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“Os professores deveriam ser os profissionais mais bem remuneradas desse país.” O que aprendemos com o #deixaocabelodameninanomundo nas escolas?

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É com muita felicidade que compartilhamos um resumo de tudo o que aconteceu e as nossas principais experiências!

por Diane Lima

 

Foi simplesmente uma experiência para levar para a vida!

Desse nosso primeiro contato com a sala de aula achamos que nem iríamos conseguir fazer uma reflexão sobre tudo o que aconteceu de forma tão rápida tamanha foi a nossa perplexidade sobre o real potencial que existe nesse ambiente que apesar de discreto, pode ser considerado um dos poucos espaços de transformação que alguém pode conhecer. Mas antes de começar a dizer qualquer coisa, nós queríamos falar o seguinte: parabéns a todos os professores e educadores desse país! De todas as coisas que já fizemos, talvez não tenha existido atividade mais complexa e que exigiu tanta entrega do que assumir a postura de levar conhecimento para jovens e crianças. Sem dúvida alguma, é urgente que nossos professores sejam bem remunerados, luta que a gente acompanha e preocupação que veio ainda mais latente, quando terminamos as atividades e tivemos a sensação que um caminhão havia passado por cima de nós! Um cansaço que não era somente físico mas emocional. Uma demanda que te faz ficar em contato com a realidade da casa da família brasileira para além do comercial de margarina. Um retrato do que poderá vir a ser o amanhã, para o bem e para o não tão bom assim.

Por isso, com esses pequenos passos que demos com o #deixaocabelodameninanomundo nas escolas, que compartilhamos agora com muita felicidade os nossos primeiros aprendizados. Que a gente possa crescer cada vez e cada dia mais juntos! Acompanhe!

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1 – A profissão de professor deveria ser uma das mais bem remuneradas nesse país

Já explicamos o porque aí em cima mas quem achar que não, convidamos para viver com a gente um dia em sala de aula, assim você terá certeza de quão injusta é a situação dos professores! Atividade que deveria ter todo o suporte e infra-estrutura por ser a base de uma nação.

2- O que podemos aprender com a nossa história? Ativando a memória do corpo utilizando da empatia

Chegamos em Mundo Novo, interior da Bahia, onde a primeira atividade do #deixaocabelodameninanomundo aconteceu, no dia 04 de julho e claro, que nem tudo ocorreu as mil maravilhas. Muita coisa pra fazer, pouco tempo, carro que quebra, mudança de planos. Somamos o quanto foi difícil fazer aquilo tudo acontecer e mais minha história de vida, para mostrar para uma turma de mais de 70 jovens na faixa etária de 12 a 14 anos, que tudo era possível. Se víamos do mesmo lugar, falávamos do mesmo lugar! E isso motivava e possibilitava fazer com que eles alimentassem uma coisa principal: a capacidade de sonhar. Precisamos lembrar que para muitas crianças e jovens que vivem por exemplo na zona rural, como era o caso de muitos, sair para fora do país, falar outra língua, ter algum tipo de reconhecimento profissional sobretudo pela mídia, significa muito! O que é considerado sucesso é quase como uma utopia, e ali concluímos também que era o momento de desconstruir esse próprio modelo de felicidade: padeiro, artesão, mecânico, médico, designer, artista, nada sobre títulos importaria. Apenas que pudesse haver a possibilidade da escolha e que o exercício da profissão viesse carregada de amor. Empreender na sala de aula, passou a ser uma opção !

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3 – A capacidade de criar novos mundos está completamente ligada a nossa capacidade de sonhar

A nossa presença tinha como missão principal exercitar a capacidade de sonhar, de vislumbrar e imaginar novos mundos. A ideia era que conseguíssemos fazer com que a informação fosse recombinada por eles mesmos e sendo a recombinação a base da criatividade, novas possibilidades de existência para o futuro surgissem. Queríamos ajudá-los a ampliar as suas percepeções: quem sou eu no mundo e o que a minha história fala sobre nós? Apesar do pouco tempo, aos poucos cativamos e as poucos conseguimos deixar plantado algumas sementinhas que foram traduzidas através de uma atividade que pediu que cada um escrevesse uma carta contando seus sonhos e sua história de vida. Muitos a princípio hesitaram dizendo não ter sonhos, mas com um tanto de conversa acabaram topando e se abrindo para ao menos imaginar.

