Category: Ruptura

Com 19 anos, negra e transexual, é Maria Clara Araújo que nos Representa nesse Dia Internacional da Mulher

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No nosso dia, conheça a história dessa mulher que é símbolo de luta, revolução e transformação.

por Diane Lima
 Capa: Ilustração do Vitor Teixeira

 

Foram 2 dias molhando os olhos até a data exata da entrevista com a Maria Clara Araújo, ativista transexual, negra, nordestina e dona de uma das histórias mais emocionantes que já passaram aqui pelo NoBrasil e que nós agora, com muito respeito, compartilhamos nesse dia muito simbólico e representativo que é o Dia Internacional da Mulher.

Na verdade, o nosso contato com Maria Clara se iniciou ainda lá no Rio de Janeiro, quando por pouco nós nos encontramos no set de gravação do filme Kbela e que culminou na última semana, através da ponte feita pela Yasmin Thayná, diretora do filme, no SIM da Maria para participar do Elas Nos Representam, nosso especial que homenageia as mulheres de todo o Brasil e traz à tona, discussões imprescindíveis sobre a importância da nossa representatividade e empoderamento.

Ela que do Recife foi convocada entre os mais de 6 mil aprovados no SISU para ocupar uma vaga da Universidade Federal do Pernambuco, contou para o NoBrasil ainda muito emocionada, o que a sua vitória representou para ela e para o movimento: “Foi sem dúvida muito importante porque é preciso que fique claro que a universidade não foi feita para pobre!  Quando eu ia em alguma universidade, para uma roda de conversa ou para dar uma palestra, eu sempre achava aquele ambiente extremamente elitizado, em sua maioria ocupado por pessoas de classe média e que faz qualquer pessoa de onde eu vim pensar: nossa, eu nunca vou estar aqui dentro! E quando eu vi que eu estaria ocupando esse espaço, não mais somente como visitante ou como objeto de estudo, mas como estudante, foi uma realização para mim, pra minha família e acredito que também uma realização para o movimento ter uma menina trans, que é marginalizada constitucionalmente e socialmente, estar ocupando esse espaço. Tenho certeza que vou conseguir construir coisas muito bonitas lá dentro”.

Nesse video emocionante, Maria Clara fala sobre dentre outras coisas, da importância da sua mãe na sua vida.

Mais do que a felicidade da aprovação de qualquer jovem da periferia do Recife numa Universidade Federal, o feito da Maria Clara vem para reforçar sobretudo, a urgência sobre a importância da representatividade de transexuais e travestis em espaços institucionalizados de poder e o combate também à própria fetichização desse corpo, como ela mesma explica ao lembrar da fala de uma pessoa que se disse “espantada por vê-la andando naturalmente à luz do dia como se fosse algo natural”: “tanto mulheres negras cisgênero quanto mulheres negras trans, sofrem esse problema da fetichização e exotização do corpo. Na verdade, toda mulher tem seu corpo vendido na grande mídia, o nosso corpo no entanto é mais endossado nessa questão, seja sendo a mulata ou a travesti que normalmente é a prostituta. Isso tudo é muito complicado porque as pessoas nunca se perguntam porque essas meninas trans ou travestis estão naquela rua ou porque elas apenas tiveram aquela rua como possibilidade de vida, né? Esse porque, foi o que fez com que nós ganhássemos esse status de figuras da noite que estão ali apenas para satisfazer essa grande massa masculina.  Então, pra mim sou apenas eu, uma jovem de 19 anos indo na praça conversar com meus amigos o que me faz pensar que apenas o fato de existir enquanto mulher trans é algo muito grande. Eu entrar na universidade, eu ter um relacionamento, eu ter uma conversa com minha mãe, isso são coisas que na vida de outra pessoa são coisas comuns, mas na minha vivência de mulher trans isso não é algo comum, é uma vitória”.

“É sempre importante refletir sobre por quê somos seletivos em quais discursos levar a sério.

Por que quando a travesti de rua morre, vocês ignoram, mas, eu, vocês escutam?

Por que quando a mulher negra do bairro quer ser sexualmente liberta, vocês recriminam, mas a feminista branca vocês aplaudem?

Por que quando a bicha pão com ovo apanha, pouco se comenta, mas quando há um personagem gay higienizado na Globo, todos assistem?

Hora de se perguntar por quem estamos lutando.”

Na nossa conversa com a Maria Clara, um frase nos marcou muito: “É preciso que as pessoas tenham consciência que elas não convivem com pessoas trans” e isso só nos faz refletir o quanto precisamos avançar para que as demandas transfeministas sejam incluídas não somente na agenda dos direitos humanos mas que sejam discutidas, principalmente, dentro do processo de educação, de modo que o próprio sistema de ensino seja capaz de conduzir e orientar esses momentos de descobertas na adolescência, comumente marcados por um processo solitário e de pouco amparo familiar, já que muitas sofrem com o medo da rejeição. Além disso, a busca dela por verbalizar a sua condição e seus desafios através das redes sociais, vem para provar o quanto o papel da internet está sendo decisivo por dar visibilidade e amplificar a voz de milhares de outras meninas que como ela, estão em busca de apoio e encontram na rede, através de diversos grupos de amparo e causas sociais, ajuda especializada, amigos e outras companheiras de luta: “a minha descoberta se deu mais especificamente aos 15 anos quando eu vi na TV uma matéria da Lea T. Foi a primeira vez que eu vi a transexualidade sendo mostrada de uma outra forma na mídia. onde ela falava dos preconceitos que sofreu, das penalizações da vida e sobre a questão da família. Foi uma perspectiva da visão sobre a transexualidade muito nova, não somente para mim mas acredito que para outras pessoas também porque os veículos de comunicação escolhem passar a visão sobre o que é ser transexual de uma forma muito limitada: sempre relacionada a prostituição, como a travesti que sai com o jogador ou a travesti que aparece morta.  Então, foi ali que me vi de frente com a transexualidade e a partir dali eu comecei a pesquisar o que era ser transexual e fui em busca, seja vendo documentários ou conversando com amigos. É preciso dizer ainda, que aquele momento, não de aceitação mas, de decisão, foi muito duro porque eu me sentia como se tivesse em uma ponte onde de frente estava um leão e atrás um tigre. Se eu andasse para frente e me assumisse mulher trans eu poderia perder a minha família, não teria emprego e sofreria preconceito ainda mais do que eu já vivia todos os dias mas, se eu fosse ao tigre e continuasse sendo lida como rapaz,  eu seria extremamente infeliz. Então eu resolvi andar para frente e já tem dois anos que eu me assumi como mulher trans.”

2Agridulce – Imagens Reprodução/Facebook

“o transfeminismo parte da premissa da libertação dos corpos das mulheres trans visando amparar essas vítimas ao entender que essas mulheres são marginalizadas institucionalmente por viver sobretudo em um país que é o que mais mata travestis e transexuais no mundo, o dobro do segundo lugar que é o México.”

Apesar de ser tudo muito novo na sua caminhada e de haver uma batalha muito maior com o próprio Estado para que se desburocratize a mudança de nome de registro e que haja a desconstrução da visão da identidade trans como uma doença – ambas causas contempladas no projeto de lei conhecido popularmente como Lei João W. Nery e que encontra-se ainda em tramitação, Maria Clara já é responsável por uma grande vitória: o reconhecimento para o uso do nome social na Federal de Pernambuco: “eu me senti na responsabilidade de chamar atenção na mídia para que houvesse uma pressão popular para que a UFPE reconhecesse a importância desse passo.  Hoje o nome social foi regulamentado enquanto portaria e fico feliz que eu tenha sido útil para o movimento e que outras meninas agora possam também usufruir.”

No embate ainda da própria aceitação do movimento transfeminista dentro do feminismo tradicional, Maria Clara contou ainda como o seu despertar sobre ser trans andou de mãos dadas com a sua construção sobre ser uma mulher negra: “o fato de eu estar militando, falando abertamente da minha história acabou ainda proporcionando momentos incríveis na minha vida como a própria gravação do Kbela, que foi um despertar muito grande sobre a minha consciência racial. Eu venho de uma família adotada, então todas as minhas primas tinham cabelo liso….quando criança, além de eu verbalizar que eu queria ser uma garota, eu sempre falava que queria ter o cabelo liso das minhas primas, porque eu vivia num meio em que esses cabelos eram super valorizados e eu me lembro de muito cedo, quando eu ia no mercado para minha mãe, sempre pedir o Xampu mais caro, porque eu pensava que o mais caro iria fazer do meu cabelo tão liso quanto o delas. Perceber que isso tinha tudo a ver com outros fatos como por exemplo, quando já mais velha, fugia do sol para ficar mais clara, como também alisar o meu cabelo e a me submeter a todo esse processo de embranquecimento, foi muito marcante na minha vida”.

Feliz com a escolha pelo curso de pedagogia, Maria Clara Araújo agora pensa no futuro. Quer revolucionar a educação do país com a sua presença e militância, empoderando, conscientizando e inspirando milhares de outras mulheres de todo o Brasil para que como ela, sejam um símbolo de força e grite aos quatro cantos cheias de orgulho: A revolução será travesti!

+ Leia na íntegra o Manifesto escrito pela Maria Clara clicando > aqui

Veja mais sobre o especial Elas Nos Representam
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A Escola Livre propõe mais do que um ensino do design gráfico, é um experimento de educação que questiona o papel do como e porque se projetar coisas no mundo.

