Category: Ruptura

Adentro: Porque precisamos no Design Olhar e Criar para o Brasil?

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NoBrasil + Brasis ministram palestra gratuita na Design Weekend como parte da programação da Design House. Programe-se!

por Diane Lima

 

Foi ontem depois de responder uma entrevista sobre a relação entre Design, Brasil e Cultura para uma pesquisadora-amiga inglesa de nome Jane Hall que fiquei com os dedos coçando para escrever aqui algumas linhas sobre o que vai nortear a palestra do Adentro na Design Weekend, hoje considerada a maior semana de design da América Latina. Para quem não sabe Adentro é um programa de oficinas e cursos criado em parceria NoBrasil + Brasis que tem como objetivo principal estimular o Olhar e o Criar para o Brasil, ele é feito para grupos de pessoas e empresas em busca de conhecer e aplicar repertório brasileiro em seus projetos. Junto com a Mayra Fonseca, pesquisadora e antropóloga que nasceu em Montes Claros- MG, mesma cidade do Darcy Ribeiro e que recebeu seu nome inspirado em sua obra, pensei que não haveria melhor oportunidade de discutir o design brasileiro se não aceitando o convite de participar da programação da Design House, projeto da super curadora Camilla D’Anunziata que acontece durante 04 anos na Design Weekend e que recebe Adentro no dia 16.08, domingo, às 18h na Red Studios.

Mas porque de fato estão uma baiana e uma norte-mineira a dizer que precisamos no Design Olhar e Criar para o Brasil? Na verdade, sempre entendi o design não somente na sua perspectiva estética e utilitária, características às quais a atividade é massivamente reduzida mas, sobretudo pela sua capacidade de comunicar e dar sentido às coisas no mundo. Levando em consideração que nas sociedades ocidentais a cultura é profundamente ligada e dependente do consumo, moldando e transformando a nossa definição coletiva, chegamos a ideia que não há como ser designer sem pensar que esta é uma empreitada inteiramente cultural. E é aí que sem dúvida a gente se encontra.

O Flusser, autor que na minha humilde opinião deveria fazer parte da estante de toda pessoa que trabalha com design e comunicação (junto com o Darcy), diz que todo artefato é produzido por meio da ação de dar forma a matéria seguindo uma intenção. Para transformar a proposição em algo mais simples, vou criar uma imagem: pense em um bloco quadrado grande de madeira em cima de uma mesa. Ao redor, 5 pessoas estão munidas de diversas ferramentas. Quais valores você coloca no seu ato de in-formar essa matéria quando a transforma com suas mãos e punhos? O que sua energia criativa ali empregada irá comunicar ao mundo? Vale a pena mais uma explicação. Flusser diz ainda que etimologicamente a palavra manufatura corresponde ao termo in-formação que por sua vez significa o processo de dar forma a algo: fabricar pois é então um ato de informar.

Explico isso pois na entrevista quando a Jane me perguntou como eu relacionava design e cultura brasileira, eu prontamente respondi que poderíamos pensar isso de diferentes maneiras mas que the first could be the worst (em inglês no texto apenas para manter o trocadilho de palavras que em português quer dizer que a primeira, poderia ser a pior): a nossa profunda vocação em alimentar um câncer plantado no cerne da educação e do mercado de design chamado cultura da cópia. A partir daqui não tenho como falar do assunto sem evocar dois pontos principais.  São eles a contribuição da arquiteta Lina Bo Bardi e do designer Aluízio Magalhães, e o entendimento sobre como a relação entre  industrialização, política e artesanato foram por eles debatidas. Ela nos leva ainda a compartilhar uma outra reflexão atual de Adentro: quais intenções nos levam a escolher um termo em inglês para nomear uma ciência e ofício num país com centenas de idiomas nativos? Quais informações acessamos em nossa prática a partir dessa escolha? Até que ponto esse design dá conta de nós?

Clike e assista um pouco do que aconteceu no primeiro workshop Adentro em São Paulo.

 

Ainda que entendendo a importância e inclusive a necessidade de termos uma atividade projetual atravessada pelos efeitos de um mundo globalizado, continuamos sem olhar e criar para o Brasil. Uma contradição para um país que seria, segundo Dijon de Moraes em seu livro entre Mimese e Mestiçagem, o mais habilitado a dar bons ensinamentos ao mundo. Para ele se somos globalizados por natureza, somos também safos no que diz respeito a fazer novas misturas. Isso me faz lembrar que quando olho os projetos mais legais que conheço, tenho na maioria das vezes como resposta justamente aqueles que pacientes e interessados em entender as culturas, expressões e cotidianos do Brasil, conseguiram produzir a partir dos atravessamentos entre esses elementos locais e as informações globais a qual todos os dias somos submetidos, uma trama que recombina e produz pela justaposição de ingredientes tão diferentes, uma cara nova que posiciona o nosso eu no centro do mundo.

