Category: Ruptura

Elas Nos Representam

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Nesse novo especial, NoBrasil quer discutir, homenagear e legitimar o papel fundamental das Mulheres na Economia Criativa Brasileira, afinal, Elas Nos Representam.

por Diane Lima

Iniciar esse especial que fala sobre nós Mulheres, talvez tenha sido o maior desafio do NoBrasil nesses nossos quase cinco meses de vida. Em busca de uma direção, um nome e uma forma de enquadramento e recorte discursivo, optamos então pelo caminho do cuidado e daquele que de verdade nos completa: o do aprendizado.

A partir das pesquisas que seguimos desenvolvendo em que a diversidade aparece como fruição criativa mas também como diretriz ética produtora de solidariedades, o assunto mulher X criatividade X empreendedorismo X produção de conhecimento, tornou-se uma constante na tentativa de entender esse momento de ruptura na construção de possíveis identidades e de todo um processo de individualização que nos leva a uma nova economia dos poderes sobretudo no que tange a liberdade dos corpos.

Diante de uma quebra de paradigmas que envolve, principalmente, uma ascensão social nacional protagonizada pela participação da mão-de-obra e capacidade criativa e empreendedora das mulheres, nos inquietou a necessidade de homenageá-las de modo a construir um ambiente favorável para troca e empoderamento coletivo de tantas outras.

Salientar quem são essas mulheres que estão transformando a Economia Criativa NoBrasil, torna-se, então, parte da nossa missão. Entre coragem, sensibilidade, determinação e liderança, o especial busca ainda repensar a nossa responsabilidade na construção de subjetividades dentro dos processos de criação bem como, a urgência de se ocupar espaços frente a problemática da desigualdade de sexo/gênero no mercado de trabalho e o que isso causa nos campos da liberdade e autonomia no mundo contemporâneo.

No que tange a Economia Criativa, apesar da nossa preocupação com o uso massificado, com ares de estratégia de marketing, que o termo vem ganhando e de nos posicionarmos e nos interessamos em discutir o que antecede o ato do INOVAR – antes mesmo da tentativa de adjetivação, dentro do processo de criação – percebemos que dar o devido destaque poderia contribuir com a discussão sobre esse novo modelo econômico que se desenha, participando de uma maneira mais efetiva de uma revolução na qual acreditamos, fazemos parte e em que também Elas Nos Representam.

Vem que tem.

Vá Fundo.
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“Vamos para o sonho”

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Resgatamos as sábias palavras do Edu Lyra que fala sobre produção criativa nas periferias, política e o poder das mulheres para celebrar nossa sede de futuro.

Logo no início do NoBrasil, tivemos a oportunidade e o prazer de conversar com um dos mais atuantes líderes jovens do Brasil, o Edu Lyra. Desde então, estávamos na espera do melhor momento para dividir com vocês, um pouco dessa conversa e apresentar a trajetória desse jovem que nascendo numa favela de Guarulhos-SP,  percebeu desde muito cedo que era possível mudar o rumo da sua história e a partir daí, inspirar outros jovens também.

E uma das coisas que mais nos chamou atenção desde que passamos a acompanhar os passos do Edu, foi a sua positividade e esperança. Crença na melhoria do país, na transformação de cada indivíduo e sobretudo, na força que as organizações comunitárias podem engendrar.

Vindo da escola pública e enfrentando os conhecidos problemas do ensino do país, ingressou na faculdade de jornalismo aos 17 anos onde desenvolveu um projeto que deu, em suas palavras, um novo sentido para a sua vida: o livro Jovens Falcões. Entrevistando e contando as histórias de pessoas que “do nada chegaram a tudo”, foi em busca de entender o que os motivava e inspirava, atitude que lhe gerou protagonismo suficiente para receber prêmios, convites e na caminhada, a percepção que também podia atuar dentro das escolas, nascendo assim o projeto Gerando Falcões: “quando lancei o livro, fui convidado a dar uma palestra numa escola e quando eu cheguei lá, com esse meu jeito de dizer, com esse meu jeito de contar, foi uma coisa tão impactante, que mexeu com tanta gente – era professor chorando, aluno me abraçando, e eu falei: cara, o jovem está aqui, essa é uma porta que posso atuar também, afinal de contas no Brasil são 50 milhões de jovens! Se os jovens falcões já estão no meu livro, eu vou até a escola para Gerar Novos Falcões! Como? Contando essas histórias.  Então, eu comecei a entrar dentro das escolas públicas do Brasil e tentar fazer uma coisa que é muito difícil mas muito preciosa para eles: alterar as referências. E qual é a meta do projeto? Resgatar a auto-estima do jovem brasileiro, contar que o empreendedorismo é uma opção, fortalecer a presença do jovem na sociedade e dizer especialmente que não importa de onde as pessoas vêm, mas para onde elas vão.”

Então, eu comecei a entrar dentro das escolas públicas do Brasil e fazer uma coisa que é muito difícil mas muito preciosa para eles: alterar referências.

943380_4546525036007_2035643677_nFoto: Divulgação

Sendo para nós um momento de fundamental importância já que estamos desenvolvendo um novo especial e trabalhando em nosso próximo encontro no offline (informações logo mais em breve!), resolvemos resgatar as sábias palavras do Edu para inaugurar com a gente essa nova fase. No primeiro momento, trazer à tona a sua visão sobre a produção cultural e organizacional das periferias e quebradas do Brasil, crítica que nos serve como alicerce e motivação para uma questão que estamos nos debruçando durante toda a última semana: como criar diálogos e conectar universos para o desenvolvimento e produção criativa buscando aproximações entre centro x periferia?

Com a percepção de um gestor e a sabedoria de um morador, ele responde: “a periferia está muito esvaziada desses espaços criativos promovidos pelo estado ou por empresas. É muito comum em São Paulo os espaços de coworking, mas isso, você não vai ter na periferia! Daqui foi tirado apenas os instrumentos….o que tem então, é a organização de pessoas que se unem… o que você vai ver vibrante, é um grafiteiro que faz coisas incríveis, um rapper que manifesta sua dor através da rima e, um ou outro empreendedor social que vai ter a ousadia de construir uma ONG e de forma institucional e mais profissional, articular com empresas, com artistas e criar redes e esses espaços de interação, de esporte e eventualmente de tecnologia. Então, você vai ter no Capão Redondo o Sérgio Vaz através da poesia, os campos de futebol que reúnem as pessoas nos finais de semana, as igrejas, que apesar de ter um comércio por trás,  é um dos movimentos organizados da periferia…o crime também, através do PCC, que gira um comércio e disciplina pessoas…então, isso tudo, é o que a gente tem! Mas Edu, como é que você cita o crime? Porque é um ator que dialoga diariamente com a periferia, para o bem ou para o mal, eles estão lá! Então, espaços de networking, de tecnologia, coisas inovadoras, é tudo bem diferente,  isso é muito distante… tem, mas o que tem, é feito com a nossa inteligência, com o nosso modelo”.

 1796099_720200224727912_2702499917050512533_o“Nós usamos o esporte para transmitir valores aos garotos da comunidade. Garra, persistência e ousadia, já fazem parte do DNA dos meninos.” Foto: Divulgação.

 

945017_4509921160933_870963020_n1003792_10200625926005409_800513251_nFoto: Divulgação

Entendendo a importância que a nuvem eleitoral causa no país, já que essa entrevista foi realizada antes mesmo das eleições, ele acredita que estamos passando por um momento de evolução e de amadurecimento enquanto nação, falando sobre a necessidade do protagonismo do jovem no seio da família brasileira: “o Brasil tirou milhares de pessoas do índice de miséria, nós vimos nascer uma nova classe média e assistimos a entrada de milhões e milhões de jovens na universidade, boa parte deles, pagando ou através do incentivo do governo. De fato, o país avançou mas, não deixamos de viver um momento de descontentamento como uma panela de pressão que está em seu ápice e erupção. Nesse momento, as pessoas voltaram a pensar em política, a pensar em quem pode ser o melhor líder e existe uma insatisfação muito grande em relação aos jovens, principalmente aos jovens da periferia, porque a periferia é o lugar que faz a vida doer, é um lugar que dói, que tem pouco acesso a bens culturais, a educação é capenga, escola públicas hoje servem como ponto de venda de droga, de cocaína, maconha…. boa parte dos alunos ou alguém já ofereceu droga para compra ou já convidou a usar, eu mesmo fui convidado dentro da escola…então, a escola vai perdendo o seu significado mágico e nós temos muitas demandas aí que não estão sendo resolvidas, muito por parte dos nossos políticos não estarem conseguindo interpretar realmente quais as necessidades da periferia: falta de fato eles virem para cá e sentir o cheiro, falta eles tocarem nas pessoas,  falta eles dialogarem… o político é público mas, ao mesmo tempo, ele não sabe ser público, é muito contraditório… ser público não pode ser somente na época eleitoral, porque se não qual a credibilidade que isso tem?

