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JUREMA: Axis mundi*

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Em resumo, o aprendizado do dia: apropriar-se das ervas em dissonância com a natureza pode ter consequências indesejáveis ou mobilizar energias desconhecidas.

IMAGENS, ÁUDIO E VÍDEO CRIADOS COM O IPHONE SE

Fui na mata buscar Jurema

Fui, fui, fui, fui,

Fui na mata buscar ela

Para me fazer feliz!

[canção tabajara para a Jurema]

“Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium”. [Hebreus, XI]**

Jurema é, antes de tudo, o nome popular da árvore do gênero acácia. Só como árvore já daria uma exaustiva compilação simbólica. Universalmente, a árvore é o símbolo da morte e da regeneração, símbolo das relações entre o céu (galhos) e a terra (raízes); representa um eixo no qual percorrem todos os que passam do visível para o invisível. Do carvalho para os celtas, oliveiras para o Islã, à Árvore das Almas do filme Avatar de James Cameron muitas são as “árvores do mundo”. A Acácia-jurema não poderia ser diferente: ela aparece na Bíblia como a madeira do santuário de Javé (Exôdo, 35-40), na lenda africana bambara como a lasca de madeira que deu origem ao zunidor e também no hinduísmo como matéria-prima da concha sacrificial de Brahma. É também a matéria da coroa de Cristo cujos espinhos evocam os raios do sol e o triunfo.


  * 1 Eixo do mundo
** Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêm.
Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

T

Todos os aspectos simbólicos nos dão pistas para nos aproximarmos da devoção que está em torno desta árvore. A transversalidade destas informações amparam o teor sincrético do próprio culto. Dados concretos como as propriedades físicas da madeira ou químicas da Jurema endossam e também trazem equívocos à sua importância. As raízes e as cascas da  jurema preta (mimosa hostillis),  do qual é feito o vinho da Jurema, apresenta o alcalóide N,N dimetiltriptamina – DMT, uma substância alucinógena cujos efeitos são comparados ao LSD nas visões lisérgicas e mudanças das percepções. No entanto, nada garante que ao ingerir o vinho de jurema, fora do contexto mágico-religioso, possamos ser arrebatados pelos espíritos dos mestres ou encantados. Mesmo porque o vinho da jurema é um sacramento destinado somente aos juremeiros, especialmente no momento de seu “tombo”, quando ele oferece alimento às suas correntes espirituais e cujos conhecimentos eles guardam em segredo. O mesmo ocorre em relação aos cultos – torés – dos índios Tabajaras aonde eles compartilham a bebida entre si com o objetivo de entrar em contato com os seus antepassados e com as forças da natureza.

Bate asa e canta galo* – Templo Espírita de Jurema Mestra Jardecilha

Uma coisa é apreender a Jurema-árvore por um processo intelecto-simbólico e a outra é vivenciar a magia e a fé que a circunda. Ao chegar no Templo Espírita de Jurema Mestra Jardecilha**, em Alhandra, a relação entre a natureza e o culto da Jurema Sagrada se desvela. O terreiro é rodeado por onze juremas pretas, uma jurema branca, um manacá e três aroeiras. Em dias claros, reina uma sombra e uma brisa suave faz as árvores farfalharem entre o canto do galo e o barulho da cidade. O lugar tem dimensões mágicas de uma floresta encantada. Um efeito sinéstesico se faz presente quando o sons, as cores e aromas das ervas plantadas se misturam aos relatos de Lucas Souza, neto da Mestra Jardecilha (1934-1988) e herdeiro espiritual da casa.


* Cantiga de abertura de mesa do Catimbó.
** Detalhes da história da Mestra Jardecilha podem ser encontrados no artigo “Cidade da Mestra Jardecilha”: memória e identidade de um território simbólico em Alhandra de Francisco Sales de Lima Segundo http://www.29rba.abant.org.br/resources/anais/1/1401160851_ARQUIVO_cidade-mestra-jardecilha-rba-natal.pdf