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A aula inaugural será lançada nos dias 07 e 08 de março na 3ª edição da Feira Plana e NoBrasil conversou com o designer Guilherme Falcão para saber mais.

 por Diane Lima

Em semana de Feira Plana, uma das maiores, se não maior, Feira de Publicações Independentes do Brasil e que vai acontecer nesse final de semana reunindo editores dos quatro cantos do país no Museu da Imagem e do Som aqui em São Paulo, nos inquietou a necessidade de trazer à luz da discussão algo que é norteador para o NoBrasil e explica bastante quando dizemos empregar o pensamento do design contemporâneo como premissa curatorial. Falando de um outro modo, nada mais que a nossa vontade de tencionar as relações que vão além da matéria para deslocar o clichê do entendimento sobre design enquanto beneficiamento, solução, “glamourização”, embelezamento e por fim, somente produto, para ativar algo que para nós é crucial no pensar essa área do conhecimento no mundo contemporâneo: a ideia que o designer é o profissional que projeta também significados simbólicos e subjetivos que no fim das contas são utilizados como dispositivos de poder que nos ajudam a construir as nossas singularidades e nos fazem ser quem somos.

E vem daí, dessa similaridade de pensamentos e de quereres, o intuito de contemplar o momento Feira Plana aqui NoBrasil, trocando uma ideia com pessoas que estão pensando a prática ainda na etapa do processo criativo e formativo, que é o Guilherme Falcão e a Tereza Bettinardi com o projeto, a Escola Livre, um experimento de educação em design gráfico que terá aula inaugural nos dias 07 e 08 de março, durante as tardes da Feira:  “A escola nasce de certa maneira de um outro projeto nosso que era A Plataforma, um blog de discussão e crítica de design no Brasil. O conselho editorial que era formado por mim, pela Tereza e pelo Felipe Kaiser, trazia alguns questionamentos que a gente tinha ligados ao mercado de trabalho e o projeto era uma forma de tentar dialogar e colocar a coisa mesmo no plano da discussão. Passado uma série de acontecimentos em 2014, foi ficando cada vez mais claro para mim e para a Tereza a necessidade da ação vir em conjunto com a reflexão porque tinha muito isso: a gente escrevia o texto, jogava ele e tinha repercussão mas a gente sentia falta do embate corpo a corpo. E aí, aproveitando que eu já estava tendo cada vez mais experiência com o ensino, dando oficinas e pequenos cursos e ela também, veio esse grande ímpeto de colocar as pessoas para se encontrarem, discutirem e dividirem seus questionamentos e suas aspirações, num mesmo lugar”.

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As imagens são de alguns dos trabalhos feitos pelo Guilherme ao longo dos anos além das publicações da Contra, sua editora de fanzines.

 

Surgindo como demanda fruto dessa reflexão da não-presença ou da super-exposição dela no mundo virtual, um anseio que é compartilhado por um monte de gente (inclusive nós) que se propõe a gerar conhecimento no online, a Escola Livre pretende trazer para o tete a tete a ideia de comunidade e de ações que estejam ali, no ao vivo, acontecendo no momento: “eu tive há algum tempo uma reunião com um diretor de uma agência super grande e ele comentou que tanto os profissionais quanto as marcas estão meio perdidos quando a gente pensa: como é que se engaja as pessoas? E isso estamos falando do ponto de vista de alguém que está vendendo um produto né, que é um bem de consumo, que muitas vezes você quer ter acesso por necessidade ou por desejo, o desejo que foi incutido em você com todos os estímulos que a gente bem sabe…. E aí eu penso: se essas pessoas/marcas estão em crise, imagina você tocando um projeto que pede para que as pessoas saiam do comum, que elas se engajem para discutir e refletir sobre uma prática, no nosso caso a prática do design? Existe uma vontade muito grande de produzir, produzir, produzir, fazer, fazer, fazer e eu percebo que por a gente ter essa herança que é brasileira, por ter meio que chegado “atrasado na festa”, a gente tenta mimetizar as coisas e acaba sendo em algum momento até maneiristas….. porque sim, existe um conceito, uma essência ou um simbólico como o NoBrasil coloca, mas que as pessoas acabam se prendendo somente na aparência da coisa, ao físico e na solução visual daquilo”.

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A proposição da Escola nos faz pensar ainda um cenário em que se torna cada dia mais latente um retorno à se discutir o como se faz, em oposição a insistência de um caminho do conforto que a crítica sem ação nos oferece.  Além disso, o próprio currículo das escolas de design do Brasil é algo que vem sendo discutido e rediscutido ao longo dos anos por ser esse quase nunca capaz de tangenciar todas as possibilidades que a disciplina oferece como prática e pensamento. Desse lugar vem a ideia de coletividade e aprendizado mútuo presentes no próprio termo escola que os designers fizeram questão de carregar no nome: “eu sou uma pessoa que acredito muito que o trabalho do designer se aproxima muito do trabalho de edição, já que você está alí intermediando, selecionando e construindo alguma narrativa. Em um momento onde as instituições estão em crise, entender a educação de uma maneira que ela seja menos hierárquica, que tenha uma troca mais paralela e um aprendizado mútuo, que deixe de ser uma ideia que a gente tem aqui no Brasil que o ensino é profissionalizante e apenas, para pensar também para quê isso serve e como vou usar isso no mercado de trabalho é muito importante….. aprender um ofício é muito mais do que isso, é entender que o que você escolhe fazer e como você escolhe fazer, é uma contribuição sua para o mundo e para a sociedade e que existe um contexto maior a tudo isso. A gente quer pensar essas relações mais horizontais,  claro que nós é que estamos propondo a atividade e é esperado que a gente dê o tom mas, pra onde a gente vai, onde a gente vai chegar ou como a gente vai chegar, isso a gente quer construir junto com todo mundo. Por isso tudo, sempre fizemos questão de trazer a palavra Escola no nome, porque apesar de não ser um modelo convencional de escola, ser uma experimentação, não ter sede física, não ter aulas todas as vezes da semana e ser feita para pessoas que trabalham e/ou estudam, a gente entende que é importante se aproximar e não se afastar das pessoas e o nome Escola não tenta trazer nada além do que de fato é”.

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Para quem se interessa em saber mais e mais, além da maratona de conversas na tarde de sábado e na tarde de domingo, vai ser na Feira Plana também que as inscrições para esse primeiro grupo serão abertas: “a ideia é formar uma turma de alunos principal que vai cumprir todo o plano de atividades que a gente pensou, que gira em tornou de 5 a 6 meses…. no entanto, muitas das atividades serão abertas durante o percurso para que outras pessoas participem e a gente passe a receber a todo momento gente nova em algumas atividades como também, diversos convidados”.

Confessando o frio na barriga em lançar a ideia pela seriedade que o projeto inspira, Guilherme que também é editor da Contra, finaliza deixando para gente o convite para esse se jogar no escuro: “o que a gente quer é fazer com que as pessoas entendam que o conhecimento não está dado, que não é somente ler a bibliografia para depois citá-la ou somente fundamentar a sua ideia na palavra de outros, mas que o seu ponto de vista, a sua opinião e as suas experiências podem também formar uma terceira coisa, que é esse imprevisível e que é esse lugar que a gente quer construir, juntos”.

De olhos fechados, NoBrasil estará lá acompanhando a aula magna e nós nos vemos lá.

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Conheça O Rei dos Desenhos, jovem da periferia do Rio de Janeiro que está criando no mundo virtual um registo real da juventude do Brasil.

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Com apenas 16 anos Victor Costa transformou um simples desenho da sua própria foto do perfil do Facebook em uma febre da internet.

por Diane Lima
Colaboração: Thiago Félix

Lá pelo final de dezembro, depois de uma verdadeira odisséia pelo Facebook em busca de saber quem era o nome por trás dos desenhos que infestaram as fotos dos perfis de jovens na casa dos seus 17 e poucos anos, chegamos no divertido e criativo Victor Costa, o Rei dos Desenhos.

Natural do Rio de Janeiro e com apenas 16 anos, Victor que usa “o famoso Photoscape e o Paint”, contou para o NoBrasil como surgiu a ideia de fazer os desenhos que o fez até ganhar fã clube: “tudo começou vendo tutoriais no famoso youtube! Aí eu vi uma pessoa fazendo o famoso desenho lá , aí eu pensei assim: – pô, já aprendi a fazer o desenho, tenho que mudar isso, botar ele em 3D! E aí fui inovando as coisas, mudando cores, fazendo desenhos de pessoas famosas e ídolos como o MC Nego do Borel, MC Maneirinho e o MC Leandro e as Abusadas…. já ganhei dinheiro fazendo isso e meu trabalho está crescendo cada vez mais ….eu faço tudo computadorizado.”

