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Naná Vasconcelos: instrumento de reinventar som

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Afrotranscendence recebe reedição em formato vinil da obra “Africadeus – O repercutir da música” em lançamento no Brasil pela Harmonipan Studio e convida para abrir um diálogo com a obra do produtor musical Mahal Pita.

por Neomísia Silvestre
Foto capa: Itamar Crispim.

 

Berimbau. O instrumento redescobriu o homem. Naná. O homem transformou barulho-música, ruído-música, silêncio-música. Juntos, criaram uma nova percepção de pensar a sonoridade negra e romperam fronteiras definidas duma capoeira que não lhes cabia. Foram do toque angola ao jazz experimental de Pat Metheny. Afinal, corpo-instrumento que não carrega limitação, ganha o mundo. E assim o fez Naná Vasconcelos (1944-2016), músico pernambucano, aclamado mundialmente como um dos melhores percussionistas e mestre na arte do berimbau, dono de uma intuição única.

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Em entrevista dada à artista e produtora cultural Juci Reis, ele diz que o instrumento lhe deu uma concepção musical e espiritual capaz de mudar sua vida. Seu álbum de estreia, “Africadeus”, lançado na França em 1972, inaugura e nos presenteia um jeito experimental de fazer e pensar a música negra no mundo:

“Africadeus me fez espiritualmente tomar consciência de mim mesmo, me disciplinar, me organizar, ser um solista de percussão. Africadeus representa a espinha dorsal da nossa cultura, que é a África”.


Juci é responsável pela pesquisa, produção e formatação do livro-CD “Africadeus – O repercutir da música”, relançado pela Harmonipan Studio, em 2014. “Africadeus se constitui como uma espécie de registro de relevância cultural para a música afro-brasileira, latino-americana e africana. Uma obra à frente de seu tempo que, desde 1972, combina a força da música negra com o free jazz – conceitos ligados à experimentação – e descoberta de outros instrumentos sonoros, porém, que na ausência de interesse e registro de transmissão, viveu no culto, na obscuridade comercial e na segregação polarizada, especialmente no Brasil”, diz.

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No início de sua careira, Naná era baterista. Quando migrou para o berimbau e passou a explorar suas possibilidades sonoras, relata que tinha certo medo de tocar no Brasil, por experimentar certos ritmos que não eram da capoeira e, assim, provocar e transcender o tradicional. “Tocar berimbau foi um grande desafio, pois quando você faz uma coisa que só você faz não é fácil. Eu procurei fazer um grupo com brasileiros, mas não deu muito certo porque todo mundo estava querendo a Bossa Nova. Esse negócio de solo, fazer show com apresentação de berimbau me levou a descobrir o corpo. (…) Eu sou um Brasil que o Brasil não conhece”. 

Dos primeiros exemplos de artistas que se destacam internacionalmente e depois regressam com certo prestígio ao país de origem, Naná não atraía refletores, como os vanguardistas da Tropicália ou da Bossa Nova. Como explica Juci, o artista experimentou a segregação e o mascaramento da indústria fonográfica brasileira, uma realidade assinalada por certo esvaziamento ou esquecimento notável quando se trata de músicos afro-brasileiros. A exemplo, Africadeus nunca pôde ser lançado no Brasil ou distribuído oficialmente; e se caracteriza por excelência experimental e resistência, por ter passado mais de 40 anos para ser reconhecido em território nacional.

 

 

Africadeus em vinil

Lançado em 2016 em equipamentos culturais da América do Norte, como MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, Africadeus chega ao Brasil pelo Harmonipan Studio, que traz a reedição da obra de Naná Vasconcelos em formato vinil e faz um dos seus lançamentos durante o Afrotranscendence, no dia 29 de outubro, no Red Bull Station, às 18h30, em São Paulo. O processo de pesquisa e elaboração do vinil foi desenvolvido ao longo de quatro anos, junto a parceiros nacionais e internacionais, a fim de assegurar os lançamentos e distribuições no Brasil em 2016, sem nenhum apoio institucional brasileiro.

Composto por três peças de longa duração, em torno de 40 minutos, onde a experimentação com o berimbau é sublinhada pelo imaginário de Naná, a obra é considerada fundamental para a inauguração da música experimental brasileira, ao mesmo tempo em que pede atenção às possibilidades e não fronteiras da musicalidade afro-brasileira; além de potencializar a difusão da história da nossa música por meio da obra de Naná.

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Durante o processo de pesquisa e produção do vinil, Juci nos conta que o projeto de cunho experimental possibilitou a construção de uma pesquisa sobre música negra no Brasil com foco no reconhecimento e na valorização das obras de importância histórica para a cultura afro-brasileira. Também, de maneira substancial, que permitesse o lançamento de uma obra que fortalecesse tanto a cultura nacional como a identidade dos grupos afro-brasileiros.

“Foram catalogados mais de 200 obras sonoras desenvolvidas entre 1960 e 1980 por artistas afro-brasileiros e/ou que experimentavam sonoridades por meio de elementos de matriz africana (…). Destaquei nessa pesquisa a necessidade da reedição de Africadeus por sua potência enquanto registro sonoro de grande relevância à música brasileira, que reúne elementos da musicalidade de matriz africana, da oralidade e da cultura regional. Segundo o próprio Naná Vasconcelos afirma, ‘precisamos de movimentos como esses para não deixar que morram manifestações de nossa cultura que, por falta de registro, estão desaparecendo’”.

Pesquisa e processos: Mahal Pita e Africadeus

 

A partir de conversas entre Juci e Diane Lima, curadora do AfroT, surgiu a ideia de explorar a pesquisa sonora de Naná, ativando-a, dando vida e homenageando o músico que faleceu em março deste ano, a partir da produção de Mahal Pita, que teve acesso ao material de pesquisa e irá experimentar as possibilidades e reverberações de Africadeus no laboratório AfroTrans e numa apresentação no dia 29.

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Mahal Pita + Africadeus

 

Mahal que é baiano, produtor musical, diretor criativo e integrante do Baiana System, é um dos mentores desta edição do Afrotranscendence e, com os imersos, soma a ressignificação da música negra na obra de Naná com sua linha de pesquisa e produção sobre a transfiguração das culturas urbanas da Bahia, conectando-as com possibilidades tecnológicas e estímulos contemporâneos da diáspora global. Sua pesquisa passa por experimentações entre som e imagem, desenvolvendo projetos que transitam pelo multiverso do popular urbano baiano na fronteira entre o sagrado e o profano.

Um diálogo imperdível que ressignifica, atualiza e cria na frequência dos tempos.

Uma experiência que se referência na obra edificada por um grande músico que deixou como legado um jeito negro de fazer música.

A valorização do trabalho de quem registra, documenta e pesquisa como forma de produzir conhecimento deixando para quem vem depois formas de mergulhar no patrimônio afro-brasileiro.

Uma performance, que abre ao som da língua e do corpo, a nossa comunicação transcendental.

 


Serviço:

AfroTranscendence 2016

Red Bull Station – Centro de SP

Praça da Bandeira, 137 – Centro, São Paulo
www.redbullstation.com.br

18h – Uma performance contada, um palestra cantada
Mahal Pita + Lançamento vinil AfricaDeus de Naná Vasconcelos – entrada gratuita

Evento do facebook aqui

 

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