Sendo assim,  sempre  chego a conclusão que em sua totalidade o design brasileiro pode ser considerado um design para 20% e um design para 20% é aquele empregado não como uma ferramenta democrática mas sim segregadora. O efeito disso tudo é que não é parte da nossa prática criar tecnologias baseadas em processos e métodos que de fato possam representar a nossa diversidade cultural, seja ela étnica, econômica ou social. Resultado da nossa política de industrialização nos anos 60, mantemos “o costume” de comprar de fora conceitos e métodos “inovadores” ou mais corriqueiramente copiar padrões, formas e estilos enquanto o nosso povo do campo, das vilas, florestas, montanhas, sertões e favelas continuam dando pra gente como fruto de anos de experiência do tal do learning by doing (aprender fazendo), conceito que também importamos nas últimas temporadas, o mais precioso conhecimento para se fazer design: o nosso próprio jeito de ser e encontrar soluções para sobreviver.

“…em sua totalidade o design brasileiro pode ser considerado um design para 20% e um design para 20% é aquele empregado não como uma ferramenta democrática mas sim segregadora”.

Apesar da minha crítica não há uma desesperança mas uma crença que o primeiro passo é discutir e nos situarmos através sobretudo dos trabalhos de excelência de quem está buscando experimentar. Designers como o Rodrigo Almeida, o Sergio J. Matos, o Rodrigo Ambrósio, a Lane Marinho, Fernanda Yamamoto, Andrea Bandoni, os projetos liderados no curso de design na Universidade Federal da Bahia pelo professor e amigo Taygoara Aguiar e o estúdio Questto|Nó apenas para citar alguns poucos que vieram rapidamente na minha mente. De algum modo sempre me levo a pensar que o ato de copiar e criar relações aspiracionais reprimindo uma expressão da subjetividade do sujeito pode ser lida de certa forma como um ato esquizofrênico e isso me faz lembrar de um dos mais importantes ensinamentos que o nosso crescimento econômico dos últimos 8 anos proporcionou: que os 80% querem ter acesso para comprar mas, isso não significa que querem ser classe média no que no corpo e no comportamento isso possa significar. Eles querem continuar livres para expressar suas individualidades e seu próprio jeito de ser e experimentar.

Pensar e Fazer Design que Olhe e Crie para o Brasil é acima de tudo pensar para quem queremos fazer design e nos questionar qual a responsabilidade que temos quando criamos coisas que dão sentido ao mundo. A gente vem discutindo por muito tempo a sustentabilidade e a importância de pensar a matéria mas o que dizemos sobre a violência que existe por trás ou “dentro” dos projetos/produtos/conceitos que criamos se consideramos seu papel mediador em criar relações quando entregues ao outro? Recombinar elementos, mudar as coisas de lugar e construir novas narrativas pode ser um bom caminho para começar. Assim, mantenho a máxima em dizer que processo criativo é espaço de poder e que olhando e criando para o Brasil um outro design que nos valorize, reinvente e liberte, é possível.

Até lá.

Serviço:
Palestra Adentro – gratuita
Onde: Red Studios – Rua Professor Nova Gomes, 228, Vila Madalena, São Paulo
Data: 16 de agosto, domingo
Horário: 18:30h
Confira toda a programação.

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Molduras da gente: um documentário sobre a representatividade feminina na publicidade de cosméticos

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14 mulheres falam sobre propagandas e produtos para cabelos, em um filme que discute marcas, autoestima e cultura da beleza; Produção é de autoria de alunos de Comunicação Social da UFMG

por Diane Lima

Semana passada recebemos direto de Minas Gerais, o Molduras da Gente, documentário que discutindo o poder da publicidade, surgiu com o objetivo de estudar a representatividade do público feminino nas propagandas de produtos para cabelos. Amor a primeira vista que logo molhou os nossos olhos, chegou para fortalecer o discurso que estamos debatendo sobretudo depois do #deixaocabelodameninanomundo quando falamos da violência simbólica a qual somos todos submetidos diariamente e que encontra no cabelo, uma porta de entrada. Lançado no mês passado e desenvolvido durante cinco meses por um grupo de alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o documentário traz depoimentos de mulheres de diferentes idades, raças, profissões e estilos que falam sobre a forma como se relacionam com seus cabelos, escolhem seus produtos e entendem o mercado de cosméticos.

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Entre cachos e chapinhas

Para os produtores, o Molduras da gente traz uma visão de como as mulheres lidam com sua própria imagem e qual o papel e a influência dos comerciais na definição da identidade. “O tema ‘cabelos’ no universo feminino carrega um significado muito característico. A partir das falas e histórias que colhemos, percebemos fortes marcas da vivência cotidiana de cada uma, que, mesmo que particulares, acabam se tornando coletivas”, afirmam. É o caso, por exemplo, das entrevistadas Camila Vilaça, 17, e Luisa Souza, 19, que durante anos submeteram seus cabelos à química para o relaxamento e o alisamento, mas atualmente dizem ter “se libertado” e escolhido dar vida a seus cabelos naturais, procedimento que leva nome de transição capilar. “É muita liberdade”, diz Camila, “agora eu posso lavar o meu cabelo, gente, […] posso sair na chuva!”.  Segundo a entrevistada Laura Guimarães, professora do departamento de Comunicação Social na UFMG, a publicidade se torna muito poderosa, seja na definição do consumo, do comportamento e até da autoestima, e por isso a representatividade se torna tão importante e, inclusive, essencial para a formação do ser.