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Morador de Coelho Neto, estudando o 1° ano do 2° grau e se dizendo “um jovem firme na igreja por seguir bem direitinho a minha comunhão com DEUS”, Victor é um exemplo vivo da criatividade pulsante das periferias e favelas de todo o Brasil que diariamente se revelam na internet (se você entrar no perfil do Victor com certeza vai se divertir com as fotos e os vídeos do Mídia, como ele se auto proclama!). No entanto, para além das cores vivas e o engajamento que conseguiu na internet, o que de fato nos chamou atenção é um outro feito que o Victor vêm conseguindo e que talvez não tenha se dado conta:  despertar ainda que de forma inconsciente, a auto-estima em outros jovens que querem se ver representados com seus estilos, jeitos e trejeitos de uma forma que talvez eles nunca tenham visto enquanto semelhança em desenhos animados na TV ou nas revistas em quadrinhos. Além disso, a brincadeira ainda instigou ou ao menos ajudou para que tantos outros aprendessem as ferramentas e criassem seus próprios desenhos também: “eu já faço os desenhos tem uns 2 anos, sendo que eu criei a página não faz nem 1 ano….tenho computador acho que desde os 8 anos por aí mas, nunca pensei algo para fazer pra mudar minha vida, entendeu? Fiz primeiro da minha foto, aí todo mundo do meu facebook pedindo pedindo ai eu fui fazendo de todos e alguns pedindo pra eu ensinar… eu fui e ensinei e ai ganhei fã clubes e tudo! Devo ter uns 20 fã clubes por aí….quando meus pais passam na rua as pessoas falam assim:  – olha a mãe do Rei dos Desenhos alí, olha o pai do Rei dos Desenhos lá…..”.

Da conversa que tivemos também com o artista Thiago Félix, um apaixonado pela Internet da Periferia | Periferia da Internet e integrante de um grupo do Facebook chamado Favela Cyborg, veio ainda alguns pensamentos que nos ajudaram a entender como a internet tem provocado e fomentado novas expressões e linguagens nessa nossa forma de fazer cultura digital: “Me lembro de ter visto vocês usarem algumas vezes aqui NoBrasil a expressão “responsabilidade simbólica” e acho interessante o quão orgânico é na inocência de produção desses significados simbólicos de representação os desenhos….que não passa por nenhuma dessas provocações formais, digamos assim….um orgânico que é de dentro para dentro…”.

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Trabalhando em uma pizzaria para pagar seus estudos de design, carreira que pretende seguir além do desejo de ser paraquedista, Victor nos contou que parou um tempo de desenhar por ter ficado triste por as pessoas só virem falar com ele para pedir desenho: “não sei se as pessoas amam mas sei que elas se amarram mas fiquei um dia triste porque elas só vinham falar comigo para pedir os desenhos, aí dei um tempo, entende? Gente de todo lugar me manda foto pedindo, mandam nos comentários ou no inbox…Teve um dia que eu postei na minha página assim: – será que tenho fãs?  Aí várias pessoas comentando de Juiz de Fora, São Paulo, várias favelas do Rio de Janeiro, Complexo do Alemão, altas pessoas ….

Me lembro de ter visto vocês usarem algumas vezes aqui NoBrasil a expressão “responsabilidade simbólica” e acho interessante o quão orgânico é na inocência de produção desses significados simbólicos de representação os desenhos….que não passa por nenhuma dessas provocações formais digamos assim….um orgânico que é de dentro para dentro…”.

3Na página do Victor, O Rei dos Desenhos, amigos passaram a colaborar e a fazer também suas próprias ilustrações.

Fruto de um processo criativo dos mais espontâneos, que não segue nenhum tipo de cartilha nem motivação formal, os desenhos são ainda um retrato de uma época em que talvez a juventude de toda uma parcela histórica da população, esteja sendo pela primeira vez largamente representada, afinal de contas, a imagem nesse tempo de agora nos oferece documentos expressivos que há 10 anos atrás eram escassos ou quase inexistentes. Quando a gente pensa o quanto recente são os registros de certas expressões culturais brasileiras, fica a constatação de como o aumento ao acesso a bens tecnológicos como celulares, computadores e tablets estão impactando e modificando na nossa própria forma de ser no que tange a produção dessas subjetividades: “eu acho engraçado porque muita gente escolhe a beleza errada. Tem potencial pra fazer uma coisa legal, mas vai por uma ideia equivocada do que aquilo deve ser. Ele escolheu a beleza certa. Não está tentando “glamourizar” as pessoas, fazê-las parecer “mais bonitas” ou nada disso. Tem um sentimento que eu amo muito e que renova muito a minha fé em um futuro bom pro povo do país que é o fato de que hoje em dia, as pessoas da favela não sonham em ser diferentes do que são. Elas não compram um modelo de felicidade e beleza da classe média, da orla ou do asfalto. Elas não querem ganhar dinheiro pra ser orla. Elas querem ganhar dinheiro pra ser favela e ser feliz. (…) Porque que alguém vai querer ser dessa classe média Nelson Rodrigues, carioca, moral, burguesa se temos a ÁFRICA para nos salvar da França? Esse desenho é isso, não quer ser francês, não quer ser ocidente, não quer ser apolíneo (como muitos querem sem nem saber o que essas coisas significam)….. ele está incutido de um projeto de vida de felicidade que é novo e é do Brasil, sem dúvida.”

 “Tem um sentimento que eu amo muito e que renova muito a minha fé em um futuro bom pro povo do país que é o fato de que hoje em dia, as pessoas da favela não sonham em ser diferentes do que são. Elas não compram um modelo de felicidade e beleza da classe média, da orla ou do asfalto. Elas não querem ganhar dinheiro pra ser orla. Elas querem ganhar dinheiro pra ser favela e ser feliz. (…) Porque que alguém vai querer ser dessa classe média Nelson Rodrigues, carioca, moral, burguesa se temos a ÁFRICA para nos salvar da França? Esse desenho é isso, não quer ser francês, não quer ser ocidente, não quer ser apolíneo (como muitos querem sem nem saber o que essas coisas significam)….. ele está incutido de um projeto de vida de felicidade que é novo e é do Brasil, sem dúvida.”

Para nós, máxima satisfação trocar ideia com o Victor e ter conhecido um pouco mais da sua jornada que entre fotos, likes e comentários está criando um registro inédito do jovem das periferias brasileiras sempre com muito humor e uma espontaneidade que pode muito nos ensinar. Que o Rei dos Desenhos não pare e continue a brincar de computadorizar esse Real chamado Brasil.

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5Nesse passo-a-passo, Victor  e a namorada.
7Além dos desenhos, Victor ainda protagoniza divertidas fotos e vídeos na internet.

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“Acho que o diferencial é você não estar fazendo o que os outros fazem”

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Minimalista, autoral, versátil. Para as criadores da MOCHA, a identidade é uma questão de originalidade, que por vezes, deve superar os códigos.

por Véronique Véra Mbida

Foi numa manhã ensolarada acompanhada de limonada e muito entusiasmo, que Liliane Taira e Ana Voss me acolheram em sua oficina em São Conrado.

O lugar mais parecia com uma casa encantada onde a vida é agradável para os funcionários e onde a arte tem um papel fundamental: de uma sala para a outra, a inspiração está presente em todos os lugares. A criatividade e a originalidade prevalecem.

Pinturas modernistas brasileiras, esculturas japonesas que saltam de um outro século, colagens refinadas (…) cada chef-d’oeuvre está em seu devido lugar neste santuário da estética que deu origem a MOCHA, uma marca a ser consumida sem qualquer moderação. Veja como foi o nosso papo.

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NoBr por Véronique Véra Mbida:  Você pode falar mais sobre o seu encontro com a Liliane e de como surgiu o conceito da Mocha ?

Ana: A gente se conheceu através de uma amiga nossa que é a Gabriela da Benta Studios. A Benta Studios desenvolve todas as nossas estampas. A gente faz o moodboard e a partir desse moodboard ela aborda todas as estampas da coleção e faz um trabalho incrível !

E ai a Lili jogava squash com a Gabriela, e ela sempre quis montar uma marca e na época estava na OSKLEN trabalhando como designer de moda. Numa conversa no Baixo Gávea na mesa de um bar a gente se encontrou e começou a  conversar com a Lili e eu falei pra ela das minhas ideias e a gente se uniu.  A partir disso, montei um projetinho pra ela com alguns croquis do que eu imaginava o que poderia ser a marca e o seu conceito já que antes a MOCHA nem tinha um nome. Então, eu mostrei todo esse desenvolvimento para ela do que seria a marca, qual seria o conceito, que teria muito a ver comigo e com as pessoas que estão ao meu redor e que eu acho que se identificam com um estilo parecido com o meu e sentem falta disso no Rio. E Foi daí que a MOCHA surgiu.

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NoBr: A indústria da moda no Brasil é cheia de armadilhas para novas marcas. Como vocês conseguiram trilhar um caminho próprio nesse mercado tão difícil?

Ana: Na verdade a gente foi muito pé no chão.

A gente começou desenvolvendo poucas peças, mas de muita boa qualidade e com tecidos e matéria-prima de muito boa qualidade também.  E a Lili, por sorte, já confeccionava pra outras marcas. Ela servia de facção para marcas como ANIMALE, OSKLEN, MARAMAX entre outras. Então a gente já tinha uma estrutura de costura interna para confeccionar essas peças o que fez com que a gente terceirizasse muito pouco as nossas peças. Obviamente como a produção é muito grande hoje em dia, algumas fábricas a gente terceiriza mas acho que o que também deixa a gente ter esse conceito muito sólido foi porque a gente já chegou onde a gente queria. A Benta Studios em parceria com as estampas fez um trabalho incrível.

