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Com Tempo Com Coragem Com Coração: Karlla Girotto por uma política da imaginação

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Como mediadora do G>E, ela vem nos ensinando novas possibilidades de existência criativa.

“Então somos um grau de potência, definido por nosso poder de afetar e de ser afetado. Mas jamais sabemos de antemão qual é nossa potência, de que afectos somos capazes. É sempre uma questão de experimentação. Não sabemos ainda o que pode o corpo, diz Espinosa, só o descobriremos ao longo da existência. Ao sabor dos encontros. Só através dos encontros aprendemos a selecionar o que convém com o nosso corpo, o que não convém, o que com ele se compõe, o que tende a decompô-lo, o que aumenta sua força de existir, o que a diminui, o que aumenta sua potência de agir, o que a diminui.
Peter Pál Pelbart, 2008.

 

por Diane Lima
Colagem feita com imagens do G>E, obras do Nino Cais e Cildo Meireles

 

É sobre como continuar sendo vivo e atuante no mundo hoje, como extravasar uma criatividade em um sistema que não te permite e como dosar essas relações se entregando a processos de auto-conhecimento criativo alguns dos questionamentos e inquietações que o G>E (lê-se Grupo Maior que Eu), projeto mediado pela Karlla Girotto vem investigando.

Antes de entrar de cabeça portanto nessa história que muito contribuiu para o entendimento sobre a nossa própria pesquisa, gostaríamos de uma breve parada para manifestar um pouco do nosso contentamento e fazer alguns agradecimentos. Desde o nascimento do Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, nunca foi a nossa intenção desenhar, delimitar perfis e nem modelos de produção. Havíamos uma ideia de como tais expressões poderiam surgir mas nos encantava ainda mais a possibilidade de topar com o inesperado, já que a nossa questão partiu em saber quais as diferentes maneiras que profissionais nos quatro cantos do país, estão encontrando para romper a lógica econômica, política e social do mercado e ir além. Na busca desse improvável, um série de possibilidades vieram à tona durante a conversa com a Karlla através do que o próprio G>E significa. Tivemos a certeza que cada nova pessoa que trocamos uma ideia ou que passa por aqui é importante não por deixar uma colaboração como num manual de dados ou uma enciclopédia que versa sobre “o que temos que fazer então (?)” mas, por simplesmente fortalecer e deixar o caminho mais claro e menos tortuoso. Sem respostas prontas, chegamos a conclusão que o nosso papel é de problematizar e articular exemplos prováveis que navegam e se perdem entre uma mentoria e uma mediação, lugar que ficamos felizes de ocupar, poder construir e experimentar com vocês. Também, um super obrigado a Karlla pela confiança em abrir um processo tão íntimo, maturado, de tamanha delicadeza e cuidado e que se conectou de forma tão potente com tudo o que estamos tentando traduzir com esse especial aqui NoBrasil: o G>E é em essência uma célula vibrante que agindo de modo molecular, está fomentando em um núcleo de criativos-pensadores, novas formas de existir e conceber a moda brasileira e esse fato só por existir, já nos faz contente.

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O grupo que é formado por 11 pessoas e começou em setembro do ano passado, iniciou suas incursões quando a Karlla fez uma chamada pelo Facebook para um workshop no seu atelier: “apareceram pessoas muito preciosas, muito especiais e os encontros passaram é ser uma coisa muito importante para cada um que chegava ali”. Karlla que durante algum tempo participou das maiores semanas e eventos de moda do país, explicou como se deu o seu processo de reflexão sobre esse fazer enquanto criadora e que levou-a a através do G>E, confabular essas possibilidades alternativas de produção, de processos criativos e também de colaboração mútua: “na verdade eu nunca me encaixei no sistema moda, nem na linguagem moda e foi essa minha vivência que me levou a pensar: se lá não era possível, onde era possível então? Passei a pensar que talvez viesse embutido no modo de existência, no dia-a-dia, não precisando necessariamente significar comércio,  trajetória, uma carreira…. você faz aquilo para se manter viva, seja em seu processo de arte ou de design. Eu não parei, estou aqui, eu produzo pensamento, produzo texto, desenho e por isso a necessidade do silêncio, do estar longe de um burburinho que não me contribui em nada…coisas que hoje não fazem sentido nenhum na minha vida.  Nesse caminho também, você vai fazendo as suas alianças, as suas escolhas: com quem compactuar para continuar cada vez mais potente no meu fazer?  As vezes a gente encara coisas achando que vão ter algum retorno mas quando você vai ver aquilo ali não é nada, são coisas apenas para te desvirtuar daquilo que você estava fazendo e precisa fazer.”

