Our Blog

Literatura lésbica – aquelas que não podem falar dizendo o que não deve ser dito

0

“Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.”
Neste especial, a escritora Diedra Roiz revela os caminhos da literatura lésbica no Brasil com sua poética de ressignificação e resistência.

Imagens criadas com o iPhone SE

Ao deparar-se com o termo Literatura Lésbica, muita gente se pergunta: o que é isso? Isso existe? Ou, até mesmo, para quê isso?

Infelizmente, quando se trata de dar voz e espaço às “minorias”, esse tipo de reação não é incomum. Uma negação mais cruel do que a do espaço em si, a do valor e da necessidade do mesmo.

Afinal… Segundo este tipo de pensamento, preconceito é separar e classificar. “Para quê cotas? Para quê literatura lésbica? Literatura é literatura, pouco importa se é escrita por mulheres, lésbicas, trans, negras. Somos todos seres humanos, as pessoas são todas iguais!”

Mesmo?

img_1069

Seria maravilhoso viver em um mundo onde todos fossem apenas gente e mais nada. Um mundo onde não existissem diferenças, privilégios, relações assimétricas de poder.

Mas esta não é a nossa realidade.

No mundo em que vivemos – onde as estruturas perversas do poder existem a serviço de manter a exclusão, a invisibilidade e o silenciamento de todos que não se enquadrem, e a desigualdade, de forma absolutamente cruel e tirana em seus critérios, elege aqueles que interessam, que detêm o espaço e o direito de falar, de se expressar, de se tornar visíveis -,  rótulos e classificações são necessários exatamente para que os excluídos possam garantir e ocupar direitos e espaços que lhes são interditos.

A Profª Drª Regina Dalcastagné, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, em sua pesquisa cujo resultado pode ser encontrado no texto “Um mapa de ausências” do livro “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, fez um mapeamento das publicações literárias de grandes editoras brasileiras e chegou à triste conclusão de que, em um país tão lindamente repleto de diversidades e pluralidades como o nosso, o perfil da grande maioria dos autores publicados é o seguinte: homem branco, heterossexual, cisgênero, com mais de 40 anos, membro da classe média, jornalista, morador do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

img_1072

Se alguém ainda tinha alguma dúvida, acho que depois disso fica bem claro qual o discurso que interessa e a escrita escolhida para ser visível hoje em dia no Brasil.

Nomear de literatura lésbica narrativas de mulheres que vivem as suas afetividades e sexualidades centradas em outras mulheres é de extrema e profunda importância neste momento, pelo aspecto revolucionário, de luta e resistência que isto possui, pelo significado e pelo que representa: dar voz a sexualidades que ainda se produzem trancadas “dentro do armário”, de visibilizar e empoderar uma literatura em que a mulher surge não como simples e silencioso objeto do desejo, mas como sujeito desejante, portadora da voz e do discurso.

Mas por que literatura lésbica e não literatura LGBT?

Saber respeitar a diversidade talvez seja a tarefa mais difícil da sociedade contemporânea, pois é a própria sociedade que homogeneíza a partir da construção de modelos pré-estabelecidos. Dentro do universo LGBT, isto não é diferente: muitas vezes, para uma mulher lésbica cis é necessário lutar para ter seu espaço, suas demandas e sua voz respeitados; para mulheres lésbicas trans, é mais difícil ainda.

A literatura lésbica expressa realidades de mulheres lésbicas (trans ou cis), buscando deixar a invisibilidade num mundo que ainda classifica um casal de mulheres como sendo “duas mulheres sozinhas”, fato que não acontece com um casal de homens, pois o homem, independente de sua orientação sexual, é sempre visto como sujeito e protagonista. Mais do que isso, tais narrativas também servem para desmistificar a visão de que mulheres lésbicas ou são objetos de fetiche e de desejo para homens hetero, ou são mulheres que desejam ser homens. Estereótipos que precisam ser desconstruídos. Vozes que, mesmo dentro do universo LGBT, ainda lutam para serem respeitadas e ouvidas.

Mas o que seria considerado literatura lésbica? Levamos em consideração o tema, o conteúdo, as personagens ou quem escreve?

img_0690

Claro que considerar as personagens, o contexto e o “tema” abordado pelo texto é o mais adequado. No entanto, óbvio que um texto escrito por uma lésbica tem o ponto de vista de uma mulher que vive a sua afetividade e sexualidade centrada em outras mulheres visto de dentro, o que traz a voz desta realidade, aquela que possui essa vivência. Afinal, o lugar de onde se fala faz total diferença para o discurso, é impossível dissociar a vivência/essência de quem escreve de seu discurso.

Citando Gloria Anzaldúa:

 “Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.”

Frase que, para mim, pontua e define o conceito de literatura lésbica completamente.


DIEDRA ROIZEscritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Comments ( 0 )

    Leave A Comment

    Your email address will not be published. Required fields are marked *