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Do Juazeiro do Norte, é Jarid Arraes a escritora que nos representa.

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Lançando seu novo livro As Lendas de Dandara, ela fala sobre seu processo criativo, política, preconceito e nos presenteia com uma história que é pura inspiração.

por Diane Lima

Conhecer Jarid Arraes foi assim, um encantamento.  No gesto, no tom e na poesia, algo nos dizia que falávamos do mesmo lugar, de uma mesma posição em que o Nordeste, esse que corre em nossas veias, estava ali presente com toda a prosa, a métrica e a rima de quem carrega na memória do corpo e com as palavras no dedo, a missão de “dizer dizeres nunca antes ditos”.

Seja na sua produção como jornalista na coluna Questões de Gênero na Revista Fórum ou como escritora, Jarid é hoje uma das mais representativas mulheres da internet, escrevendo textos críticos em defesa dos direitos humanos, com total atenção às mulheres, a diversidade sexual/ gênero e questões raciais. Crescida numa família onde é presente a cultura do cordel bem como forte uma consciência política, aprendeu com o pai, o Hamurabi Batista, o que hoje aos 24 anos dá vida com seus próprios folhetos: uma forma que encontrou de manter viva a tradição abordando através da característica de protesto, ensino e informação própria desse gênero literário, temas, histórias e personagens pouco visibilizados no mainstream das artes brasileiras.

Do seu primeiro cordel de título Dora,  A Negra e Feminista vieram outras tantos e a ideia de contar a história de mulheres negras que os livros fizeram questão de não contemplar. Tomando como sua missão, passou a nos conduzir por um caminho de reconhecimento da nossa ancestralidade, fazendo do cordel um importante documento para promoção da cultura afro-brasileira bem como, ferramenta indispensável para o ensino em casa e nas escolas.  Entre seus títulos que encontra-se disponível no seu site estão, Dandara dos Palmares, Não me chame de mulata, Carolina Maria de Jesus, dentre outros 30 que disputam o nosso interesse e curiosidade por carregar ainda as xilogravuras incríveis feitas de próprio punho pelo pai da Jarid lá mesmo do Cariri.

“Desde muito nova eu sempre quis ser escritora, mas não entendia que aquilo era uma profissão, o que acabou acontecendo mesmo pelo destino, como se tivesse que acontecer. Eu comecei a escrever no meu blog sobre feminismo, depois fui convidada pela Revista Fórum e aí quando eu comecei a escrever os cordéis que eu de repente me dei conta: eu sempre quis ser escritora e agora eu sou escritora, socorro!”

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Fotos da CAROLINA DE MARCHI na matéria incrível que o Brasis fez com a Jarid. Passa lá e dá uma olhada!

Nessa trajetória que já tem muito pra dizer, não nos escapa falar da nossa felicidade em ter a presença de Jarid, que hoje mora em São Paulo, influenciando a tantas outras meninas e mulheres com a sua produção e opinião. Para além da incontestável relevância do que significa tê-la ocupando espaços e sendo porta-voz de tantas outras mulheres, ela não poupa criatividade dando uma aula de como a nossa história e aquilo que carregamos como nossa verdade, são ingredientes fundamentais para nos posicionar e criar coisas lindas no mundo. Como numa alquimia, ela reuniu o seu orgulho, a sabedoria e a tradição da sua família para tratar de assuntos contemporâneos de um jeito mais contemporâneo ainda: mixando, reinventando e inserindo o que era cristalizado na ordem do dia. Um exemplo de como podemos olhar para o Brasil e fazer a inovação na prática, ainda que nem sequer teorizando, vendendo ou falando sobre ela: “me assumir escritora foi um processo difícil, porque faltou referência. Todas as imagens que eu tinha de mulheres escritoras da literatura em geral, nunca era mulheres negras e nem nordestinas, então por muito tempo é difícil a gente acreditar que a gente tem talento suficiente para as pessoas de fato se interessarem pelo o que temos a dizer. Então, é uma coisa muito da auto-estima: se você nunca vê pessoas como você fazendo sucesso nem sendo reconhecidas, como vai achar que é possível? Depois de conseguir romper algumas dessas barreiras e inseguranças pessoais, eu ainda tive que lhe dar com o machismo, com o racismo, com o preconceito contra o Nordeste e contra a gordofobia e me dei conta que as vezes aquilo que você escreve, nem sempre é o suficiente para fazer as pessoas te apresentarem. O mercado quer te encaixar num perfil que é vendável e você tem que ter uma carinha comercial e quando você não se encaixa nesses pré-requisitos de repente passa a não ser mais tão interessante aquilo que você escreve”.

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Ilustração da Aline Válek representando a Iansã e a Dandara ainda bebê, no  seu nascimento .