A produção, desenvolvida por Ana Naemi, Bruno Silvestrini, Celso Haddad, Gabriela Filippo, Henrique Lima e Isadora Fachardo, inaugura uma visão diferenciada em relação ao consumo e à aceitação da própria imagem e nós fizemos uma entrevista com a Gabriela Filippo que falou um pouquinho mais do projeto com a gente. E não deixe de assistir, só dar o play!

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1 – Gabi, fala pra gente, qual foi a motivação de fazer o projeto, como veio a ideia?

Como estudamos publicidade, consideramos a representatividade algo essencial de uma boa campanha, já que retratando o seu público na sua propaganda, você pode o levar à compra através da identificação. O problema é que na prática não é assim tão simples. Muitas marcas pecam nesse quesito, e em especial ao se comunicar com o público feminino. Além disso, todas as mulheres do grupo são feministas e os homens, acho que posso dizer, machistas em desconstrução (hehe), então já olhamos para essa discussão da representatividade com um olhar mais crítico.
Por isso, a gente queria estudar como as mulheres são representadas quando a publicidade fala diretamente com elas, mas resolvemos focar em um mercado que diz muito do que é ser mulher para a nossa sociedade, que é o mercado de cosméticos, de produtos para cabelos.
Afinal, a questão dos cabelos é na nossa sociedade parte da identidade feminina (muito mais que a masculina) e, consequentemente, a publicidade em torno disso vai acabar refletindo não só no consumo, no mercado, mas também na concepção do eu, na autoimagem e estima. Pensando nisso, nós gostaríamos de ver o que diversas mulheres fora da nossa bolha cotidiana teriam a dizer sobre o assunto, e achamos importantíssimo que essas perspectivas fosse bem variada: chamamos publicitárias, acadêmicas, consumidoras, mulheres de cabelo liso, crespo, enrolado, adolescente, jovem, adulta e por aí vai.

2 – E agora, quais são os próximos passos? Vai haver algum desdobramento do filme?

O que a gente mais quer agora é espalhar essa discussão para que muitas mulheres possam refletir sobre o assunto, já que diz muito sobre a realidade de todas. A gente fica muito contente, por exemplo, quando alguém vem elogiar e começa a deliberar sobre a questão, porque sabemos que o nosso objetivo deu certo. Enfim, para nós o mais importante é espalhar essa mensagem. Agora sobre o futuro, por ter sido um projeto inicialmente da faculdade, não temos planos concretos. Seria bem bacana fazer outros projetos em torno da questão da mulher e até nos propuseram isso, mas só saberemos o que virá agora com o tempo mesmo.

Quer ver essas e outras histórias? Curta a nossa página !
 

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#deixaocabelodameninanomundo no TEDxSãoPaulo

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“Deixa o cabelo da menina no mundo é uma metáfora para dizer que é chegada a hora de Ser quem Somos.”

 

Hoje é um dia especial. Pela primeira vez em um ano de NoBrasil me dei a oportunidade de escrever em primeira pessoa e faço isso por alguns motivos de felicidade, entre eles, dizer muito obrigada e reforçar um sentimento que não deixa de ser de esperança: a constatação que estamos todos aprendendo.

Tenho pensando muito desde que participei do TEDXSãoPaulo de qual lugar ecoa a minha voz e o que a minha história pode contribuir para os que vieram dessa vizinhança que na geopolítica, pode ser considerada como a periferia, da periferia, da periferia, da periferia do mundo. Sinto como se o nosso corpo tivesse em uma constante disputa, potencializada pela vontade de nos sentirmos contemplados nesse mundão abismo, que nos faz ser únicos e ao mesmo tempo, muitos. Como um agente político no entanto, nos pegamos a assumir margens para que desse canto possamos ter ressonância diante das violências diárias que somos todos submetidos por apenas ser quem somos. E quando com o NoBrasil falamos de diversidade, é uma tentativa de transformar um discurso tão complexo em algo que chegue para dar um estalo na vida das pessoas já que muitas vezes, com a necessidade de desbravar essas palavras, a gente acabe por nos afastar do mundo real: verdadeiros espaços de ódio como me lembrou uma amiga, ao se referir ao trem lotada do fim do dia.

Estamos todos carregados de dor, buscando o seu e querendo um lugar ao sol que nos dê um pouco mais de energia para ter coragem, coragem para enfrentar as coisas da vida, como me diz minha bisavó. Tentando avançar casas, vivemos como se tivéssemos que vencer cada etapa de um jogo que se faz tão excludente, que nos obriga a falar de representação, ocupação e força. Estamos todos cansados de estar fora, único destino deixado a todas as maiorias-minorias do país. Ainda que entendendo o quanto somos atravessados e gente sem identidade fixa, a quem recorro quando chego num jantar e a única opção é ser a moça do buffet? Talvez isso não seja para você.

O que me traz essa tal esperança é que tem muita gente sonhando, criando e produzindo. E o sonho é o simples despertar que existe para nós uma outra opção. A criatividade é lida aqui como a capacidade de recombinar elementos éticos, estéticos e estratégicos para construir esses novos horizontes, seja nas artes, no design, na comunicação, na educação ou nas tecnologias. Agentes políticos que entenderam que o processo de criação é um espaço de decisão, escolha e por assim dizer, poder, e que teremos que nos reinventar ainda com as marcas da pele.