“A sensação que eu tenho é que existem três frentes em que precisamos atuar: a primeira, nas manifestações. E isso se passa pelo asfalto e pela conectividade, aproveitar essa coisa virtual para mostrar a nossa insatisfação. A segunda é a gente fazer um processo de conscientização do jovem pelo voto. Já que ele passa o dia todo no facebook, transformá-lo em um novo formador de opinião dentro de casa. E o terceiro é o protagonismo, é as pessoas se organizarem dentro das suas representações e não ficarem esperando pelo estado, que é o que eu tento fazer com o meu instituto, é o que muitos grafiteiros e rappers tentam fazer também, que é simplesmente você usar sua vocação, seu dom, para tentar mudar o país e a realidade de onde você mora.”

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10443062_695690007178934_5479010873082915023_oOficinas de Futsal, Literatura e Tênis em Poá, comunidade do Edu: “na aula de tênis de hoje, conversamos sobre a trajetória de Nelson Mandela com as crianças da comunidade. Daqui a dois meses, vamos lançar um livro online que fala sobre o que esses 30 estudantes aprenderam com a vida do incrível Mandela. A obra será escrita pelas próprias crianças. Vamos dar a elas protagonismo autoral. Depois, teve aula de tênis e muito suor no rosto”. Fotos: Divulgação.

O terceiro ponto é sobre o papel decisivo das mulheres como motor para o crescimento não somente econômico mas principalmente, educativo nas periferias assunto que chega para coroar o nosso novo especial que estreia na próxima semana: “a mulher alcançou um outro nível de participação na sociedade, sendo a grande responsável na verdade por fazer nascer essa chamada nova classe C NoBrasil. Por que, enquanto só o marido trabalhava,  ele ganhava alí R$1.000 a R$1.200 reais e quando  amulher começou a trabalhar a renda familiar foi pra R$3.000! Então, foi a mulher que produziu essa classe C. Outra coisa importante é que o cara trabalha, mas, ele quer comprar roupa, ele quer ir na praia, beber uma Brahma, uma Skol… a mulher trabalha mas ela quer pintar a casa, ela quer reformar, ela pensa na família, ela quer comprar uma carne melhor, quer que o filho estude melhor… então, são diferentes os propósitos da mulher, e na minha visão, foram elas que ajudaram a acelerar o comércio e o mercado… no entanto, a mulher ainda recebe menos que o homem no trabalho, a mulher negra ainda sofre preconceito, mas, tem que ir lá, tem que fazer o diálogo, tem que construir as pontes.”

Com a certeza de que os pensamentos desse sonhador muito contribuem para o nosso próprio crescimento, que gostaríamos de encerrar sem contudo, colocar um ponto final já que acreditamos que a energia desse Falcão sempre estará presente por aqui. Um parabéns enorme ao Edu, a sua noiva Mayara e a todos os jovens que junto com eles, estão indo para o sonho.

 

E fica o convite pois para o Edu a vontade de transformar a quebrada num lugar mais vibrante não para:

“Convido todos os meus amigos para a palestra do ex-piloto de Fórmula 1 Rubens Barrichello.

Entrada: 1 kilo de alimento não perecível. Se puder, me ajude a divulgar e vamos fazer cultura na quebrada”.

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Com Tempo Com Coragem Com Coração – As tramas que libertam da Raquell Guimarães

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Unindo design, artesanias e dever social ela encontrou dentro do sistema carcerário uma oportunidade de ensinar e oferecer liberdade através de pontos e nós.

por Diane Lima 
 “Criação é um percurso, uma ponte que liga lugares entre os quais antes, simplesmente não havia um caminho”
 

Sonho, fé e crença no outro e na mudança. Um trabalho que unindo atividade projetual, artesanias e dever social vem transformando e impactando a vida de homens que condicionados à falta de liberdade, hoje tem como maior bem, o tempo.

Essa é a DOISELLES, marca que desenvolve o projeto Flor de Lótus que concebido e justificado dentro da Lei de Execução Penal (LEP – Lei nº 7.210/84: art 28) que diz que “o trabalho do condenado como dever social e condição de dignidade humana, terá finalidade educativa e produtiva”, vem buscando a valorização da mão-de-obra carcerária através de agulhas de tricô e crochê. Quebrando paradoxos, rompe as fronteiras do todo impossível engendrado pelo preconceito, ao entregar ao indivíduo enrijecido através dos atos de violência recíprocos que sofreu, a delicadeza do fazer manual como forma de reabilitação e terapia. Uma poesia tramada por histórias de dor, exclusão e sofrimento que chegou até o NoBrasil no mesmo dia em que publicamos a matéria sobre o rapper Dexter e sua visão sobre a quantas andam o sistema penitenciário do país. Sobre o nosso eminente interesse em saber como aconteceu esse processo de implantação da atividade que une moda e artesanato num presídio de segurança máxima, o projeto nos oferece as primeiras impressões:  “O primeiro contato deles com as agulhas seria algo que beirava o impossível, um desconforto geral entre homem e ferramenta. Mas nada é mais impressionante do que a FORÇA DE VONTADE. Nada é mais forte que o DESEJO de reverter uma condição. Nada é mais bonito do que provar que tudo é possível”.

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Colagem com imagem de Paulo Whitaker/Reuters

 

A marca mineira que tem a frente a designer Raquell Guimarães, parece numa coincidência de fatos ter nascido para o que veio, o que explica a inspiração para o seu próprio nome: ” Meu nome Raquell, é bíblico e quer dizer ovelha em hebraico… é curioso pensar que a história de Raquell, a pastora de ovelhas, aparece na Bíblia no capítulo 1, versículo 29 e eu nasci justamente em 29 do mês 1.”

“Meu pai tinha uma malharia, ramificação de uma importante tecelagem que meu avô começou literalmente no quintal de casa com apenas dois teares e se tornou uma empresa sólida e empregadora de muitas famílias que viviam do trabalho nela. Mas quem conhece um pouco da história industrial de nosso país sabe que nos anos 90, rolou uma crise devastadora no setor têxtil. Eu me lembro do meu pai e meu tio trabalhando muito, sofrendo perdas e lutando. Isso foi marcante em diversos aspectos da formação de minha personalidade, inclusive determinante nessa minha relação com a moda. Não tem celeiro maior de criatividade do que a ausência. A construção a partir do sacrifício”.

 

Surgindo da necessidade de mão de obra, encontrou dentro do sistema carcerário uma oportunidade de ensinar pessoas e oferecer-lhes liberdade através de pontos e nós: “Faço tricô e crochê. É o que posso fazer de melhor. Como uma típica mineira, fui iniciada na escola de todas as prendas, e me saí bem nessa coisa de tramar a lã no inverno e o algodão no verão – tecer, laçar, arrematar e dar um nó invisível. Quando abri a empresa éramos só eu e minha mãe contando com a ajuda de umas vizinhas que pegavam uma ou outra encomenda, enquanto tomavam conta dos netos. Seria impossível prosperar naquele ritmo. Eu sabia que precisaria ensinar esse ofício a um grupo de pessoas. Alguém que quisesse e precisasse aprender uma profissão. Foi assim que fui parar num presídio de segurança máxima com minhas agulhas e tesouras. Treinei 40 homens”.

Além de criar uma forma sustentável no recursos humanos ao lançar mão de um novo modelo de negócio, hoje a Doisélles tem uma unidade de produção dentro do pavilhão 1 da Penitenciária Professor Ariosvaldo De Campos Pires, onde 18 detentos condenados em regime fechado trabalham com excelência, na produção de peças artesanais que são inspecionadas por rígido controle de qualidade tipo exportação: “levei comigo todas as manhãs da primeira semana de treinamento uma frase de Dostoievski, para me munir de toda a paciência e naturalidade para um mergulho dentro de uma oficina com 20 presos, 20 tesouras e 20 pares de agulhas: “um ato de confiança dá paz e serenidade”. A revelação do que eles seriam capazes não demorou mais do que um dia. A rapidez com que eles aprenderam os movimentos dos pontos básicos do tricô garantiu que antes do tempo inicialmente previsto já estivessem computando a produção e remindo a pena já que a cada três dias trabalhados garante um dia de remissão.”

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E quando perguntamos sobre as dificuldades de implementar o método de trabalho a resposta não poderia ser a mais franca: “Sim, não é fácil. Nem a entrada nem a permanência, porque o sistema prisional é o sistema prisional, não é o mundo corporativo nem um terreno promissor e adequado ao empreendedorismo. Então é uma luta muito grande e diária. Trabalhar onde você tem que fechar a fábrica na véspera de uma entrega importante por causa de um procedimento de segurança é a nossa realidade.”

No entanto, apesar da felicidade da parceria, do sucesso e da convicção de que ambas as partes estão ganhando, crescendo e melhorando todos os aspectos que as envolve, Raquell logo nos primeiros momentos de nossa conversa compartilha como num desabafo, seu descontentamento sobre alguns preconceitos que o trabalho vem enfrentando: ” Dizem por aí duas coisas que me deixam extremamente chateadas: a primeira é falar que eu exploro e que o trabalho deles é escravo, uma mentira já que eles são remunerados pelo valor de mercado. E o outro absurdo é dizer que transformei penitenciárias em ‘resort de bandido’, só porque luto para garantir saúde, educação e dignidade pra eles”.

