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“Acho que o diferencial é você não estar fazendo o que os outros fazem”

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Minimalista, autoral, versátil. Para as criadores da MOCHA, a identidade é uma questão de originalidade, que por vezes, deve superar os códigos.

por Véronique Véra Mbida

Foi numa manhã ensolarada acompanhada de limonada e muito entusiasmo, que Liliane Taira e Ana Voss me acolheram em sua oficina em São Conrado.

O lugar mais parecia com uma casa encantada onde a vida é agradável para os funcionários e onde a arte tem um papel fundamental: de uma sala para a outra, a inspiração está presente em todos os lugares. A criatividade e a originalidade prevalecem.

Pinturas modernistas brasileiras, esculturas japonesas que saltam de um outro século, colagens refinadas (…) cada chef-d’oeuvre está em seu devido lugar neste santuário da estética que deu origem a MOCHA, uma marca a ser consumida sem qualquer moderação. Veja como foi o nosso papo.

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NoBr por Véronique Véra Mbida:  Você pode falar mais sobre o seu encontro com a Liliane e de como surgiu o conceito da Mocha ?

Ana: A gente se conheceu através de uma amiga nossa que é a Gabriela da Benta Studios. A Benta Studios desenvolve todas as nossas estampas. A gente faz o moodboard e a partir desse moodboard ela aborda todas as estampas da coleção e faz um trabalho incrível !

E ai a Lili jogava squash com a Gabriela, e ela sempre quis montar uma marca e na época estava na OSKLEN trabalhando como designer de moda. Numa conversa no Baixo Gávea na mesa de um bar a gente se encontrou e começou a  conversar com a Lili e eu falei pra ela das minhas ideias e a gente se uniu.  A partir disso, montei um projetinho pra ela com alguns croquis do que eu imaginava o que poderia ser a marca e o seu conceito já que antes a MOCHA nem tinha um nome. Então, eu mostrei todo esse desenvolvimento para ela do que seria a marca, qual seria o conceito, que teria muito a ver comigo e com as pessoas que estão ao meu redor e que eu acho que se identificam com um estilo parecido com o meu e sentem falta disso no Rio. E Foi daí que a MOCHA surgiu.

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NoBr: A indústria da moda no Brasil é cheia de armadilhas para novas marcas. Como vocês conseguiram trilhar um caminho próprio nesse mercado tão difícil?

Ana: Na verdade a gente foi muito pé no chão.

A gente começou desenvolvendo poucas peças, mas de muita boa qualidade e com tecidos e matéria-prima de muito boa qualidade também.  E a Lili, por sorte, já confeccionava pra outras marcas. Ela servia de facção para marcas como ANIMALE, OSKLEN, MARAMAX entre outras. Então a gente já tinha uma estrutura de costura interna para confeccionar essas peças o que fez com que a gente terceirizasse muito pouco as nossas peças. Obviamente como a produção é muito grande hoje em dia, algumas fábricas a gente terceiriza mas acho que o que também deixa a gente ter esse conceito muito sólido foi porque a gente já chegou onde a gente queria. A Benta Studios em parceria com as estampas fez um trabalho incrível.

Liliane: A Benta Studios ajudou também a gente a botar no papel o que exatamente a MOCHA vai ser e  o que vai se tornar. Questionavam, perguntavam (…) e isso facilitou muito o processo de branding pra achar realmente a identidade da marca.

Ana: Sim porque pra mim não sei! Estou aqui desenhando!

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NoBr: Já observou alguma mudança desde que vocês começaram o negócio?

Ana: Não. Infelizmente acho que a gente continua num movimento muito difícil . E isso não só na moda, mas no geral no Brasil por causa da crise econômica…

Liliane: De algum tempo para cá observei várias marcas pequenas aparecendo. Essa indústria do shopping perdendo a sua essência, sua identidade. Porque hoje tem muitas pessoas que falam que vão até o shopping e acham tudo pasteurizado, tudo igual. E então elas vão buscando outras coisas com as quais se identificam, que as diferenciam, que tem a ver com elas… porque elas olham que todas as vitrines são parecidas e parece que tá todo mundo seguindo uma tendência (…) “a tendência desse ano vai ser essa”. Então, qual é a identidade que a marca tem que vai fazer com que aquela pessoa procure aquele lugar?

4. Qual é sua opinião sobre as tendências?

Liliane: A gente esta tentando fazer uma marca mais autoral.

Mas tem um inconsciente coletivo que deseja coisas que estão acontecendo no mundo… E que as vezes, sem você estar buscando, aquilo acontece num outro lugar. Hoje existem estudos de tendências, que já é uma coisa intencional, buscando fazer aquilo que está na moda, que as pessoas vão querer porque está na moda.