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

E

Entre uma cachimbada e outra, Lucas, 21 anos, estudante de Ciências da Religião da Universidade Federal da Paraíba, conta com eloquência a história do terreiro e de sua trajetória espiritual. Assim como a sua avó, muito cedo, aos 7 anos, Lucas apresentou sinais de mediunidade; aos 15 anos tombou – foi para o mundo espiritual em sonho – na jurema, e aos 17 raspou a cabeça para Omulú no Candomblé, em suas palavras, em agrado e respeito à sua ancestralidade. Desde então,  assumiu a responsabilidade da casa, cuidando de quem o procura, assim como cuidando da tradição da Jurema. Seu mentor espiritual é Mestre Canito, um cangaceiro austero e de fala objetiva. Em muitos momentos, durante a conversa, Lucas parece tomar a forma oculta de alguém mais velho. Uma presença paira no ar. Um olhar absorto, pausas longas entre um assunto e outro, como se estivesse a escutar algo que os outros ao redor não podem ouvir. Fala sobre o universo da jurema: as cidades, o cruzeiro de 7 pontas, o maracá, o cachimbo e a bebida-jurema. 

[…] 7 anos eu passei foi em terra

outros 7 eu passei foi no mar
Ó jurema preta senhora rainha
abra a cidade mas a chave é minha.

[cantiga do Catimbó]

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

S

Sete são as pontas do cruzeiro da Jurema, sete são as cidades sagradas e suas ciências: Angico, Manacá, Junça, Catucá, Aroeira, Jurema – Plantas, árvores ou áreas de florestas – e Tambaba, esta última, uma cidade encantada por onde passam todos os espíritos antes que cheguem para trabalhar no Catimbó. Segundo Lucas, estas cidades invisíveis  e seus espíritos habitantes detêm conhecimento dessas energias, magia e medicina. Por intermédio de seus médiuns, os espíritos cultuam, emanam e abalam essas forças para assim triunfarem em seus trabalhos. O maracá com o seu som faz o discípulo entrar em transe, exorciza os seres indesejados e chama a ancestralidade. A fumaça do cachimbo é o meio de comunicação com o universo herdada da tradição indígena.

Na prática de Alhandra, a jurema de salão, como é chamada a bebida servida às entidades nos cultos, é feita de vinho de jurema, cachaça com mel de engenho e ervas. O vinho da jurema é preparado poucas vezes. No Templo da Mestra Jardecilha, o último preparo aconteceu há nove anos atrás e foi e é usado em rituais fechados. Neste legado, o vinho da jurema auxilia o discípulo a compreender os caminhos da cura de problemas de saúde, especialmente os mentais e emocionais nas escutas astrais e interações com campos cósmicos presentes em uma erva ou na natureza. Lucas deixa bem claro sobre a importância dos segredos e das restrições que cercam o uso do vinho, bem como demonstra uma preocupação com o uso recreativo de psicoativos como o DMT e o canabinóides.

Uma cena presenciada durante a nosso encontro nos colocam também neste lugar de atenção. Ao assistirmos a discreta D. Nina – mãe de Lucas e filha da Mestra Jardecilha – cuidando das plantas, observamos que a cada retirada de uma minúscula folha, ela fecha os olhos, pede licença e faz um prece, demonstrando profundo respeito à natureza. Sua relação com as ervas é visceral: as ervas são sua extensão. D. Nina não incorpora entidades mas tem um papel fundamental na casa. Ela é a cabeça de mesa do Templo. Ela auxilia as entidades, traduzindo a sua fala aos consulentes, faz rezas e benzeduras com ervas. Cinco minutos com ela é o suficiente para conhecer ervas e encantamentos das quais nunca ouvimos falar. Em resumo, o aprendizado do dia: apropriar-se das ervas em dissonância com a natureza pode ter consequências indesejáveis ou mobilizar energias desconhecidas.

Esta mesma dimensão extraordinária é relatada pelos índios Tabajaras que habitam o litoral da Paraíba. Nos antecedentes indígena da Jurema, (que veremos no próximo post) conhecimentos botânicos, conhecimentos espirituais, soluções de problemas de saúde, de sortilégios, bem como festas e danças não são categorias estanques. Constantemente, estas esferas tem suas fronteiras borradas ou sobrepostas, o que nos leva a confirmar o ponto de Oxóssi que canta: tempo disse, tempo dirá, que é funda a raiz da Jurema.

Suzy_Okamoto_perfil_NoBrasilSUZY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.
Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1RAFAEL AVANCINI
Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .
Jurema Sagrada
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