 “O trabalho do preso é regido pela Lei de Execução Penal. Ele recebe três quartos de um salário mínimo e tem uma redução de pena de um dia para cada três dias trabalhados”, diz Helil Bruzadelli, superintendente de Atendimento ao Preso da Secretaria de Defesa Social.

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mont3Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

Apesar da problemática, condição provável a ser enfrentada por quem assume encabeçar um projeto com tal nível de profundidade e coragem, Raquel nos conta sobre seus planos para o futuro: ” Estou criando uma ONG para acolhê-los fora do sistema, na saída e dar treinamento para alguns serviços específicos para outras profissões.”

Para o NoBrasil, um prazer poder narrar essa história que põe na prática, de forma tão competente, sensata e humana, o que nosso especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, quer dizer. Não só pelo seu modelo de produção mas principalmente pela forma como proporciona o acesso a uma profissão que talvez muitos dos indivíduos ali presentes sequer tenham tido antes de cometer as suas infrações. Tratando-se de artigo que hoje passeia pelas vitrines de lojas importantes de cidades como Nova York e Tóquio, possibilita ainda uma aproximação entre quem faz, objeto e quem usa, desconcertando a um núcleo hipócrita que acha que ‘bandida bom é bandido morto’, sobre como capacidade e oportunidade apenas precisam caminhar juntos para que se crie tantas belezas: “acho que se a gente deseja a morte de alguém (do pior bandido que seja) a gente revela um pensamento igualmente criminoso, concorda? Então o que a sociedade tem que entender é que quem mais ganha com este tipo de projeto é ela mesma.”

Com suas tramas, DOISELLES liberta e mostra que é possível.

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Assista os vídeos e conheça mais da marca aqui  e veja mais imagens feitas pela Reuters aqui

Muitas das criações da Raquel são oriundas de resíduos têxteis, o produto manual não polui o meio ambiente e a ovelha que fornece a lã não é sacrificada, apenas tosada e todos os fios sintéticos são provenientes de descartes ou reciclagem.

 

Vá Fundo.

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Um jovem entra para a torcida organizada querendo matar alguém ou ele entra querendo ter acesso a alguma coisa?

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Denis Almeida, Presidente da Torcida Jovem do Santos fala sobre violência, a mídia e o papel transformador do futebol na vida de um jovem.

por Diane Lima 

Denis Almeida da Silva tem uma história de molhar os olhos. Na verdade, a primeira vez que nos encontramos, confesso que era como se houvesse todo um mistério criado durante muitos anos das impressões vistas em jornais e TV, ao redor daquela figura que naquele momento era nos apresentada como o futuro presidente da Torcida Jovem do Santos. Naquela época, há uns dois meses atrás, o Denis se preparava para assumir umas das funções que talvez nunca tivesse passado pela sua cabeça: ” vendo a minha realidade social, a gente não imaginava um dia poder ir assistir um jogo do Santos e o que era sonho, poder conhecer um outro estado e ser parte do Santos, passou a ser uma realidade. “

Filho de baiano que perdeu a mãe quando tinha apenas um ano e 4 meses de vida, cresceu ligado ao pai, um torcedor apaixonado pelo Santos Futebol Clube que fez do esporte, religião dentro de casa. Hoje, passado mais de 10 anos de Torcida em que ele já visitou quase toda a América do Sul e países como Barcelona e sim, o Japão, lembra emocionado momentos importantes como não ter tido dinheiro para fazer a “carterinha” do clube e o fato de ter sido os amigos, a se juntarem para lhe dar de presente: ” São Paulo – Santos era uma distância que parecia São Paulo – Japão pra nós, então a torcida despertou em mim essa vontade e mostrou que era possível e é isso que a gente quer despertar nos mais jovens também”. Pensamos se não tinha sido talvez aí, o momento combustão que provocou no Denis a possibilidade de exercer um papel político dentro de uma Torcida Organizada que se resume pra gente em uma palavra: solidariedade.

Contudo, não queremos aqui colocar panos quentes sobre a série de problemas com rivalidade e a forma brutal que muitas vezes membros das torcidas se comportam deixando marcas e provocando estragos. Isso é um fato, parte das estatísticas sobre a violência no país. Mas a grande questão, aqui de ordem sócio-política, parece inevitavelmente passar pelos seguinte questionamento: porque não fazer um trabalho em conjunto com elas? Em um país onde o Futebol é a primeira e única opção de lazer para a maioria das famílias, quem proporciona, organiza e possibilita o torcedor ir, chegar mais perto e vivenciar uma partida ? Porque que as Torcidas Organizadas não estão mais próximas em nosso imaginário a estruturas institucionais que promovem inclusão social, transformação e suporte sócio-educativo para seus associados? Porque não criar através de uma agremiação que tem controle sob milhares de pessoas, formas alternativas para proporcionar educação e lazer, utilizando o futebol para melhorar a vida das pessoas? Porque os milhões e milhões que correm pelo futebol não beneficiam em nada o torcedor? Afinal de contas, Carnaval e Futebol são umas das poucas manifestações culturais que realmente abraçam em números expressivos,  a grande parte da população sem acesso a outros equipamentos culturais no país. E ainda sobre o próprio estádio enquanto esse espaço de entretenimento e lazer, como é o tratamento dado ao público pagante? Já paramos para pensar sobre que é possível que seja o mesmo dado a Amarildos, Claudias e meninos Joel nas favelas de todo o Brasil? Nas conhecidas violências diárias da exclusão? Sobre tudo isso, Denis responde:

“A pessoa é tratada como lixo e como bicho desde o começo, ela vai reagir como? Você vai pedir uma informação ao policial ele nem olha na sua cara. Num atrito que tiver dentro de uma partida de futebol, que você precisa de uma pessoa com bom senso para lidar com a situação, o bom senso vai ser a borrachada. É isso que nós vamos ver dentro do estádio. Por exemplo: o Santos jogou semana passada às 22h. Eu tenho carro. O jogo acabou quase meia noite. 2h da amanhã foi a hora que eu cheguei na Zona Leste de SP.  E quem não tem carro? Estou cansado de ver uma pessoa que chega 01 e pouco, ela vai ficar até às 5h da manhã para trabalhar direto ou até às 4h para esperar o ônibus voltar… Mas será que é certo ter uma partida de futebol às 22h? Jogar o trabalhador para assistir o espetáculo às 22h para chegar em casa de madrugada, para ele trabalhar no outro dia, para ele não ter ônibus para voltar? Então isso não é violência? E quem briga por isso? Quem vai lá reclamar?”

nobrasil_haroldo_saboia-9042Foto Haroldo Sabóia.

Na conversa com o Denis, todas essas ideias apareceram como grandes interrogações em nossas cabeças e sobre isso, não podíamos deixar de destacar o papel decisivo da mídia brasileira quando o assunto é a formação de uma opinião destorcida e quando não, induzida sobre a relação violência X torcidas: “a violência está dentro da sociedade e nós tomamos conta da parte mais crítica, que é a periferia. Será mesmo que quando um jovem entra para a torcida organizada ele entra querendo matar alguém ou ele entra querendo ter acesso a alguma coisa? Eu tenho 20 anos de torcida, sou dirigente a 10 anos, não tenho uma prisão, não tenho nenhum problema com a justiça, trabalho desde os 15 anos, estudei até onde deu pra mim e eu estou assistindo na televisão ouvir que só tem marginal, só tem bandido? Tem uma hora que vc fala: ‘pô, que que eu vou fazer da vida?’ Você tá indo numa partida de futebol, mas você vai ficar sendo taxado de marginal? Aí nessa hora não existe preconceito né… porque você vai na torcida organizada só tem pobre lá! Nós temos todo tipo de gente, de marginal a marechal, a única obrigação dentro da torcida é ser Santista. Se ele é professor lá ele vai ser santista, advogado? lá ele vai ser santista, está desempregado, sem dinheiro? a gente vai fazer uma ‘vaquinha’ cada um vai dar dois reais e ele vai para o jogo, a gente não deixa ninguém pra trás, ninguém vai ficar na vontade então, a gente precisa ser visto por esse lado também (…) eles precisam de nós, sabem da nossa importância mas não traz a gente pra fazer parte do trabalho (…) a gente as vezes é convidado para dar entrevistas para jornais mas procuramos não dar entrevista mais, porque é deturpado tudo o que a gente fala, nosso depoimento é totalmente modificado e existe uma pauta que a gente sabe dentro do jornalismo que é para entrevistar torcedor organizado como facção (…) mas pera aí, eu sou facção?”

denismontagemFoto Haroldo Sabóia.

Sem dúvida, como o próprio Denis finaliza o vídeo, muita coisa precisa ser feita para cobrar da torcida uma postura melhor, mesma lógica que rege o pensamento quando se busca entender os reais motivos da violência no país. Nesse vídeo, Denis deixa uma mensagem clara e humana. Um desabafo que representa milhares de vozes reprimidas e que sabe que um dos poucos lugares para se ter voz é na partida, na torcida, no jogo e na arquibancanda. Momento de gritar, torcer e fazer a festa.

