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Dexter: “é pra frente que se anda jão, corre com nois”

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Exclusivo: em um papo reto com o Dexter falamos sobre política, sistema carcerário, ostentação e sobre a polêmica reportagem do Profissão Repórter.

por Diane Lima 

Dexter dispensa apresentações mas, a primeira vez que assistimos Oitavo Anjo foi como mergulhar num choque de realidade em que para nós se tratava de um documento visual que em essência, se posicionava como um dos mais intensos e verdadeiros clipes da música brasileira. Sem dúvida, a partir daí, só aumentou ainda mais o desejo de trocar uma ideia com esse cara que durante 13 anos de reclusão, fez música para denunciar o sistema carcerário nacional e ser porta-voz da realidade das favelas e periferias.

Marcos Fernandes de Omena em nome de batismo e Dexter numa conjunção dos adjetivos destro, direito, esperto, ligeiro e sagaz que veio quando lendo a biografia do Martin Luter King, descobriu que um dos seus filhos assim se chamava, carrega uma história de dificuldade e salvação. Criado por uma mãe adotiva desde os 13 dias de vida e conhecendo desde muito cedo a realidade da dureza das periferias do Brasil, assume ter sido o rap, o grande responsável pela sua mudança, mensagem que responde a pergunta feita pela seguidora do nosso instagram Júlia Prado: “a cultura hip hop tem essa característica de transformar a vida das pessoas para melhor. Quando eu recebi essa cartilha ela rezava isso e a partir do momento que o rap me ajudou, eu tinha que fazer o mesmo para ajudar outras pessoas também. Eu já passei por muitas experiências então, acho que o mais importante é manter as pessoas lúcidas fazendo com que a música ajude-as a construir uma nova caminhada. O nosso mundo é tão frio e tão calculista  que precisa de pessoas com mais amor… nossa realidade só vai mudar quando a ‘educação for de fato educativa’ e quando as pessoas ajudarem mais ao próximo, então, fico lisonjeado de saber que minha música tem esse poder.”

nobrasil_haroldo_saboia-9078Foto: Haroldo Sabóia

Ele que acabou de montar a Oitavo Anjo Produções para cuidar da sua própria carreira e alçar novos vôos gerenciando em breve outros artistas através também de um selo fonográfico, nos contou sobre a importância de aprender a empreender feliz sobre os rumos e as novas oportunidades que surgiram, como o convite para gravar a trilha tema da NBA Global Games pela ESPN, o site novo, além do sucesso do lançamento recente do DVD A Liberdade Não Tem Preço, que comemora seus dois anos de liberdade e que recebeu convidados mais do que especiais. No entanto, durante toda a construção dessa matéria nos veio um questionamento que muito se relaciona com os temas da entrevista que agora vamos compartilhar: até que ponto a super exposição sobre a história com ares de mártir e de roteiro de filme, já não se aplica como uma problemática quando o assunto é a ressocialização? Apesar de estarmos interessados em saber a experiência e a história que constitui hoje o Oitavo Anjo, resolvemos deixar de lado nessa conversa detalhes sobre a “vida-crime” para explorar em potência apenas sua visão de mundo. Na primeira parte da entrevista escrita, ele fala sobre eleições, política, sistema carcerário e o que mudaria se o clip produzido nos anos 2000 fosse feito hoje. Além disso, não podíamos deixar de esclarecer a reportagem questionável do Profissão Repórter que induziu de alguma maneira, uma situação que nada confere com a realidade e que gerou nas redes sociais do Dexter, certo incômodo por parte dos seus fãs. Em um vídeo intenso, cru e verdadeiro que compõe a segunda parte da entrevista, ele explica a situação prometendo ser a última vez a tocar no assunto, compartilhando ainda com a gente sua visão sobre a música que prega no hip hop ou no funk a ostentação. Ao fim, deixa uma mensagem de paz, um banho de motivação e nos enche de esperança sentenciando:

Máximo respeito ao Dexter por abrir o coração com o NoBrasil e propiciar uma aula de sabedoria e humildade; ao Flávio Pires nosso parceiro por proporcionar o encontro e abrir mais uma vez o Quitandinha literalmente só para nós; a Nando Cordeiro pela ajuda com o vídeo e a Haroldo Sabóia por capturar mais uma vez alma e intensidade de forma tão especial nas imagens do Dexter. Também, a Oitavo Anjo e a Luciana Alves da PublishCom pelo profissionalismo e por nos receber tão bem.

