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Com Tempo Com Coragem Com Coração:
A Militância Estética de Thaís Muniz

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Com os turbantes, ela quer trocar com as pessoas, ganhar sorrisos e devolver espelhos.

por Diane Lima
Ilustração: Marcos Almeida

 

Uma performance de contato que através da poesia estética dos turbantes, promove  uma forma particular de trocar com as pessoas, ganhar sorrisos e devolver espelhos.

 

Essa é uma das missões por trás do Turbante-se e a grande paixão da designer e gestora criativa, Thaís Muniz. Baiana de Feira de Santana, Thaís é uma dessas pessoas de alma lavada, que nasceram para contagiar e literalmente fazer a cabeça de todos os que aparecem à sua frente, motivo pelo qual foi uma das grandes inspirações para que o especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira acontecesse. É preciso que seja dito ainda que essa turbanteira e uma das mentes mais criativas que conhecemos é também parte da família NoBrasil, que viu como amiga-irmã crescer vontades, nascer obstáculos nunca deixando portanto de nos lembrar que a luta sempre vale a pena. Aqui estamos e fica registrada então a nossa mais profunda gratidão. 

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 Seja através das performances, de um workshop ou dos tutorias que lança em sua página no Facebook, a ação apesar de pacífica e lúdica tem bem claro o  seu objetivo: causar pane nos padrões de beleza dominantes, reverenciar e espalhar a beleza da cultura e estética negra e, acima de tudo, propor o turbante como veículo que conduz o resgate da auto-estima. Entre as ações já realizadas estão a participação dentro de hospitais no Outubro Rosa na campanha contra o câncer de mama, os encontros com jovens que buscam por um momento de transformação e afirmação da beleza, vivências em quilombos como o do Gurugi na Paraíba ou em festivais como o que ocorreu na cidade histórica de Rio de Contas, local no qual inclusive, a performance de contato Turbante-se nasceu: “foi um lugar especial para celebrar tudo o que eu vinha fazendo por ser em um quilombo cuja sua vila era povoada por escravos fugidos. A performance que leva o mesmo nome do projeto e que aconteceu a convite do Festival Rua dos Inventos, propôs que as pessoas trocassem um sorriso por um turbante e uma foto instantânea (tipo Polaroid), imagens feitas em colaboração com a fotógrafa Shai Andrade. Da reação das pessoas tivemos filas, convites para ir até as casas e um envolvimento que marcou, foi profundo e até inesperado.”

 “A ação ocorreu por toda a cidade e a galera ficava falando que onde tinha burburinho, é porque tinha turbante no meio”.

 

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1510586_464113877051396_1383266811_nFotos acima de Shai Andrade

Uma moda que não é consumo pelo consumo

 

Apesar de trazer  uma prática que reúne estética+pano+adorno e tem tudo para ser enquadrada enquanto “moda”, Thaís se coloca em um lugar onde as fronteiras, os rótulos e as vontades de fazer não tem limites, e em que a causa é mais importante do que o produto/serviço do seu trabalho. Nesse lugar, o que vale mais é o alto nível de sensibilidade empregada e feita através de um objeto cavalo-de-troia que promove uma reflexão sobre as mudanças de paradigmas inscritas na memória do corpo no que tange o seu aceitar e se permitir: ” sempre que me perguntam seu eu trabalho com moda eu sempre fico em dúvida se digo que sim, ou se digo que não diretamente, porque por mais que eu desenvolva um trabalho ligado ao indumento, não é uma moda como instaurada no imaginária, consumo pelo consumo. Isso está expresso também em trabalhos de outras pessoas que se posicionam como eu de forma independente e dentro do design, pois quando gerimos todo o processo, da motivação à pesquisa, começamos a entender de maneira mais latente como é possível interligar todos os suportes na construção da nossa própria linguagem, que pode as vezes nem ser de moda, mas traduz o que você quer dizer .”