Um lugar que nacionalmente deveria ser um espaço imantado, sagrado por exercer no esporte o auge da sua democracia, momento para acontecer trânsitos culturais, para aprender, formar cidadãos e celebrar.

Nossa total admiração ao Denis, pelas conquistas e pela luta, um salve ao Flavio Pires pela oportunidade de mais uma vez nos conectar com o que é de mais genuíno da cultura criativa brasileira e um salve geral para todas as torcidas organizadas e torcedores do Brasil.

Paz.

Veja mais: assista o vídeo da campanha Desacredita Não que contou com 5 grafiteiros representando momentos importantes do time da Vila e que teve curadoria no parceiro Flávio Pires.
Agradecemos mais uma vez a Haroldo Sabóia pela colaboração com as fotos e a Nando Cordeiro pela ajuda diária.
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Dexter: “é pra frente que se anda jão, corre com nois”

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Exclusivo: em um papo reto com o Dexter falamos sobre política, sistema carcerário, ostentação e sobre a polêmica reportagem do Profissão Repórter.

por Diane Lima 

Dexter dispensa apresentações mas, a primeira vez que assistimos Oitavo Anjo foi como mergulhar num choque de realidade em que para nós se tratava de um documento visual que em essência, se posicionava como um dos mais intensos e verdadeiros clipes da música brasileira. Sem dúvida, a partir daí, só aumentou ainda mais o desejo de trocar uma ideia com esse cara que durante 13 anos de reclusão, fez música para denunciar o sistema carcerário nacional e ser porta-voz da realidade das favelas e periferias.

Marcos Fernandes de Omena em nome de batismo e Dexter numa conjunção dos adjetivos destro, direito, esperto, ligeiro e sagaz que veio quando lendo a biografia do Martin Luter King, descobriu que um dos seus filhos assim se chamava, carrega uma história de dificuldade e salvação. Criado por uma mãe adotiva desde os 13 dias de vida e conhecendo desde muito cedo a realidade da dureza das periferias do Brasil, assume ter sido o rap, o grande responsável pela sua mudança, mensagem que responde a pergunta feita pela seguidora do nosso instagram Júlia Prado: “a cultura hip hop tem essa característica de transformar a vida das pessoas para melhor. Quando eu recebi essa cartilha ela rezava isso e a partir do momento que o rap me ajudou, eu tinha que fazer o mesmo para ajudar outras pessoas também. Eu já passei por muitas experiências então, acho que o mais importante é manter as pessoas lúcidas fazendo com que a música ajude-as a construir uma nova caminhada. O nosso mundo é tão frio e tão calculista  que precisa de pessoas com mais amor… nossa realidade só vai mudar quando a ‘educação for de fato educativa’ e quando as pessoas ajudarem mais ao próximo, então, fico lisonjeado de saber que minha música tem esse poder.”

nobrasil_haroldo_saboia-9078Foto: Haroldo Sabóia

Ele que acabou de montar a Oitavo Anjo Produções para cuidar da sua própria carreira e alçar novos vôos gerenciando em breve outros artistas através também de um selo fonográfico, nos contou sobre a importância de aprender a empreender feliz sobre os rumos e as novas oportunidades que surgiram, como o convite para gravar a trilha tema da NBA Global Games pela ESPN, o site novo, além do sucesso do lançamento recente do DVD A Liberdade Não Tem Preço, que comemora seus dois anos de liberdade e que recebeu convidados mais do que especiais. No entanto, durante toda a construção dessa matéria nos veio um questionamento que muito se relaciona com os temas da entrevista que agora vamos compartilhar: até que ponto a super exposição sobre a história com ares de mártir e de roteiro de filme, já não se aplica como uma problemática quando o assunto é a ressocialização? Apesar de estarmos interessados em saber a experiência e a história que constitui hoje o Oitavo Anjo, resolvemos deixar de lado nessa conversa detalhes sobre a “vida-crime” para explorar em potência apenas sua visão de mundo. Na primeira parte da entrevista escrita, ele fala sobre eleições, política, sistema carcerário e o que mudaria se o clip produzido nos anos 2000 fosse feito hoje. Além disso, não podíamos deixar de esclarecer a reportagem questionável do Profissão Repórter que induziu de alguma maneira, uma situação que nada confere com a realidade e que gerou nas redes sociais do Dexter, certo incômodo por parte dos seus fãs. Em um vídeo intenso, cru e verdadeiro que compõe a segunda parte da entrevista, ele explica a situação prometendo ser a última vez a tocar no assunto, compartilhando ainda com a gente sua visão sobre a música que prega no hip hop ou no funk a ostentação. Ao fim, deixa uma mensagem de paz, um banho de motivação e nos enche de esperança sentenciando:

Máximo respeito ao Dexter por abrir o coração com o NoBrasil e propiciar uma aula de sabedoria e humildade; ao Flávio Pires nosso parceiro por proporcionar o encontro e abrir mais uma vez o Quitandinha literalmente só para nós; a Nando Cordeiro pela ajuda com o vídeo e a Haroldo Sabóia por capturar mais uma vez alma e intensidade de forma tão especial nas imagens do Dexter. Também, a Oitavo Anjo e a Luciana Alves da PublishCom pelo profissionalismo e por nos receber tão bem.

Vem que tem.

Vá Fundo NoBrasil.co

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NOBR: Momento de eleição e de tensão na política brasileira. Como o Dexter artista e cidadão vê essas mudanças ?

Eu acho que é um momento de cobrança, acho que a juventude está se envolvendo mais e eu acho importantíssimo, porque a mudança depende deles. Afinal de contas, a juventude e as crianças são o nosso futuro. Eu ouvi muitas coisas no facebook que me entristeceram bastante, pessoas acusando uma determinada região do Brasil de ser isso, de ser aquilo, os pretos, pobres nordestinos, pô! acho que todo mundo tem o direito de votar, independente!  Na verdade eu não voto, eu estou na condicional e no país em que a gente vive, quem deve a justiça fica impossibilitado de votar, apesar de que eu acho que o que eu fiz já está mais do que pago, ao dobro dos erros que eu cometi, gostaria de ter o direito de votar e também de ajudar a escolher o futuro do nosso país.

Mas enfim, obviamente que eu tenho as minhas convicções políticas, o rap e o hip hop me ensinaram a pensar, a raciocinar e a entender os pós e os contras. É claro que em todos os partidos existe a corrupção, existem diversos problemas, não é só no PT, no PMDB são em todos e eu acho que tudo depende da gente, o rap há 30 anos vem falando isso.

Antes dos anos 2000 não se prestava atenção no que o rapper falava ou cantava, sempre foi taxado como música de marginal, de bandido, de preto, de favelado, agora, essas pessoas esqueceram que essas outras também são seres humanos, essas pessoas também pensam e o hip hop me ensinou a pensar muito mais do que a escola inclusive, porque hoje vivemos num sistema que joga todo mundo lá e de onde saem muitas vezes, o que chamam de analfabetos funcionais, não é esse o nome? Fora que os livros didáticos não ensinam a verdadeira e a real história do nosso país, então eu acho que a nossa educação deveria ensinar ao nosso povo a ter orgulho de quem ele é, você vê ainda o nosso povo alisando o cabelo, certo?!, você vê o nosso povo ainda se tratando como moreno…de toda forma, acho importante que se discuta o momento do nosso país para entender o que se quer ou o que não se quer, mas acho que nós, pobres, pretos, favelados de periferia temos que entender como funciona essa máquina, pra também não ficar criticando partidos em vão já que a televisão só mostra o que esse mesmo sistema quer. Acho que o importante é que as pessoas cobrem a confiança do voto que foi dado e que mobilizemos sempre que possível: para cobrar mais, claro, mas, para estar junto também.

dexFoto: Haroldo Sabóia

O clip Oitavo Anjo em nossa opinião é um dos retratos mais verdadeiros e a representação mais fiel do sistema carcerário brasileiro por documentar e denunciar a realidade de milhões de presos que estão na reclusão. Se ele fosse feito hoje, mudaria alguma coisa? 

O sistema carcerário está cada vez pior né?! Quem detém o poder, só investe na repressão e na opressão. Se joga seres humanos dentro de um local, todo mundo fica lá amontoado e sem nenhum tipo de política para reinserção dessas pessoas. Então, é muito difícil você socializar, se recuperar – e essas palavras são mais difíceis ainda, porque na verdade como você vai recuperar, ressocializar, que são as palavras que eles gostam de usar, quando que na verdade o sistema nunca socializou essa pessoa? É muito complicado você entender esse mecanismo… a periferia é um laboratório, tudo está lá, sabe?! O jovem, ele também tem vontade de ter as coisas que a TV mostra…o cara mais pobre na novela, ele tem um carrinho “da hora”, enquanto que na verdade a realidade do povo é outra, morô?! Então, você causa um colapso aí em que muitas vezes muitas pessoas vão atrás da maneira mais eficaz, mais rápida que é colocando uma arma na mão, vendendo droga e que entra num ciclo vicioso, porque as pessoas que vão parar dentro do sistema, elas também custam dinheiro, só que esse dinheiro também não chega da forma como deveria chegar….. 85% do jovens que vão para a prisão são jovens que cometeram apenas um crime, reús primários, essas pessoas elas deveriam ter uma segunda chance, precisamos estudar essa segunda chance também, porque o certo é que elas vão sair de lá pior do que elas entraram.