Te conto um caso que aconteceu:

1 – um aluno insistiu que não tinha sonhos e em seguida disparou o seguinte: “já sei! O meu sonho é que vocês voltem na escola de novo! Pronto é isso! Já sei!” Dalí em diante foi difícil aguentar a emoção. <3

2 – um outro aluno, bem quietinho lá no fundo da sala, não se movia. Sereno, pouca falava e disse pra gente que também não tinha sonhos. A única coisa que conseguimos com muito diálogo, foi descobrir que ele gostava de tecnologia. E daí, dessas poucas palavras, veio o nosso próximo aprendizado:

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4- A escola para além da escola

Com esse garoto, ficamos pensando como é urgente a necessidade de articulação com projetos sócio-culturais para além dos muros da escola. Naquele momento, a nossa vontade era acionar 3, 4 pessoas que a gente conhece da tecnologia, para que pudessem ao menos iniciar uma conversa, motivo pelo qual na próxima vez co-criaremos atividades com profissionais de áreas diversas para que de alguma maneira, possamos levar essas outras experiências junto com a gente.

5- Cabelos que dão força para que se enxergue com olhos críticos

O cabelo como a porta de entrada. Assim pensamos desde o início como seria o desenrolar da nossa abordagem.  Depois de trazer um momento motivacional ativando a memória do corpo de cada um, o que a minha história teria a ver com o meu cabelo, com os meus sonhos e com o meu futuro? O cabelo no mundo era uma metáfora para discutir “certos assuntos” difíceis pela aproximação que existe com a vida pessoal e que é mais difícil ainda externalizar ou entender. Falar de racismo, bullying, discriminação sexual, preconceito, racismo institucional, intolerância religiosa, machismo, violência contra a mulher, assédio sexual foi possível para nós através desse elemento cabelo que vem carregando de identidade: a aparência e a estética como marco norteador da nossa presença e das nossa mediações com o mundo! Ao fim, falar de todas essas problemáticas, nos levou ainda a seguinte constatação:

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6 – Precisamos aprender a ouvir

No momento que tocamos nas dores que todas essas palavras significavam, houve um reconhecimento quase instantâneo. Os alunos não somente verbalizaram, como tiveram coragem de ir a frente, pegar o microfone, para contar suas experiências, inclusive denunciando outras pessoas que haviam cometido qualquer tipo de “brincadeira que eu não gosto.” Percebemos como era latente a necessidade de falar e de externalizar o mundo que “ninguém entende.” Fiquei pensando: como podemos dar mais atenção, com atendimentos quase customizados, se o próprio modelo educacional nos prende pela quantidade? São vidas e destinos, cada um com as suas singularidades, como abraçar todos apenas com dois braços só?

7 – Afetividade

A partir desse momento então nós já éramos puro afeto mas pensamos: como lhe dar com tantos problemas? Como trazer a família para a realidade e envolvê-la com “as coisas” que só o professor ouvi e ver? Em um dia tivemos muitas revelações: crianças que se sentiam excluídas, crianças que disseram não ter sonhos e crianças que tinham olhos brilhantes. Nosso papel foi nos colocarmos como mediadores entre esses anseios e o mundo, levando conforto, auto-estima e  dizendo para eles que naquele minuto através da #deixaocabelodameninanomundo havia muita gente interessada, em ouvir.

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8 -Porque inovar não é o mais importante

Como levar o aprendizado para a vida real, dando autonomia e segurança para que a turma pudesse através das suas experiências de vida, criar as soluções para seus próprios problemas? Uma das atividades que realizamos falava justamente sobre isso. Reunimos em papéis diversas habilidades e pedimos para que eles escolhessem duas ou três. Feito isso e se reunindo em grupo, o segundo passo era listar todos os problemas que eles enxergavam na sua casa, rua, povoado ou cidade e tentassem através das habilidades em conjunto de cada um do grupo, apresentar uma solução.  Uma forma de exercitar a cidadania, a criatividade, o trabalho colaborativo e dizer para eles que a mudança acontece através das nossas próprias mãos!

