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Cinema Negro: totem sempre vem de longe

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A força do processo de ressignificação do imaginário coletivo sobre a população negra, bem como do desvelamento da experiência de ser negra(o) no universo, está fincada no fato de que a “memória coletiva” é o principal troféu totémico da existência do ser negro.

por Viviane Ferreira
Imagem destaque: Alma no Olho – Zózimo Bulbul

 

A compreensão do “totem” como um símbolo que mantém a memória e justifica especificidades da existência  de uma coletividade, nos parece apropriada para relacionar o poder simbólico do cinema e a sua influência na coletividade que ele é destinado. A disputa totêmica, ou simbólica, é tão antiga quanto o primeiro movimento de translação terrestre: a cada 24h de rotação termina-se uma  e inicia-se outra batalha cotidiana para definir-se os símbolos que fincarão referências totêmicas ao planeta que ostenta a consciência como principal especificidade da espécie que o habita.

Toda construção imagética está à serviço da guerra simbólica que promete totens referenciais como troféu, a cada batalha travada, para definir qual será a coletividade que ocupará o posto de estrela central no imaginário social. É da observação da cadência “bélica”, da construção imagética conduzida por Hollywood, que nos idos 1910 surge, nos Estados Unidos, o movimento “Race Picture” – liderado por profissionais negros da indústria audiovisual estadunidense – com o fim de realizar filmes concebidos, financiados e produzidos por/para comunidade negra dos EUA, por meio de ações colaborativas. Constituindo o “Race Picture” como marco histórico que simboliza o surgimento do “cinema negro”.

imagePublicidade do The Homesteader (1919) enfatizando o elenco negro.

Assim como o movimento de rotação transforma o planeta terra a cada 24h, o cinema negro é transformado e transforma a cada contexto em que está inserido. Nos anos 1950, países africanos, à exemplo de Burkina Faso, enxergam no cinema negro uma ferramenta capaz de contribuir com a construção e disseminação de discursos pró lutas pela independência, dando origem ao FESPACO – Festival Panafricano de Cinema e TV de Ouagadougou reconhecido, atualmente, como o principal palco mundial do cinema negro. Já no Brasil, o filme Alma no Olho (1973), do cineasta Zózimo Bulbul, marca o inicio dos ciclos produtivos categorizados como cinema negro. Inspirado na experiência do FESPACO, Zózimo Bulbul, avança em 2007 e funda o “Encontro de Cinema Negro Brasil, África, América Latina e Caribe ”, reduto nacional dos cineastas negros em solo brasileiro.

zozimo_adeliaZózimo Bulbul e Adélia Sampaio

De acordo com ZENUM (2014), é do imperativo de implantar uma produção cultural capaz de “revelar o que nem sempre é visível e dar origem a novas representações” (DIAKHATÉ, 2011:85), que surge o cinema negro. Nesta concepção encontramos guarida para a compreensão do “movimento de translação” que, a cada ano, nos revela novas facetas da produção cinematográfica negra seja por meio da realização dos filmes: Cinzas (2015) de Larissa Fulana de Tal, Kbela (2015) de Yasmin Thainá, O Dia que Ele Decidiu Sair (2015) de Thamires Vieira, O Dia de Jerusa (2014) de Viviane Ferreira, Caixa D’agua Qui-Lombo é Esse? (2012)  de Everlane  Morais,  Aquém das Nuvens de Renata Martins (2012), Cores e Botas de Juliana Vicente (2008); ou por meio da atribuição de luz à produção cinematográfica de Adélia Sampaio – primeira mulher brasileira negra a dirigir um longa metragem – buscando a subjetividade de seu pertencimento racial em obras como Amor Maldito (1984).

A força do processo de ressignificação do imaginário coletivo sobre a população negra, bem como do desvelamento da experiência de ser negra(o)  no universo, está fincada no fato de que a “memória coletiva” é o principal troféu totémico da existência do ser negro. Em virtude disso, para o cinema negro o totem sempre vem de longe, sua estrela central é repleta de luz, vai de Luiza à Luiza, de Mahin à Bairros a ancestralidade é imperativa, e ativa um modo de fazer cinematográfico que parte de Zózimo e Adélia  alterando o ângulo do eixo de rotação da construção imagética  da subjetividade negra no audiovisual.


vivianeViviane Ferreira é cineasta e advogada com atuação voltada para direitos autorais, direito cultural e direito público. Com um olhar cinematográfico referenciado no cinema de Zózimo Bulbul, assina a direção dos documentários: Dê sua ideia, debata; Festa da Mãe Negra; Marcha Noturna e Peregrinação. Na ficção inicia com o curta experimental “Mumbi 7 Cenas pós Burkina” estrelado por Maria Gal. E chega ao Festival de Cannes -2014 com o curta-metragem “O dia de Jerusa” estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Preside a Associação Mulheres de Odun e é Sócia-fundadora da empresa Odun Formação & Produção.

 

 

 

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