 

Sobre os projetos educativos realizados

Na verdade eu sou a favor das penas alternativas e já foram tentadas algumas coisas, mas você vê que a população carcerária tem dificuldade. Quando eu falo do sistema me dá uma revolta muito grande porque eu tive lá dentro e por si só eu tentei melhorar algumas coisas lá: eu levei cursos profissionalizantes pra lá, palestras… eu tinha na verdade um projeto que eu desenvolvia com a ajuda de alguns companheiros, chamado Como Vai Seu Mundo que era justamente para provocar no indivíduo como ia o mundo dele, e eu graças a Deus, vi jovens que passavam o dia inteiro jogando bola e fumando maconha, virem para o nosso projeto fazer música, ler e fazer fotografia…uma forma de mostrar que se o Dexter que passou 13 anos dentro do exílio conseguiu, que eles também poderiam conseguir… então, era sempre uma coisa ligada na outra para que eles se sentissem valorizados e é isso que não tem! E deu certo pra gente! Então, o sistema carcerário é isso, esse âmbito afogado. E é preciso ser dito, meu amigo e minha amiga, que quando você ouve no Datena que é você quem paga, você precisa saber que o seu dinheiro não chega da forma que deveria chegar ! Se chegasse teria que ter escola, mais saúde, alimentação… o seu dinheiro vai para o bolso de algum político, para o bolso de algum diretor de prisão, não vai do jeito que o Datena diz que chega. Desafogar o sistema carcerário seria uma solução, morô?!

E o clip Oitavo Anjo representa essa realidade. Foi gravado nos anos 2000 mas se fôssemos regravar seria a mesma coisa, com pouquíssimas melhoras já que hoje não se mata mais dentro do sistema. Tem uma cena nele que um informante morre. Hoje, foi conversado com as lideranças – e eu não estou falando de PCC, de A ou de X, estou falando de seres humanos que resolveram se organizar para montar uma estratégia para que não se matasse tanto e não se morresse tanto! Então as pessoas que lêem, que se informam dentro da prisão, resolveram se organizar para que isso não acontecesse mais….é preciso que as pessoas saibam que rebelião só acontece depois de mais de um mês ou um mês e meio de negociação, que é quando chega ao extremo mesmo, certo?! Os “parcerinho” tão morrendo lá, tuberculose, isso, aquilo, soro positivo e a saúde não vem cuidar dessas pessoas! É uma epidemia de gente saindo de maca…. se aqui fora a gente faz passeata, a gente se rebela, lá dentro que é o pior lugar do mundo que o ser humano pode se encontrar, não seria diferente…

nobrasil_haroldo_saboia-9143Foto: Haroldo Sabóia

O que você acha do momento que vive o hip hop nacional? De alguma maneira tivemos uma superexposição em programas de TV, com o rap chegando em lugares onde não havia chegado antes e entrando na casa da “família brasileira”. Como você vê isso tudo ?

Eu acho que é um movimento natural, acho que uma hora ou outra isso iria acontecer. Vejo que o importante é continuar levando a essência do rap. Eu nunca disse que eu achava que não devíamos ir em programa de TV, nunca falei que não devíamos ganhar dinheiro, eu nunca falei nada disso, eu sempre disse que devemos escolher os programas que vamos… o fato de não ir a televisão deu certo para um grupo só, coisa que acho legítimo também, importantíssimo!

Algumas pessoas vêm cantando algumas coisas sem tanta responsabilidade assim e isso de todo modo, abriria portas!  Mas eu ainda acho que o rap continua sendo o menos visto, né!? porque querendo ou não o rap educa as pessoas e educar as pessoas em nosso país é como dar um golpe de estado.

 

 

Indicação de leitura: Veja a reportagem e o MiniDoc Quanto Mais Presos, Maior o Lucro produzido pela Agência Pública.

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Montação

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Conheça o projeto que oferece consultoria gratuita para potencializar ações em prol da diversidade sexual.

por Diane Lima 

Uma consultoria gratuita que oferece organização e estruturação estratégico-imagética para empoderar e potencializar ações de marketing em prol da diversidade sexual. Essa é a Montação, termo originado do Dicionário Pajubá que significa “processo de preparar-se para apresentação pública”.

A ideia que surgiu das inquietações do casal Ulisses Carrilho e Filipe Techera visa exercitar a própria produção das subjetividades e recursos necessários entre concepção e entrega de qualquer ação que envolva a causa LGBT,  de modo ainda a minimizar a falta de acesso e oportunidades de um mercado que desassisti em uma concorrência desleal, todo um processo educativo-informativo sobre a diversidade sexual e temas correlatos na comunicação.

Para narrar ainda visualmente esse percurso sobre sexualidade e liberdades individuais, selecionamos os trabalhos da Sam Terri e da Tathy Yazigi que nos presenteia com imagens cheias de profundidade e beleza.

SAM TERRI6 Sam Terri nasceu e vive em São Paulo. Em Memória Seletiva traça uma espécie de diário fotográfico de uma jovem explorando sua sexualidade – e a dos outros. Junto de Ella A., escreve para o blog Histórias nem tão reais e é esse trabalho que também selecionamos para falar visualmente sobre diversidade sexual.

 

Travando uma discussão que passa pelo posicionamento político de cada um, eles acreditam que as marcas também precisam se posicionar: como falar com o público LGBT? Como entregar imagem e estratégia sem promover as violências diárias presentes no ato do comunicar? “Queremos não apenas empoderar as pessoas mas também ajudar as marcas que querem falar com elas promovendo ainda ações sócio-educativas ligadas ou não a iniciativas públicas para que se diminua os próprios preconceitos e os equívocos na informação como algumas bobagens que sempre ouvimos por exemplo, sobre “grupos de risco”, diz Carrilho.

 

SAM TERRI7 SAM TERRISam Terri

Montação aposta portanto, acima de tudo, em projetos que eles acreditam e que venham através de uma demanda que se manifeste muito mais pela procura do que pela prospecção, fato que ocorreu minutos depois que eles criaram a página do Facebook: “uma vez que o processo de entender politicamente a causa LGBT chega muitas vezes depois do que a própria questão da identidade de gênero, descobrimento sexual e relações de afeto,  o desafio é que o projeto encontre pessoas fora do nosso ciclo de amizade e ultrapasse as fronteiras da web chegando em espaços e para pessoas que também ainda não tem esse pleno acesso a rede, principalmente a jovens de comunidades e periferias de todo o Brasil.”

Sendo o NoBrasil uma plataforma que acredita na diversidade como um ativo para a fruição criativa mas também, como diretriz ética produtora de solidariedades, Montação sintetiza e deixa uma pista de como é possível pôr em prática o que de melhor sabemos no exercer  das nossas profissões, tendo contudo responsabilidade sobre o significado simbólico e o trânsito do In-formar que, como criativos e decodificadores, nos foi delegado. Agora, nos resta montar e fazer.

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TATHY YAZIGI2Tathy Yazigi atua nas áreas de performance, movimento, artes cênicas, fotografia, instalação e voz e é também dela a foto de capa dessa matéria. As imagens que são pura poesia,  tratam de solidão, do feminino e do prazer de habitar um espaço nu em auto-retratos que estudam a relação corpo/espaço e que foram feitos entre 2012 até o início de 2014 em todos os quartos que ela se hospedou em todos os lugares por onde passou.
montSam Terri
TATHY YAZIGI4Tathy Yazigi

 

Mais: não deixe de acompanhar o lançamento no Canal Brasil do programa comandado por Jean Wyllys, Cinema em Outras Cores que propõe uma reflexão acerca da diversidade sexual ao revelar diferentes olhares sobre o tema. Assista ao epsódio Em Construção aqui

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Coletivos, redes e ruas: uma realidade latino-americana

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Conhecemos Aluizio Marino através do Grupo Opni e é ele que nos conta o que está por trás da formação dos coletivos culturais nas cidades latino-americanas.

por Aluízio Marino 

Na última década os coletivos culturais se consolidaram como um movimento social presente em muitas cidades latino-americanas. Em sua grande maioria são grupos formados por jovens residentes em regiões periféricas, que desenvolvem ações independentes e sem personalidade jurídica. Neste texto apresento de forma sintética uma apresentação deste movimento me baseando em experiências e vivências como membro da rede de coletivos culturais São Mateus em Movimento, e de uma pesquisa de mestrado em andamento que analisa esta dinâmica nas cidades de São Paulo e Bogotá, na Colômbia.

