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“Vamos para o sonho”

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Resgatamos as sábias palavras do Edu Lyra que fala sobre produção criativa nas periferias, política e o poder das mulheres para celebrar nossa sede de futuro.

Logo no início do NoBrasil, tivemos a oportunidade e o prazer de conversar com um dos mais atuantes líderes jovens do Brasil, o Edu Lyra. Desde então, estávamos na espera do melhor momento para dividir com vocês, um pouco dessa conversa e apresentar a trajetória desse jovem que nascendo numa favela de Guarulhos-SP,  percebeu desde muito cedo que era possível mudar o rumo da sua história e a partir daí, inspirar outros jovens também.

E uma das coisas que mais nos chamou atenção desde que passamos a acompanhar os passos do Edu, foi a sua positividade e esperança. Crença na melhoria do país, na transformação de cada indivíduo e sobretudo, na força que as organizações comunitárias podem engendrar.

Vindo da escola pública e enfrentando os conhecidos problemas do ensino do país, ingressou na faculdade de jornalismo aos 17 anos onde desenvolveu um projeto que deu, em suas palavras, um novo sentido para a sua vida: o livro Jovens Falcões. Entrevistando e contando as histórias de pessoas que “do nada chegaram a tudo”, foi em busca de entender o que os motivava e inspirava, atitude que lhe gerou protagonismo suficiente para receber prêmios, convites e na caminhada, a percepção que também podia atuar dentro das escolas, nascendo assim o projeto Gerando Falcões: “quando lancei o livro, fui convidado a dar uma palestra numa escola e quando eu cheguei lá, com esse meu jeito de dizer, com esse meu jeito de contar, foi uma coisa tão impactante, que mexeu com tanta gente – era professor chorando, aluno me abraçando, e eu falei: cara, o jovem está aqui, essa é uma porta que posso atuar também, afinal de contas no Brasil são 50 milhões de jovens! Se os jovens falcões já estão no meu livro, eu vou até a escola para Gerar Novos Falcões! Como? Contando essas histórias.  Então, eu comecei a entrar dentro das escolas públicas do Brasil e tentar fazer uma coisa que é muito difícil mas muito preciosa para eles: alterar as referências. E qual é a meta do projeto? Resgatar a auto-estima do jovem brasileiro, contar que o empreendedorismo é uma opção, fortalecer a presença do jovem na sociedade e dizer especialmente que não importa de onde as pessoas vêm, mas para onde elas vão.”

Então, eu comecei a entrar dentro das escolas públicas do Brasil e fazer uma coisa que é muito difícil mas muito preciosa para eles: alterar referências.

943380_4546525036007_2035643677_nFoto: Divulgação

Sendo para nós um momento de fundamental importância já que estamos desenvolvendo um novo especial e trabalhando em nosso próximo encontro no offline (informações logo mais em breve!), resolvemos resgatar as sábias palavras do Edu para inaugurar com a gente essa nova fase. No primeiro momento, trazer à tona a sua visão sobre a produção cultural e organizacional das periferias e quebradas do Brasil, crítica que nos serve como alicerce e motivação para uma questão que estamos nos debruçando durante toda a última semana: como criar diálogos e conectar universos para o desenvolvimento e produção criativa buscando aproximações entre centro x periferia?

Com a percepção de um gestor e a sabedoria de um morador, ele responde: “a periferia está muito esvaziada desses espaços criativos promovidos pelo estado ou por empresas. É muito comum em São Paulo os espaços de coworking, mas isso, você não vai ter na periferia! Daqui foi tirado apenas os instrumentos….o que tem então, é a organização de pessoas que se unem… o que você vai ver vibrante, é um grafiteiro que faz coisas incríveis, um rapper que manifesta sua dor através da rima e, um ou outro empreendedor social que vai ter a ousadia de construir uma ONG e de forma institucional e mais profissional, articular com empresas, com artistas e criar redes e esses espaços de interação, de esporte e eventualmente de tecnologia. Então, você vai ter no Capão Redondo o Sérgio Vaz através da poesia, os campos de futebol que reúnem as pessoas nos finais de semana, as igrejas, que apesar de ter um comércio por trás,  é um dos movimentos organizados da periferia…o crime também, através do PCC, que gira um comércio e disciplina pessoas…então, isso tudo, é o que a gente tem! Mas Edu, como é que você cita o crime? Porque é um ator que dialoga diariamente com a periferia, para o bem ou para o mal, eles estão lá! Então, espaços de networking, de tecnologia, coisas inovadoras, é tudo bem diferente,  isso é muito distante… tem, mas o que tem, é feito com a nossa inteligência, com o nosso modelo”.

 1796099_720200224727912_2702499917050512533_o“Nós usamos o esporte para transmitir valores aos garotos da comunidade. Garra, persistência e ousadia, já fazem parte do DNA dos meninos.” Foto: Divulgação.