“As pessoas aqui em São Paulo não tem vergonha de manifestar preconceito contra o nordestino e são essas mesmas pessoas que estão nas editoras, que estão na mídia e que estão em todos os lugares que nós precisamos ter acesso para ter oportunidade na vida. Então, se elas pensam isso do meu povo, elas pensam também isso de mim e como é que elas vão me dar oportunidade, achar que eu sou capaz de escrever uma coisa boa e valorizar o que eu faço? É a partir daí que já se vê essa falsa meritocracia, essa falsa ideia de oportunidade igual para todos: só o fato de eu seu ser nordestina já cria um muro nos separando.”

Empolgada com o novo desafio, As Lendas de Dandara, livro feito com muito carinho e que narra em ficção contos da vida de Dandara dos Palmares, não deixou de mencionar a responsabilidade por abordar essa tão importante mas desconhecida personagem da nossa história, o que demandou um longo trabalho de pesquisa: “tudo começou com o cordel pois eu quis fazer uma série de cordéis biográficos sobre mulheres negras da história do Brasil e entre elas, tinha a Dandara dos Palmeiras que eu conheci por acaso, quando uma companheira num coletivo que eu fazia parte no Cariri, citou ela numa fala. Pesquisando na internet, achei algumas informações um pouco controversas com inclusive teóricos dizendo que ela nunca existiu. Até que eu escrevi um texto para a Fórum no dia da Consciência Negra em que a chamada era: “E a Dandara dos Palmares, vocês sabem quem foi?”.  O texto bombou muito e eu recebi muitos comentários bem desaforados com muita gente dizendo que ela era só uma lenda. Aí eu pensei: bom, se ela é só uma lenda, eu vou criar lendas de Dandara, porque daí vai ter mais conteúdo sobre ela, vão ter que falar mais dela, pesquisar e investigar! A ideia então é falar sobre ela de forma poética em que o discurso da militância só vem pelas atitudes, palavras e ações da própria personagem. Para mim tem sido um momento muito lindo, estou muito orgulhosa, porque se ela existiu ou não, a presença dela em nosso imaginário já é uma referência e exemplo de força para todas as mulheres negras. Uma história que merece ser perpetuada”.

O livro que é uma produção independente (aloww editoras, depois do lançamento que tal chamar a Jarid para conversar e levar a proposta para mais pessoas?),  vai sair em formato impresso e e-book e tem lançamento previsto para Julho, vai trazer as ilustrações e a colaboração mais que especial da ilustradora e também escritora Aline Válek que breve esperamos mostrar mais por aqui e é braço direito de Jarid nessa caminhada.

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Buscando com o seu trabalho deixar uma colaboração que seja relevante e faça a diferença na vidas pessoas, nos contou ainda como foi se descobrir como mulher negra e como o feminismo a ajudou a entender o seu papel no mundo: “minha mãe sempre me ensinou a ser independente e ter autonomia, aprendi o feminismo na prática dentro de casa. Depois pesquisando mais, foi que eu conheci feministas negras que falavam sobre identidade racial, porque até então eu me via como miscigenada. Até que uma companheira minha, a Carla Agressilva (sim é um sobrenome poético!) lá do Cariri falou: “Jarid, você tem que parar de dizer que você é miscigenada pois na história do Brasil, existiu uma política oficial de miscigenação para branquear a população e toda vez que você concorda com isso, você está fazendo o jogo do racismo!”. Ainda que minha pele fosse um pouco mais clara, era nela que eu sofria já que eu carregava todos os traços que me identificavam como mulher negra. Foi aí que comecei a entender, a aceitar o que via no espelho e o empoderamento que veio com esse reconhecimento foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida .”

Citando a importância de ter uma nordestina esse ano na maior Festa Literária do país- FLIP, a Karina Buhr, finaliza com a gente falando do que espera para o futuro: “tudo o que eu quero é que tudo o que eu falo contra, possa deixar de existir. Eu acho que é minha missão de vida! As pessoas até podem achar ingênuo quando falo que meu sonho é mudar o mundo e elas falam disso como se fosse algo pejorativo e eu não acho pejorativo, acho que a gente tem que ter essa intenção porque se não a gente age como se fôssemos robôs que não tem nenhum propósito com o que faz. Eu me sinto muito realizada quando eu recebo uma mensagem de uma pessoa dizendo que meu texto fez ela refletir em uma coisa que ela não tinha pensado ainda, ou que meus cordéis ajudaram uma aula na escola. Isso é o que me move, é o meu sonho!”

Honrando e fazendo jus ao seu nome que significa causador de contendas, aquele que nasce para brigar, discutir e debater, Jarid segue tencionando, ocupando espaços e nos trazendo orgulho, afinal Ela Nos Representa.

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