Liliane: A Benta Studios ajudou também a gente a botar no papel o que exatamente a MOCHA vai ser e  o que vai se tornar. Questionavam, perguntavam (…) e isso facilitou muito o processo de branding pra achar realmente a identidade da marca.

Ana: Sim porque pra mim não sei! Estou aqui desenhando!

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NoBr: Já observou alguma mudança desde que vocês começaram o negócio?

Ana: Não. Infelizmente acho que a gente continua num movimento muito difícil . E isso não só na moda, mas no geral no Brasil por causa da crise econômica…

Liliane: De algum tempo para cá observei várias marcas pequenas aparecendo. Essa indústria do shopping perdendo a sua essência, sua identidade. Porque hoje tem muitas pessoas que falam que vão até o shopping e acham tudo pasteurizado, tudo igual. E então elas vão buscando outras coisas com as quais se identificam, que as diferenciam, que tem a ver com elas… porque elas olham que todas as vitrines são parecidas e parece que tá todo mundo seguindo uma tendência (…) “a tendência desse ano vai ser essa”. Então, qual é a identidade que a marca tem que vai fazer com que aquela pessoa procure aquele lugar?

4. Qual é sua opinião sobre as tendências?

Liliane: A gente esta tentando fazer uma marca mais autoral.

Mas tem um inconsciente coletivo que deseja coisas que estão acontecendo no mundo… E que as vezes, sem você estar buscando, aquilo acontece num outro lugar. Hoje existem estudos de tendências, que já é uma coisa intencional, buscando fazer aquilo que está na moda, que as pessoas vão querer porque está na moda.

Ana: E aí é uma preocupação muito forte porque eu acho que o diferencial é você não estar fazendo o que os outros fazem. Por esse inconsciente coletivo tenho que começar a olhar as tendências pra fazer o trabalho contrário. Porque se não, vou ver as tendências porque eu não quero também me induzir. Mas, enfim, acho que vou ter que fazer o papel inverso. Realmente ver as tendências e não fazer igual porque acho que hoje em dia, esse é nosso diferencial.

Liliane: E as vezes uma marca por causa do branding, depois de muito tempo, por alguma razão, passa a perder aquilo que a identificava. Ela vai buscando vender aquilo que vende. Ou seja,  é o lado comercial falando mais alto que o autoral. Mas tem que ter um equilíbrio pra que dê certo, que é poder sobreviver, estar no mercado, mas sem perder essa essência.

NoBr: Quais são as suas perspectivas e expectativas sobre a sua profissão no Brasil?

Ana: Hoje em dia existem muitas pessoas buscando essa área de criação com design de moda, mas depende muito da área. Existem marcas que estão sempre querendo buscar o que os outros querem. Mais o desejo do momento, um desejo rápido que viu numa revista e quer um igual. Mas eu vejo muitos estilistas que estão buscando o diferencial, o que é muito positivo. As pessoas vão se cansar disso e vão querer fazer o que é mais legal, o que é realmente criação em si e não a cópia.

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NoBr: Qual é a sua definição para minimalismo? Acha que a MOCHA se enquadra nesse conceito?  

Ana: É difícil falar, mas a minha definição do minimalismo é uma peça confortável, com shape simples e com geometria… que tem um movimento sem deixar a feminilidade. MOCHA é uma marca minimalista e atemporal porque a nossa roupa veste qualquer estação.

“As pessoas vão se cansar disso e vão querer fazer o que é mais legal, o que é realmente criação em si e não a cópia.”

NoBr: As jóias tem uma inspiração mais étnica que as roupas. Há uma razão específica para isso?

Ana: Essa última coleção (verão 2015) foi a coleção “Selva” e a Mari buscou pegar nas joias os elementos da selva, usando como referência os insetos, os besouros. Então, ela conseguiu pegar o tema da coleção e aplicar nos acessórios.

NoBr: Notei algumas mudanças em seu trabalho, ele era mais monocromático. Na última coleção tem mais estampas com cores e a presença da natureza. É mais carioca. Essa evolução pode também ser notada no lookbook. Para as próximas coleções vocês pretedem retomar o que parece ser a vocação da marca, mais neutra, ou, ao contrário, continuar com essa pegada mais carioca?

Ana: Eu nunca vou pensar “eu quero ter uma pegada mais carioca, mais urbana, mais paulista …” Acho que as coleções vão se caracterizando. Por exemplo, essa coleção se caracterizou mais com o Rio de Janeiro pelo tema porque foi uma coleção mais tropical. A primeira coleção foi uma coleção mais abstrata, pra mostrar a marca. Já o tema da segunda foi a chuva… E eu acho que eu vou sentindo a cada coleção. Eu nunca vou me prender …..

A próxima coleção já não tem nada a ver com a coleção atual. Os shapes sempre vão se manter, eu acho…. o que muda mais é a cara da coleção. A coleção do próximo inverno vai sair do tropical pra uma coisa mais abstrata, fria. Para o verão 2016 as estampas vão ser um pouco menos tropicais, mas vão ter a ver com referências do Balagandan e jóias crioulas (…)

“Tem também uma questão de amadurecimento estético. Tem uma crise de identidade enorme. Essa cultura que vem dos últimos anos de poder ter acesso a muitas coisas pode entrar em conflito com “quais são as minhas raízes, o que eu busco, quem eu sou”. Então, marcas como a MOCHA, atingem também esse público que está amadurecendo esteticamente, que busca a beleza de uma outra forma, que dá valor para a criação, o que pode contribuir para esse amadurecimento estético.” Liliane Taira, Mocha.

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NoBr: Projetos futuros, planos e alguma novidade que possa nos contar??

Ana: A gente quer expandir a marca mas indo passo a passo. Precisamos estar mais fortes aqui no mercado brasileiro pra pensar em abrir uma loja. A gente vai entrar no Atacado em São Paulo, já tem loja em off no Leblon, tem cinco multimarcas que vendem MOCHA e sites que vendem também online. Primeiro precisávamos conhecer nosso cliente e ver que ela é realmente aquilo que a gente buscou: uma mulher que acima de tudo, tem uma identidade muito forte.

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Saiba mais sobre o encontro que realizamos com o Project Tribe na Farm

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Se como mulheres, negras e criativas, pensamos como podemos através da nossa imagem, empoderar e inspirar tantas outras, qual seria a melhor forma de propormos transformações semelhantes através de uma marca?

Acreditamos que é um desafio do nosso tempo utilizar dom e talento para proporcionar transformações que possam impactar positivamente a vida das pessoas que estão ao nosso redor e da nossa comunidade. E essa vem sendo a missão de nós do NoBrasil e do Project Tribe, plataformas que a convite da Farm, realizaram na última sexta-feira, um encontro-debate com algumas profissionais negras das mais diversas áreas aqui no Rio de Janeiro.

Na reunião, que aconteceu das 09h às 12:30h, uma questão predominou como ponto central da discussão: se como mulheres, negras e criativas, pensamos diariamente sobre qual é o nosso papel no mundo e como podemos através da nossa imagem, empoderar e inspirar tantas outras, qual seria a melhor forma de propormos transformações semelhantes em uma escala de alcance maior através do conjunto de valores que uma marca pode oferecer e influenciar?

Além disso, sabendo da realidade do mercado quanto trata-se da nossa representatividade e participação em todos os setores da sociedade, quais seriam as nossas possibilidades de negociação? Acreditar que com abertura e diálogo poderíamos plantar uma semente verdadeira e cultivar transformações, ou nos fecharmos? Nessa oportunidade de contribuirmos com o que já se desenha como um marco na história da moda brasileira e capítulo importante na moda afro-brasileira, nós exerceríamos as nossas competências profissionais em uma ação que discutiria algo de fundamental importância como mulheres negras ou não?

Nós, optamos pelo diálogo.

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Cientes da fundamental importância que a moda exerce quando se trata de delimitar espaços de poder através da imagem, decidimos que não haveria momento mais propício do que o convite realizado pela marca e que chegou para o NoBrasil através da Luna, para olhos nos olhos, expressar e discutir algo que a gente vem questionando enquanto plataforma criativa desde o nosso nascimento: qual é a nossa responsabilidade enquanto criadores de significados simbólicos e o nosso compromisso quando materializamos em imagens através da arte e do design contemporâneo, os nossos pensamentos?

Questões que foram debatidas no encontro que aconteceu da fábrica da Farm e que contou com a presença da sócia-fundadora e diretora criativa da marca, Kátia Barros, do Gerente de Marketing André Carvalhal, da coordenadora de conteúdo Mariana Ferrari, de Lorena Simões da Comunicação além de um grupo formado por 16 mulheres entre pesquisadoras, jornalistas, designers, atrizes, comunicólogas e afro-empreendedoras de diferentes faixa-etárias.

Sobre esse quase um mês de trabalho com a marca, queríamos agora além de compartilhar com vocês as nossas dúvidas e angústias, dividir também algumas das nossas inspirações citadas por nós no encontro, como a frase que dita pela designer e pesquisadora Carol Barreto na matéria que realizamos aqui NoBrasil no dia da consciência negra, convidou a todos a uma reflexão:

“Ao passo que a gente vai elaborando determinadas análises, que as pessoas vão entendendo que a aparência é o principal espaço e suporte de expressão, de identidade, de pertencimento dos marcadores sociais e da diferença. Sendo assim, a quem eu aluguei ou vendi a propriedade da minha própria imagem como mulher?”