O nosso objetivo então é um só: conectar essas pessoas. Gente que está transformando o país através da criatividade. Gente que está fazendo micro-revoluções e que entenderam a responsabilidade que existe quando materializamos coisas que dão sentido ao mundo. Que perceberam a violência que existe no simbólico, esse lugar que vai além do que a gente poder ver e descobriram que energia criativa é um bem precioso e que com ela, podemos produzir solidariedades alterando a realidade que tanto criticamos.

Deixa o cabelo da menina no mundo é uma metáfora para dizer que é chegada a hora de ser quem somos! Que somos fruto das histórias que temos para contar e que precisamos continuar aprendendo desse lugar de onde a gente veio, sempre!  Quero ainda agradecer por ter encontrado cada um de vocês, seja no online através do facebook ou do instagram, ou pelas ruas da vida.  Como vocês sabem, continuar esse trabalho não é coisa fácil mas venho acreditando que podemos transformar a nossa dor em ação para que nunca percamos a capacidade de sonhar e criar esses novos mundos. Energia criativa que possa fazer meu cabelo simplesmente, existir.

Com carinho e cabelo no mundo, Diane.

Agradeço especialmente a Mamãe, Vovó Catarina, Vovó Dag, minha irmã Denise, Fernando meu companheiro, tios, tias e primas além dos amigos Gerardo, Tarcísio, Mahal, Yasmin e Cindy, por me aturarem nos dias nervosos de Ted e a Fernanda Yamamoto por me vestir em poesia.
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Um mar sem margens

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Rodrigo Sombra apresenta em imagens o quanto somos sem identidade fixa.

por Diane Lima

Pouco menos de 1 ano, no iniciozinho do NoBrasil, conhecemos o trabalho de Rodrigo Sombra. As imagens vieram logo acompanhadas de uma interjeição-suspiro que nos fez questionar de onde era e quem era a pessoa responsável por tamanha beleza. Apesar de ser um dos trabalhos mais incríveis que desde então a gente encontrou pelo caminho, naquele momento em que estávamos entendendo ainda o que éramos enquanto plataforma e de que lugar estávamos falando, a relação geográfica transformou-se em uma questão: não era Brasil, era Cuba.

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Apenas daí vocês podem ter ideia do que hoje nos traz de volta até o Sombra. Em um momento em que nos questionamos sobre fronteiras, as nossas entre o online e o offline, entre eu, você e o mundo e os trânsitos que nos constituem nesse lugar desprovido de unicidade, um trabalho que nos fala de um mar sem margens, não poderia deixar de estar aqui presente. Com imagens feitas em filme, em Santiago de Cuba, Havana e algumas outras no Benin e Bahia mas que poderiam ser em qualquer lugar entre Dakar, Brixton ou Kingston, ele traz de Cuba pouco ou nada desse lugar inventado e dizível, “com suas ruas buliçosas, vida luxuriante e decadência arquitetônica”, universo que o artista e pesquisador  buscou ir na contra-mão e que ganha apoio numa fala baseada na obra do Édouard Glissant que explica o nosso interesse pela memória desse corpo transeunte e que está presente no único áudio que conseguimos resgatar nesse oceano que nos separou entre esse tempo:

“um mar sem margens, um abismo espacial, horizontal. Um abismo da memória. A narrativa fundadora dos povos da diáspora é o navio negreiro, é o abismo total;  não há nesse sentido nenhuma lógica de filiação, é o estar na água, é a abertura ao novo, ao outro. (…) o conceito de opacidade é muito presente nos meus trabalhos. Você quase não vê. A ideia é que a pessoa não tenha identidade fixa, que a pessoa se pergunte o que ela está vendo. Não é ilustrativo do que é cubano ou brasileiro, é mais uma pergunta”.

1 ano depois que chegamos aqui questionando todos esses lugares e redomas, do que é ou parece ser, do que somos ou de quanto de você habita em mim e de como podemos aprender nessas diferenças, acordar numa quinta-feira com Sombra foi manifesto insurgente para acompanhar uma passagem de ação: movimenta-se como a água, pois uma gota acaba de cair.

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“Os professores deveriam ser os profissionais mais bem remuneradas desse país.” O que aprendemos com o #deixaocabelodameninanomundo nas escolas?

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É com muita felicidade que compartilhamos um resumo de tudo o que aconteceu e as nossas principais experiências!

por Diane Lima

 

Foi simplesmente uma experiência para levar para a vida!

