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Qual o futuro do vídeo e como criar novas formas de contar uma história em movimento?

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Para inaugurar esse novo especial convidamos você a conhecer o trabalho de quem está revolucionando a forma com que pensamos, vemos e concebemos a ideia de fazer video. Conheça o projeto South Experiment.

por Diane Lima
Capa: Empowering Tech do Manuel Nogueira

 

Quando começamos o NoBrasil há quase 7 meses atrás, pensamos de cara, tal como uma necessidade, que nossas séries deveriam ter também, para além da sua produção textual, sua versão em vídeo. De la pra cá, confesso que até que tentamos alguns registros mas, percebemos que o que nos instigava não era apenas criar mais uma imagem e sim, pensar a própria forma de fazê-la. Em tempos onde a máxima “uma idéia na cabeça e uma câmera nas mãos” do saudoso Glauber Rocha se torna uma verdade absoluta, a geração dos 18 se comunica e substitui com imagens-sentimento instantâneas o que antes era retórica, e uma série de artistas se jogam no experimentar do repensar a própria simbiose de linguagens em busca de um resultado que expanda a experiência visual, não podíamos deixar de tentar entender e pesquisar qual o futuro que a imagem em movimento vai nos levar, descobrindo ainda quem são esses criadores, empreendedores e pensadores que irão revolucionar o nosso modo de ver, sentir, interagir e concebê-las. Também, foi o desafio que lançamos para nós mesmos em busca de criar algo em um futuro breve que extrapole o formato que já conhecemos e imprima o DNA inventivo e provocador que como NoBrasil, acreditamos ser reflexo desse nosso contemporâneo.

E para essa estreia, trouxemos um projeto que simboliza bem essas alternativas por conseguir refletir conceitualmente e de forma prática uma proposta comercial: o South Experiment. Além de conversamos com um dos diretores do projeto, o Pedro Burneiko, deixamos ainda, uma entrevista feita pelo pesquisador Thiago Carrapatoso que através dos estudos sobre a Arte do Cibridismo compartilhada na plataforma Cultura Digital do Ministério da Cultura, entrevistou a artista-pesquisadora Giselle Beiguelman que nos traz nos destaques que mostramos aqui, uma base reflexiva potente para pensarmos como “essa ubiquidade da tecnologia e o barateamento de custos transformaram o fazer artístico e a produção digital.”

“A única diferença é que na época do Glauber, para você ter uma câmera na mão, você precisava ser um cineasta. E hoje não. É a mesma coisa? Tem saberes específicos? As mesmas câmeras em mãos diferentes – ou em olhos diferentes – conduzem e produzem coisas iguais. Agora, hoje, você tem a possibilidade de que muito mais olhares entrem nesta constelação.” Giselle Beiguelman

Para criar esses videos-retratos o diretor Manuel Nogueira trabalhou com pessoas de diversas etnias. Ao assistir seus próprios vídeos usando sensores de ondas cerebrais, os sinais foram captados criando a partir das emoções provocadas, efeitos visuais imprevisíveis.

 

Dos criativos que se debruçaram nessas novas formas de produzir através do South Experiment, nome do projeto que concebeu as aberturas do TED Global, tivemos a oportunidade de conversar com o Pedro Burneiko que junto com Thiago Zanato (que esperamos ter o depoimento para a próxima matéria da série) foi o diretor responsável pela concepção geral da ideia que reuniu, através da produtora Black Magic, ainda outros diretores, artistas e gente da tecnologia para propor experimentações criativas de modo a celebrar a cultura da América do Sul, tema central do TED: “eu estava trabalhando na Flag quando chegou o pedido para criar as aberturas das palestras. Foi então que percebemos que era a chance de fazer um projeto legal já que a única coisa que eles pediram é que obviamente houvesse o recorte sobre a temática e tivesse uma pluralidade de criadores… que não fosse feito por uma pessoa só”.