Se a nossa missão é inspirar, empoderar e conectar a comunidade criativa brasileira para que possamos ser todos agentes da transformação, como ocupar esses espaços que hoje reivindicamos? É possível ocupá-los sem a nossa presença? O que significa afinal de contas ocupar espaços, se não a necessidade de sobretudo, negociá-los?

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Mesmo sabendo que nada disso se trata do ideal e sim de uma construção, estamos extremamente felizes de agora dizer que fizemos a nossa parte. Apesar de talvez dividirmos opiniões, não há outro sentimento se não orgulho e contentamento com o que conseguimos naquela manhã principalmente por ter sido essa reunião, fruto de uma movimentação que nos fez mais fortes enquanto comunidade e que se iniciou através dessa coisa genial chamada internet. Nessa nossa forma de fazer uma política criativa, fomos inspirados também pelo grupo A Presença Negra, uma das mais importantes ações de arte contemporânea em atividade hoje no Brasil e que ocupando espaços de arte, faz arte acima de tudo como forma de fazer política.

Sendo assim, por todas as mulheres que dedicaram sua presença naquela manhã, por todo o nó na garganta, por cada choro engolido ao ouvirmos as 17 histórias de violência e superação e ainda por cada lágrima derramada, o nosso máximo respeito. Criamos as pontes, abrimos o diálogo e o sentimento é de missão cumprida.

Lembrando ainda que a ausência de registro oficial fotográfico ou de video, se dá pela escolha da própria Farm em conjunto com o NoBrasil e o Project Tribe, em não querer transformar o momento em uma estratégia festiva como parte de uma ação promocional da coleção Black Retrô. Nossa intenção foi simplesmente aproveitar o lançamento da coleção para proporcionar uma reflexão, transformando o encontro em um ato para ouvir. O convite foi estendido ainda a mulheres de mais três estados entre Bahia, Pernambuco e São Paulo em que pesquisadoras, militantes e designers que não puderam comparecer, tinham ainda a opção de indicar uma outra pessoa que estivesse no Rio e pudesse participar.

Para finalizar, queremos agradecer a todas e todos dizendo que concordamos que existam outras formas de ocupar espaços e fazê-lo mas que o que nos deixa mais satisfeitas é o fato de termos a consciência que contribuímos para que a discussão evoluísse para um novo movimento: o de pensar Como?

E tudo isso é só o começo.

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A natureza das coisas

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Em suas fotos, Fernanda Vallois revela em imagens cheias de intimidade, a naturalidade de uma geração que celebra o corpo feminino e suas descobertas.

por Diane Lima

Foi em um desses dias quentes aqui no Rio,  ao encontrar no ao vivo as pessoas que em 2014 entraram em nossos corações pela porta do online, que tivemos a surpresa de topar com o trabalho da Fernanda Vallois. Ela que nos foi apresentada pela Alile Dara Onawale, integrante dessa leva de arrebatadoras a nos balançar com a beleza das suas fotos e da sua pessoa, contou pra gente num papo que rolou em Santa Tereza, um pouco da sua trajetória visivelmente marcada por um olhar despretensioso em que o ressignificar da relação entre tempo, espaço e o corpo feminino resume-se a uma questão de intimidade. Nessa jornada através das imagens da Fernanda, todo lugar parece um não-lugar, tal como vindo de uma cena de filme em que a narrativa serve para nos ajudar a construir um retrato de um tempo em que a expressão da sexualidade e o exaltar dessa mesma diversidade, tornou-se a única regra para uma juventude dada a natureza das coisas. Tal como uma cena improvisada, o que parece registro se revela apenas como fragmentos de uma vivência, um documento que acaba por sê-lo não pela busca de uma justificativa ou defesa, mas por ser fruto da realidade de quem está dentro, sente e vive.

Uma dessas coisas bonitas que a arte consegue capturar quando a gente esquece que não é preciso lutar contra ou a favor e que a política se faz através da natural presença do ser.

Confira.

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NoBr:  Fernanda, pode falar um pouquinho da sua trajetória de vida e como chegou na fotografia?

Sou do Rio mesmo, mas passei minha infância e adolescência na região oceânica em Niterói. Tenho 28 anos. Meu envolvimento com fotografia sempre foi muito mais através do desejo de me expressar através das imagens, que é algo que sempre busquei na minha vida….desde pequena, fazia aulas de pintura, etc, até a escolha da profissão (designer). Eu nunca curti a fotografia documental, como forma de registrar um fato, evento, etc… Em viagens por exemplo, não tiro fotos com intuito de documentar algo, não tenho paciência hahahah.

NoBr:  A presença do corpo feminino é uma constante. Qual a pesquisa e as referências que te direcionam?

Uma vez eu apresentei meu trabalho para uma pessoa e ela me disse que ele podia ir muito como suporte para discutir a questão de gênero mas de fato eu nunca fiz isso pensando em documentar…. existe a relação com o corpo feminino, que muitas vezes está explicito mais as vezes não, as vezes aparece também de uma forma meio fantasmagórica….isso, acho que tem a ver com o fato de eu ter muita liberdade com as pessoas que estão na cena, uma relação de muita intimidade, que acabam por ser percebida já que também tem a ver como a minha própria sexualidade, descobrindo isso com as outras pessoas.

Sobre minhas referências, pesquiso muito através de tumblr, instagram e alguns outros canais. Redes sociais são ótimas para descobrir trabalhos de novos artistas. Gosto bastante do trabalho da Petra Collins, como ela retrata questões como intimidade, o feminino e adolescência. O Wolfgang Tillmans é uma grande inspiração pela forma como desenvolve a narrativa do trabalho e como isso se traduz em suas exposições. A Nan Goldin pelas fotos extremamente íntimas e profundas. Francesca Woodman é ídola, me identifico muito com os corpos muitas vezes desfocados e disformes e o tom sombrio de suas fotos. Ren Hang, Ana Mendietta, Gina Pane e Yoko Ono também são grandes referências, alguns mais pelo trabalho e outros pela imagem que projetam.

 

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NoBr: Projetos futuros, planos e alguma novidade que possa nos contar?

Bom, hoje estou participando da exposição coletiva Corpos, que vai acontecer dentro do evento TRANSCEDA – um evento que celebra a pluralidade de gênero e cultura trans. A entrada é gratuito e acontecerá no Gipsy Bar em Petrópolis.

Ainda, estou montando um estúdio de criação com uma amiga, e fazemos trabalhos de mídias sociais, comunicação estratégica, branding, direção de arte, fotografia, design, entre outras coisas …..até final de fevereiro o site deve ficar pronto.

Também quero muito desenvolver mais meu trabalho de fotografia, tanto artisticamente, expondo e participando de projetos interessantes, como comercialmente, fazendo trabalhos para marcas e etc.

 

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DRR Posse: Defensores do Ritmo Rua

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Contrariando as estatísticas, Mr. Grande-E conta sobre sua história de superação e o crescimento da D.R.R. Posse, a primeira posse do Brasil: “a mesma arma que matou ele, me atingiu também, mas eu sobrevivi.”

por Diane Lima
Imagem da Capa de Quinho Fonseca

 

Conhecemos o Mr Grande-E em nosso rolê com o coletivo Opni em São Mateus, extremo leste da cidade de São Paulo. Digamos que esse tenha sido o nosso primeiro contato formal, já que na real, a gente já sacava a DRR Posse por ver vários manos portando bonés e camisetas com a marca – que até então a gente não sabia o que de fato significava – e claro, pela conexão fechada do nosso parça Flavio Pires que nos apresentou a essa cena do hip hop da ZE.

Depois desse primeiro encontro que rolou num bar onde, nada mais, nada menos, para a nossa surpresa, um barrão era assado por inteiro em um sábado desses garoado e gordo de SP, entramos no carro do Alessandro Almeida Souza, vulgo Grande, que nos deu carona quando já estávamos de partida. Nesse caminho, enquanto ele ia fazendo revelações sobre a sua batalha de vida, íamos nos surpreendendo com uma história dessas que tinha tudo para ser ficção, mas que estava ali contrariando as estatísticas através do relato de mais um sobrevivente a escapar do já conhecido destino dos jovens das periferias do Brasil.

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Com 38 anos, 26 deles como militante do movimento hip hop, Grande começou como dançarino de break em 88 quando frequentava a Praça São Bento, no centro da cidade. Mudando-se para São Mateus em 92, passou a integrar o D.M.B – Defensores do Movimento Break até criar a D.R.R Posse – Defensores do Ritmo Rua, a primeira Posse de Break Rappers, dançarinos e grafiteiros de São Paulo. Para quem não está ligado, uma Posse é a mesma coisa do que se chama nos EUA de uma crew ou ainda mesmo, um Bonde. Nessa época, era comum a DRR, que já se chamou também Defensores do Movimento Break, enfrentar rachas em outras zonas e bairros da cidade: “Quando a gente ia rachar com os caras da zona sul por exemplo,  isso queria dizer que íamos participar de uma disputa de áreas para ver quem era o melhor dançarino. Passaram a existir várias Posses em SP como por exemplo, a Jabaquara Break… era um período que o  Rap ainda era uma coisa nova NoBrasil, meio que acabando de chegar…”.