Desse nosso primeiro contato com a sala de aula achamos que nem iríamos conseguir fazer uma reflexão sobre tudo o que aconteceu de forma tão rápida tamanha foi a nossa perplexidade sobre o real potencial que existe nesse ambiente que apesar de discreto, pode ser considerado um dos poucos espaços de transformação que alguém pode conhecer. Mas antes de começar a dizer qualquer coisa, nós queríamos falar o seguinte: parabéns a todos os professores e educadores desse país! De todas as coisas que já fizemos, talvez não tenha existido atividade mais complexa e que exigiu tanta entrega do que assumir a postura de levar conhecimento para jovens e crianças. Sem dúvida alguma, é urgente que nossos professores sejam bem remunerados, luta que a gente acompanha e preocupação que veio ainda mais latente, quando terminamos as atividades e tivemos a sensação que um caminhão havia passado por cima de nós! Um cansaço que não era somente físico mas emocional. Uma demanda que te faz ficar em contato com a realidade da casa da família brasileira para além do comercial de margarina. Um retrato do que poderá vir a ser o amanhã, para o bem e para o não tão bom assim.

Por isso, com esses pequenos passos que demos com o #deixaocabelodameninanomundo nas escolas, que compartilhamos agora com muita felicidade os nossos primeiros aprendizados. Que a gente possa crescer cada vez e cada dia mais juntos! Acompanhe!

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1 – A profissão de professor deveria ser uma das mais bem remuneradas nesse país

Já explicamos o porque aí em cima mas quem achar que não, convidamos para viver com a gente um dia em sala de aula, assim você terá certeza de quão injusta é a situação dos professores! Atividade que deveria ter todo o suporte e infra-estrutura por ser a base de uma nação.

2- O que podemos aprender com a nossa história? Ativando a memória do corpo utilizando da empatia

Chegamos em Mundo Novo, interior da Bahia, onde a primeira atividade do #deixaocabelodameninanomundo aconteceu, no dia 04 de julho e claro, que nem tudo ocorreu as mil maravilhas. Muita coisa pra fazer, pouco tempo, carro que quebra, mudança de planos. Somamos o quanto foi difícil fazer aquilo tudo acontecer e mais minha história de vida, para mostrar para uma turma de mais de 70 jovens na faixa etária de 12 a 14 anos, que tudo era possível. Se víamos do mesmo lugar, falávamos do mesmo lugar! E isso motivava e possibilitava fazer com que eles alimentassem uma coisa principal: a capacidade de sonhar. Precisamos lembrar que para muitas crianças e jovens que vivem por exemplo na zona rural, como era o caso de muitos, sair para fora do país, falar outra língua, ter algum tipo de reconhecimento profissional sobretudo pela mídia, significa muito! O que é considerado sucesso é quase como uma utopia, e ali concluímos também que era o momento de desconstruir esse próprio modelo de felicidade: padeiro, artesão, mecânico, médico, designer, artista, nada sobre títulos importaria. Apenas que pudesse haver a possibilidade da escolha e que o exercício da profissão viesse carregada de amor. Empreender na sala de aula, passou a ser uma opção !

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3 – A capacidade de criar novos mundos está completamente ligada a nossa capacidade de sonhar

A nossa presença tinha como missão principal exercitar a capacidade de sonhar, de vislumbrar e imaginar novos mundos. A ideia era que conseguíssemos fazer com que a informação fosse recombinada por eles mesmos e sendo a recombinação a base da criatividade, novas possibilidades de existência para o futuro surgissem. Queríamos ajudá-los a ampliar as suas percepeções: quem sou eu no mundo e o que a minha história fala sobre nós? Apesar do pouco tempo, aos poucos cativamos e as poucos conseguimos deixar plantado algumas sementinhas que foram traduzidas através de uma atividade que pediu que cada um escrevesse uma carta contando seus sonhos e sua história de vida. Muitos a princípio hesitaram dizendo não ter sonhos, mas com um tanto de conversa acabaram topando e se abrindo para ao menos imaginar.

Te conto um caso que aconteceu:

1 – um aluno insistiu que não tinha sonhos e em seguida disparou o seguinte: “já sei! O meu sonho é que vocês voltem na escola de novo! Pronto é isso! Já sei!” Dalí em diante foi difícil aguentar a emoção. <3

2 – um outro aluno, bem quietinho lá no fundo da sala, não se movia. Sereno, pouca falava e disse pra gente que também não tinha sonhos. A única coisa que conseguimos com muito diálogo, foi descobrir que ele gostava de tecnologia. E daí, dessas poucas palavras, veio o nosso próximo aprendizado:

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4- A escola para além da escola

Com esse garoto, ficamos pensando como é urgente a necessidade de articulação com projetos sócio-culturais para além dos muros da escola. Naquele momento, a nossa vontade era acionar 3, 4 pessoas que a gente conhece da tecnologia, para que pudessem ao menos iniciar uma conversa, motivo pelo qual na próxima vez co-criaremos atividades com profissionais de áreas diversas para que de alguma maneira, possamos levar essas outras experiências junto com a gente.