Vem que tem.

Vá Fundo NoBrasil.co

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NOBR: Momento de eleição e de tensão na política brasileira. Como o Dexter artista e cidadão vê essas mudanças ?

Eu acho que é um momento de cobrança, acho que a juventude está se envolvendo mais e eu acho importantíssimo, porque a mudança depende deles. Afinal de contas, a juventude e as crianças são o nosso futuro. Eu ouvi muitas coisas no facebook que me entristeceram bastante, pessoas acusando uma determinada região do Brasil de ser isso, de ser aquilo, os pretos, pobres nordestinos, pô! acho que todo mundo tem o direito de votar, independente!  Na verdade eu não voto, eu estou na condicional e no país em que a gente vive, quem deve a justiça fica impossibilitado de votar, apesar de que eu acho que o que eu fiz já está mais do que pago, ao dobro dos erros que eu cometi, gostaria de ter o direito de votar e também de ajudar a escolher o futuro do nosso país.

Mas enfim, obviamente que eu tenho as minhas convicções políticas, o rap e o hip hop me ensinaram a pensar, a raciocinar e a entender os pós e os contras. É claro que em todos os partidos existe a corrupção, existem diversos problemas, não é só no PT, no PMDB são em todos e eu acho que tudo depende da gente, o rap há 30 anos vem falando isso.

Antes dos anos 2000 não se prestava atenção no que o rapper falava ou cantava, sempre foi taxado como música de marginal, de bandido, de preto, de favelado, agora, essas pessoas esqueceram que essas outras também são seres humanos, essas pessoas também pensam e o hip hop me ensinou a pensar muito mais do que a escola inclusive, porque hoje vivemos num sistema que joga todo mundo lá e de onde saem muitas vezes, o que chamam de analfabetos funcionais, não é esse o nome? Fora que os livros didáticos não ensinam a verdadeira e a real história do nosso país, então eu acho que a nossa educação deveria ensinar ao nosso povo a ter orgulho de quem ele é, você vê ainda o nosso povo alisando o cabelo, certo?!, você vê o nosso povo ainda se tratando como moreno…de toda forma, acho importante que se discuta o momento do nosso país para entender o que se quer ou o que não se quer, mas acho que nós, pobres, pretos, favelados de periferia temos que entender como funciona essa máquina, pra também não ficar criticando partidos em vão já que a televisão só mostra o que esse mesmo sistema quer. Acho que o importante é que as pessoas cobrem a confiança do voto que foi dado e que mobilizemos sempre que possível: para cobrar mais, claro, mas, para estar junto também.

dexFoto: Haroldo Sabóia

O clip Oitavo Anjo em nossa opinião é um dos retratos mais verdadeiros e a representação mais fiel do sistema carcerário brasileiro por documentar e denunciar a realidade de milhões de presos que estão na reclusão. Se ele fosse feito hoje, mudaria alguma coisa? 

O sistema carcerário está cada vez pior né?! Quem detém o poder, só investe na repressão e na opressão. Se joga seres humanos dentro de um local, todo mundo fica lá amontoado e sem nenhum tipo de política para reinserção dessas pessoas. Então, é muito difícil você socializar, se recuperar – e essas palavras são mais difíceis ainda, porque na verdade como você vai recuperar, ressocializar, que são as palavras que eles gostam de usar, quando que na verdade o sistema nunca socializou essa pessoa? É muito complicado você entender esse mecanismo… a periferia é um laboratório, tudo está lá, sabe?! O jovem, ele também tem vontade de ter as coisas que a TV mostra…o cara mais pobre na novela, ele tem um carrinho “da hora”, enquanto que na verdade a realidade do povo é outra, morô?! Então, você causa um colapso aí em que muitas vezes muitas pessoas vão atrás da maneira mais eficaz, mais rápida que é colocando uma arma na mão, vendendo droga e que entra num ciclo vicioso, porque as pessoas que vão parar dentro do sistema, elas também custam dinheiro, só que esse dinheiro também não chega da forma como deveria chegar….. 85% do jovens que vão para a prisão são jovens que cometeram apenas um crime, reús primários, essas pessoas elas deveriam ter uma segunda chance, precisamos estudar essa segunda chance também, porque o certo é que elas vão sair de lá pior do que elas entraram.

