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Um jovem entra para a torcida organizada querendo matar alguém ou ele entra querendo ter acesso a alguma coisa?

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Denis Almeida, Presidente da Torcida Jovem do Santos fala sobre violência, a mídia e o papel transformador do futebol na vida de um jovem.

por Diane Lima 

Denis Almeida da Silva tem uma história de molhar os olhos. Na verdade, a primeira vez que nos encontramos, confesso que era como se houvesse todo um mistério criado durante muitos anos das impressões vistas em jornais e TV, ao redor daquela figura que naquele momento era nos apresentada como o futuro presidente da Torcida Jovem do Santos. Naquela época, há uns dois meses atrás, o Denis se preparava para assumir umas das funções que talvez nunca tivesse passado pela sua cabeça: ” vendo a minha realidade social, a gente não imaginava um dia poder ir assistir um jogo do Santos e o que era sonho, poder conhecer um outro estado e ser parte do Santos, passou a ser uma realidade. “

Filho de baiano que perdeu a mãe quando tinha apenas um ano e 4 meses de vida, cresceu ligado ao pai, um torcedor apaixonado pelo Santos Futebol Clube que fez do esporte, religião dentro de casa. Hoje, passado mais de 10 anos de Torcida em que ele já visitou quase toda a América do Sul e países como Barcelona e sim, o Japão, lembra emocionado momentos importantes como não ter tido dinheiro para fazer a “carterinha” do clube e o fato de ter sido os amigos, a se juntarem para lhe dar de presente: ” São Paulo – Santos era uma distância que parecia São Paulo – Japão pra nós, então a torcida despertou em mim essa vontade e mostrou que era possível e é isso que a gente quer despertar nos mais jovens também”. Pensamos se não tinha sido talvez aí, o momento combustão que provocou no Denis a possibilidade de exercer um papel político dentro de uma Torcida Organizada que se resume pra gente em uma palavra: solidariedade.

Contudo, não queremos aqui colocar panos quentes sobre a série de problemas com rivalidade e a forma brutal que muitas vezes membros das torcidas se comportam deixando marcas e provocando estragos. Isso é um fato, parte das estatísticas sobre a violência no país. Mas a grande questão, aqui de ordem sócio-política, parece inevitavelmente passar pelos seguinte questionamento: porque não fazer um trabalho em conjunto com elas? Em um país onde o Futebol é a primeira e única opção de lazer para a maioria das famílias, quem proporciona, organiza e possibilita o torcedor ir, chegar mais perto e vivenciar uma partida ? Porque que as Torcidas Organizadas não estão mais próximas em nosso imaginário a estruturas institucionais que promovem inclusão social, transformação e suporte sócio-educativo para seus associados? Porque não criar através de uma agremiação que tem controle sob milhares de pessoas, formas alternativas para proporcionar educação e lazer, utilizando o futebol para melhorar a vida das pessoas? Porque os milhões e milhões que correm pelo futebol não beneficiam em nada o torcedor? Afinal de contas, Carnaval e Futebol são umas das poucas manifestações culturais que realmente abraçam em números expressivos,  a grande parte da população sem acesso a outros equipamentos culturais no país. E ainda sobre o próprio estádio enquanto esse espaço de entretenimento e lazer, como é o tratamento dado ao público pagante? Já paramos para pensar sobre que é possível que seja o mesmo dado a Amarildos, Claudias e meninos Joel nas favelas de todo o Brasil? Nas conhecidas violências diárias da exclusão? Sobre tudo isso, Denis responde:

“A pessoa é tratada como lixo e como bicho desde o começo, ela vai reagir como? Você vai pedir uma informação ao policial ele nem olha na sua cara. Num atrito que tiver dentro de uma partida de futebol, que você precisa de uma pessoa com bom senso para lidar com a situação, o bom senso vai ser a borrachada. É isso que nós vamos ver dentro do estádio. Por exemplo: o Santos jogou semana passada às 22h. Eu tenho carro. O jogo acabou quase meia noite. 2h da amanhã foi a hora que eu cheguei na Zona Leste de SP.  E quem não tem carro? Estou cansado de ver uma pessoa que chega 01 e pouco, ela vai ficar até às 5h da manhã para trabalhar direto ou até às 4h para esperar o ônibus voltar… Mas será que é certo ter uma partida de futebol às 22h? Jogar o trabalhador para assistir o espetáculo às 22h para chegar em casa de madrugada, para ele trabalhar no outro dia, para ele não ter ônibus para voltar? Então isso não é violência? E quem briga por isso? Quem vai lá reclamar?”

nobrasil_haroldo_saboia-9042Foto Haroldo Sabóia.

Na conversa com o Denis, todas essas ideias apareceram como grandes interrogações em nossas cabeças e sobre isso, não podíamos deixar de destacar o papel decisivo da mídia brasileira quando o assunto é a formação de uma opinião destorcida e quando não, induzida sobre a relação violência X torcidas: “a violência está dentro da sociedade e nós tomamos conta da parte mais crítica, que é a periferia. Será mesmo que quando um jovem entra para a torcida organizada ele entra querendo matar alguém ou ele entra querendo ter acesso a alguma coisa? Eu tenho 20 anos de torcida, sou dirigente a 10 anos, não tenho uma prisão, não tenho nenhum problema com a justiça, trabalho desde os 15 anos, estudei até onde deu pra mim e eu estou assistindo na televisão ouvir que só tem marginal, só tem bandido? Tem uma hora que vc fala: ‘pô, que que eu vou fazer da vida?’ Você tá indo numa partida de futebol, mas você vai ficar sendo taxado de marginal? Aí nessa hora não existe preconceito né… porque você vai na torcida organizada só tem pobre lá! Nós temos todo tipo de gente, de marginal a marechal, a única obrigação dentro da torcida é ser Santista. Se ele é professor lá ele vai ser santista, advogado? lá ele vai ser santista, está desempregado, sem dinheiro? a gente vai fazer uma ‘vaquinha’ cada um vai dar dois reais e ele vai para o jogo, a gente não deixa ninguém pra trás, ninguém vai ficar na vontade então, a gente precisa ser visto por esse lado também (…) eles precisam de nós, sabem da nossa importância mas não traz a gente pra fazer parte do trabalho (…) a gente as vezes é convidado para dar entrevistas para jornais mas procuramos não dar entrevista mais, porque é deturpado tudo o que a gente fala, nosso depoimento é totalmente modificado e existe uma pauta que a gente sabe dentro do jornalismo que é para entrevistar torcedor organizado como facção (…) mas pera aí, eu sou facção?”

denismontagemFoto Haroldo Sabóia.

Sem dúvida, como o próprio Denis finaliza o vídeo, muita coisa precisa ser feita para cobrar da torcida uma postura melhor, mesma lógica que rege o pensamento quando se busca entender os reais motivos da violência no país. Nesse vídeo, Denis deixa uma mensagem clara e humana. Um desabafo que representa milhares de vozes reprimidas e que sabe que um dos poucos lugares para se ter voz é na partida, na torcida, no jogo e na arquibancanda. Momento de gritar, torcer e fazer a festa.

Um lugar que nacionalmente deveria ser um espaço imantado, sagrado por exercer no esporte o auge da sua democracia, momento para acontecer trânsitos culturais, para aprender, formar cidadãos e celebrar.

Nossa total admiração ao Denis, pelas conquistas e pela luta, um salve ao Flavio Pires pela oportunidade de mais uma vez nos conectar com o que é de mais genuíno da cultura criativa brasileira e um salve geral para todas as torcidas organizadas e torcedores do Brasil.

Paz.

Veja mais: assista o vídeo da campanha Desacredita Não que contou com 5 grafiteiros representando momentos importantes do time da Vila e que teve curadoria no parceiro Flávio Pires.
Agradecemos mais uma vez a Haroldo Sabóia pela colaboração com as fotos e a Nando Cordeiro pela ajuda diária.
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