A relação destes coletivos com o território é evidente. Existe uma efervescência de ações que buscam transformar o espaço público, ao estimular a apropriação e o sentido de “direito a cidade”. Em São Mateus podemos citar exemplos de intervenções de cultura digital, como as projeções de videomapping do coletivo Coletores, que projeta elementos diversos na arquitetura periférica e ações que buscam ressignificar espaços estigmatizados, como a galeria a céu aberto do Grupo OPNI, que transformou a Vila Flávia em um grande “museu” de graffiti.

opni1Foto: Toni William

Essa relação entre as ações culturais e o território podem ser entendidas como uma demonstração da “cidadania insurgente”, fenômeno presente nas periferias latino americanas desde seu surgimento. Os avós e pais daqueles que hoje participam destes coletivos, chegaram a esses territórios e tiveram de construir suas próprias casas, na maioria das vezes em situações precárias, originando um processo conhecido como “autoconstrução”. Atualmente, estes jovens, em um cenário onde a periferia se consolida, dão continuidade a essa modalidade de cidadania:

opni2Frame retirado de vídeo do Coletivo Coletores

 

É importante destacar que essas relações são pautadas por uma perspectiva em rede: coletivos e agentes culturais se conectam e estabelecem vínculos de complementaridade e solidariedade. Observo essas redes como um conjunto de processos cotidianos, inerentes a prática destes atores (suas relações no “dia” a dia”), pois muitos destes coletivos, claramente inseridos nessa dinâmica, não se identificam como uma rede instituída.

Esta forma pela qual os coletivos se organizam mostra também um forte respeito à autonomia de cada componente, ou seja, a complementaridade não se configura como interferência.

Para evitar leituras errôneas, elucido que estas ações não podem ser interpretadas como bairrismo ou até mesmo – como muitas das críticas a esses movimentos – segregação. A relação territorial e principalmente, a identidade periférica, são fruto de um processo de resistência a uma segregação sistêmica, que envolve toda a cidade em processos de acumulação e especulação que privilegiam alguns espaços específicos, em detrimento de outros.

Entretanto, a ação destes coletivos ainda encontra muitas dificuldades para se desenvolver em sua plenitude. Tais dificuldades são, em sua maioria, de âmbito financeiro, muitos coletivos ainda não tem acesso a recursos.

Mesmo na cidade de São Paulo – conhecida como referência em políticas públicas que apoiam o protagonismo destes grupos, através de programas como o VAI (I e II), e os Agentes Comunitários de Cultura – é necessário avançar buscando políticas públicas alternativas que ultrapassem a barreira dos “projetos culturais” (uma grande dificuldade para a juventude periférica). Para tanto, é interessante que sejam elaboradas práticas inovadoras, que estimulem a democracia radical como por exemplo a partir de apoios financeiros diretos e contínuos, na perspectiva da ação cultural, ou  da gestão compartilhada de equipamentos culturais.

Buscar exemplos e incentivar o intercâmbio de práticas latino-americanas podem ser caminhos para garantir essa inovação. Em Bogotá, por exemplo, existe um programa intitulado “Armemos Parche”, onde são identificadas lideranças juvenis, estes recebem um apoio da prefeitura, através de recursos financeiros (uma espécie de salário), capacitação e estrutura, que visa o aperfeiçoamento de ações previamente desenvolvidas.

Fica claro que os coletivos culturais possuem um grande potencial, tratam-se de um ator social muito importante na garantia de uma sociedade mais justa. Suas ações culturais são também políticas, e podem contribuir com o desenvolvimento de uma nova governança, pautada por uma perspectiva de “baixo para cima”. Tal contribuição não se limita apenas a pasta da cultura, já que, pelo conhecimento e capacidade de articulação em seus territórios, estes coletivos poderiam contribuir efetivamente, por exemplo, com as práticas de planejamento da cidade.

Vídeo do projeto OPNI coMvida que nesta edição tem a participação do KL Jay

 

Aluízio Marino é mestrando em gestão e planejamento do território pela UFABC, especialista em gestão de projetos culturais pelo CELACC e bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela USP. Ativista cultural, é membro do Grupo OPNI (coletivo cultural atuante desde 1997), gestor do Ponto de Cultura São Mateus em Movimento e um dos idealizadores da Incubadora de Projetos e Iniciativas Culturais (IPIC), por meio de onde realiza ações de formação destinadas aos trabalhadores da cultura.
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O Lotadão da Vila

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Resolvemos pôr na ordem do dia o desejo antigo de contar a história da casa que mudou a cultura do hip hop de SP

por Diane Lima

Falar da cena hip hop do Brasil sem falar da Black Bom Bom é impossível. Por isso que resolvemos pôr na ordem do dia um desejo antigo e contar um pouco da história do cara que está por trás desse projeto que hospedou e hospeda por tantos anos funkeiros e mc’s e que é também, com total respeito pelo que representa, parte da família NoBrasil. Num papo reto, como já é de costume os que conhecem Flavinho, nome de batismo Flávio Pires, falamos de como surgiu a ideia de enfim colocar a Vila Madalena na rota da cena da black music de São Paulo: “Era uma época em que o Ministério Público não deixava os Racionais trabalhar com aquele preconceito das pessoas dizendo que o rap era violento…. junto com o Brown, pensamos em modificar essa história e mostrar que a distância daqui para o Capão Redondo, daqui para Pirituba ou para qualquer periferia era pouca. Que as pessoas tinham que vir pra cá, para o Jardins, para a Paulista assim como as pessoas daqui também tinham que frequentar as coisas de lá. O Black Bom Bom chegou para destravar esse preconceito ridículo e aí lançamos um modelo de festa que ao invés de divulgarmos o Racionais, chamávamos um outro Mc que fazia o convite para o Mano, o Kl Jay, o Edi Rock e Ice Blue. Apesar de muitas pessoas na época não acreditarem, a gente veio com tanta firmeza e convicção no nome da Black que fomos em frente. Graças a Deus e ao trabalho de todo mundo, a gente conseguiu fazer a casa decolar e hoje é um espaço tradicional na linha hip hop, sendo uma das primeiras a trazer o funk pancadão aqui para São Paulo”.

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Abrindo as portas para receber as expressões e a vozes do povo das quebradas, rompendo com as barreiras e as fronteiras entre periferia e centro e colaborando para aquecer e fortalecer um mercado mais profissional para a black music, viu passar pela seus palcos quase todos os nomes do rap brasileiro, ainda que tendo que enfrentar os embates sociais e políticos já que as denúncias em forma de canção passavam a chegar enfim ao centro e portanto, cada vez mais incomodar: “no primeiro ano fiz questão de mandar várias cartas para o Ministério Público, Polícia Militar dizendo ‘olha, tá vendo?, fizemos um show de rap lá na Vila Madalena e ninguém brigou com ninguém, ninguém matou ninguém, tá tudo sob controle…’ pra provar que não era o rap que era violento, que a violência era do estado contra as pessoas e que ela estava generalizada pela cidade….”

Inteira pintada de preto, deixando revelar em neon apenas seu letreiro, é inegável a mística que envolve a casa, em que o próprio recitar do nome, nos inspira a pensar quantos modos e modas, estilos, gírias e trejeitos surgiram e desapareceram por ali. Celeiro criativo da cultura urbana de SP desde os anos 80, ficou conhecida como a bandeira número 1 da capital paulistana a levar adiante o projeto de desbravar o mercado do hip hop, do funk e da black music, mostrando que não tinha violência e que se podia fazer festa em qualquer lugar.

“A Black Bom Bom é a bandeira número 1 de São Paulo a desbravar o mercado do hip hop, do funk, da black music, e falar que não tinha violência, que podíamos fazer festa em qualquer lugar”.

 

Passado tanto tempo, hoje é possível desenhar um momento totalmente diferente para a cena, que ocupou espaços antes inimagináveis com festas sendo realizadas em grandes boates, em praças públicas ou casas de show em toda SP. Apesar de “velhinha”, como frisa Flavinho no vídeo lendário que compartilhamos aqui com vocês, continua a ser o templo dos jovens da periferia ou do centro que fazem do #lotadão da Vila a #casa monstro da black music do Brasil.

Um salve a Marcelo Bauer pela dedicação e por nos receber sempre tão bem.

#Vem que tem.

 

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Antologia das # do #lotadão da vila ou da #casa monstra da música black

 Reunimos as melhores hashtags do instagram, qual é a sua? 

#blackbombom ta uva mlk

#bbb com os parça

#pelo dim na missão preenchendo os espaços da vitória das guerras cada momento impera vielas platéias o mundo nos espera

                                                                            #manobrown convida

#paizão                                                                       #ZE

#preto tipo A                                  #ducorre

                                                                     #vilafundao                 

#zn                                                 #pra cima                              #cheguei no pistão

                                                                                                                                                                                        #contra nós ninguém será     #e noix

#segue o treco pra curtir black do bom                          #pretinho do poder

          #favela do moinho                                                                           #nego drama

                           #mariguella

#vila madá         # os insanos                #meajudaaeooooooo

#PraNaoTerXerox    #OPaiTaMal        #vemnovinha

#us fora da lei  #kd 1 no seu    #herois urbanos

#daquele jeito #meus canalhas #raxaria
#excorregaaaaaa                                    #os mulekes zick track memo tiu no black bom bom
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I.nova.ação

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Entrevistamos o Jorge Pacheco da Plug que nos esclarece passado, presente e futuro da inovação no Brasil.

por Diane Lima

Inovação. Talvez tenha sido essa uma das palavras mais faladas nos ambientes em que coabitam criativos, investidores e profissionais da tecnologia e do mundo digital. Mas o que de fato pensam os profissionais que estão liderando e discutindo a cultura do empreender e da inovação NoBrasil?

