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Conheça O Rei dos Desenhos, jovem da periferia do Rio de Janeiro que está criando no mundo virtual um registo real da juventude do Brasil.

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Com apenas 16 anos Victor Costa transformou um simples desenho da sua própria foto do perfil do Facebook em uma febre da internet.

por Diane Lima
Colaboração: Thiago Félix

Lá pelo final de dezembro, depois de uma verdadeira odisséia pelo Facebook em busca de saber quem era o nome por trás dos desenhos que infestaram as fotos dos perfis de jovens na casa dos seus 17 e poucos anos, chegamos no divertido e criativo Victor Costa, o Rei dos Desenhos.

Natural do Rio de Janeiro e com apenas 16 anos, Victor que usa “o famoso Photoscape e o Paint”, contou para o NoBrasil como surgiu a ideia de fazer os desenhos que o fez até ganhar fã clube: “tudo começou vendo tutoriais no famoso youtube! Aí eu vi uma pessoa fazendo o famoso desenho lá , aí eu pensei assim: – pô, já aprendi a fazer o desenho, tenho que mudar isso, botar ele em 3D! E aí fui inovando as coisas, mudando cores, fazendo desenhos de pessoas famosas e ídolos como o MC Nego do Borel, MC Maneirinho e o MC Leandro e as Abusadas…. já ganhei dinheiro fazendo isso e meu trabalho está crescendo cada vez mais ….eu faço tudo computadorizado.”

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Morador de Coelho Neto, estudando o 1° ano do 2° grau e se dizendo “um jovem firme na igreja por seguir bem direitinho a minha comunhão com DEUS”, Victor é um exemplo vivo da criatividade pulsante das periferias e favelas de todo o Brasil que diariamente se revelam na internet (se você entrar no perfil do Victor com certeza vai se divertir com as fotos e os vídeos do Mídia, como ele se auto proclama!). No entanto, para além das cores vivas e o engajamento que conseguiu na internet, o que de fato nos chamou atenção é um outro feito que o Victor vêm conseguindo e que talvez não tenha se dado conta:  despertar ainda que de forma inconsciente, a auto-estima em outros jovens que querem se ver representados com seus estilos, jeitos e trejeitos de uma forma que talvez eles nunca tenham visto enquanto semelhança em desenhos animados na TV ou nas revistas em quadrinhos. Além disso, a brincadeira ainda instigou ou ao menos ajudou para que tantos outros aprendessem as ferramentas e criassem seus próprios desenhos também: “eu já faço os desenhos tem uns 2 anos, sendo que eu criei a página não faz nem 1 ano….tenho computador acho que desde os 8 anos por aí mas, nunca pensei algo para fazer pra mudar minha vida, entendeu? Fiz primeiro da minha foto, aí todo mundo do meu facebook pedindo pedindo ai eu fui fazendo de todos e alguns pedindo pra eu ensinar… eu fui e ensinei e ai ganhei fã clubes e tudo! Devo ter uns 20 fã clubes por aí….quando meus pais passam na rua as pessoas falam assim:  – olha a mãe do Rei dos Desenhos alí, olha o pai do Rei dos Desenhos lá…..”.

Da conversa que tivemos também com o artista Thiago Félix, um apaixonado pela Internet da Periferia | Periferia da Internet e integrante de um grupo do Facebook chamado Favela Cyborg, veio ainda alguns pensamentos que nos ajudaram a entender como a internet tem provocado e fomentado novas expressões e linguagens nessa nossa forma de fazer cultura digital: “Me lembro de ter visto vocês usarem algumas vezes aqui NoBrasil a expressão “responsabilidade simbólica” e acho interessante o quão orgânico é na inocência de produção desses significados simbólicos de representação os desenhos….que não passa por nenhuma dessas provocações formais, digamos assim….um orgânico que é de dentro para dentro…”.

