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Por debaixo da cordinha

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Pedro Marighella aprendeu com “cumpade Washington” que ensinou pra gente que toda tentativa de enquadrá-lo é inútil.

Essa matéria não era para falar sobre o Pedro (isoladamente) e essa entrevista não era para ser publicada. Primeiro porque a gente tinha imaginado que as respostas iriam tomar um outro rumo mas quando recebemos a bomba, nos demos conta da mensagem subliminar ou da piada interna que sutilmente nos convidava a repensar: Pedro Marighella não poderia ser encaixado em nenhum lugar e toda tentativa de apreensão e enquadramento da sua forma de fazer as coisas,  seria esquivada por debaixo da cordinha como nos ensinou com sabedoria nosso querido “Cumpade” Washington e com o mesmo humor que Pedro certamente deve olhar tudo o que vê.

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Isso porque talvez ele faça jus como contemporâneo e por assim dizer, descompassado desse tempo por natureza, ao que ele diz esperar como artista de si e dos outros referindo-se a pertinência e por assim ser tão pertencente, sai navegando entre as linguagens e suportes, reinventando qualquer experiência cotidiana em um espaço de combustão onde se conectam referências, os tempos e as gerações.

Sobre ela não podíamos também deixar de perguntar – por mais tititi que isso possa parecer –  o que significa ser neto de Carlos Marighella, um dos mais importantes nomes da história do Brasil. Se somos as histórias que temos para contar, não seria espanto algum nosso interesse pelo o que constitui as referências de um dos mais fascinantes artistas da sua geração, sobretudo quando isso quer dizer que elas dizem respeito a história viva do nosso país e o que faz basicamente ser hoje, eu e você. Descendo alguns degraus abaixo da superfície, Pedro é um desses que para nossa sorte, não se contenta com a simplista tarefa de catar os símbolos/signos/conceitos e representá-los de forma decrescente, num exercício óbvio, quando se trata de mexer com referências carregadas de preconceitos ou de todo o estereótipo que cerca quase tudo que envolva a cidade de Salvador. Numa alquimia lúdica e cheia de humor, ele é capaz de esvaziar quase todo o sentido das coisas e preencher novamente, como quando com uma câmera infiltrada dentro de uma lata de cerveja, se embrenhou na multidão do carnaval para criar Mata, Parlamento ou seus projetos de música Som Peba e Omã, metade guerrilha política e metade zombaria, como quem tira onda com sua cara e diz em outras palavras você não está entendendo nada.

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E foi esse um dos motivos que dissemos no início que essa matéria não seria sobre ele. A nossa pretensão inicial era incluí-lo num especial de artistas de Salvador que vem discutindo o pagode como espaço político e de grande relevância sócio-cultural numa matéria que vai ser publicada nos próximos dias de nome “Eles provam a você que você não sabe nada sobre o pagode baiano” mas como a gente também vai até o chão, decidimos que podemos ir a fundo mais pra frente e ele volta numa parte II, parasitada junto com os outros. Também para explicar, o que você, depois da entrevista, vai ficar curioso para saber, quando ele profetiza dizendo “Documentários sendo feitos pelo Facebook”.

 NoBr:  Como se constrói o universo conceitual do seu trabalho nos diferentes suportes em que utiliza? Qual o ponto que une Pedro artes, Pedro música ou Pedro a qualquer coisa que venha a fazer?

 Não sei (risos)… Em 2013 (acho) participei de um bate-papo no Museu de Arte Moderna da Bahia (na programação da mostra “Sala do diretor”) com o Artur Scovino e falamos sobre a importância de experiências em espaços culturais ligados as artes visuais e formação… Bem, em meu caso esse papel (da formação) foi desempenhado por métodos menos convencionais (o que acredito, paradoxalmente, seja o mais comum). Por exemplo, sinto que minha formação tem menos de museu e mais de publicações impressas e experiências cotidianas. Mesmo com uma identificação prematura de minha vocação ao desenho, minha primeira experiência consciente em um espaço das artes plásticas foi só na adolescência, no MAM da Bahia mesmo. Logo, acredito que as instituições tiveram papel meramente legitimador em minha formação básica.

