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CINEMA NOVO e CINEMA NEGRO: DA ESTÉTICA DA FOME À ESTÉTICA DO FAMINTO

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No Brasil, será o Cinema Negro, a “estética do faminto”, capaz de materializar o Zumbi reencarnado anunciado em terras africanas, por Glauber Rocha em “O leão de sete cabeças” ?

“Essa lança partirá a terra em duas. De um lado
ficarão os carrascos; do outro, toda a África…livre.
Contra o ódio, o ódio. Contra o fogo, o fogo.”
(Trecho do diálogo do Zumbi no filme “O Leão de Sete Cabeças”
de Glauber Rocha.)

 

tumblr_oa82kvBpo31twrbr9o1_540No anseio de tentar compreender e definir o Cinema Negro tem-se buscado na aproximação desse gênero ao Cinema Novo para nominar este, daquele, ou vice e versa. A realidade é que as expressões e movimentos culturais tem suas convergências e suas divergências.

Particularmente, me guio pelo ensinamento ancestral de que “cada caso é um caso”, logo, “cada movimento cinematográfico é um movimento cinematográfico”. As tensões são geradas pelas divergências, que por sua vez em muitas ocasiões são geradas pela incompreensão. Diante da tensão apresentada, há sempre a opção de encará-la e se dispor à compreensão com o fim de contribuir com a transformação, essa que enriquece a existência.

Brindemos as tensões. Quando se trata de “Cinema Novo” e “Cinema Negro” elas nos ajudam a transformar nossas existências na compreensão desses dois movimentos cinematográficos.

O ensinamento ancestral, atenua que “tudo com tempo tem tempo”, “cada coisa no seu tempo”, ou ainda que “a fruta só dá no tempo certo”. Destacar as frutas, me faz recordar a fome, e recordar a fome nos permite rememorar uma reflexão de Glauber Rocha, em seu manifesto “Eztetika da Fome”, ao se referir-se ao Cinema Novo como o movimento que:

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O Cinema Novo é movimento que surge na década de 50 como alternativa de um conglomerado de jovens cineastas que objetivam radicalizar e mudar a estética cinematográfica brasileira, vivendo seu período áureo no inicio da década de 60, quando teve seu curso interrompido pela ditadura militar.

No entanto, não dá para refletir movimentos cinematográficos sem pensar quem são os agentes que o compõe, sobretudo quando este propõe-se como um cinema político. Nesse caso, ninguém melhor para destrinchar um movimento do que alguém que o vivenciou ou vivencia. E nesse ponto a cineasta Adélia Sampaio nos permite fazer uma viagem no nascedouro do Cinema Novo, nesta entrevista :

Em sete minutos de um papo que durou pouco mais de uma hora, a narrativa de Adélia nos permite tirar o raio-x do Cinema Novo, feito por alguém que o vivenciou por dentro, nos fazendo transitar da felicidade e orgulho de uma mulher preta que “pulou o muro” e não abriu mão do sonho de realizar cinematograficamente, a dura realidade de que a branquitude e a masculinidade imperaram no Cinema Novo.

tumblr_o8kqmpvsu91twrbr9o1_r1_540Os choques estéticos protagonizados pelos cinema novistas são inquestionáveis, dentre eles destaca-se o fato de ter sido o movimento que garantiu o marco de corpos negros e expressões culturais negras sendo levados às telas do cinema como representantes legítimos da cultura popular nacional. Dando respaldo a compreensão de que o Cinema Novo aglutina muitas obras com “conteúdo negro”, ou seja, conteúdos extraídos da cultura afro-brasileira. O que não nos permite confundir o cinema de conteúdo negro, com o movimento cinematográfico intitulado de “Cinema Negro”. Dirimindo assim, a principal tensão ou compreensão equivocada de que o “Cinema Novo” tenha sido “Cinema Negro”.

Os “bem nascidos” do Cinema Novo, na imersão artística exploratória da “fome”, tiveram a sua disposição os “famintos” para serem porta-voz dos seus discursos e anseios, permitindo que na década de 70 ícones como: Zózimo Bulbul, Antônio Pitanga e Waldir Onofre, que atuaram em muitos filmes cinema novistas, subvertessem a ordem e arriscassem a linguagem cinematográfica como uma possibilidade de expressão de suas existências raciais. Com restos de películas de um dos filmes do Cinema Novo, Zózimo Bulbul roda o curta “Alma no Olho”(1973); em contato com os que detinham os meios de produção no Cinema Novo, Waldir Onofre filmou “As Aventuras Amorosas de um Padeiro”(1975) e Antônio Pitanga filmou o longa “Na Boca do Mundo”(1976).

Glauber Rocha, como legitimo representante do cinema novo, em conexão com os italianos e os franceses, numa coprodução ítalo-francesa, rodou no Congo o filme “O leão de sete cabeças”(1970) reiterando sua escolha estética de chocar por meio do prenuncia da violência como solução para conflitos políticos e sociais; Bulbul, titular da legítima paternidade do “movimento cinema negro brasileiro”, em conexão com Ousmane Sembene e outros cineastas africanos durante exílio em Paris, compreendeu a importância de um “cinema indentitário”, um cinema realizado pelos “famintos”, eternizando “Alma no Olho” como marco de nascimento do movimento político cinematográfico Cinema. No Brasil, será o Cinema Negro, a “estética do faminto”, capaz de materializar o Zumbi reencarnado anunciado em terras africanas, por Glauber Rocha, em “O leão de sete cabeças” ?

Há coerência no “faminto” que entrega a vida para se distanciar da “fome”. Tanto, quanto há na compreensão de que cada movimento político cinematográfico é titular da própria estética.

 

Bibliografia:
1- História e Cinema – Maria Helena Capelato, Eduardo Morettin, Marcos Napolitano, Elias Thomé Saliba. 2 ed. São Paulo: Alameda, 2011.
2- Cinema e História: teoria e representações sociais no cinema – Jorge Nóvoa, José D’Assunção Barros. 2ed. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.
3- A Utopia no Cinema Brasileiro: matriz, nostalgia, distopia – Lúcia Nagib. São Paulo:Cosac Naify, 2006.
4- http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html

 


vivianeViviane Ferreira é cineasta e advogada com atuação voltada para direitos autorais, direito cultural e direito público. Com um olhar cinematográfico referenciado no cinema de Zózimo Bulbul, assina a direção dos documentários: Dê sua ideia, debata; Festa da Mãe Negra; Marcha Noturna e Peregrinação. Na ficção inicia com o curta experimental “Mumbi 7 Cenas pós Burkina” estrelado por Maria Gal. E chega ao Festival de Cannes -2014 com o curta-metragem “O dia de Jerusa” estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Preside a Associação Mulheres de Odun e é Sócia-fundadora da empresa Odun Formação & Produção.

 

 

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