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Trabalhando em uma pizzaria para pagar seus estudos de design, carreira que pretende seguir além do desejo de ser paraquedista, Victor nos contou que parou um tempo de desenhar por ter ficado triste por as pessoas só virem falar com ele para pedir desenho: “não sei se as pessoas amam mas sei que elas se amarram mas fiquei um dia triste porque elas só vinham falar comigo para pedir os desenhos, aí dei um tempo, entende? Gente de todo lugar me manda foto pedindo, mandam nos comentários ou no inbox…Teve um dia que eu postei na minha página assim: – será que tenho fãs?  Aí várias pessoas comentando de Juiz de Fora, São Paulo, várias favelas do Rio de Janeiro, Complexo do Alemão, altas pessoas ….

Me lembro de ter visto vocês usarem algumas vezes aqui NoBrasil a expressão “responsabilidade simbólica” e acho interessante o quão orgânico é na inocência de produção desses significados simbólicos de representação os desenhos….que não passa por nenhuma dessas provocações formais digamos assim….um orgânico que é de dentro para dentro…”.

3Na página do Victor, O Rei dos Desenhos, amigos passaram a colaborar e a fazer também suas próprias ilustrações.

Fruto de um processo criativo dos mais espontâneos, que não segue nenhum tipo de cartilha nem motivação formal, os desenhos são ainda um retrato de uma época em que talvez a juventude de toda uma parcela histórica da população, esteja sendo pela primeira vez largamente representada, afinal de contas, a imagem nesse tempo de agora nos oferece documentos expressivos que há 10 anos atrás eram escassos ou quase inexistentes. Quando a gente pensa o quanto recente são os registros de certas expressões culturais brasileiras, fica a constatação de como o aumento ao acesso a bens tecnológicos como celulares, computadores e tablets estão impactando e modificando na nossa própria forma de ser no que tange a produção dessas subjetividades: “eu acho engraçado porque muita gente escolhe a beleza errada. Tem potencial pra fazer uma coisa legal, mas vai por uma ideia equivocada do que aquilo deve ser. Ele escolheu a beleza certa. Não está tentando “glamourizar” as pessoas, fazê-las parecer “mais bonitas” ou nada disso. Tem um sentimento que eu amo muito e que renova muito a minha fé em um futuro bom pro povo do país que é o fato de que hoje em dia, as pessoas da favela não sonham em ser diferentes do que são. Elas não compram um modelo de felicidade e beleza da classe média, da orla ou do asfalto. Elas não querem ganhar dinheiro pra ser orla. Elas querem ganhar dinheiro pra ser favela e ser feliz. (…) Porque que alguém vai querer ser dessa classe média Nelson Rodrigues, carioca, moral, burguesa se temos a ÁFRICA para nos salvar da França? Esse desenho é isso, não quer ser francês, não quer ser ocidente, não quer ser apolíneo (como muitos querem sem nem saber o que essas coisas significam)….. ele está incutido de um projeto de vida de felicidade que é novo e é do Brasil, sem dúvida.”

 “Tem um sentimento que eu amo muito e que renova muito a minha fé em um futuro bom pro povo do país que é o fato de que hoje em dia, as pessoas da favela não sonham em ser diferentes do que são. Elas não compram um modelo de felicidade e beleza da classe média, da orla ou do asfalto. Elas não querem ganhar dinheiro pra ser orla. Elas querem ganhar dinheiro pra ser favela e ser feliz. (…) Porque que alguém vai querer ser dessa classe média Nelson Rodrigues, carioca, moral, burguesa se temos a ÁFRICA para nos salvar da França? Esse desenho é isso, não quer ser francês, não quer ser ocidente, não quer ser apolíneo (como muitos querem sem nem saber o que essas coisas significam)….. ele está incutido de um projeto de vida de felicidade que é novo e é do Brasil, sem dúvida.”

Para nós, máxima satisfação trocar ideia com o Victor e ter conhecido um pouco mais da sua jornada que entre fotos, likes e comentários está criando um registro inédito do jovem das periferias brasileiras sempre com muito humor e uma espontaneidade que pode muito nos ensinar. Que o Rei dos Desenhos não pare e continue a brincar de computadorizar esse Real chamado Brasil.

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5Nesse passo-a-passo, Victor  e a namorada.
7Além dos desenhos, Victor ainda protagoniza divertidas fotos e vídeos na internet.

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