Ana: E aí é uma preocupação muito forte porque eu acho que o diferencial é você não estar fazendo o que os outros fazem. Por esse inconsciente coletivo tenho que começar a olhar as tendências pra fazer o trabalho contrário. Porque se não, vou ver as tendências porque eu não quero também me induzir. Mas, enfim, acho que vou ter que fazer o papel inverso. Realmente ver as tendências e não fazer igual porque acho que hoje em dia, esse é nosso diferencial.

Liliane: E as vezes uma marca por causa do branding, depois de muito tempo, por alguma razão, passa a perder aquilo que a identificava. Ela vai buscando vender aquilo que vende. Ou seja,  é o lado comercial falando mais alto que o autoral. Mas tem que ter um equilíbrio pra que dê certo, que é poder sobreviver, estar no mercado, mas sem perder essa essência.

NoBr: Quais são as suas perspectivas e expectativas sobre a sua profissão no Brasil?

Ana: Hoje em dia existem muitas pessoas buscando essa área de criação com design de moda, mas depende muito da área. Existem marcas que estão sempre querendo buscar o que os outros querem. Mais o desejo do momento, um desejo rápido que viu numa revista e quer um igual. Mas eu vejo muitos estilistas que estão buscando o diferencial, o que é muito positivo. As pessoas vão se cansar disso e vão querer fazer o que é mais legal, o que é realmente criação em si e não a cópia.

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NoBr: Qual é a sua definição para minimalismo? Acha que a MOCHA se enquadra nesse conceito?  

Ana: É difícil falar, mas a minha definição do minimalismo é uma peça confortável, com shape simples e com geometria… que tem um movimento sem deixar a feminilidade. MOCHA é uma marca minimalista e atemporal porque a nossa roupa veste qualquer estação.

“As pessoas vão se cansar disso e vão querer fazer o que é mais legal, o que é realmente criação em si e não a cópia.”

NoBr: As jóias tem uma inspiração mais étnica que as roupas. Há uma razão específica para isso?

Ana: Essa última coleção (verão 2015) foi a coleção “Selva” e a Mari buscou pegar nas joias os elementos da selva, usando como referência os insetos, os besouros. Então, ela conseguiu pegar o tema da coleção e aplicar nos acessórios.

NoBr: Notei algumas mudanças em seu trabalho, ele era mais monocromático. Na última coleção tem mais estampas com cores e a presença da natureza. É mais carioca. Essa evolução pode também ser notada no lookbook. Para as próximas coleções vocês pretedem retomar o que parece ser a vocação da marca, mais neutra, ou, ao contrário, continuar com essa pegada mais carioca?

Ana: Eu nunca vou pensar “eu quero ter uma pegada mais carioca, mais urbana, mais paulista …” Acho que as coleções vão se caracterizando. Por exemplo, essa coleção se caracterizou mais com o Rio de Janeiro pelo tema porque foi uma coleção mais tropical. A primeira coleção foi uma coleção mais abstrata, pra mostrar a marca. Já o tema da segunda foi a chuva… E eu acho que eu vou sentindo a cada coleção. Eu nunca vou me prender …..

A próxima coleção já não tem nada a ver com a coleção atual. Os shapes sempre vão se manter, eu acho…. o que muda mais é a cara da coleção. A coleção do próximo inverno vai sair do tropical pra uma coisa mais abstrata, fria. Para o verão 2016 as estampas vão ser um pouco menos tropicais, mas vão ter a ver com referências do Balagandan e jóias crioulas (…)

“Tem também uma questão de amadurecimento estético. Tem uma crise de identidade enorme. Essa cultura que vem dos últimos anos de poder ter acesso a muitas coisas pode entrar em conflito com “quais são as minhas raízes, o que eu busco, quem eu sou”. Então, marcas como a MOCHA, atingem também esse público que está amadurecendo esteticamente, que busca a beleza de uma outra forma, que dá valor para a criação, o que pode contribuir para esse amadurecimento estético.” Liliane Taira, Mocha.

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NoBr: Projetos futuros, planos e alguma novidade que possa nos contar??

Ana: A gente quer expandir a marca mas indo passo a passo. Precisamos estar mais fortes aqui no mercado brasileiro pra pensar em abrir uma loja. A gente vai entrar no Atacado em São Paulo, já tem loja em off no Leblon, tem cinco multimarcas que vendem MOCHA e sites que vendem também online. Primeiro precisávamos conhecer nosso cliente e ver que ela é realmente aquilo que a gente buscou: uma mulher que acima de tudo, tem uma identidade muito forte.

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