Junto com a DRR veio o DeMenos Crime que foi o primeiro grupo de Rap da Posse e que inclusive lançou em outubro o clip A Todos da Várzea com a presença do Ronaldo Fenômeno e também o Consciência Humana, este último, que lançou ano passado seu álbum Firma Forte. A Posse é ainda oficialmente representada pelo B-Boy Catatau, que em total atividade, participa como júri de vários outros rachas em todo o Brasil além de nos representar pelo mundo.

Pichador nato como costuma se denominar,  foi através da intimidade com os desenhos que Grande, que também trabalhou para várias marcas no Brás, lugar de onde ele diz ter criado a Fatal Surf – nome que em 2011 atingiu o quarto lugar das marcas de esporte mais vendidas no país,  teve a ideia de também começar a fazer camisetas e bonés da DRR que logo se transformou e ganhou o título de ser A MARCA (assim mesmo em letras garrafais) a representar o Hip Hop Brasileiro.

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Para chegar até aí, portanto, muita coisa aconteceu. Por volta de 1996, Grande entrou na vida do crime, período que durou 04 anos até ser preso e ver seu parceiro de todas as fitas conhecido como Pancho, ser morto pela polícia: “sei que ele tá olhando por mim, como antes eram duas pessoas em uma… eu e esse mano, sem palavras…. a mesma arma que matou ele, me atingiu também, mas eu sobrevivi…”.

Hoje em liberdade, Grande nos contou que de três em três dias sonha com Pancho: “ele era uma das pessoas fortes no meio da revolução do rap…. desde que ele morreu, eu sonho com ele no rolê comigo, conversando de fitas que acontecem hoje em dia, é muito louco…. até falaram para eu acender umas velas, fazer umas orações para ele, é como se ele não tivesse morrido…”

Caravaca PedroFoto: Pedro Caravaca

E uma das motivações, que ele nos contou ter sido crucial para cair na criminalidade, foi a vontade de fazer seu disco: “antigamente, a gente não fazia música para atacar um outro MC e sim para atacar o sistema… era contra a polícia, contra o governo e contra pobreza…. na nossa época não era como hoje, era gente passando fome na rua de verdade… hoje em dia tá muito fácil né, qualquer um baixa um programa pelo pc e faz uma música, uma base de rap. Na nossa época não era assim, na nossa época a gente pegava os pedacinhos de fita cassete, pegava os loops, juntava e cantava em cima. Agora você imagina em 88, em 89 sem internet, sem whatsapp, sem facebook, como que a gente tinha que divulgar o rap? Era tudo no corpo a corpo, indo nas escolas, entregando os flyers, indo nos bailes, era muito dessa fita, tiu!”.

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1 – “Hoo mr.grande-E se escondendo do freshi pois nessa época estava sendo procurado hastra bone do BRASIL” 2 – Pancho e Grande-E   3- Grande na época do grupo U-Negro 4 – Com Pancho

Hoje, com três filhos que estudam e fazem faculdade, Grande continua morando na Vila Fundão de São Mateus, no pé do morro, na 3 divisão, trilhando a sua missão de revolucionar ao ser exemplo de superação, que nos lembra todos os dias o que de fato é e como nasceu o rap nacional, que apesar de agora atingir seu momento de glória, alcançando novas escalas de mercado, de reconhecimento e de penetração na vida cultural do país, já teve seus dias de sufoco e de total exclusão. Nesse sentido, a história do Mr. Grande-E nos aproxima de volta ao significado principal desse movimento no combate aos problemas sociais e da realidade sobre o que acontece nas favelas e quebradas de todo o país: “é o que eu falo para o pessoal: a gente é da velha escola, velhos trabalhadores, a gente trabalhou, a gente construiu o rap, a gente fez o alicerce do rap, a gente carregou as lata de concreto do rap e se hoje ele está com mais acessos, tem que dar graças a essa velha guarda. Não tenho nada contra a geração nova que está chegando, mas acho que eles tem que ter cuidado com as pessoas que deixaram a casa arrumada, certo?  Começar a convidar o pessoal das antigas, dizer que estamos aqui, dizer que estamos vivos…. é o que sempre falo também, a gente pegou tudo dos americanos, a gente pegou o estilo, pegou o jeito, as batidas e a música mas o que a gente não pegou foi o business, porque, pô, se a gente ensinou os caras a fazer o rap e eles mesmos dizem que foi a gente que ensinou a fazer esse rap diferente, então ensina a gente agora, também, sobre esse novo mercado! Porque eles não chegam aqui e falam: olha, o sonho de vocês não era montar uma estrutura boa na periferia, a gente foi lá, provou do filé então vamo provar do filé junto com a gente – porque aqui a gente ta comendo osso ainda! Eu não acho justo de esquecer os outros rappers e eu também não acho justo deixar tudo nas costas dos Racionais porque o Brown não vai ficar 70 anos cantando rap…. também acho injusto com a gente mesmo, que batalhou pra que eles estivessem nesse lugar aí hoje, que esses MC’s estejam brigando entre si! A gente tem que brigar é contra o sistema e aproveitar essa mídia toda que eles tem hoje para isso porque essas TV’s, que estão pegando esses MC’s novos aí agora, foi porque não conseguiram pegar a gente…. porque na nossa época, o que que a gente pregava? A gente pregava que a revolução não seria televisionada!”

Untitled-1“Gostaria que vocês entendessem que tudo que fiz até hoje foi por amor e que minha caminhada não acaba….. se eu sai, então segura sua onda e fica de boa…. meus mano tão comigo, o rap tá comigo e eu tô com vcs”.

 

Olhando para o futuro,  Grande dividiu com a gente ainda, seus próximos passos, como o lançamento do site da D.R.R previsto para início de 2015, além das suas aspirações de expansão da marca, que já conta com representantes em vários estados como Recife, Santa Catarina, além de cidades como Hong Kong, Los Angeles e Nova York: “estamos trabalhando aí, desenvolvendo novas estampas e batalhando para transformar a DRR numa marca conhecida em todo o Brasil. A gente quer sair do gueto e deixar o mundo ver a nossa história, saber que estamos aqui, na luta, fazendo a revolução. Além disso vou lançar meu novo álbum que vai se chamar Antes Só do que Mal acompanhado.”

Queríamos agradecer ao Grande por ter aberto a sua vida, contado a sua história e nos inspirado sobre a importância de superar e resistir. Sem dúvida, a D.R.R Posse representa a tantos outros jovens dessas quebradas do Brasil, que vê na história da marca um símbolo de força e coragem. Para além do que essa história contou, a D.R.R é, principalmente, símbolo que representa aqueles que, ainda enfrentando todas as adversidades e muitas vezes errando, prova que é possível, sobreviver e vencer.

Tamojunto, é tudo nosso Tiu!

Um Salve a família D.R.R, Pedro Caravaca, Coletivo Opini, Denis e a Torcida Jovem, 100 Querer, Pérola. ÉNox.

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Caravaca Pedro 2Foto: Pedro Caravaca

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Qual a sua opinião ?

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Sobre a relação entre as marcas e consumidores, apropriação cultural e o fato deles na maioria das vezes não nos representarem na mídia e veículos de comunicação? Existe um caminho? Tem jeito?

por Diane Lima e Rudah Ribeiro

 

Não foi uma, duas ou três vezes que a discussão sobre apropriação cultural, racismo ou pura falta de noção veio a tona nesse ainda sobrevivente 2014.

E já que no final do ano todo mundo faz uma retrospectiva de algum assunto para celebrar ou jamais esquecer, resolvemos fazer a nossa reflexão, unindo os bons exemplos de comunicação e ações que algumas marcas, artistas ou gente cheia de luz como vocês, fizeram. Nessa empreitada, resolvemos ainda convidar algumas pessoas que admiramos a postura e confiamos muuuito na opinião, para que elas, dividindo com a gente seus pensamentos, respondam a questão que colocamos na roda e dêem dicas para que os maus exemplos aprendam e não os repitam mais:

Qual a sua opinião sobre a relação entre as marcas e consumidores, apropriação cultural e o fato deles na maioria das vezes não nos representarem na mídia e veículos de comunicação? Existe um caminho? Tem jeito?

Mesmo sendo louco estarmos discutindo a melhor forma para sermos consumidos,  eclodiram em todo o mundo manifestações na internet sobre as recorrentes problemáticas entre criatividade, subjetividade, apropriação e representação. Nessa tal da “pós era da publicidade”, os valores, o respeito e o relacional batem a porta gritando pelo “o que de fato você faz por mim e vai me dar de volta”. Nesse novo momento, a imagem perde força e os estereótipos são contestados. O relacionamento apesar de virtual é também verdadeiro: nos vemos no online mas é no offline e no “tete a tete” que a experiência se realiza. Aliás, é esta a sentença de ordem: como criar experiências que impactam a vida das pessoas positivamente e a vera?

Nos Estados Unidos por exemplo, um ano de discussão intenso sobre apropriação cultural levou à ordem do dia, celebridades a repensarem o uso da cultura afro-americana sobretudo na música. Lá, também foi proibido o uso de cocares indígenas que haviam virado hit nos festivais…. Pelas bandas de cá, um ano de estranhamentos também. Publicidade com cara de manifesto, programas de TV colocados em cheque, marcas de lingerie exaltando “o corpo perfeito”, arte espetáculo, além de apropriações de símbolos da cultura negra das mais diversas que patinaram desde o quesito religião até o básico “música de preto em festa sem preto nenhum”. Mas como publicou a pesquisadora Carolina Delgado no seu facebook: se todas  as marcas estão fazendo o bem, quem afinal está foden….com tudo?

