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Elas Nos Representam:
O Modativismo de Carol Barreto

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Na data em que se comemora O Dia da Consciência Negra, Carol Barreto estreia nosso especial Elas Nos Representam dando uma aula sobre o que é ser Mulher, Criativa e Negra NoBrasil.

por Diane Lima 

Foi através da palavra Empoderamento, que encontramos o nosso melhor argumento para estrear, na data que se celebra o Dia da Consciência Negra o seguinte questionamento: o que, de fato, é ser uma mulher negra e criativa NoBrasil? Entendendo a moda através da sua complexa habilidade de comunicar e expressar símbolos identitários e de pertencimento, optamos por iniciar desconstruindo as relações entre aparência X negritude já que ela se fez ao longo dos tempos como uma dimensão essencial da identidade da mulher.

Transitando em potência entre uma produção criativa e uma militância cotidiana, a pesquisadora e designer Carol Barreto poderia então, facilmente, integrar o nosso especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, o que nos fez ainda mais reticentes sobre como é frágil, em tempos de pós-disciplinariedade, o exercício da categorização, ainda que algumas vezes necessária para a organização da informação e do pensamento. Contudo, ao final, o fato surgiu para sustentar uma discussão primordial que a sua própria presença implicou: onde começa e termina, a relação entre atividade artística e política enquanto mulher? É possível destacá-las? Qual a nossa responsabilidade enquanto criadores e produtores de subjetividades que engendram desejos e estimulam formas de agir e existir no mundo contemporâneo?

1Editorial de Moda que resultou na Exposição Fluxus que aconteceu no último fim de semana em comemoração ao mês da Consciência Negra em Salvador, no Lálá. Um dos mais incríveis espaços culturais da cidade que tem a frente o produtor cultural Luis Ricardo Dantas, Lalá é pauta certa que muito em breve queremos também ter a honra de falar aqui NoBrasil. As imagens são do fotógrafo baiano Natan Fox que você pode conhecer mais >aqui

Nascida em Santo Amaro, Recôncavo Baiano, Carol diz ter parado de tentar entender ou delimitar o quanto ela é mais professora, pesquisadora ou “criativa”, denominando-se como “uma designer de moda que pensa corpo e aparência como agência política primeira”. Sendo alguém que conhecemos de longa data, compartilhou com a gente um pouco sobre essa sua visão de mundo:

“pensando militância por meio da moda, que é o que eu tenho escrito nos artigos como Modativismo ou Artevismo Político, percebo que a medida que vamos amadurecendo, a gente vai tirando aquela ilusão que podemos subverter completamente a ordem das coisas e entendendo que a subversão dentro do padrão, também é útil.  Afinal de contas, é importante que eu esteja lá para acenar ao final do desfile ou que minha foto apareça em uma matéria em Santa Catarina por exemplo…. Quantas estilistas, quantas profissionais negras apareceram naquelas mesmas páginas? Da mesma forma, pelo fato de 90% das modelos com quem eu trabalho serem negras, diariamente receber recados de meninas que, querendo ser modelos ou não, dizem: você me representa, você me representa, você me representa!  Acredito que estar nesse especial e não no da moda especificamente, ajuda a construir uma outra forma de respeito com a nossa linguagem de trabalho que é muito cheia de estereótipos: as pessoas acabam se desempoderando daquilo que é o elemento central das relações de poder que é a aparência”.

Exemplo de auto-estima, atitude e autonomia criativa e intelectual, Carol  sempre esteve atenta às temáticas relacionadas ao seu pertencimento e ancestralidade, compartilhando das suas experiências individuais para contaminar e empreender todas as suas atividades, como quando participando de um dos inúmeros seminários em que é sempre convidada, ouviu uma das revelações mais marcantes na sua trajetória:

“uma mulher da zona rural olhou pra mim e disse: ‘olhe, eu vou voltar para a minha comunidade e vou dizer as mulheres que estão lá que vale a pena continuar viva!’.  Nesse momento eu pensei: o que é que eu estou falando para estar ouvindo uma coisa dessas? Percebi que eu tenho tido reciprocidade para as mulheres com que eu pretendo me comunicar e me representar e que cada forma nossa de expressão, pode reverberar dessa e daquela maneira; que esse corpo, essa rede social e aquilo que a gente fala e comunica, tem uma potência muito maior do que a gente pode imaginar, prevê e pode racionalizar. Então, a gente vai cada vez mais respeitando a nossa verdade e percebendo que é difícil, cada vez mais, separar uma coisa da outra”.

Em uma cultura de dominação e antiintimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nós mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração.

Alisando o Nosso Cabelo, por Bell Hooks
4Fotos de Natan Fox com  as modelos Suzana & Suzane Massena
O que inspira?