5- Cabelos que dão força para que se enxergue com olhos críticos

O cabelo como a porta de entrada. Assim pensamos desde o início como seria o desenrolar da nossa abordagem.  Depois de trazer um momento motivacional ativando a memória do corpo de cada um, o que a minha história teria a ver com o meu cabelo, com os meus sonhos e com o meu futuro? O cabelo no mundo era uma metáfora para discutir “certos assuntos” difíceis pela aproximação que existe com a vida pessoal e que é mais difícil ainda externalizar ou entender. Falar de racismo, bullying, discriminação sexual, preconceito, racismo institucional, intolerância religiosa, machismo, violência contra a mulher, assédio sexual foi possível para nós através desse elemento cabelo que vem carregando de identidade: a aparência e a estética como marco norteador da nossa presença e das nossa mediações com o mundo! Ao fim, falar de todas essas problemáticas, nos levou ainda a seguinte constatação:

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6 – Precisamos aprender a ouvir

No momento que tocamos nas dores que todas essas palavras significavam, houve um reconhecimento quase instantâneo. Os alunos não somente verbalizaram, como tiveram coragem de ir a frente, pegar o microfone, para contar suas experiências, inclusive denunciando outras pessoas que haviam cometido qualquer tipo de “brincadeira que eu não gosto.” Percebemos como era latente a necessidade de falar e de externalizar o mundo que “ninguém entende.” Fiquei pensando: como podemos dar mais atenção, com atendimentos quase customizados, se o próprio modelo educacional nos prende pela quantidade? São vidas e destinos, cada um com as suas singularidades, como abraçar todos apenas com dois braços só?

7 – Afetividade

A partir desse momento então nós já éramos puro afeto mas pensamos: como lhe dar com tantos problemas? Como trazer a família para a realidade e envolvê-la com “as coisas” que só o professor ouvi e ver? Em um dia tivemos muitas revelações: crianças que se sentiam excluídas, crianças que disseram não ter sonhos e crianças que tinham olhos brilhantes. Nosso papel foi nos colocarmos como mediadores entre esses anseios e o mundo, levando conforto, auto-estima e  dizendo para eles que naquele minuto através da #deixaocabelodameninanomundo havia muita gente interessada, em ouvir.

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8 -Porque inovar não é o mais importante

Como levar o aprendizado para a vida real, dando autonomia e segurança para que a turma pudesse através das suas experiências de vida, criar as soluções para seus próprios problemas? Uma das atividades que realizamos falava justamente sobre isso. Reunimos em papéis diversas habilidades e pedimos para que eles escolhessem duas ou três. Feito isso e se reunindo em grupo, o segundo passo era listar todos os problemas que eles enxergavam na sua casa, rua, povoado ou cidade e tentassem através das habilidades em conjunto de cada um do grupo, apresentar uma solução.  Uma forma de exercitar a cidadania, a criatividade, o trabalho colaborativo e dizer para eles que a mudança acontece através das nossas próprias mãos!

Te conto um caso que aconteceu:

1 – perguntamos para a turma se eles tinham ideia do que significava a palavra INOVAÇÃO e um deles lá do fundo respondeu:

“se não é fácil de encontrar e não tem produto para cabelo crespo, inovar seria fazer produto para cabelo crespo, ora!”

Um recado para o povo da Innovation que mais copia do que inova, que explica porque insistimos em dizer que inovar não é o mais importante e que se traduz na fala da Yasmin Thayná quando ela diz que o mais importante mesmo é ouvir.

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9 – Precisamos criar as nossas próprias referências, experiências e materiais

Uma dificuldade sem dúvida foi encontrar brinquedos, livros e filmes que trouxessem um olhar crítico ou criativo que desse conta da nossa diversidade. Na turma do turno da tarde com as criança de 05 anos, contamos com a leitura do livro Tóim, gentilmente cedido pela Tamires Lima, além de realizarmos atividade de colorir usando as próprias ilustrações enviadas pelos artistas para a nossa campanha. Apresentamos a animação A Menina e o Tambor e o video Cabelo Duro – Carolina Afirma que Não!. Esse segundo vídeo que viralizou na internet depois do depoimento da menina Carolina, ainda serviu como um material de discussão importante com os alunos maiores uma vez que trazia um argumento fundamental: a possibilidade do uso da internet para expressar as individualidades, questionar padrões, se conectar com pessoas que pensam parecido e fazer as coisas acontecerem.

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10 – Precisamos pôr a mão na massa!

Traduzimos Yellow Fever

O nosso próximo passo agora é organizar uma central dentro do NoBrasil para que toda a metodologia possa ser usada por outras pessoas. Além disso, trabalhar no próprio desenvolvimento ou na co-criação de materiais didáticos, brinquedos e experiências, coisa que temos a felicidade de dizer que já começamos a fazer! Como tivemos dificuldade de encontrar vídeos que trouxessem um olhar crítico e fossem ao mesmo tempo curtos e atrativos, pedimos a colaboração das maravilhosas Juliana Luna e a Yasmin Thayná, para nos ajudar com a tradução da premiada animação da diretora Ng’endo Mukii, Yellow Fever, filme que foi apresentado recentemente no Brasil no Festival Afreaka. Estamos muito felizes de ter conseguido fazer isso acontecer pois é um filme que traz com um olhar cheio de poesia, uma aula sobre racismo, além de nos dar a possibilidade de trabalhar a capacidade de interpretação através do elementos simbólicos e estéticos ali reunidos.

Deixamos semeada a criação de um coletivo de meninas crespas!