Foi para falar um pouco sobre Inovação passado, presente e futuro que fomos conhecer a acolhedora Plug, o maior coworking do Brasil e também ecossistema para desenvolvimento e mentoria de negócios. A ideia que surgiu em 2012 da união e da vontade de três amigos em criar espaços interessantes para trabalhar, vem sendo uma das grandes células responsáveis pela disseminação da cultura da criação colaborativa, ajudando projetos que vão de tecnologia ao design de moda como o Meia Bandeirada,  Gomide e a Intensify.me a baterem asas.

No entanto, em tempos onde começa a existir o que alguns críticos já chamam de um certo esvaziamento no conceito de inovação, NoBrasil se lança num debate sincero e muito confortante com o Jorge Pacheco, um dos seus fundadores, para esclarecer alguns pontos sobre a febre tentando entender porque afinal de contas, se fala mais do que se inova.

Vem que tem.

548419_201212410006572_266056448_n Detalhe decoração da Plug

 

NOBR: As vezes temos a impressão de que nos deparamos mais com projetos que tentam se enquadrar na “tag” inovação do que realmente criando processos e ações que pensam formas de inovar. Como se deu todo esse movimento aqui NoBrasil e como você percebe esse momento?

De fato nos últimos 2, 3 anos falou-se muito em inovação como nunca se havia falado tanto, principalmente inovação ligada a cultura digital. O que acontece é que foi um tipo de informação que chegou para um mercado que ainda não estava totalmente preparado, principalmente no quesito informação, em que replicou-se modelos que já existiam em outro lugares. Hoje o que vejo é a inovação cada dia mais caminhando no sentido prático, não achar que ela é essa coisa distante feita em um laboratório por uma empresa que investiu milhões. O nosso desafio é pensar que ela pode estar nas pequenas coisas, coisas que fazem a diferença de forma objetiva, no nosso dia-a-dia”.

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NOBR: Então inovar para você seria…?

Um jeito de criar uma forma diferente de fazer alguma coisa de uma maneira que essa diferença, possa ser mensurável. A inovação sem impacto para mim não existe, ela está completamente ligada a transformação, seja no negócio ou no dia-a-dia. Nesse sentido, percebo que processos de inovação estão cada vez mais acontecendo nas pequenas coisas, em micro territórios, surgindo numa rua, numa cidade, numa comunidade e depois se estendendo e tomando uma maior proporção e é esse nesse caminho que eu acho que as coisas vão caminhar nos próximos anos: pessoas cada vez mais pensando em simplesmente resolver problemas do cotidiano, seja nas suas comunidades ou empresas, na busca por soluções para resolver problemas em seus processos.

NOBR: E na sua opinião, o que ainda está faltando?

Mais investimento em uma série de setores principalmente em educação porque é engraçado que as vezes as pessoas falam: ‘ha, mas o Brasil não tem nenhum prêmio Nobel, de Ciências, os Estados Unidos, a Europa tem um monte’ …mas na verdade se você for comparar o que esses países investiram e investem em pesquisa e desenvolvimento, a soma de verbas para incentivo nas universidades são recursos altíssimos que promovem descobertas e resolvem questões. A gente tem um processo de inovação que é característico do Brasil, que é a criatividade de quem precisa, de quem está com a barriga vazia e precisa se virar mas é preciso lembrar portanto que falar de inovação também é falar de empreendedorismo e o Brasil nunca teve uma uma cultura empreendedora. Aqui  a criança é educada a tirar boas notas para passar num vestibular, para em seguida conseguir passar num concurso público ou entrar em uma grande multinacional…..na minha época de escola ou faculdade por exemplo, ninguém nunca falou em empreender, eu fui um dos únicos.

NOBR: Quais os aprendizados que o mercado reuniu nesses últimos dois anos? O que tivemos de lição?

Acho que de um modo geral, está muito mais fácil empreender….toda essa mística do Silicon Valley,  jovens ficando milionários muito cedo, tudo isso encorajou demais as pessoas. Nesse tempo, teve uma enxurrada de investimentos e fundos no Brasil  com valores muito altos e modelos que eram cópias de coisas que deram certo lá fora e que não foram tão bem aqui assim. O mercado de fato tomou um baque porque muita gente perdeu dinheiro e muitos investidores recuaram e saíram do Brasil. Então, considero que essa euforia serviu como um grande aprendizado para o mercado como um todo e para a construção de um ecossistema mais maduro e mais profissional.  Mas sinto que ainda é necessário um programa de governo que seja de fato centrado no empreendedor, segmento que tem um potencial de geração de renda enorme para o país. No entanto, algumas iniciativas ainda sofrem com problemas de gestão já que muitos profissionais a frente delas, são pessoas da própria máquina que nem sempre tem um entendimento especializado sobre o assunto. Por outro lado é um momento positivo, tem muita gente boa fazendo muita coisa legal. Pessoas que estão de fato, tentando consolidar questões por exemplo ligadas a marcos legais como bons escritórios de advocacia que possa nos orientar sobre entraves vindos também da nossa própria legislação, dentre outras coisas. Apesar de tudo, acho que não podemos perder de vista a vontade de mudar, fazer e criar sem esperar por iniciativas públicos. Hoje través da tecnologia já é possível fazer muita coisa sem tem que esperar e isso é muito importante.

Hoje a Plug hospeda mais de 15 agências de segmentos criativos além de apoiar projetos que geram contribuições positivas para o meio ambiente e a sociedade, oferecendo o uso do auditório para eventos e mesas para trabalho sem custo. Como um desses lugares que dá vontade de ficar ficando, o nosso recado é que vale a pena conhecer. Obrigado ao Jorge pela disponibilidade e tanta atenção em nos receber.

Família NoBrasil agradece.

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Com Tempo Com Coragem Com Coração: Karlla Girotto por uma política da imaginação

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Como mediadora do G>E, ela vem nos ensinando novas possibilidades de existência criativa.

“Então somos um grau de potência, definido por nosso poder de afetar e de ser afetado. Mas jamais sabemos de antemão qual é nossa potência, de que afectos somos capazes. É sempre uma questão de experimentação. Não sabemos ainda o que pode o corpo, diz Espinosa, só o descobriremos ao longo da existência. Ao sabor dos encontros. Só através dos encontros aprendemos a selecionar o que convém com o nosso corpo, o que não convém, o que com ele se compõe, o que tende a decompô-lo, o que aumenta sua força de existir, o que a diminui, o que aumenta sua potência de agir, o que a diminui.
Peter Pál Pelbart, 2008.

 

por Diane Lima
Colagem feita com imagens do G>E, obras do Nino Cais e Cildo Meireles

 

É sobre como continuar sendo vivo e atuante no mundo hoje, como extravasar uma criatividade em um sistema que não te permite e como dosar essas relações se entregando a processos de auto-conhecimento criativo alguns dos questionamentos e inquietações que o G>E (lê-se Grupo Maior que Eu), projeto mediado pela Karlla Girotto vem investigando.

Antes de entrar de cabeça portanto nessa história que muito contribuiu para o entendimento sobre a nossa própria pesquisa, gostaríamos de uma breve parada para manifestar um pouco do nosso contentamento e fazer alguns agradecimentos. Desde o nascimento do Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, nunca foi a nossa intenção desenhar, delimitar perfis e nem modelos de produção. Havíamos uma ideia de como tais expressões poderiam surgir mas nos encantava ainda mais a possibilidade de topar com o inesperado, já que a nossa questão partiu em saber quais as diferentes maneiras que profissionais nos quatro cantos do país, estão encontrando para romper a lógica econômica, política e social do mercado e ir além. Na busca desse improvável, um série de possibilidades vieram à tona durante a conversa com a Karlla através do que o próprio G>E significa. Tivemos a certeza que cada nova pessoa que trocamos uma ideia ou que passa por aqui é importante não por deixar uma colaboração como num manual de dados ou uma enciclopédia que versa sobre “o que temos que fazer então (?)” mas, por simplesmente fortalecer e deixar o caminho mais claro e menos tortuoso. Sem respostas prontas, chegamos a conclusão que o nosso papel é de problematizar e articular exemplos prováveis que navegam e se perdem entre uma mentoria e uma mediação, lugar que ficamos felizes de ocupar, poder construir e experimentar com vocês. Também, um super obrigado a Karlla pela confiança em abrir um processo tão íntimo, maturado, de tamanha delicadeza e cuidado e que se conectou de forma tão potente com tudo o que estamos tentando traduzir com esse especial aqui NoBrasil: o G>E é em essência uma célula vibrante que agindo de modo molecular, está fomentando em um núcleo de criativos-pensadores, novas formas de existir e conceber a moda brasileira e esse fato só por existir, já nos faz contente.