Te conto um caso que aconteceu:

1 – perguntamos para a turma se eles tinham ideia do que significava a palavra INOVAÇÃO e um deles lá do fundo respondeu:

“se não é fácil de encontrar e não tem produto para cabelo crespo, inovar seria fazer produto para cabelo crespo, ora!”

Um recado para o povo da Innovation que mais copia do que inova, que explica porque insistimos em dizer que inovar não é o mais importante e que se traduz na fala da Yasmin Thayná quando ela diz que o mais importante mesmo é ouvir.

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9 – Precisamos criar as nossas próprias referências, experiências e materiais

Uma dificuldade sem dúvida foi encontrar brinquedos, livros e filmes que trouxessem um olhar crítico ou criativo que desse conta da nossa diversidade. Na turma do turno da tarde com as criança de 05 anos, contamos com a leitura do livro Tóim, gentilmente cedido pela Tamires Lima, além de realizarmos atividade de colorir usando as próprias ilustrações enviadas pelos artistas para a nossa campanha. Apresentamos a animação A Menina e o Tambor e o video Cabelo Duro – Carolina Afirma que Não!. Esse segundo vídeo que viralizou na internet depois do depoimento da menina Carolina, ainda serviu como um material de discussão importante com os alunos maiores uma vez que trazia um argumento fundamental: a possibilidade do uso da internet para expressar as individualidades, questionar padrões, se conectar com pessoas que pensam parecido e fazer as coisas acontecerem.

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10 – Precisamos pôr a mão na massa!

Traduzimos Yellow Fever

O nosso próximo passo agora é organizar uma central dentro do NoBrasil para que toda a metodologia possa ser usada por outras pessoas. Além disso, trabalhar no próprio desenvolvimento ou na co-criação de materiais didáticos, brinquedos e experiências, coisa que temos a felicidade de dizer que já começamos a fazer! Como tivemos dificuldade de encontrar vídeos que trouxessem um olhar crítico e fossem ao mesmo tempo curtos e atrativos, pedimos a colaboração das maravilhosas Juliana Luna e a Yasmin Thayná, para nos ajudar com a tradução da premiada animação da diretora Ng’endo Mukii, Yellow Fever, filme que foi apresentado recentemente no Brasil no Festival Afreaka. Estamos muito felizes de ter conseguido fazer isso acontecer pois é um filme que traz com um olhar cheio de poesia, uma aula sobre racismo, além de nos dar a possibilidade de trabalhar a capacidade de interpretação através do elementos simbólicos e estéticos ali reunidos.

Deixamos semeada a criação de um coletivo de meninas crespas!

Exatamente! Elas decidiram se unir para apoiar umas as outras e enfrentar juntas seus medos, o preconceito e deixar seus cabelos livres! O Coletivo que ainda não tem nome mas que iremos acompanhar a formação de perto nessa semana, conta com meninas como a Vanessa, que com apenas poucas semanas de “black” pegou o microfone e disparou: “fiz escondido da minha mãe, mas decidi cortar pois não me sentia eu mesma”. Temos um vídeo inteiro do discurso dela que veio para nos encher os olhos de lágrimas e logo mais iremos compartilhar por aqui e por nossas redes sociais com vocês. Não deixe de acompanhar pelo Facebook e Instagram !

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Para finalizar, só nos resta agradecer! Foram muitas as pessoas que nos ajudaram a fazer isso acontecer! E aqui queremos listar todas, principalmente a Nando Cordeiro, a Darlúcia Souza, Edson Souza, Danúsia Maria, Juliana Luna, Yasmin Thayná, Mahal Pita, Tamires Lima e  Taygoara Aguiar! As professoras e coordenadoras Darcilene Assis, Di, Luciana Clementino, Neuma Gomes e Cida! Sem vocês não seria possível!

A vocês dedicamos o nossos aprendizados e a nossa sede de querer fazer muito mais!

#deixaocabelodameninanomundo – Educação e Criatividade Transformam

Até a próxima!

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