Exatamente! Elas decidiram se unir para apoiar umas as outras e enfrentar juntas seus medos, o preconceito e deixar seus cabelos livres! O Coletivo que ainda não tem nome mas que iremos acompanhar a formação de perto nessa semana, conta com meninas como a Vanessa, que com apenas poucas semanas de “black” pegou o microfone e disparou: “fiz escondido da minha mãe, mas decidi cortar pois não me sentia eu mesma”. Temos um vídeo inteiro do discurso dela que veio para nos encher os olhos de lágrimas e logo mais iremos compartilhar por aqui e por nossas redes sociais com vocês. Não deixe de acompanhar pelo Facebook e Instagram !

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Para finalizar, só nos resta agradecer! Foram muitas as pessoas que nos ajudaram a fazer isso acontecer! E aqui queremos listar todas, principalmente a Nando Cordeiro, a Darlúcia Souza, Edson Souza, Danúsia Maria, Juliana Luna, Yasmin Thayná, Mahal Pita, Tamires Lima e  Taygoara Aguiar! As professoras e coordenadoras Darcilene Assis, Di, Luciana Clementino, Neuma Gomes e Cida! Sem vocês não seria possível!

A vocês dedicamos o nossos aprendizados e a nossa sede de querer fazer muito mais!

#deixaocabelodameninanomundo – Educação e Criatividade Transformam

Até a próxima!

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Do Juazeiro do Norte, é Jarid Arraes a escritora que nos representa.

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Lançando seu novo livro As Lendas de Dandara, ela fala sobre seu processo criativo, política, preconceito e nos presenteia com uma história que é pura inspiração.

por Diane Lima

Conhecer Jarid Arraes foi assim, um encantamento.  No gesto, no tom e na poesia, algo nos dizia que falávamos do mesmo lugar, de uma mesma posição em que o Nordeste, esse que corre em nossas veias, estava ali presente com toda a prosa, a métrica e a rima de quem carrega na memória do corpo e com as palavras no dedo, a missão de “dizer dizeres nunca antes ditos”.

Seja na sua produção como jornalista na coluna Questões de Gênero na Revista Fórum ou como escritora, Jarid é hoje uma das mais representativas mulheres da internet, escrevendo textos críticos em defesa dos direitos humanos, com total atenção às mulheres, a diversidade sexual/ gênero e questões raciais. Crescida numa família onde é presente a cultura do cordel bem como forte uma consciência política, aprendeu com o pai, o Hamurabi Batista, o que hoje aos 24 anos dá vida com seus próprios folhetos: uma forma que encontrou de manter viva a tradição abordando através da característica de protesto, ensino e informação própria desse gênero literário, temas, histórias e personagens pouco visibilizados no mainstream das artes brasileiras.

Do seu primeiro cordel de título Dora,  A Negra e Feminista vieram outras tantos e a ideia de contar a história de mulheres negras que os livros fizeram questão de não contemplar. Tomando como sua missão, passou a nos conduzir por um caminho de reconhecimento da nossa ancestralidade, fazendo do cordel um importante documento para promoção da cultura afro-brasileira bem como, ferramenta indispensável para o ensino em casa e nas escolas.  Entre seus títulos que encontra-se disponível no seu site estão, Dandara dos Palmares, Não me chame de mulata, Carolina Maria de Jesus, dentre outros 30 que disputam o nosso interesse e curiosidade por carregar ainda as xilogravuras incríveis feitas de próprio punho pelo pai da Jarid lá mesmo do Cariri.

“Desde muito nova eu sempre quis ser escritora, mas não entendia que aquilo era uma profissão, o que acabou acontecendo mesmo pelo destino, como se tivesse que acontecer. Eu comecei a escrever no meu blog sobre feminismo, depois fui convidada pela Revista Fórum e aí quando eu comecei a escrever os cordéis que eu de repente me dei conta: eu sempre quis ser escritora e agora eu sou escritora, socorro!”

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Fotos da CAROLINA DE MARCHI na matéria incrível que o Brasis fez com a Jarid. Passa lá e dá uma olhada!

Nessa trajetória que já tem muito pra dizer, não nos escapa falar da nossa felicidade em ter a presença de Jarid, que hoje mora em São Paulo, influenciando a tantas outras meninas e mulheres com a sua produção e opinião. Para além da incontestável relevância do que significa tê-la ocupando espaços e sendo porta-voz de tantas outras mulheres, ela não poupa criatividade dando uma aula de como a nossa história e aquilo que carregamos como nossa verdade, são ingredientes fundamentais para nos posicionar e criar coisas lindas no mundo. Como numa alquimia, ela reuniu o seu orgulho, a sabedoria e a tradição da sua família para tratar de assuntos contemporâneos de um jeito mais contemporâneo ainda: mixando, reinventando e inserindo o que era cristalizado na ordem do dia. Um exemplo de como podemos olhar para o Brasil e fazer a inovação na prática, ainda que nem sequer teorizando, vendendo ou falando sobre ela: “me assumir escritora foi um processo difícil, porque faltou referência. Todas as imagens que eu tinha de mulheres escritoras da literatura em geral, nunca era mulheres negras e nem nordestinas, então por muito tempo é difícil a gente acreditar que a gente tem talento suficiente para as pessoas de fato se interessarem pelo o que temos a dizer. Então, é uma coisa muito da auto-estima: se você nunca vê pessoas como você fazendo sucesso nem sendo reconhecidas, como vai achar que é possível? Depois de conseguir romper algumas dessas barreiras e inseguranças pessoais, eu ainda tive que lhe dar com o machismo, com o racismo, com o preconceito contra o Nordeste e contra a gordofobia e me dei conta que as vezes aquilo que você escreve, nem sempre é o suficiente para fazer as pessoas te apresentarem. O mercado quer te encaixar num perfil que é vendável e você tem que ter uma carinha comercial e quando você não se encaixa nesses pré-requisitos de repente passa a não ser mais tão interessante aquilo que você escreve”.

