Our Blog

Muitas caras, muitas expressões

0

De Manaus, Keila Serruya é um reflexo provocador do que significa ser muitas em muitas linguagens levando para as ruas a pluralidade de um estado formado por um Brasil inteiro.

por Diane Lima

 

Faz muitos meses que estamos para ter esse papo com a Keila Serruya mas, como acredito que tudo vem na hora certa, entendi que era esse mesmo o momento mais propício para acontecer sobretudo por ser essa talvez a curva exata do tempo em que estejamos mais interessados em discutir em nossos projetos no offline, como podemos entender a nossa diversidade para desenhar, criar e traduzir isso tudo nas mais diferentes linguagens: como podemos transformar toda a nossa história em processo.

Nascida em Manaus, Keila não somente faz isso como vai além: a formação da sua história de vida pode ser ela mesma usada como metáfora e porque não metodologia, para explicar a própria recombinação de formas de expressão que utiliza nos seus trabalhos. Algo como muitas caras, muitas expressões em que a diversidade da memória do corpo pode ser traduzida em essência na própria forma de criar, ver e conceber o mundo. Um resultado que vem entranhado pela relação com a cidade e pelas diferentes formas de existir.

a rua dança8

Posicionando o seu lugar de fala como uma mulher negra, ela nos contou como sua trajetória desemboca completamente no que faz: “eu realmente acho que eu vim para provocar o centro da minha família, questionando todos esses lugares de onde a gente vem. Desde pequena, ouço a minha avó materna dizer que a mãe dela havia ganho “um papel que podia ir embora”. E essa minha avó não tem registro nenhum, é só Maria Lourdes dos Santos, Santos como nome típico dado aos escravos alforriados. Ela disse que quem tinha dado esse papelzinho para a mãe dela ir embora era uma senhora dona dela e que gostava muito dela. Algo que eu só vim entender muito tempo depois. Essa minha avó mudou de Boa Vista, com todos meus tios, tias e minha mãe e vinheram parar aqui em Manaus. Já o meu sobrenome Serruya é judeu, dos Judeus Sefarditas que são aqueles que ficam andando pra lá e pra cá. A família do meu pai diz que ele são Judeus da Espanha, mas na verdade eles passaram uns 150 anos no Marrocos…. uma família de homens brancos onde só o meu pai nasceu negro. Somos uma grande confusão.”

Começando a cantar rap com 16 anos e depois trabalhando com video-dança cresceu na Vila Martins, “um grande cortiço que se roubassem no centro iam bater lá” e um lugar que ela diz ter sido de fundamental importância na sua formação como pessoa: ” tinha gente de todos os tipos: evangélicos fervorosos, gays assumidos, babytrans, pessoas que cultuavam religiões de matrizes africanas, pessoas de todas as cores e com as mais diversas histórias.”

1

a rua dança5a rua dança4a rua dançaA rua na dança – O corpo urbano, projeto que aconteceu em janeiro de 2015, nas cidades amazonenses de Presidente Figueiredo, Manacapuru e Manaus. As fotos são do João Paulo Machado.

Nesse caminhar, passou a questionar “as caixas” e entender que o trabalho era e podia ser muito mais híbrido.  Performance, áudio-visual e artes visuais se misturavam a um tipo de linguagem cinematográfica que não tem como prioridade estar nas grandes telas, mas nas ruas e/ou em instalações em espaços fechados desde que dialogando com outras formas de expressão. E é essa mistura encontrada nas produções da Picolé da Massa, coletivo-produtora que criou e tem como objetivo produzir, difundir, idealizar, escoar e incentivar projetos culturais ligados as artes cênicas, música e audiovisual e tem como um dos últimos trabalhos um projeto que nos chamou muito atenção: o Assim, curta-metragem que desdobrou-se em uma video-instalação na I Mostra Manaus de Artes Visuais transformando-se ainda em uma outra intervenção urbana com video-instalação. A tríade Assim, Assim Aqui e Aqui conta as histórias de vida de Patrícia Fonttine, Nayla Bianca, Paty LaBelle e Layna Fonttine, travestis, transexuais e transformistas:

“pretendo circular com esse projeto por entender que ele cumpre o seu papel de incomodar sobretudo numa cidade em que o Coronel de Barranco ainda se faz presente, mesmo hoje em que a época da borracha nos parece estar tão distante”.

11401135_381241925413020_5738408279277386279_o

2

capaVídeo instalação urbana Projeto Aqui. A obra fez parte da I Mostra Manaus de Artes Visuais.

Nessa relação de tensão e amor com a cidade é visível no discurso da Keila, assim como presente também na produção e postura de muitos artistas que se encontram vivendo no dilema  centro X periferia, a vontade de ir mas a permanência por entender a necessidade de continuar, momento que a produção passa a ser símbolo de resistência. Gente que produz apesar de todas as adversidades fazendo da expressão seja lá o quão múltipla ela for, dispositivo para disseminar novas formas de entender o mundo, ferramenta de educação e multiplicação: “o nosso interior é um interior diferente dos outros interiores do Brasil. Em outros lugares, em 1 hora, 40 minutos você está em outra cidade. Aqui não. Eu consigo contar nos dedos dos 62 municípios, àqueles que eu consigo chegar de carro. Manacapuru, Presidente Figueiredo, Itaquatiara….. o resto é tudo barco! É tudo muito distante e isso faz com que as coisas fiquem extremamente excluídas. Por isso que desde de 2013 eu venho tentando dialogar com o interior porque o que adianta eu conhecer os outros lugares sem conhecer as pessoas que estão no interior do meu próprio estado?”

Assim aqui 3Assim aqui 4Assim aqui 2Assim aquiAssim Aqui: Intervenção urbana em video-instalação.

Mormaço Sonoro é a resposta que a Keila encontrou e logo mais em breve estará a bordo navegando pelos rio do norte do país: “a nossa música é o gambá assim como o carimbó é de Belém. Hoje você sabe disso porque há 30 anos atrás existiu no Pará um processo de resgate para que isso chegasse a mais pessoas. Aqui temos o MPA, mas onde já se viu isso? Música Popular Amazonense, uma marmota! Tem os Senhores de Tambores em Maués mas é uma música que não chega para todo mundo, porque realmente a colonização surgiu como uma bola de ferro na cabeça das pessoas antes mesmo dessa música chegar até aqui. Então a gente precisa de diversos processos para restabelecer esses contatos. Por isso que acabo no meu trabalho me apegando tanto a cidade. E essa é uma coisa que quero fazer com o Mormaço Sonoro: convidar grupos de música e transformar isso num registro áudio-visual que pode virar qualquer coisa”.

Colocando todo o seu tempo na criação, seja da sua filha de 04 anos ou de seus projetos multi-linguagem como o incrível A Rua Dança – que você pode assistir agora, Keila vem buscando o equilíbrio de quem abraça a pluralidade de um estado formado por um Brasil inteiro.

Uma honra tê-la por aqui semeando esperança através de um olhar contemporâneo, para nós aquele que reconhece a sua história, recombina e transforma.

Nosso máximo agradecimento a Yasmin Thayná pela conexão.

Documentário sobre o projeto “A rua na dança – O corpo urbano”
Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Comments ( 0 )

    Leave A Comment

    Your email address will not be published. Required fields are marked *