Tomando como princípio que em Salvador, cidade onde vivi praticamente toda minha vida, o circuito tradicional de artes visuais era a até pouco tempo quase inexistente (digo, no sentido de abrigar a produção satisfatoriamente), nos resta retirar do tradicional a responsabilidade pela construção do repertório visual, do discurso, do pensamento plástico e aplicar a outros fatores. Gosto de pensar nas capas de disco da música popular, nas indumentárias, performances e decoração de carnaval como circuitos de artes visuais. E gosto de pensar nessa minha fala como uma provocação também. Nesse sentido, me acho bem apto à multidisciplinariedade (risos) e meu “universo conceitual” deve vir muito daí.

Tudo isso pra dizer que não dou muita atenção pro suporte. A história que contei acima é pra ilustrar como me dei conta disso.

Por esses dias li na Revista Recibo (http://issuu.com/recibo/docs/recibo67__online) um texto sobre o Seth Siegelaub e o fluxo que levou artistas dos anos 60 e 70 a produzirem peças conceituais em forma de publicações impressas… Acho que atualmente é mais necessário/interessante pensar no circuito onde você emprega o conteúdo do que o objeto/mídia da obra. É um fundamento que vem lá da contra-cultura do século XX… ou do carnaval da Bahia (risos)?

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NoBr: Os últimos dois anos vem sendo para Salvador de total renovação cultural. Música, gueto, estilo, expressões libertárias, misturas e novas junções. Como você vê tudo isso? Onde você acha que todo esse “movimento” vai dar e como isso influencia diretamente no seu trabalho?

Não vejo uma renovação cultural total… Ou algo fora do normal numa trajetória de mudança. Discordo (risos). Sempre aconteceu isso só que com repertórios diferentes. Acho que estamos dentro do comum em um processo histórico global. Agora, posso dizer que tenho identificação com o contexto atual em diversos níveis e isso me deixa feliz e me excita. Gosto de produzir pra fazer parte da atualidade. Sempre gostei de ficção científica e sempre achei que o futuro seria não-clássico, tipo, não-homogêneo… tipo, surpreendente. Acho que estamos nisso e indo adiante.

NoBr: A resposta acima define o posicionamento ideológico enquanto pessoa e artista?

Não sei (risos). Talvez sim. Fui condicionado (coisa da minha formação, só pode) a achar que produção artística tá associada a uma problematização de tema (as vezes quero fazer de conta que não acredito mais nisso, mas não). Superada uma questão eu a abandono e sigo adiante. O desencadeamento de fatores históricos, das coisas que me cercam na narrativa do tempo… a expectativa de que do Brasil, da Bahia, de todo tipo de povo não identificado tradicionalmente como protagonista possa surgir uma civilização com novas propostas pra existência. Isso me fascina! Fiz uma montagem que é uma foto de carnaval com o texto “PARLAMENTO”: é uma provocação sobre a possibilidade do carnaval como ferramenta política. Exemplificando. Minha atenção tá nessas coisas.

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NoBr: Não sei até que ponto é confortável ou inteligente a pergunta mas, o que significa vir de uma família que deixou um legado político e ideológico tão forte para o Brasil?  

Ô! Significa muito, né? Eu tava falando dessas formações transversais (que eu acho as mais incríveis)… Pô, meu avô era um parlamentar de 1945 que discutia (os ainda pouco discutidos) direito ao divórcio, liberdade de culto (além das bandeiras tradicionais da esquerda)… noutro contexto era o cara do “pegar em armas” na ALN… e ainda se fantasiava de “mula manca” no carnaval.

http://jornalggn.com.br/blog/lucianohortencio/que-me-importa-que-a-mula-manque-eu-quero-e-rosetar

http://youtu.be/7Mw386dVhcY?t=27m55s

http://www.pedromarighella.com.br/2013/06/16/277/

http://www.pedromarighella.com.br/2013/04/02/233/

Pense aí (risos).

