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Orgulho Eu: “quanto menos se define, menos se exclui.”

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Foi à luz de velas que conversamos com o artista Fernando de La Rocque que fala sobre sexo, liberdade e seu processo criativo.

por Diane Lima
Colaboração: Bruno Big

 

Foi numa noite de muita chuva, caos no trânsito e com uma recepção literalmente à luz de velas que chegamos na casa/atelier do artista Fernando de La Rocque. A convite do artista Bruno Big que gentilmente se habilitou a nos apresentar seus amigos e um pouco do rolê das coisas mais legais que o Rio de Janeiro tinha a oferecer, enveredamos por um papo em que a falta de luz para além de um problema, se tornou mais em um marco simbólico para contextualizar não somente as surubas e baratas do universo do Fernando, como também, um pouco da visão quase apocalíptica que ele traz na sua forma de ver o mundo e na própria catarse que surge do seu processo de criação.

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Nascido em Humaitá – segundo ele fruto provavelmente de uma transa de carnaval, e conhecido por trabalhos que inquietam, tiram as pessoas do eixo e as mudam de lugar, chamou-nos atenção como era no espaço da liberdade que o trabalho se refazia.  Em algumas horas de conversa, percebemos que talvez fosse essa a palavra que melhor resumia um pouco da obra de alguém não dado aos aprisionamentos da vida e que emanando carisma e fumaça certeza foi um dos artistas mais vibrantes e queridos que passaram por aqui: “com 25 anos eu tinha um caderno cheio de desenhos e tinha cenas de todos os tipos de transa e aí uma vez minha mãe achou aquilo e se assustou um pouco….e ali foi talvez a primeira vez, que eu tenha percebido um ponto culminante naquelas coisas que simplesmente saiam de dentro de mim: que aquilo podia mexer com a pessoas.”

Dizendo desde pequeno ter interesse pelo modo como as pessoas criativas levavam suas vidas, Fernando nos explicou um pouco sobre seu processo criativo e a busca incessante por novas técnicas e formas de reinventar e reinterpretar os objetos: “no começo quando isso ainda não tinha sido legitimado ainda por outras pessoas que viram um “bom gosto”,  existia uma repelência muito grande das pessoas que falavam assim: eu gosto mas eu não teria, eu gosto mas eu não usaria. Mostrava para um galerista e ele dizia: sexo não vende, caracterizando o trabalho como sexo…..e é isso tudo que me faz pensar sempre que quanto menos se define, menos se exclui. Na verdade, acho que as coisas surgem de uma forma muito primitivo em mim…….. fazer, expressar, desenhar, pintar são coisas que vieram bem antes de alguém fazer a minha cabeça que aquele era um caminho que eu podia seguir na minha vida e dar nomes. Agora por exemplo, estou curtindo umas coisas bem artesanais como amassar o barro, prensar ele numa fôrma que eu mesmo preparei…….também curtindo a pintura e o bordado que é um trabalho minucioso que exige um tempo, atenção e até quase uma obsessividade, algo que para mim é sempre presente nas coisas que eu faço e que é um processo constante: onde eu vou ele está comigo”.

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Parafraseando o Tarkovsky, foi quando o Bruno perguntou sobre o fato da crítica posicionar o trabalho enquanto uma obra que fala de tabus e temas polêmicos que pudemos ver o que vai além e o que está por trás do labor dos traços e formas dos azulejos transantes, fumaças de maconha e das baratas de ouro. Algo como se existisse no fundo a busca por uma harmonia ainda que passeando pelo caos e pela tensão em uma obra que desconcerta, cria interjeições mas também arranca sorrisos.

Confessando sentir uma alegria intensa quando termina uma obra o que o leva a inclusive a batizá-las, deixou-nos uma reflexão sobre como precisamos ir além dos nomes e dos rótulos e viver intensamente para além do que dizem que somos, das categorias e dos espaços imantados desse mundo que ao passo que caminha para as individualidades, se torna menos permissivo. Ao fim daquela noite, conhecemos o trabalho de alguém que celebra o amor sem roupas e as relações da vida por detrás das aparências. Uma arte de sorrisos que mesmo ainda à luz de velas, busca trazer um novo sentido para o mundo, cativando o público no jogo do perigo e do desafio: sua luz e sombra.

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