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No caminho de barro, uma casa de concreto

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Nessa segunda matéria do especial “Nas águas da Maré”, Thaís Cavalcante da Silva moradora da Maré, conta a história de Severina Lusia. Confira.

Por Thaís Cavalcante da Silva
Imagens feitas com o Ipad Pro e o Iphone SE

 

Os migrantes nordestinos tinham um destino traçado nos anos 80: morar na Maré em busca de melhores condições de vida. Uma dessas pessoas foi Severina Lusia, mulher humilde que decidiu sair do interior da Paraíba para viver na Maré em 1981. Em tempos de desenvolvimento urbano na cidade, a favela pareceu parar no tempo. Nada crescia se não fosse da vontade dos moradores. O espaço, notável nas matérias da tv, era invisível para as autoridades.

Lusia chegou ao Conjunto de Favelas da Maré sem conhecer nada do Rio de Janeiro, porque não tinha televisão no Nordeste. Não tinha nem luz. Só candelabro. E na Maré a história se repetiu por três anos, já que não tinha dinheiro.

Pura ansiedade antes de pisar na cidade maravilhosa. Mas não tinha casa. Sua esperança era encontrar um lugar bom para morar. Tinha lembranças difíceis do trabalho na roça. Na época, o ônibus que viajou 3 dias, foi da Paraíba até a favela Parque Maré. Era tudo estranho. Tinha medo de sair sozinha. A violência já se mostrava parte da nova realidade. A saudade do Nordeste batia:

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As casas eram construídas cada vez mais perto uma da outra. Sem espaço para varandas. Uma janela se unia a outra casa. E assim a formação rápida do território se tornou populosa, mas ainda com baixo índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Até hoje, o conjunto de favelas tem um número baixo.  Até hoje os moradores lutam por direitos. Saúde. Saneamento. Educação. O básico ainda não é o suficiente.

Morou de aluguel com Geraldo por mais de um ano em um barraco de madeira. A empresa que ele trabalhava faliu, e com tudo o que receberam compraram uma casinha e alguns móveis. Quatro cômodos. Na sala, tinha um fogão, um armário pequeno e a cama de casal – com colchão de capim. Na cozinha, tinha um poço, chamado de “cacimbão”. No banheiro não tinha água, nem chuveiro. Pegavam água da rua e enchiam seus baldes com 20 litros. Lusia ajudava a carregar, mesmo grávida. Resistência.

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Quatro irmãos de sua família decidiram morar na Maré também. Era mais fácil conseguir emprego, a cidade passava por um crescimento industrial. Puderam apoiar um ao outro, mesmo vivendo em favelas diferentes. As casas careciam de saneamento básico e as ruas sem asfalto. A lama, o mato e o barro faziam parte da rotina dos moradores dali.

O Governo Federal percebeu o crescimento desenfreado de várias favelas na Maré. Decidiu então fazer uma intervenção: aterrar as regiões que ainda estavam alagadas. Os moradores dali, foram transferidos para casas pré-fabricadas de alvenaria. A pressão social e higienização urbana do Rio de Janeiro removeu famílias da favela do esqueleto, para ir à Maré. O poder popular mostrava o quão forte era a união de pessoas que lutavam por direitos. Que lutavam por moradia. Que lutavam pela vida.

A mudança acontecia: a 30º Região Administrativa (RA) se instalou e trouxe ao território o reconhecimento de bairro popular. A iniciativa, aconteceu com o objetivo de mudar a visão externa quanto ao que acontecia nas favelas.

O título bairro, tem peso moral.
Favela não.

Às vezes, caía água do telhado e molhava tudo. Mas isso não desanimou Geraldo na construção da casa que passou de tábua à alvenaria. Os conhecimentos manuais que ele trouxe da Paraíba ajudaram nisso. Quando jovem, construiu casa de pau-a-pique com seu pai. Sabia bem o que estava fazendo. Após a mudança, a família visitou o Nordeste apenas 6 anos depois da chegada no Rio de Janeiro.

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Hoje Lusia tem casa própria, e duas filhas.

Vive com água encanada, luz, calçada e outras coisas que hoje trazem o nome bairro com mais força.

Mas o reconhecimento de pertencer ao lugar, fazer parte da sua história e do seu crescimento, tem uma palavra que representa perfeitamente: FAVELA.

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thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.

 

 

 

Nas Águas da Maré
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