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Morando em terra sem lei

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Pertencer a um espaço é dar significado e re-significado a ele.

 

IMAGENS FEITAS COM O IPAD PRO E O IPHONE SE

 

Foi o que fizeram os moradores removidos da comunidade conhecida como “kinder ovo” e também das margens do Rio Faria Timbó. O Governo Federal ofereceu uma alternativa: recomeçar no mais novo conjunto habitacional da Maré, conhecida como ‘Salsa e Merengue’, no ano 2000. O nome foi referência às casas, graças a uma novela da década de 90.  

Diferente das décadas passadas, o território para de se expandir na horizontal e passa a crescer na vertical. Dessa forma, não é difícil perceber o quão diferente cada favela da Maré é, apesar de ser do mesmo complexo. Os novos moradores do ‘Salsa’ se misturam com a história e o desenvolvimento do lugar, e fazem do comércio uma potência local.  

Desde que a favela é favela, a política de limpeza urbana na cidade acontece. Principalmente nos lugares onde vive preto, pobre e favelado. A segregação visível fazia juízo ao desejo do Estado de excluir. Discriminar. Estereotipar. Em remoções forçadas, não há comunicação com os residentes, e sim a especulação imobiliária e a retomada da apropriação de terra – sem lei. Com interesses – com lei. 

imagem-1Mapa do complexos de Favela da Maré

Ainda que as políticas públicas facilitem novas formas de proteção perante a lei, com a falta de direitos humanos, os interesses políticos e empresariais – ligados diretamente a a cidade que se tornou cidade sede dos jogos – a higienização aconteceu nos quatro cantos do Rio de janeiro.

Segundo o documento Dossiê Megaeventos e Violações dos direitos humanos no Rio de Janeiro, de 2009 até 2015, cerca de 77 mil pessoas foram removidas de suas casas. Com apoio de medidas provisórias, leis votadas ao largo do ordenamento jurídico e longe do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção.  

Essa política chega à Maré novamente em 2014. Em torno de 80 famílias da Salsa e Merengue foram removidas de suas casas recém-construídas. Com uma decisão coletiva e uma alternativa, usar o espaço que não servia. A Prefeitura não fez nenhuma notificação formal para o aviso da remoção forçada das casas. A mídia não fez cobertura sobre o ocorrido. A Prefeitura da cidade e o Exército Brasileiro, que já ocupava o Conjunto de Favelas com jipes, tanques de guerra e armamento pesado trabalharam juntos. Muitos moradores seguravam o documento de posse da casa nas mãos. Era uma situação nova na história da Maré, já que as casas antigas não têm escritura. A resistência e insistência são pequenos significados que as vezes ganham espaço, às vezes não.

BastidoresThaís entrevistando moradores para o último capítulo do especial “Nas águas da Maré.” Fotos  e vídeos feitos com o Iphone SE.

Em 2016, o espaço das Casas está ocupado no Campus Educacional da Maré. Através das construções da Fábrica de Escolas do Amanhã – grupo de 8 escolas municipais que buscam diminuir a evasão escolar de crianças estudantes do primário e do ginásio. Os moradores removidos seguiram suas vidas realocados em casas já prontas. Uma forma de viver sem poder questionar novas medidas. Moradia. Escolas. Contraste. O que é necessidade só quem vive sabe.

imagem-2Thaís na Favela da Maré. Fotos tiradas com o Iphone SE. Imagens criadas com o IpadPro.

 

 


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.

 

 

Nas Águas da Maré
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