 

Sobre os projetos educativos realizados

Na verdade eu sou a favor das penas alternativas e já foram tentadas algumas coisas, mas você vê que a população carcerária tem dificuldade. Quando eu falo do sistema me dá uma revolta muito grande porque eu tive lá dentro e por si só eu tentei melhorar algumas coisas lá: eu levei cursos profissionalizantes pra lá, palestras… eu tinha na verdade um projeto que eu desenvolvia com a ajuda de alguns companheiros, chamado Como Vai Seu Mundo que era justamente para provocar no indivíduo como ia o mundo dele, e eu graças a Deus, vi jovens que passavam o dia inteiro jogando bola e fumando maconha, virem para o nosso projeto fazer música, ler e fazer fotografia…uma forma de mostrar que se o Dexter que passou 13 anos dentro do exílio conseguiu, que eles também poderiam conseguir… então, era sempre uma coisa ligada na outra para que eles se sentissem valorizados e é isso que não tem! E deu certo pra gente! Então, o sistema carcerário é isso, esse âmbito afogado. E é preciso ser dito, meu amigo e minha amiga, que quando você ouve no Datena que é você quem paga, você precisa saber que o seu dinheiro não chega da forma que deveria chegar ! Se chegasse teria que ter escola, mais saúde, alimentação… o seu dinheiro vai para o bolso de algum político, para o bolso de algum diretor de prisão, não vai do jeito que o Datena diz que chega. Desafogar o sistema carcerário seria uma solução, morô?!

E o clip Oitavo Anjo representa essa realidade. Foi gravado nos anos 2000 mas se fôssemos regravar seria a mesma coisa, com pouquíssimas melhoras já que hoje não se mata mais dentro do sistema. Tem uma cena nele que um informante morre. Hoje, foi conversado com as lideranças – e eu não estou falando de PCC, de A ou de X, estou falando de seres humanos que resolveram se organizar para montar uma estratégia para que não se matasse tanto e não se morresse tanto! Então as pessoas que lêem, que se informam dentro da prisão, resolveram se organizar para que isso não acontecesse mais….é preciso que as pessoas saibam que rebelião só acontece depois de mais de um mês ou um mês e meio de negociação, que é quando chega ao extremo mesmo, certo?! Os “parcerinho” tão morrendo lá, tuberculose, isso, aquilo, soro positivo e a saúde não vem cuidar dessas pessoas! É uma epidemia de gente saindo de maca…. se aqui fora a gente faz passeata, a gente se rebela, lá dentro que é o pior lugar do mundo que o ser humano pode se encontrar, não seria diferente…

nobrasil_haroldo_saboia-9143Foto: Haroldo Sabóia

O que você acha do momento que vive o hip hop nacional? De alguma maneira tivemos uma superexposição em programas de TV, com o rap chegando em lugares onde não havia chegado antes e entrando na casa da “família brasileira”. Como você vê isso tudo ?

Eu acho que é um movimento natural, acho que uma hora ou outra isso iria acontecer. Vejo que o importante é continuar levando a essência do rap. Eu nunca disse que eu achava que não devíamos ir em programa de TV, nunca falei que não devíamos ganhar dinheiro, eu nunca falei nada disso, eu sempre disse que devemos escolher os programas que vamos… o fato de não ir a televisão deu certo para um grupo só, coisa que acho legítimo também, importantíssimo!

Algumas pessoas vêm cantando algumas coisas sem tanta responsabilidade assim e isso de todo modo, abriria portas!  Mas eu ainda acho que o rap continua sendo o menos visto, né!? porque querendo ou não o rap educa as pessoas e educar as pessoas em nosso país é como dar um golpe de estado.

 

 

Indicação de leitura: Veja a reportagem e o MiniDoc Quanto Mais Presos, Maior o Lucro produzido pela Agência Pública.

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