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O filme “Clausura” e a experiência de criação da diretora Mariana França.

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“O resultado é o que se vê: um primeiro corte sensível de uma obra que não se pode sintetizar. “CLAUSURA” é um meio para enxergar o eu e o outro.”

Por Alessandra Gama

A depressão é um tema bastante sensível, por suas múltiplas faces e intensidades. Abordá-la, ainda é um desafio do nosso tempo, tanto para as pessoas que convivem com outras, diagnosticadas, sobretudo, para as que são diretamente afetadas. O filme “Clausura”, de Mariana França e Gildo Antonio, vencedor do prêmio Primeiro Olhar, põe em relevo as experiências de desterritorialização e reterritorialização afetiva e social, causadas pela depressão na vida de artistas.

Como lidam com a doença? Como ela se relaciona com as suas obras e como realizam o processo criativo em meio às fases de crise?

O tema é inspirado na história de Mariana França, que além de diretora deste curta-metragem, também é atriz, produtora cultural e paciente diagnosticada com depressão desde 2014. O filme é uma busca sobre se autoconhecer após períodos de crises. As suas experiências esbarram diretamente nas situações enfrentadas pelos entrevistados: Ivam Cabral (ator, roteirista e idealizador da Companhia de Teatro Os Satyros), Tina Gomes (fotógrafa) e Márcia Abos (jornalista e bailarina).

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Mariana iniciou a sua trajetória artística no teatro aos nove anos, em busca de ser “encaixada” em algum círculo, já que a escola como o seu principal lugar de convivência social, lhe excluía das possibilidades de ser e existir como pessoa. Ela se sentiu muitas vezes, uma criança à margem, sendo alvo das piadas racistas, entre a turma de colegas da época. Quem se tornou Mariana, hoje?

“Mariana França é alguém que busca no outro se conhecer melhor. Desde pequena sinto que a vida esqueceu de me dar um manual para lidar com tantas inquietações, que muitas vezes acho que só eu vivo. Mas é no encontro com o outro que a gente descobre que todos fazem o seu melhor, para entender este mecanismo que baseia a nossa existência.”

Com aprendizados em diferentes escolas artísticas como o teatro, o circo e o audiovisual, Mariana, recria, através destas múltiplas linguagens, os mecanismos de reencontro e encantamento com a complexa magia da vida. Como manifesto poético o filme rompe os silenciamentos da depressão. Os planos aproximados da câmera documentam em detalhes, a semântica dos olhares, os gestos das mãos e pés, corpos entregues como pinturas, mas também reticentes, em fricção com si próprios. O olhar documentário do filme implicado na subjetividade da realizadora, transita pelos modos reflexivo, performático e poético, a dizer para nós, espectadores, histórias sobre as idas e vindas em crises depressivas, vividas pelos artistas e como eles as utilizam como matérias de expressão e sentido de suas existências.

“O documentário me fez justamente perceber quais eram os meus mecanismos de criação. O “Clausura” surgiu num momento de uma profunda tristeza, no sentimento de total perda de várias bases importantes pra mim (amigos, família, trabalho, relacionamento). Mas foi uma exceção a todas as coisas que fiz. Pra mim, é difícil criar na profunda tristeza, ou no caso, numa crise depressiva. Entretanto, não importa o que necessite que seja criado, produzido, é preciso uma provocação, a que te faça mergulhar de cabeça naquilo.”

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“Ser mulher negra e dirigindo uma documentário já é por si só um ato de resistência. O audiovisual ainda possui um cenário machista, mas que aos poucos estamos tendo seu lugar devido. A equipe do “Clausura” é rodeado por Manas guerreiras e que desempenham as mais diversas funções (Cecília Santana, produtora, Carol Arbex, Carolin Yukari e Jolene Tracci, câmeras, Alice Crepaldi, som, Mayara Paulelli, Motion Design).”

Mariana França.

A arte torna-se a potência descoberta por Mariana, atravessando as suas fragilidades como ponte para um trabalho de criação, que a leva para dimensões mais inteiras de si, ou mais consciente dos lugares de fragmentação dos sentimentos humanos. Por fim, a arte como lentes de percepção crítica sobre fluxos intensos e constantes da sua subjetividade, como as questões que envolvem a representação objetificada das mulheres negras, por exemplo.

Como uma obra aberta, reflexiva e de linguagem moderna, Mariana França e Gildo Antonio assinam a codireção do documentário e contam essa história a partir de três olhares:  o olhar interrogativo de Mariana para com os entrevistados; o olhar curioso sobre quem é a personagem de Mariana, dirigido por Gildo Antonio; e o olhar que vê a toda equipe e aponta as transformações descobertas durante toda a produção do filme.

Com produção pelo Centro Audiovisual de São Bernardo do Campo e realização da Transver Filmes, o “Clausura” está circulando entre festivais nacionais e internacionais de cinema e foi premiado pela 17a. edição do Encontros de Cinema de Viana do Castelo, ocorrido em maio deste ano, em Portugal. #VoaClausura !

“O resultado é o que se vê: um primeiro corte sensível de uma obra que não se pode sintetizar. “Clausura” é um meio para enxergar o eu e o outro.”


12003154_958864104178511_4096693306721974599_nALESSANDRA GAMA – É coeditora NoBrasil. Mestre em Educação (UFSCar) e Doutoranda em Performances Culturais (UFG), pesquisa questões étnico-identitárias no cinema documentário brasileiro. É também  realizadora, gestora e produtora cultural.
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