 “se lá não era possível, onde era possível então?

 

6Interações do G>E com Suzy Okamoto e Gustavo Silvestre

G>E se define então como um programa intensivo e extensivo de experiência transdisciplinar para uma política da imaginação. Através de leituras e materiais auxiliares,  constrói territórios e subjetividades em uma dinâmica totalmente aberta e viva que une desde materializações que cada pessoa do grupo traz para discutir, até visitas externas ou imersões que colaboram com o processo da própria Karlla em projetos que é convidada a participar: “eu sempre falo que o G>E não é só uma coisa de processo criativo é também sobre como estar no mundo hoje. Quase todo mundo que apareceu aqui, é gente que vem de um processo de desgaste muito grande com a indústria e o sistema da moda. Chegam buscando tentar entender o que fazer com essa parte criativa e aí para entender isso, é preciso entender primeiro que não é culpa de cada um não conseguir colocar isso no mercado, porque é com essa fragilidade que muitos de nós muitas vezes nos encontramos. Falta o entendimento que é o próprio mercado que não te permite que você use da sua potência inteira e essa não permissão, acaba por gerar esses conflitos. Vamos a um exemplo que eu sempre gosto de contar porque explica muito a situação:

você acabou de sair da faculdade, tem um trabalho lindo, maravilhoso que demorou 4 anos para construir. Daí você vai apresentar seu portfólio numa empresa de moda e o cara fala: ‘meu, é lindo seu trabalho, já está contratado, você é um puta designer’. Começa a fazer as suas coleções e passa a ser ‘gongado’ a cada reunião que você entra: ‘isso aqui não vende,  tá louco, isso aqui é arte! Não! Pega as camisetas que deram certo na coleção passada, faz só uma estampinha, muda de cor e bota pra vender’. Depois de 1 ano que você está cinza, sem brilho no olho, esse mesmo cara que te contratou olha pra você e fala: ‘meu, cadê aquela designer que eu contratei, aquela pessoa vibrante, criativa com brilho no olho, com sede de viver, estou te vendo tão apático….’ e você fica olhando para o cara e pensando que ele é um louco, um psicopata, porque durante um ano, ele passou todo me dizendo que não podia ser aquela pessoa, e agora, que eu não sou mais porque eu nem sei mais onde está aquilo porque ele fez questão de cimentar tudo o que era vivo em mim, você vem me perguntar onde estou ?”

4O atelier do artista Nino Cais foi um dos lugares em que o G>E passou.

Através desse diagnóstico, o G>E  se tornou o lugar e o território onde para essas pessoas foi possível continuar. Um lugar para exercitar e dar vazão a vontades “que não eram possível aí fora”, fazendo com que existisse uma maior fruição e tranquilidade em todas as instâncias da profissão que insiste em se dividir entre prazer e obrigação. Um encontro que permitiu fluir, manter vivo e exuberante o instinto criativo que existe dentro de cada pessoa que se permite ao alimento da imaginação, possibilitando a todos saber lhe dar melhor e dividir suas entregas também ao mundo comercial.

Recebendo esporadicamente alguns convidados externos e formado por Ad Ferrera, Adriana Comparini, Danielle Yukari, Fabio Lima Malheiros, Gustavo Silvestre, Gabriela Cherubini, Lucia Muller, Maria Gabrielle Oliveira, Tathiana Yumi Kurita e Jessica Costa o G>E se prepara agora para abrir seus processos num espécie de atelier aberto que irá acontecer dia 15 de novembro na Casa do Povo onde a Karlla divide o atelier com 9 das 11 pessoas que fazem parte do grupo. No que ela chama de congelamento de ideias que irá mostrar algumas materializações, deixa claro que não se trata de exposição:

“não acho que é uma exposição porque soa  muito pretensioso…..é processo, está indo e a gente não tem um objetivo, onde chegar”.