Tomando como ponto de partida a própria mistura de linguagens e técnicas como um traço intrínseco a condição sobre a diversidade de sul-americanos, South Experiment buscou criar novas formas de contar uma história em que o processo se fez protagonista ao destravar a própria forma de narrar e traduzir para além das fronteiras de um discurso linear e tradicional: “um tempo atrás a gente tinha um problema grande de acesso a tecnologia e com o avanço dela hoje, a gente já tem um conteúdo legal sendo feito por exemplo com a câmera do Iphone, da mesma forma como tem um monte de gente que faz vídeo com código de programação… pensando nisso tudo, tivemos como um dos resultados que é o do video Game of Life em que a gente se baseou em um experimento de um cientista que desenvolveu um cálculo para decifrar a sociedade em alguns comportamentos que ele programou e transformou em pixel… o video então reproduz exatamente, como é a vida para ele dessa sociedade atual, convertendo o que era banco de dados em imagens. Já o Digital Reboot,  fizemos música com objetos: criamos uma floresta com coisas da 25 de março que, acoplados aos instrumentos, liberava áudio e luz a medida que os músicos iam tocando e acionando os pads de uma bateria eletrônica.”

 

Criado a partir do Game of Life foi desenvolvido através do WebGL e Three.js, usando o OpenStreetMap APL.

Carrapatoso:
E como isso difere das mídias tradicionais das quais já estamos acostumados, como televisão e rádio?

Beiguelman:
Desde que a comunicação de massa existe, você pode falar de estéticas comunicacionais. E falar em estéticas industriais ou industrializadas. O cinema é um ótimo exemplo disso, e é sempre o exemplo que eu uso, pois dá para ser cultura de massa, entretenimento e arte ao mesmo tempo. Se não Peter Greenaway não existiria. E não há mal nenhum que seja, desde que lide com todas essas variáveis ao mesmo tempo.

Qual é a grande diferença? A televisão já foi um grande marco no processo da criação artística, porque ela permitiu que pela primeira vez você deslinkasse a experiência da recepção com a experiência do espaço. O cinema obriga essa confluência. Eu vou ver um filme, eu vou me concentrar em um espaço X, em uma hora Y. A televisão foi o primeiro momento em que você teve, no plano das imagens – o rádio já fazia -, a possibilidade de consumir ao mesmo tempo algo independente do espaço de localização. A internet esmigalhou com essas questões de ponta a ponta, porque, pela primeira vez, você pode consumir e produzir para além – e essa é outra questão, a internet permite que você produza para além da confluência do tempo e do espaço.


No contraponto de uma cena nacional a produzir de forma independente esse esgarçamento da imagem principalmente no campo da arte e do cinema expandido que tenciona a tríade tecnologia X imagem X som, existe a produção de um mercado publicitário que, mantendo as mesmas fórmulas de captura ao prestar o seu des-serviço quanto ao nulo de experiência e relevância de conteúdo que oferece, insiste em não enxergar a fadiga que a sua própria constante repetição criou: “é muito difícil ter um pedido de algo assim… acho que no Brasil isso ainda está começando aos poucos mas ainda é muito tradicional, o resultado final feito, por exemplo, em agências… a maioria dos trabalhos é feito em live action ou com pós, 3D, 2D e emotion graphics… na verdade, todo mundo coloca um asterisco, acha legal mas fala ‘se sobrar grana a gente faz’, mas são poucas as marcas que tentam fazer algo diferente, marcas justamente que são conhecidas por inovar e por liderar essas práticas no mercado… engraçado que todo mundo admira, mas, na hora de fazer, não faz e tem um lado oposto disso que é o fato da publicidade tradicional estar hiper saturada e os caras não terem mais pra onde correr e ainda assim, não implantarem uma mudança… a gente está num momento de transição muito difícil, todo mundo sabe que as coisas tem que mudar porque já mudou só que também não querem dar o braço a torcer… então é um momento difícil. Tenho um filho que com poucos meses  já estava com o ipad na mão, sabendo o funcionamento do youtube e isso tudo influencia pelo o que a gente entende o que é site hoje, video, interação com o celular…. é muito rico, tem muita coisa para acontecer ainda, por isso tenho um grande desafio que é poder trabalhar um dia com projetos que as pessoas usem de verdade. Tenho um grupo de 4 amigos, um de tecnologia, um redator e um de planejamento que a gente se une para criar projetos que ajudem a sociedade de algum jeito, a nossa premissa é que a pessoas possam usar de verdade que é o grande problema da publicidade: a gente apenas cria motivo para as pessoas usarem e sentirem desejo por aquilo enquanto deveria ser o contrário”, comenta Burneiko.


