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Pescando uma nova Maré

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Remando contra as águas poluídas da Baía de Guanabara, pescadores da Maré sobrevivem da pesca, lutando para a história das colônias não desaparecer. Assim encerramos o último capítulo da editoria Nas Águas da Maré.

Imagens e videos criados com o iPhone SE

 

O mar, que amedronta muitos por sua grandiosidade, é a melhor forma que a natureza encontrou para se aproximar dos moradores da Praia de Ramos, localizada na ‘ponta’ do Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio.

Pescadores vivem no dia a dia, a recriação de uma lembrança nem tão distante assim, mas que se transforma. Seja nas margens da água, do mangue ou da praia: a pesca artesanal é um estilo de vida.

O trabalho do pescador viajante começa ainda de madrugada. Trouxinhas de roupas são separadas na bolsa, assim como os equipamentos: vara de pesca, carretel, iscas para o peixe, rede resistente e comida. Muitos deles circulam por toda a Baía em busca do melhores peixes e frutos do mar, para depois vender e consumir.

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Um  dos pescadores mais experientes do lugar é Giovan Carlos. Aprendeu a pescar aos 15 anos, com seu pai experiente em pegar camarões. O que era lazer, se tornou rapidamente uma forma de sustento da família. Tem 45 anos, mas faz mais de 30 anos que ele pesca nas águas da Maré. Ainda solteiro, relembra os tempos de palafitas, quando a prática da pesca era mais difícil de ser feita. Os barcos à remo eram pequenos, com pouca tecnologia e sem motor. Hoje, apesar da evolução dos equipamentos, o preço não chega na realidade dos pescadores.

A prática da pesca artesanal é o que Giovan admite fazer de melhor.

Seu primo, Rinaldo Valentim de Melo, aprendiz do trabalho há 4 meses, saiu de Caxias e para se juntar ao grupo. O crescimento da colônia, tem incentivo da família, na maioria das vezes. Assim como os outros, Rinaldo fica no mar durante uma semana, às vezes duas, com mais 12 pessoas em um só barco. Resiste pela necessidade. Pelo pela união e história do lugar. Sua maior surpresa até hoje foi quando um barco de grande porte trouxe cerca de 10 toneladas de peixe. Há diferentes tipos e são vendidos nas feiras durante a semana, nas favelas da Maré do entorno. Frescos. Limpos.

Não só os moradores próximos da Praia de Ramos/Piscinão de Ramos vivem esse estilo de vida, temos moradores da Baixa do Sapateiro, entre outros. As ruas e becos da Maré escondem histórias de pessoas que vivem da natureza e usam a criatividade para continuar trabalhando com o que gostam dentro de seu território.

As águas da Praia de Ramos e do Canal do Cunha se confundem com a da Baía de Guanabara, que sofre com poluição desde o aterramento da Ilha do Fundão nos anos 50, espaço que hoje mantém a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Maré, que já conviveu com a maior colônia de pesca do Rio de Janeiro nos anos 70, passou pela industrialização do território e a precariedade no saneamento básico, vive o aumento da poluição.

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A estimativa é que as águas da Baía recebem 10 mil toneladas de esgoto por segundo. Para amenizar a situação, 10 embarcações conhecidas como Eco barcos, recolhem 45 toneladas de resíduos por mês. O que não é suficiente, pois o conjunto de favelas tem um baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes da urbanização do território, o número de famílias sustentadas pela pesca na cidade chegava a 23 mil, como acontecia nos tempos de Palafitas. O transporte de objetos e pessoas eram os barcos. O trabalho, assim como a pesca, era manual. A vida, simples. Mas sempre superando obstáculos sociais. Hoje, poucos arriscam a viver e a conviver com o mar.

Giovan desafaba: os interesses privados, o petróleo e construções na cidade afetam diretamente sua realidade. Devido aos problemas, o futuro dessas águas é incerto. Mas pretende continuar vivendo dessa forma, reivindicando em reuniões com autoridades locais para buscar soluções e incentivando os jovens ao trabalho manual no mar. Assim como seu pai lhe ensinou.

A navegação nas águas da Maré continua. É a luta diária pela preservação da história e da memória do lugar.


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.
Nas Águas da Maré

 

 

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