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Coletivos, redes e ruas: uma realidade latino-americana

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Conhecemos Aluizio Marino através do Grupo Opni e é ele que nos conta o que está por trás da formação dos coletivos culturais nas cidades latino-americanas.

por Aluízio Marino 

Na última década os coletivos culturais se consolidaram como um movimento social presente em muitas cidades latino-americanas. Em sua grande maioria são grupos formados por jovens residentes em regiões periféricas, que desenvolvem ações independentes e sem personalidade jurídica. Neste texto apresento de forma sintética uma apresentação deste movimento me baseando em experiências e vivências como membro da rede de coletivos culturais São Mateus em Movimento, e de uma pesquisa de mestrado em andamento que analisa esta dinâmica nas cidades de São Paulo e Bogotá, na Colômbia.

A relação destes coletivos com o território é evidente. Existe uma efervescência de ações que buscam transformar o espaço público, ao estimular a apropriação e o sentido de “direito a cidade”. Em São Mateus podemos citar exemplos de intervenções de cultura digital, como as projeções de videomapping do coletivo Coletores, que projeta elementos diversos na arquitetura periférica e ações que buscam ressignificar espaços estigmatizados, como a galeria a céu aberto do Grupo OPNI, que transformou a Vila Flávia em um grande “museu” de graffiti.

opni1Foto: Toni William

Essa relação entre as ações culturais e o território podem ser entendidas como uma demonstração da “cidadania insurgente”, fenômeno presente nas periferias latino americanas desde seu surgimento. Os avós e pais daqueles que hoje participam destes coletivos, chegaram a esses territórios e tiveram de construir suas próprias casas, na maioria das vezes em situações precárias, originando um processo conhecido como “autoconstrução”. Atualmente, estes jovens, em um cenário onde a periferia se consolida, dão continuidade a essa modalidade de cidadania:

opni2Frame retirado de vídeo do Coletivo Coletores

 

É importante destacar que essas relações são pautadas por uma perspectiva em rede: coletivos e agentes culturais se conectam e estabelecem vínculos de complementaridade e solidariedade. Observo essas redes como um conjunto de processos cotidianos, inerentes a prática destes atores (suas relações no “dia” a dia”), pois muitos destes coletivos, claramente inseridos nessa dinâmica, não se identificam como uma rede instituída.

Esta forma pela qual os coletivos se organizam mostra também um forte respeito à autonomia de cada componente, ou seja, a complementaridade não se configura como interferência.

Para evitar leituras errôneas, elucido que estas ações não podem ser interpretadas como bairrismo ou até mesmo – como muitas das críticas a esses movimentos – segregação. A relação territorial e principalmente, a identidade periférica, são fruto de um processo de resistência a uma segregação sistêmica, que envolve toda a cidade em processos de acumulação e especulação que privilegiam alguns espaços específicos, em detrimento de outros.

Entretanto, a ação destes coletivos ainda encontra muitas dificuldades para se desenvolver em sua plenitude. Tais dificuldades são, em sua maioria, de âmbito financeiro, muitos coletivos ainda não tem acesso a recursos.

Mesmo na cidade de São Paulo – conhecida como referência em políticas públicas que apoiam o protagonismo destes grupos, através de programas como o VAI (I e II), e os Agentes Comunitários de Cultura – é necessário avançar buscando políticas públicas alternativas que ultrapassem a barreira dos “projetos culturais” (uma grande dificuldade para a juventude periférica). Para tanto, é interessante que sejam elaboradas práticas inovadoras, que estimulem a democracia radical como por exemplo a partir de apoios financeiros diretos e contínuos, na perspectiva da ação cultural, ou  da gestão compartilhada de equipamentos culturais.

Buscar exemplos e incentivar o intercâmbio de práticas latino-americanas podem ser caminhos para garantir essa inovação. Em Bogotá, por exemplo, existe um programa intitulado “Armemos Parche”, onde são identificadas lideranças juvenis, estes recebem um apoio da prefeitura, através de recursos financeiros (uma espécie de salário), capacitação e estrutura, que visa o aperfeiçoamento de ações previamente desenvolvidas.

Fica claro que os coletivos culturais possuem um grande potencial, tratam-se de um ator social muito importante na garantia de uma sociedade mais justa. Suas ações culturais são também políticas, e podem contribuir com o desenvolvimento de uma nova governança, pautada por uma perspectiva de “baixo para cima”. Tal contribuição não se limita apenas a pasta da cultura, já que, pelo conhecimento e capacidade de articulação em seus territórios, estes coletivos poderiam contribuir efetivamente, por exemplo, com as práticas de planejamento da cidade.

Vídeo do projeto OPNI coMvida que nesta edição tem a participação do KL Jay

 

Aluízio Marino é mestrando em gestão e planejamento do território pela UFABC, especialista em gestão de projetos culturais pelo CELACC e bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela USP. Ativista cultural, é membro do Grupo OPNI (coletivo cultural atuante desde 1997), gestor do Ponto de Cultura São Mateus em Movimento e um dos idealizadores da Incubadora de Projetos e Iniciativas Culturais (IPIC), por meio de onde realiza ações de formação destinadas aos trabalhadores da cultura.
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