Em tempos onde se fala tanto em inovação e em que o sentido da palavra por vezes se esvazia na repetição de algo que se fala mais do que se faz, o G>E se posiciona como refúgio e espaço imantado onde é possível exercitar o fazer sem preocupação com o para quê,  como um exercício diário que proporciona um suspiro diferente do mundo programado lá fora: ” isso é um movimento muito neoliberal, desse capitalismo que tenta te capturar antes que você nasça…. antes que a coisa exista ele quer que já seja dele, que a coisa esteja pronta para ser consumida. Aqui, traçamos uma cartografia pessoal em que juntos tentamos dar conta de todos esse desejos, de todas essas linhas de força desacelerando e fazendo com que as pessoas entendam que não tem que ter um objetivo, não tem que ter um porque, tem que ter um fazer, porque se você fica com esse fazer estagnado, você prejudica a sua saúde, é uma questão de sobrevivência, é uma questão de necessidade.”

5Momentos, incursões e a foto do atelier na Casa do Povo

 

Sobre o futuro da moda e essa crise ética e produtiva em que se produz freneticamente imagens vazias e produtos sem memória, Karlla trouxe um das mais sábias palavras em que aponta para uma reação global mais do que somente uma problemática nacional: “acredito que essa crise seja da moda como um todo, porque ela explicita um jeito de estar e ser no mundo que é muito perverso … uma perversidade que esvazia o sentido de qualquer coisa que ela toca como o bafo da morte em que tudo perde a potência vital. Acho que as pessoas já meio que sacaram isso e estão querendo não mais se filiar a esse modo de pensamento, afinal, porque não construir outros modos de existência mais condizentes com aquilo que a gente acredita como criação, como processo criativo, em construir um dia a dia mais saudável? Quando entramos nesse sistema de consumir  e ser consumido é um modo de vida doente em que vai adoecendo tudo o que é vivo em você. Acho que é irreversível, acho que  é um grande movimento de ruína desse grande sistema majoritário. Já é possível ver então de um lado, iniciativas e gente pensando e construindo esse outro jeito de ser e um outro lado, que tensionando está desesperadamente fazendo com que esse jeito atual não morra, que ele prevaleça.”

O nome que surgiu do acaso, fruto de um erro de digitação em que o Ponto Final se confundiu ao Maior Que, deixou para Karlla uma pista sobre  como era possível reinventar e criar novos modos de existir criativamente nesses trânsitos entre moda|design|arte em que a partilha e a colaboração entre pessoas que carregam os mesmos dilemas ou as mesmas aspirações, possibilitasse um ponto de fuga com uma profunda e complexa conexão. Não de um fingimento poético neoclássico mas desse Fugere Urbem próprio do contemporâneo, de gente que Com Coragem está se permitindo ser veículo para plantar nem que seja as primeiras sementes de reflexão, nos ensinando que sim, existem outras formas do fazer  e que com elas, podemos ser mais felizes. Obrigado a Karlla por ser exemplo e fonte de inspiração de muitos.

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Saiba mais:

G>E  – grupo maior que eu – é um programa intensivo e extensivo de experiência transdisciplinar para uma política da imaginação: política porque está preocupado como organizamos os recursos, as práticas, os espaços, a produção material e a vida que partilhamos; imaginação porque destina-se à formação de novas idéias e imaginários sobre como fazer e como manter a potencia criativa viva e ativa.

Propõe investigar o sentido prevalente de impasse face a avassaladora complexidade do mundo atual que parece suspender nossa capacidade de imaginar e compartilhar – novas possibilidades de existência, maneiras de organizar a vida e por fim,  desejos e construção de novos mundos, novas coisas. Contra esta impotência individual, G>E  – grupo maior que eu – quer criar um espaço comum para imaginação criativa e política –  espaço concreto onde novas práticas podem e precisam ser forjadas.

O formato tenta configurar as condições necessárias para suportar tal esforço comum e a convicção de que o que precisamos é tempo, espaço, concentração, generosidade, desobediência, experimentação e alguns cuidados a seguir. Contribuir para a desaceleração das partículas no mundo.

Nosso obrigado especial a Suzy Okamoto e Tarcisio Almeida pelas aproximações de conteúdo e indicações.

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