Numa caminhada marcada por tensionamentos e questionamentos sobre a sua condição de mulher e negra por onde transita, trouxe colaborações fundamentais para o nosso entendimento sobre as condições étnico-raciais da mulher brasileira através da sua própria experiência de descobrimento:

“A consciência de ser mulher negra é o que me move, me empodera e me inspira. Desde jovem eu não me sentia representada pelo Dia da Mulher, até entender a diferença do que é ser uma mulher negra. Então, o que me inspira? A minha identidade como mulher negra e as descobertas que vou colecionando ao longo da minha caminhada. Esse foi um divisor de águas: o modo como eu passei a lidar com as coisas era outro, o modo como as pessoas passaram a me ver era outro e como criavam ou não expectativas sobre o meu trabalho também. A gente não teve professoras que falassem de si e da produção de conhecimento, a gente não teve determinados ícones ou símbolos que nos representasse. Quando eu falo desse ativismo cotidiano, eu entendo a necessidade de quando eu vou dar uma palestra no Ministério Público ou em espaços em que nós não estamos, de levar algum elemento simbólico da nossa cultura, porque eu testou lá representando várias mulheres que nunca ali estiveram mas passaram a pisar naquele momento. Um exercício de agir na presença ou na oralidade. No histórico do estudo do feminismo e das mulheres negras, a gente sabe que todo esse estereótipo de mulher frágil e do dia que saiu pra rua para trabalhar, da luta para ter determinados direitos, nunca foi, necessariamente, uma característica nossa. Se a gente revisita essa história dos  processos de empoderamento e de resistência das mulheres negras, a gente sabe que a nossa história é muito diferente.  E é isso que faz com que nós, quando alguém vem perguntar o que foi difícil na sua trajetória, nem saiba ao certo dizer o que foi, já que tudo, todos os dias, é tão difícil.”

3Coleção Linhas Vivas. Apresentada na Dakar Fashion Week – Senegal | Fotos: Natan Fox | Modelo: Lorraine Cruz | Styling: Ju Fonseca  |Make up: Supernova Produtora
O que motiva?

Professora de cursos de graduação e pós-graduação em Design de Moda e docente do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da UFBA, Carol coleciona ainda participações em desfiles importantes como a ida para representar o Brasil na Dakar Fashion Week – Senegal em Junho de 2013 e também no Dragão Fashion Brasil.  Mas o que motivou, tencionou e fez com aquilo que podia ser baixa auto-estima e falta de liberdade e empoderamento, se transformasse em combustível para ir além? De uma infância em que sempre ouvia a mãe chamar atenção diante de algum sinal de preconceito, aos desenhos de moda que já se arriscava a elaborar, se sentia pouco representada nas revistas e desfiles até que na adolescência vieram as revelações:  “nesse período aprendi que eu era “feia” e mais tarde quando compreendi definitivamente – sou negra! e assumi minhas características étnico-raciais como o cabelo por exemplo, tudo mudou pra mim – e positivamente – pois cada vez mais fui entendendo que era como externar um posicionamento político. Então, o que mais marcou a infância foi o adjetivo depreciativo ‘feia’ e posteriormente a transformação em : empoderada.”

5Foto: Natan Fox

Passando por situações, como militante feminista, de ter sido questionada por exercer seu papel ativista através da moda, contou-nos sobre a felicidade do reconhecimento recebido da universidade em que se formou, se especializou e se graduou (UEFS), por ter plantado a semente para o desenvolvimento de novas linhas de pesquisa para o campo da moda, ao mesmo tempo em que fala sobre as dificuldades existentes no meio acadêmico:

“desconstruir também o preconceito que existe dentro do seio acadêmico com a moda, é um outro desafio. Porque quando a gente começa a pensar em raça, a gente vai ver que todas as produções artísticas e acadêmicas, no design e na moda, são racializadas mas, como são brancas, não são racializadas, porque negritude é debatida mas, branquitude não é debatida. Na lógica, só quem tem raça é indígena e negro, não é mesmo? Branquitude como traço racial de comportamento, de escolhas estéticas, de gostos e desejos a gente não vê sendo debatido porque, pretendendo-se ser universal, ninguém vai dizer que a história da moda é branca e ela SÓ é branca, ou que a teoria da moda é branca e ela SÓ é branca”.

“Ao passo que a gente vai elaborando determinadas análises, que as pessoas vão entendendo que a aparência é o principal espaço e suporte de expressão, de identidade, de pertencimento dos marcadores sociais e da diferença. Sendo assim, a quem eu aluguei ou vendi a propriedade da minha própria imagem como mulher?”

Sendo uma profissional vitoriosa e realizada, Carol não hesita em continuar sonhando e sendo porta-voz de todas nós, seja em capas de revista, jornais, salas de aula, auditórios ou no mais longínquo e remoto espaço que sua competência, capacidade e perseverança poderá lhe levar: “sonho em desfilar em outras semanas de moda especialmente no continente africano, estabelecendo essa conexão com outras mulheres na Diáspora e assim, consequentemente, despertar o entendimento de que nossas escolhas como designers, pesquisadoras ou militantes são tanto estéticas como também éticas e que cada escolha impacta na construção da imagem e das identidades alheias”. Ocupando espaços numa batalha para disseminar belezas, construir fortalezas e empoderar mulheres a ter um livre governo de si, Carol Barreto NOS REPRESENTA.

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