Beiguelman:
Como diretora artística do Prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia, (…) me surpreendi muito com um perfil muito claro da geração mais nova em contraponto à geração dos artistas da minha idade ou mais. Era uma geração que já era letrada digitalmente, já operava o seu próprio processo de produção, não tinha um contratado ou uma equipe para fazer. E também nascida em uma conjuntura muito particular, que era a já existência de cursos devotados a isso, e no plano macro-político, já havia uma discussão que levava em conta questões como software livre, banda larga… ou seja, a cultura digital como uma questão política e ligada ao Ministério da Cultura, e não da Ciência e Tecnologia e nem da Energia.

Esses ingredientes todos poderiam, de certa forma, explicar, eu acredito, essa emergência dessa geração tão ligada ao software livre, à reciclagem, ao remix, com todas as suas variantes. (…) Essa geração que eu tenho chamado de tecnofágica. Ela sai devorando a tecnologia, reciclando, reprocessando e tem uma estética que eu acho muito particular, que vai aparecer no Metareciclagem, Gambiologia, vai aparecer no Jarbas Jácome, vai aparecer em um Fernando Rabelo, no trabalho com Arduino fazendo computador funcionar com borracha, tirar teclado e fazer funcionar como bombril – e é incrível porque funciona. Tem toda essa produção, mas eu sinto que é uma geração muito carente de referências. Eu costumo comparar como uma geração Wikipedia. Se você for na Wikipedia e pedir o verbete sobre o Montaigne, que é um dos filósofos mais importantes da história, vem um “negócinho deste tamanho. (…) É um conhecimento sob demanda. Até toda esta velocidade em que a gente vive, essa capacidade de atenção distribuída também tem essa falta de atenção concentrada (…) tem me interessado muito em pensar por onde essas tradições e rupturas circulam, já que não é uma tradição cultural estudada ou decidida por esses atores.


Se a ruptura está dentre outros paradigmas, no do repensar o próprio modo de fazer que inicia-se na etapa de concepção dentro do processo de criação e que vai exigir um deslocamento no nosso amalgamado entendimento sobre como construir uma narrativa visual através das milhares de interlocuções e pontes que um esmero maior no pensar essa traduções imagéticas pode proporcionar, quais as ferramentas inspiracionais ou qual a fonte onde bebem os profissionais que estão reconstruindo a narrativa, o conteúdo ou a estética da produção de uma imagem em movimento? Processo criativo como tema do nosso próximo capítulo.

Misturar música, dança e design com tecnologia trazendo o tradicional e o contemporâneo em ritmos como Maracatú, a dança de rua e a dança contemporânea foi o desafio de Lateral Action.
Em Digital Rebbot a inspiração para representar a cultura brasileira ficou por conta dos objetos-cacarecos encontrados numa famosa rua de compras de São Paulo: a 25 de março. A interação da banda Aldo  ao tocar os instrumentos gerou além de música, resultados visuais.

 

Referências de Leiturahttp://culturadigital.br/artedocibridismo/entrevistas/giselle-beiguelman/

Conheça + sobre a Black Magic e a holding Flag, uma das mais criativas companhias brasileiras : http://www.itsblackmagic.com

Agradecimento especial: Thiago Carrapatoso

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