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O grupo que é formado por 11 pessoas e começou em setembro do ano passado, iniciou suas incursões quando a Karlla fez uma chamada pelo Facebook para um workshop no seu atelier: “apareceram pessoas muito preciosas, muito especiais e os encontros passaram é ser uma coisa muito importante para cada um que chegava ali”. Karlla que durante algum tempo participou das maiores semanas e eventos de moda do país, explicou como se deu o seu processo de reflexão sobre esse fazer enquanto criadora e que levou-a a através do G>E, confabular essas possibilidades alternativas de produção, de processos criativos e também de colaboração mútua: “na verdade eu nunca me encaixei no sistema moda, nem na linguagem moda e foi essa minha vivência que me levou a pensar: se lá não era possível, onde era possível então? Passei a pensar que talvez viesse embutido no modo de existência, no dia-a-dia, não precisando necessariamente significar comércio,  trajetória, uma carreira…. você faz aquilo para se manter viva, seja em seu processo de arte ou de design. Eu não parei, estou aqui, eu produzo pensamento, produzo texto, desenho e por isso a necessidade do silêncio, do estar longe de um burburinho que não me contribui em nada…coisas que hoje não fazem sentido nenhum na minha vida.  Nesse caminho também, você vai fazendo as suas alianças, as suas escolhas: com quem compactuar para continuar cada vez mais potente no meu fazer?  As vezes a gente encara coisas achando que vão ter algum retorno mas quando você vai ver aquilo ali não é nada, são coisas apenas para te desvirtuar daquilo que você estava fazendo e precisa fazer.”

 “se lá não era possível, onde era possível então?

 

6Interações do G>E com Suzy Okamoto e Gustavo Silvestre

G>E se define então como um programa intensivo e extensivo de experiência transdisciplinar para uma política da imaginação. Através de leituras e materiais auxiliares,  constrói territórios e subjetividades em uma dinâmica totalmente aberta e viva que une desde materializações que cada pessoa do grupo traz para discutir, até visitas externas ou imersões que colaboram com o processo da própria Karlla em projetos que é convidada a participar: “eu sempre falo que o G>E não é só uma coisa de processo criativo é também sobre como estar no mundo hoje. Quase todo mundo que apareceu aqui, é gente que vem de um processo de desgaste muito grande com a indústria e o sistema da moda. Chegam buscando tentar entender o que fazer com essa parte criativa e aí para entender isso, é preciso entender primeiro que não é culpa de cada um não conseguir colocar isso no mercado, porque é com essa fragilidade que muitos de nós muitas vezes nos encontramos. Falta o entendimento que é o próprio mercado que não te permite que você use da sua potência inteira e essa não permissão, acaba por gerar esses conflitos. Vamos a um exemplo que eu sempre gosto de contar porque explica muito a situação:

você acabou de sair da faculdade, tem um trabalho lindo, maravilhoso que demorou 4 anos para construir. Daí você vai apresentar seu portfólio numa empresa de moda e o cara fala: ‘meu, é lindo seu trabalho, já está contratado, você é um puta designer’. Começa a fazer as suas coleções e passa a ser ‘gongado’ a cada reunião que você entra: ‘isso aqui não vende,  tá louco, isso aqui é arte! Não! Pega as camisetas que deram certo na coleção passada, faz só uma estampinha, muda de cor e bota pra vender’. Depois de 1 ano que você está cinza, sem brilho no olho, esse mesmo cara que te contratou olha pra você e fala: ‘meu, cadê aquela designer que eu contratei, aquela pessoa vibrante, criativa com brilho no olho, com sede de viver, estou te vendo tão apático….’ e você fica olhando para o cara e pensando que ele é um louco, um psicopata, porque durante um ano, ele passou todo me dizendo que não podia ser aquela pessoa, e agora, que eu não sou mais porque eu nem sei mais onde está aquilo porque ele fez questão de cimentar tudo o que era vivo em mim, você vem me perguntar onde estou ?”

4O atelier do artista Nino Cais foi um dos lugares em que o G>E passou.

Através desse diagnóstico, o G>E  se tornou o lugar e o território onde para essas pessoas foi possível continuar. Um lugar para exercitar e dar vazão a vontades “que não eram possível aí fora”, fazendo com que existisse uma maior fruição e tranquilidade em todas as instâncias da profissão que insiste em se dividir entre prazer e obrigação. Um encontro que permitiu fluir, manter vivo e exuberante o instinto criativo que existe dentro de cada pessoa que se permite ao alimento da imaginação, possibilitando a todos saber lhe dar melhor e dividir suas entregas também ao mundo comercial.

Recebendo esporadicamente alguns convidados externos e formado por Ad Ferrera, Adriana Comparini, Danielle Yukari, Fabio Lima Malheiros, Gustavo Silvestre, Gabriela Cherubini, Lucia Muller, Maria Gabrielle Oliveira, Tathiana Yumi Kurita e Jessica Costa o G>E se prepara agora para abrir seus processos num espécie de atelier aberto que irá acontecer dia 15 de novembro na Casa do Povo onde a Karlla divide o atelier com 9 das 11 pessoas que fazem parte do grupo. No que ela chama de congelamento de ideias que irá mostrar algumas materializações, deixa claro que não se trata de exposição:

“não acho que é uma exposição porque soa  muito pretensioso…..é processo, está indo e a gente não tem um objetivo, onde chegar”.

Em tempos onde se fala tanto em inovação e em que o sentido da palavra por vezes se esvazia na repetição de algo que se fala mais do que se faz, o G>E se posiciona como refúgio e espaço imantado onde é possível exercitar o fazer sem preocupação com o para quê,  como um exercício diário que proporciona um suspiro diferente do mundo programado lá fora: ” isso é um movimento muito neoliberal, desse capitalismo que tenta te capturar antes que você nasça…. antes que a coisa exista ele quer que já seja dele, que a coisa esteja pronta para ser consumida. Aqui, traçamos uma cartografia pessoal em que juntos tentamos dar conta de todos esse desejos, de todas essas linhas de força desacelerando e fazendo com que as pessoas entendam que não tem que ter um objetivo, não tem que ter um porque, tem que ter um fazer, porque se você fica com esse fazer estagnado, você prejudica a sua saúde, é uma questão de sobrevivência, é uma questão de necessidade.”

5Momentos, incursões e a foto do atelier na Casa do Povo

 

Sobre o futuro da moda e essa crise ética e produtiva em que se produz freneticamente imagens vazias e produtos sem memória, Karlla trouxe um das mais sábias palavras em que aponta para uma reação global mais do que somente uma problemática nacional: “acredito que essa crise seja da moda como um todo, porque ela explicita um jeito de estar e ser no mundo que é muito perverso … uma perversidade que esvazia o sentido de qualquer coisa que ela toca como o bafo da morte em que tudo perde a potência vital. Acho que as pessoas já meio que sacaram isso e estão querendo não mais se filiar a esse modo de pensamento, afinal, porque não construir outros modos de existência mais condizentes com aquilo que a gente acredita como criação, como processo criativo, em construir um dia a dia mais saudável? Quando entramos nesse sistema de consumir  e ser consumido é um modo de vida doente em que vai adoecendo tudo o que é vivo em você. Acho que é irreversível, acho que  é um grande movimento de ruína desse grande sistema majoritário. Já é possível ver então de um lado, iniciativas e gente pensando e construindo esse outro jeito de ser e um outro lado, que tensionando está desesperadamente fazendo com que esse jeito atual não morra, que ele prevaleça.”

O nome que surgiu do acaso, fruto de um erro de digitação em que o Ponto Final se confundiu ao Maior Que, deixou para Karlla uma pista sobre  como era possível reinventar e criar novos modos de existir criativamente nesses trânsitos entre moda|design|arte em que a partilha e a colaboração entre pessoas que carregam os mesmos dilemas ou as mesmas aspirações, possibilitasse um ponto de fuga com uma profunda e complexa conexão. Não de um fingimento poético neoclássico mas desse Fugere Urbem próprio do contemporâneo, de gente que Com Coragem está se permitindo ser veículo para plantar nem que seja as primeiras sementes de reflexão, nos ensinando que sim, existem outras formas do fazer  e que com elas, podemos ser mais felizes. Obrigado a Karlla por ser exemplo e fonte de inspiração de muitos.

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Saiba mais:

G>E  – grupo maior que eu – é um programa intensivo e extensivo de experiência transdisciplinar para uma política da imaginação: política porque está preocupado como organizamos os recursos, as práticas, os espaços, a produção material e a vida que partilhamos; imaginação porque destina-se à formação de novas idéias e imaginários sobre como fazer e como manter a potencia criativa viva e ativa.

Propõe investigar o sentido prevalente de impasse face a avassaladora complexidade do mundo atual que parece suspender nossa capacidade de imaginar e compartilhar – novas possibilidades de existência, maneiras de organizar a vida e por fim,  desejos e construção de novos mundos, novas coisas. Contra esta impotência individual, G>E  – grupo maior que eu – quer criar um espaço comum para imaginação criativa e política –  espaço concreto onde novas práticas podem e precisam ser forjadas.

O formato tenta configurar as condições necessárias para suportar tal esforço comum e a convicção de que o que precisamos é tempo, espaço, concentração, generosidade, desobediência, experimentação e alguns cuidados a seguir. Contribuir para a desaceleração das partículas no mundo.

Nosso obrigado especial a Suzy Okamoto e Tarcisio Almeida pelas aproximações de conteúdo e indicações.

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