Pensando nele, gosto de pensar nessa utopia de Darcy Ribeiro

(http://www.youtube.com/watch?v=JMlYQzZf3DQ)

Diversidade, democracia, acesso, direitos… são ideias bem difundidas hoje e amplamente divulgadas (com mais ou menos aderência), mas nem sempre foi assim. Não veio com o mundo. São ideias que têm que ser pensadas, aprimoradas e aplicadas. Então, se viver numa sociedade diversificada é um direito aplicado há… não faz tanto tempo (historicamente falando), penso que esse personagem que é meu avô (e outros) se inventou e também foi inventado na tentativa de nos encontrarmos nesse fluxo/prática/utopia. Um personagem de natureza improvável com desafios muito definidos.

NoBr: Onde você imagina que seu trabalho pode te levar? Você pensa nisso, isso importa? Se não, o que importa? Qual a relação dele com o público? O que você espera com ele? Nada ou alguma coisa?

Você contaria a história do capitalismo no século XX pela obra de Michael Jackson? Eu contaria (risos). Espero dos artistas em geral e de mim mesmo alguma pertinência.

NoBr: Você quer falar um pouco sobre os outros projetos? Um pouco da participação na Nova Mão Afro no Museu Afro Brasil ou da Sala do Diretor? E sobre a Bienal, pode falar um pouco do que está desenvolvendo? O que vem pela frente?

 É, falando em pertinência, esses projetos que você citou têm muito dessa preocupação.

Produzi esse painel grande no Museu Afro Brasil, o MATA (que na verdade é uma série com muitas peças), que é uma composição baseada em registros coletados de carnaval e de outras festas super populares e super povoadas. Fala sobre paranoias sociais e se diluir na massa humana, brincando com a definição de “mato”, “mata”. Mato é um tipo de vegetação ou uma definição social? Transporto a iconografia da multidão e da festa familiar pro soteropolitano, pro brasileiro e vou! (http://www.pedromarighella.com.br/category/mata/)

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Publicação MATA from Pedro Marighella on Vimeo.

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“Nem é pagode, nem é morte” (http://www.pedromarighella.com.br/category/nepnem/) é uma série que trabalha até com uma reflexão mais íntima, mas mando esse “pagode” meio como isca… pra deslocar o interesse de grupos específicos. Vou fazer o quê se as vezes aprisionam as palavras em lugares e contextos específicos. As vezes sou abusado e dá nisso (risos).

Tô trabalhando nesse momento num projeto pra Bienal da Bahia, o ENSAIO/PAGODÃO, um espaço de trabalho que vai decorrer numa publicação sobre a cena musical do pagodão (gênero musical hiper popular na Bahia). O mote é inserir o tema, que apesar de extremamente corriqueiro, é pouco explorado pelo meio de artes visuais. Quase uma provocação, é uma desculpa pra uma imersão que me faltava, uma tentativa de familiarização por significados que me inquietam e deslumbram. Em detrimento da saúde econômica e popularidade do gênero, além do preconceito por parte dos circuitos tradicionais, sinto as discussões sobre o tema reduzidas. Estou fazendo minha parte como cidadão, artista e curioso pra ver se a coisa cresce – no maior respeito (risos).

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Bem, acho que além da Bienal o ENSAIO ainda vai me tomar algum tempo e atenção. Tem o Som Peba e o OMÃ que são projetos com música que gosto muito. Quero produzir mais e por aí mesmo. Sem muita surpresa.

Na playlist do NoBrasil o Som Peba + o projeto OMÃ, que Pedro desenvolve junto com Tiago Félix.

NoBr: NoBrasi, significa também não Brasil, sobre a possibilidade de falarmos e mostrarmos um outro Brasil. O Que seria um NãoBrasil para você? Se é que… O Brasil te interessa ou a Bahia te basta?

“Não Brasil”? No sentido de outro…? Não existe. Acho que vocês estão enganados (risos)

O Brasil é o berço do improvável (profetizando).

NoBr: Fale qualquer coisa, pensamento, reclamação, reivindicação,  apelo que você julgue importante e que não foi contemplado.

“Documentários sendo feitos pelo Facebook”.

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