É certo que não se trata de assunto que podemos discutir de maneira superficial: são muitas as variáveis, complexos os entendimentos e muito rasos os argumentos de uma maioria-minoria que tenta legitimar padrões ligados a gênero, classe, regionalismos e faixa etária eximindo-se da responsabilidade que existe na produção de subjetividades no ato de comunicar, seja ela uma propaganda ou ação promocional. No entanto, ainda assim é difícil algumas vezes julgar. Sobre isso, não podemos esquecer o fatídico episódio do Tom Zé emprestando a sua voz para a Coca-Cola, fato que apesar de conter as suas contradições, serviu como uma possibilidade real de financiamento de uma das suas pesquisas mais ilustres. Nesse caminho, o que acreditamos mesmo é que este é um momento de evolução e de crescermos como nação que entende a força da sua diversidade e miscigenação. As marcas acertam e erram de novo mas como comunidade criativa, como podemos aprender com os erros e ajudar a criar um entendimento sobre o que de fato estamos querendo e como queremos ser representados? Por mais que as vezes a gente reaja no calor da emoção, não é certo que de todo modo essa insatisfação seja sinal de alguma coisa muito maior? Que muitas vezes pode nem estar diretamente ligada a ação em si mas a uma gama de sentimentos colecionadas através dos tempos?

Na nossa missão de inspirar, empoderar e conectar pessoas que estão transformando esse país através da criatividade, optamos por abrir o debate, não somente no intuito de apontar o impetuoso dedinho mas sobretudo, de ouvir,  discutir e colaborar com aqueles que estejam abertos para trocar, dialogar e aprender.

E você, o que acha? Lembrando que essa matéria será feita de forma processual e colaborativa. Fique atento as atualizações em nossas redes sociais e se lembrar dos bons exemplos do ano, manda pra gente também ! contato@nobrasil.co ou via Facebook.

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Som nas ruas, na internet e nas paredes

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Conversamos com o Rael sobre como foi unir rap e tecnologia para democratizar a música e fazer com que ela brotasse literalmente, pelas paredes.

por Diane Lima

A Rua, o Rap e a Tecnologia. Uma mistura que se transformou em uma grata surpresa para quem acompanha e curte o trabalho do Rael, rapper que apresentou, na última semana, uma ação para lançamento do seu novo EP Diversoficando fazendo com que sua música brotasse, literalmente, das paredes.

E quando soubemos da notícia, martelou em nossa cabeça a vontade de trocar uma ideia com esse cara que desde Música Popular do Terceiro Mundo vem cantando a tecnologia e estabelecendo conexões sobre como ela vem transformando a forma como nos relacionamos em todos os guetos do planeta.

Na conversa em que o papo sobre música na era da internet predominou, Rael nos contou da coincidência que foi encontrar os parceiros certos para desenvolver o dispositivo: “eu estava andando pela rua e fui avisar a uma pessoa que o vidro do carro havia ficado aberto. A partir disso o Gabriel (que era o dono do carro) me reconheceu, falou do trabalho dele à frente da Shine Happy People e começamos a conversar, já que ele vem trabalhando com tecnologia e digital e já fez, inclusive, alguns trabalhos para o Nando Reis também.  Depois disso, sentamos algumas vezes e trocamos várias ideias até chegar nesse conceito que surgiu quando ele falou de uns hackers que disponibilizam seus arquivos em pen drives em pontos específicos pelas ruas e aí pensamos: por que não se esse conteúdo fosse música também? Daí entrou o Luca, um Croata que ficou responsável por fazer toda essa parte técnica e de fazer a coisa funcionar mesmo.”

Em tempos onde é impossível ignorar os efeitos que a tecnologia e o acesso a informação passa a exercer em todos nós, pensar estratégias para criar novas experiências para o consumidor, torna-se fundamental no fazer, potencializar e/ou distribuir a mensagem presente na música. Não somente no quesito do “fazer um marketing” mas, sobretudo, na possibilidade de entregar uma forma de engajamento que seja coerente com o que o artista e seu público acreditam, e que no caso do Rael, veio para proporcionar, ainda que em pequena escala, a democratização do acesso aos bens culturais. Sobre isso, ele diz só ter sido possível pela existência do que chama de um Ócio Criativo: “com essa revolução digital, você tem que pensar um outro modo de fazer as coisas… eu acredito muito no ócio criativo e esse projeto é muito fruto disso. A gente teve tempo pra parar e pensar: como que a gente vai fazer uma ação legal, diferente do que já está rolando? Talvez, quando a pessoa está ali no turbilhão do dia a dia, cumprindo horários e tudo mais, ela não consiga ter tempo de criar e assimilar novas ideias, mas eu acredito muito que a junção da internet com o ócio criativo podem criar possibilidades inimagináveis até agora. “

RAEL_foto_RAFAEL_KENT_05Foto: Rafael Kent

Com um pai Pernambucano e crescido numa favela chamada Iporanga que fica na frente do Grajaú, mesmo lugar onde aos 14 anos conheceu o Criolo, dividiu com a gente um pouco da sua formação musical dentro de casa através das referências e memórias familiares: “desde meu primeiro EP, que eu falo dessa junção e da nossa diversidade musical inclusive junto à própria tecnologia, estalo que surgiu quando eu via no carro das pessoas, quando elas mostravam seus pen drives, a quantidade de estilos musicais lá presentes…. também, eu gostava de misturar estilos desde o meu grupo Pentágono, que ficou conhecido muito por conta disso. Também é algo que veio do meu berço musical: meu pai é um nordestino que toca acordeon, toca bandolim e sempre me trouxe influências de Luiz Gonzaga e Jackon do Pandeiro. Já da parte da minha mãe ouvíamos Agepê, Alcione… e meu irmão, que também tocava violão, sempre me mostrava reggae. Com isso tudo pensei: porque não fazer com que o Rap tenha uma cara um pouco mais brasileira?”

Começando muito cedo quando dançava break pela São Bento e andava sempre com seu irmão e com pessoas mais velhas, lembrou-nos do que foi preciso passar para produzir música antes da internet, das glórias do viral e de todos os acessos de hoje em dia: “muita coisa mudou porque o mundo mudou né? Nos anos 90, por exemplo, a galera da favela era muito mais pobre, o dinheiro não chegava e não tínhamos acesso as coisas, tanto é, que pra a gente fazer música, tínhamos que ir comprar a base já pronta na galeria porque a gente não sabia produzir…. não tínhamos acesso aos equipamentos, vinil era uma coisa cara de se ter…. a gente não conseguia difundir igual como se consegue hoje… pra você ter uma ideia, eu tinha que ir de bar em bar, tinha que ir lá levar a minha música para o KL Jay já que não chegava neles como chega hoje com a internet.”

“Poucos grupos de rap tiveram acesso a gravadora, então, de certo modo, acho que isso nos fortaleceu pois nós acabamos aprendendo a fazer tudo sozinhos. Junto com isso, acho que também evoluímos com a produção musical e com o discurso. Hoje a gente consegue dialogar com mais pessoas, muito, inclusive, pela internet… pessoas mais jovens, mais velhas, de todas as classes estão ouvindo rap. Claro que há ainda muita coisa a se trilhar… as pessoas olham pra gente e acha que está tudo a mil maravilhas e não é isso, é um trabalho mesmo, não é somente ser artista, é um trabalho bem árduo…. é trabalho 24 horas.”

 

Diversoficando dowload gratuito > aqui

De onde o Rael veio e para onde o Rael quer ir, lições de 32 anos de vida: “uma coisa que percebi é que é chegada a hora de voltar a andar com pessoas mais novas, para sempre estar antenado nesse mundo digital sem perder também a conexão com o mundo real. O Gabriel por exemplo, é uma pessoa mais nova e eu venho aprendendo muito com ele”.

Nesse projeto que veio também para conectar, desconectando, Rael deixa a sua mensagem convocando as pessoas a saírem de casa, ouvir um som, pensar no futuro e ver o que está se passando na rua : “o que quero é apenas ter condição de fazer o meu trabalho para continuar criando, aprendendo, inovando e fazendo música.”

Quem sabe não é o momento de você aí do outro lado fã do Rael, começar a pensar num projeto para seu próximo lançamento? Ideias geniais que numa via de mão-dupla podem, a partir de tudo o que colocarmos na rua, se tornar inspiração para que tantos outros possam se sentir motivados para com o que tem, fazer o seu melhor também.

Tudo pode fluir.

 

 Untitled-1Foto de Rafel Kent + fotos da ação que você pode acompanhar através de #diversoficando no instagram
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Elas Nos Representam:
O Modativismo de Carol Barreto

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Na data em que se comemora O Dia da Consciência Negra, Carol Barreto estreia nosso especial Elas Nos Representam dando uma aula sobre o que é ser Mulher, Criativa e Negra NoBrasil.

por Diane Lima 

Foi através da palavra Empoderamento, que encontramos o nosso melhor argumento para estrear, na data que se celebra o Dia da Consciência Negra o seguinte questionamento: o que, de fato, é ser uma mulher negra e criativa NoBrasil? Entendendo a moda através da sua complexa habilidade de comunicar e expressar símbolos identitários e de pertencimento, optamos por iniciar desconstruindo as relações entre aparência X negritude já que ela se fez ao longo dos tempos como uma dimensão essencial da identidade da mulher.