 

945017_4509921160933_870963020_n1003792_10200625926005409_800513251_nFoto: Divulgação

Entendendo a importância que a nuvem eleitoral causa no país, já que essa entrevista foi realizada antes mesmo das eleições, ele acredita que estamos passando por um momento de evolução e de amadurecimento enquanto nação, falando sobre a necessidade do protagonismo do jovem no seio da família brasileira: “o Brasil tirou milhares de pessoas do índice de miséria, nós vimos nascer uma nova classe média e assistimos a entrada de milhões e milhões de jovens na universidade, boa parte deles, pagando ou através do incentivo do governo. De fato, o país avançou mas, não deixamos de viver um momento de descontentamento como uma panela de pressão que está em seu ápice e erupção. Nesse momento, as pessoas voltaram a pensar em política, a pensar em quem pode ser o melhor líder e existe uma insatisfação muito grande em relação aos jovens, principalmente aos jovens da periferia, porque a periferia é o lugar que faz a vida doer, é um lugar que dói, que tem pouco acesso a bens culturais, a educação é capenga, escola públicas hoje servem como ponto de venda de droga, de cocaína, maconha…. boa parte dos alunos ou alguém já ofereceu droga para compra ou já convidou a usar, eu mesmo fui convidado dentro da escola…então, a escola vai perdendo o seu significado mágico e nós temos muitas demandas aí que não estão sendo resolvidas, muito por parte dos nossos políticos não estarem conseguindo interpretar realmente quais as necessidades da periferia: falta de fato eles virem para cá e sentir o cheiro, falta eles tocarem nas pessoas,  falta eles dialogarem… o político é público mas, ao mesmo tempo, ele não sabe ser público, é muito contraditório… ser público não pode ser somente na época eleitoral, porque se não qual a credibilidade que isso tem?

“A sensação que eu tenho é que existem três frentes em que precisamos atuar: a primeira, nas manifestações. E isso se passa pelo asfalto e pela conectividade, aproveitar essa coisa virtual para mostrar a nossa insatisfação. A segunda é a gente fazer um processo de conscientização do jovem pelo voto. Já que ele passa o dia todo no facebook, transformá-lo em um novo formador de opinião dentro de casa. E o terceiro é o protagonismo, é as pessoas se organizarem dentro das suas representações e não ficarem esperando pelo estado, que é o que eu tento fazer com o meu instituto, é o que muitos grafiteiros e rappers tentam fazer também, que é simplesmente você usar sua vocação, seu dom, para tentar mudar o país e a realidade de onde você mora.”

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10443062_695690007178934_5479010873082915023_oOficinas de Futsal, Literatura e Tênis em Poá, comunidade do Edu: “na aula de tênis de hoje, conversamos sobre a trajetória de Nelson Mandela com as crianças da comunidade. Daqui a dois meses, vamos lançar um livro online que fala sobre o que esses 30 estudantes aprenderam com a vida do incrível Mandela. A obra será escrita pelas próprias crianças. Vamos dar a elas protagonismo autoral. Depois, teve aula de tênis e muito suor no rosto”. Fotos: Divulgação.

O terceiro ponto é sobre o papel decisivo das mulheres como motor para o crescimento não somente econômico mas principalmente, educativo nas periferias assunto que chega para coroar o nosso novo especial que estreia na próxima semana: “a mulher alcançou um outro nível de participação na sociedade, sendo a grande responsável na verdade por fazer nascer essa chamada nova classe C NoBrasil. Por que, enquanto só o marido trabalhava,  ele ganhava alí R$1.000 a R$1.200 reais e quando  amulher começou a trabalhar a renda familiar foi pra R$3.000! Então, foi a mulher que produziu essa classe C. Outra coisa importante é que o cara trabalha, mas, ele quer comprar roupa, ele quer ir na praia, beber uma Brahma, uma Skol… a mulher trabalha mas ela quer pintar a casa, ela quer reformar, ela pensa na família, ela quer comprar uma carne melhor, quer que o filho estude melhor… então, são diferentes os propósitos da mulher, e na minha visão, foram elas que ajudaram a acelerar o comércio e o mercado… no entanto, a mulher ainda recebe menos que o homem no trabalho, a mulher negra ainda sofre preconceito, mas, tem que ir lá, tem que fazer o diálogo, tem que construir as pontes.”

Com a certeza de que os pensamentos desse sonhador muito contribuem para o nosso próprio crescimento, que gostaríamos de encerrar sem contudo, colocar um ponto final já que acreditamos que a energia desse Falcão sempre estará presente por aqui. Um parabéns enorme ao Edu, a sua noiva Mayara e a todos os jovens que junto com eles, estão indo para o sonho.

 

E fica o convite pois para o Edu a vontade de transformar a quebrada num lugar mais vibrante não para:

“Convido todos os meus amigos para a palestra do ex-piloto de Fórmula 1 Rubens Barrichello.

Entrada: 1 kilo de alimento não perecível. Se puder, me ajude a divulgar e vamos fazer cultura na quebrada”.

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