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10003928_464100267052757_1419956570_nFotos acima de Eládio Machado

Garimpando tecidos por onde passa e depois ressignificando-os seja com sobreposição de padrões ou intervenções de artistas convidados como fez com o grafiteiro SuperAfro, a designer vem preparando o lançamento das suas próprias estampas além de uma série de documentários. Traz ainda como reforço à construção da identidade da sua marca, uma embalagem feita com as saudosas redinhas de fruta normalmente encontradas nas feiras como a de São Joaquim, na capital baiana. A perícia no recontextualizar o objeto popular é parte ainda dessa tentativa de imprimir na tradição, um olhar contemporâneo, reinserido-o como elemento possível para fazer uso no dia-a-dia da mesma maneira como encara o acessório de cabeça. Pra gente, fica claro que não se trata apenas de delimitá-lo no pior do que a palavra tendência pode representar quando emaranhada com o consumo, mas de posicioná-lo como dispositivo simbólico que representa para além da nostalgia e do desgaste de um elemento cultural, as suas transformações, adições, subtrações e dinâmicas. Exatamente como citando Godard coloca a Suely Rolnik quando traçando encontros entre subjetividade, arte, corpo e política diz que:

“a cultura é a regra e a arte é a exceção”.

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Ao ver pelas ruas a tag do artista e grafiteiro SuperAfro e a reflexão que essa assinatura inspira nos muros, Thaís o convidou para assinar  a primeira tiragem de lenços da @turbante_se & co.

 

Da internet, extraiu todo o potencial da rede em reunir pessoas em grupos de interesse para compartilhar a sua causa, promover os eventos e as vendas online, movimentação que está sendo feita agora da Europa, onde faz nesse momento, a Turbante-se EuroTrip.  Em tempos onde muito se discute sobre apropriação cultural, escolheu para se oportunizar a criar trânsitos com outras culturas e deixar a semente sobre o que no fundo significa e representa suas amarrações : “o que sinto é que encontrei uma forma muito especial de trocar com as pessoas. Apesar de o turbante ter sido um elemento que foi renegado por muito tempo é cada vez mais presente um movimento em todo o mundo de resgate e de expressão do seu uso, como um posicionamento político. A minha função é justamente inspirar e ensinar sobre a arte das amarrações, motivo pelo qual priorizo o contexto histórico e a reflexão sobre o que elas representam criando nas pessoas relações de significado para que não se torne algo frívolo, banal e sem o devido respeito.”

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1511366_464092367053547_332253926_n Turbantes feitos para a Marie Claire Austrália em passagem por Salvador

Quando perguntamos sobre o futuro e o que ela espera do projeto, veio a memória uma frase do Osho presente no texto que explicamos o que queríamos dizer com esse especial quando falamos Com Coragem: “É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser”. E como tal, ela pontuou que entre tecidos, estampas, encontros e qualquer pitada de vaidade que possa existir nessa trajetória, o melhor mesmo era quando ao finalizar um turbante vinha o sorriso: “fiscalizo para que a pessoa não fique durante o processo se olhando no espelho e essa sensação de surpresa quando chega ao fim, é gratificante. Maneira de transformar e de mostrar que tudo pode ser de uma outra forma, trocando em dois minutos que seja de conversa, o mínimo de energia porque é nesse momento que as pessoas se abrem, conversam, se envolvem e se apaixonam também. 

É isso que eu espero, continuar gerando sorrisos.”

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4   5Fotos da performance de contato no Festival dos Inventos em Rio de Contas que contou ainda com a colaboração da fotógrafa Shai Andrade

Nosso único desejo é que Thaís Muniz continue conseguindo Com Coragem e esse sorriso no rosto, criar uma legião de apaixonados com a sua militância, pequenas revoluções individuais que agem no único lugar que a  ditadura da beleza não pode chegar: na alma e no coração. 

Vá Fundo NoBrasil.co 

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tumblr_n3ivahbDum1tqa3k8o1_1280  8 9Fotos de Shai Andrade

Saiba mais: http://turbante-se.tumblr.com
https://www.facebook.com/turbante.se

Vá Fundo.

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Comments ( 1 )

  • jota says:

    Lindo o trabalho da Thaís! Ver gente que acredita no que faz e faz com amor é inspirador .

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