Transitando em potência entre uma produção criativa e uma militância cotidiana, a pesquisadora e designer Carol Barreto poderia então, facilmente, integrar o nosso especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, o que nos fez ainda mais reticentes sobre como é frágil, em tempos de pós-disciplinariedade, o exercício da categorização, ainda que algumas vezes necessária para a organização da informação e do pensamento. Contudo, ao final, o fato surgiu para sustentar uma discussão primordial que a sua própria presença implicou: onde começa e termina, a relação entre atividade artística e política enquanto mulher? É possível destacá-las? Qual a nossa responsabilidade enquanto criadores e produtores de subjetividades que engendram desejos e estimulam formas de agir e existir no mundo contemporâneo?

1Editorial de Moda que resultou na Exposição Fluxus que aconteceu no último fim de semana em comemoração ao mês da Consciência Negra em Salvador, no Lálá. Um dos mais incríveis espaços culturais da cidade que tem a frente o produtor cultural Luis Ricardo Dantas, Lalá é pauta certa que muito em breve queremos também ter a honra de falar aqui NoBrasil. As imagens são do fotógrafo baiano Natan Fox que você pode conhecer mais >aqui

Nascida em Santo Amaro, Recôncavo Baiano, Carol diz ter parado de tentar entender ou delimitar o quanto ela é mais professora, pesquisadora ou “criativa”, denominando-se como “uma designer de moda que pensa corpo e aparência como agência política primeira”. Sendo alguém que conhecemos de longa data, compartilhou com a gente um pouco sobre essa sua visão de mundo:

“pensando militância por meio da moda, que é o que eu tenho escrito nos artigos como Modativismo ou Artevismo Político, percebo que a medida que vamos amadurecendo, a gente vai tirando aquela ilusão que podemos subverter completamente a ordem das coisas e entendendo que a subversão dentro do padrão, também é útil.  Afinal de contas, é importante que eu esteja lá para acenar ao final do desfile ou que minha foto apareça em uma matéria em Santa Catarina por exemplo…. Quantas estilistas, quantas profissionais negras apareceram naquelas mesmas páginas? Da mesma forma, pelo fato de 90% das modelos com quem eu trabalho serem negras, diariamente receber recados de meninas que, querendo ser modelos ou não, dizem: você me representa, você me representa, você me representa!  Acredito que estar nesse especial e não no da moda especificamente, ajuda a construir uma outra forma de respeito com a nossa linguagem de trabalho que é muito cheia de estereótipos: as pessoas acabam se desempoderando daquilo que é o elemento central das relações de poder que é a aparência”.

Exemplo de auto-estima, atitude e autonomia criativa e intelectual, Carol  sempre esteve atenta às temáticas relacionadas ao seu pertencimento e ancestralidade, compartilhando das suas experiências individuais para contaminar e empreender todas as suas atividades, como quando participando de um dos inúmeros seminários em que é sempre convidada, ouviu uma das revelações mais marcantes na sua trajetória:

“uma mulher da zona rural olhou pra mim e disse: ‘olhe, eu vou voltar para a minha comunidade e vou dizer as mulheres que estão lá que vale a pena continuar viva!’.  Nesse momento eu pensei: o que é que eu estou falando para estar ouvindo uma coisa dessas? Percebi que eu tenho tido reciprocidade para as mulheres com que eu pretendo me comunicar e me representar e que cada forma nossa de expressão, pode reverberar dessa e daquela maneira; que esse corpo, essa rede social e aquilo que a gente fala e comunica, tem uma potência muito maior do que a gente pode imaginar, prevê e pode racionalizar. Então, a gente vai cada vez mais respeitando a nossa verdade e percebendo que é difícil, cada vez mais, separar uma coisa da outra”.

Em uma cultura de dominação e antiintimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nós mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração.

Alisando o Nosso Cabelo, por Bell Hooks
4Fotos de Natan Fox com  as modelos Suzana & Suzane Massena
O que inspira?

Numa caminhada marcada por tensionamentos e questionamentos sobre a sua condição de mulher e negra por onde transita, trouxe colaborações fundamentais para o nosso entendimento sobre as condições étnico-raciais da mulher brasileira através da sua própria experiência de descobrimento:

“A consciência de ser mulher negra é o que me move, me empodera e me inspira. Desde jovem eu não me sentia representada pelo Dia da Mulher, até entender a diferença do que é ser uma mulher negra. Então, o que me inspira? A minha identidade como mulher negra e as descobertas que vou colecionando ao longo da minha caminhada. Esse foi um divisor de águas: o modo como eu passei a lidar com as coisas era outro, o modo como as pessoas passaram a me ver era outro e como criavam ou não expectativas sobre o meu trabalho também. A gente não teve professoras que falassem de si e da produção de conhecimento, a gente não teve determinados ícones ou símbolos que nos representasse. Quando eu falo desse ativismo cotidiano, eu entendo a necessidade de quando eu vou dar uma palestra no Ministério Público ou em espaços em que nós não estamos, de levar algum elemento simbólico da nossa cultura, porque eu testou lá representando várias mulheres que nunca ali estiveram mas passaram a pisar naquele momento. Um exercício de agir na presença ou na oralidade. No histórico do estudo do feminismo e das mulheres negras, a gente sabe que todo esse estereótipo de mulher frágil e do dia que saiu pra rua para trabalhar, da luta para ter determinados direitos, nunca foi, necessariamente, uma característica nossa. Se a gente revisita essa história dos  processos de empoderamento e de resistência das mulheres negras, a gente sabe que a nossa história é muito diferente.  E é isso que faz com que nós, quando alguém vem perguntar o que foi difícil na sua trajetória, nem saiba ao certo dizer o que foi, já que tudo, todos os dias, é tão difícil.”

3Coleção Linhas Vivas. Apresentada na Dakar Fashion Week – Senegal | Fotos: Natan Fox | Modelo: Lorraine Cruz | Styling: Ju Fonseca  |Make up: Supernova Produtora
O que motiva?

Professora de cursos de graduação e pós-graduação em Design de Moda e docente do Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade da UFBA, Carol coleciona ainda participações em desfiles importantes como a ida para representar o Brasil na Dakar Fashion Week – Senegal em Junho de 2013 e também no Dragão Fashion Brasil.  Mas o que motivou, tencionou e fez com aquilo que podia ser baixa auto-estima e falta de liberdade e empoderamento, se transformasse em combustível para ir além? De uma infância em que sempre ouvia a mãe chamar atenção diante de algum sinal de preconceito, aos desenhos de moda que já se arriscava a elaborar, se sentia pouco representada nas revistas e desfiles até que na adolescência vieram as revelações:  “nesse período aprendi que eu era “feia” e mais tarde quando compreendi definitivamente – sou negra! e assumi minhas características étnico-raciais como o cabelo por exemplo, tudo mudou pra mim – e positivamente – pois cada vez mais fui entendendo que era como externar um posicionamento político. Então, o que mais marcou a infância foi o adjetivo depreciativo ‘feia’ e posteriormente a transformação em : empoderada.”

5Foto: Natan Fox

Passando por situações, como militante feminista, de ter sido questionada por exercer seu papel ativista através da moda, contou-nos sobre a felicidade do reconhecimento recebido da universidade em que se formou, se especializou e se graduou (UEFS), por ter plantado a semente para o desenvolvimento de novas linhas de pesquisa para o campo da moda, ao mesmo tempo em que fala sobre as dificuldades existentes no meio acadêmico:

“desconstruir também o preconceito que existe dentro do seio acadêmico com a moda, é um outro desafio. Porque quando a gente começa a pensar em raça, a gente vai ver que todas as produções artísticas e acadêmicas, no design e na moda, são racializadas mas, como são brancas, não são racializadas, porque negritude é debatida mas, branquitude não é debatida. Na lógica, só quem tem raça é indígena e negro, não é mesmo? Branquitude como traço racial de comportamento, de escolhas estéticas, de gostos e desejos a gente não vê sendo debatido porque, pretendendo-se ser universal, ninguém vai dizer que a história da moda é branca e ela SÓ é branca, ou que a teoria da moda é branca e ela SÓ é branca”.

“Ao passo que a gente vai elaborando determinadas análises, que as pessoas vão entendendo que a aparência é o principal espaço e suporte de expressão, de identidade, de pertencimento dos marcadores sociais e da diferença. Sendo assim, a quem eu aluguei ou vendi a propriedade da minha própria imagem como mulher?”

Sendo uma profissional vitoriosa e realizada, Carol não hesita em continuar sonhando e sendo porta-voz de todas nós, seja em capas de revista, jornais, salas de aula, auditórios ou no mais longínquo e remoto espaço que sua competência, capacidade e perseverança poderá lhe levar: “sonho em desfilar em outras semanas de moda especialmente no continente africano, estabelecendo essa conexão com outras mulheres na Diáspora e assim, consequentemente, despertar o entendimento de que nossas escolhas como designers, pesquisadoras ou militantes são tanto estéticas como também éticas e que cada escolha impacta na construção da imagem e das identidades alheias”. Ocupando espaços numa batalha para disseminar belezas, construir fortalezas e empoderar mulheres a ter um livre governo de si, Carol Barreto NOS REPRESENTA.

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