo “segura a matéria!“. O que faz meu corpo seguir um ritmo diferente. Os únicos dados de realidade que me lembro foi ter visto a Indra Lumiar – ekedji da Cigana Esmeralda – amarrar um turbante na minha cabeça. O colorido se apaga, tudo fica branco e eu, que não sou mais eu, flutuo na neblina. A percussão, embora reconhecível, adquire uma lentidão indescritível. Não sei quanto tempo isto dura. Em um determinado momento, me vejo próxima ao ogan, agachada sobre um dos meus joelhos, com as mãos de Pai Léo sobre a minha cabeça que dá um tranco para trás. Volto. Volto lúcida, mais lúcida do que na hora que cheguei em Mangabeira.

Como testemunhas, reconhecemos as entidades e a força do culto apenas pela racionalidade ou por uma análise superficial dos seus símbolos. No encalço da Jurema, seguimos os passos buscando associações com imagens, palavras que foram escritas por pesquisadores importantes como Câmara Cascudo e outros. Mas quando elas se apresentam à nós, ainda que sem nome e nem lógica, como a mais pura experiência, sabemos que existe algo mais do que o mistério: Sabemos que esta experiência marca definitivamente a nossa jornada de 30 dias na Arapuca Arte Residência. Aos poucos, as informações vão se engendrando: a realidade concreta e exuberante das falésias, mar e céu de Tambaba, os Tabajaras, as juremas-árvores, as entidades, os cantos, o sincretismo. Não é possível passar incólume por tudo isto que nos afeta. No entanto, não há promessas de identidade cultural ou mesmo poética. São fios (raízes) soltos e desencapados na imensidão histórica e imaginária da Paraíba e do Brasil. Por uma (in)felicidade, somos reconhecidos pelos nossos corpos mestiços, alegóricos do verão dos trópicos e do Carnaval. Herança de um equívoco colonial traduzido com primor só por Macunaíma de Mário de Andrade.  Todavia, existe um horizonte. Na impossibilidade de verter as experiências vividas em palavras próprias, seguimos com o antropólogo Viveiros de Castro somado ao poeta Arthur Rimbaud: O espírito só pode ser universal (natural) se for corpo, ainda que seja sagradamente desordenado.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Praia de Arapuca e Tambaba – Paraíba

 

 


Suzy_Okamoto_perfil_NoBrasilSUZY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.
Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1RAFAEL AVANCINI
Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .
Jurema Sagrada
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