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Ilustração da Aline Válek representando a Iansã e a Dandara ainda bebê, no  seu nascimento .

“As pessoas aqui em São Paulo não tem vergonha de manifestar preconceito contra o nordestino e são essas mesmas pessoas que estão nas editoras, que estão na mídia e que estão em todos os lugares que nós precisamos ter acesso para ter oportunidade na vida. Então, se elas pensam isso do meu povo, elas pensam também isso de mim e como é que elas vão me dar oportunidade, achar que eu sou capaz de escrever uma coisa boa e valorizar o que eu faço? É a partir daí que já se vê essa falsa meritocracia, essa falsa ideia de oportunidade igual para todos: só o fato de eu seu ser nordestina já cria um muro nos separando.”

Empolgada com o novo desafio, As Lendas de Dandara, livro feito com muito carinho e que narra em ficção contos da vida de Dandara dos Palmares, não deixou de mencionar a responsabilidade por abordar essa tão importante mas desconhecida personagem da nossa história, o que demandou um longo trabalho de pesquisa: “tudo começou com o cordel pois eu quis fazer uma série de cordéis biográficos sobre mulheres negras da história do Brasil e entre elas, tinha a Dandara dos Palmeiras que eu conheci por acaso, quando uma companheira num coletivo que eu fazia parte no Cariri, citou ela numa fala. Pesquisando na internet, achei algumas informações um pouco controversas com inclusive teóricos dizendo que ela nunca existiu. Até que eu escrevi um texto para a Fórum no dia da Consciência Negra em que a chamada era: “E a Dandara dos Palmares, vocês sabem quem foi?”.  O texto bombou muito e eu recebi muitos comentários bem desaforados com muita gente dizendo que ela era só uma lenda. Aí eu pensei: bom, se ela é só uma lenda, eu vou criar lendas de Dandara, porque daí vai ter mais conteúdo sobre ela, vão ter que falar mais dela, pesquisar e investigar! A ideia então é falar sobre ela de forma poética em que o discurso da militância só vem pelas atitudes, palavras e ações da própria personagem. Para mim tem sido um momento muito lindo, estou muito orgulhosa, porque se ela existiu ou não, a presença dela em nosso imaginário já é uma referência e exemplo de força para todas as mulheres negras. Uma história que merece ser perpetuada”.

O livro que é uma produção independente (aloww editoras, depois do lançamento que tal chamar a Jarid para conversar e levar a proposta para mais pessoas?),  vai sair em formato impresso e e-book e tem lançamento previsto para Julho, vai trazer as ilustrações e a colaboração mais que especial da ilustradora e também escritora Aline Válek que breve esperamos mostrar mais por aqui e é braço direito de Jarid nessa caminhada.

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Buscando com o seu trabalho deixar uma colaboração que seja relevante e faça a diferença na vidas pessoas, nos contou ainda como foi se descobrir como mulher negra e como o feminismo a ajudou a entender o seu papel no mundo: “minha mãe sempre me ensinou a ser independente e ter autonomia, aprendi o feminismo na prática dentro de casa. Depois pesquisando mais, foi que eu conheci feministas negras que falavam sobre identidade racial, porque até então eu me via como miscigenada. Até que uma companheira minha, a Carla Agressilva (sim é um sobrenome poético!) lá do Cariri falou: “Jarid, você tem que parar de dizer que você é miscigenada pois na história do Brasil, existiu uma política oficial de miscigenação para branquear a população e toda vez que você concorda com isso, você está fazendo o jogo do racismo!”. Ainda que minha pele fosse um pouco mais clara, era nela que eu sofria já que eu carregava todos os traços que me identificavam como mulher negra. Foi aí que comecei a entender, a aceitar o que via no espelho e o empoderamento que veio com esse reconhecimento foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida .”

Citando a importância de ter uma nordestina esse ano na maior Festa Literária do país- FLIP, a Karina Buhr, finaliza com a gente falando do que espera para o futuro: “tudo o que eu quero é que tudo o que eu falo contra, possa deixar de existir. Eu acho que é minha missão de vida! As pessoas até podem achar ingênuo quando falo que meu sonho é mudar o mundo e elas falam disso como se fosse algo pejorativo e eu não acho pejorativo, acho que a gente tem que ter essa intenção porque se não a gente age como se fôssemos robôs que não tem nenhum propósito com o que faz. Eu me sinto muito realizada quando eu recebo uma mensagem de uma pessoa dizendo que meu texto fez ela refletir em uma coisa que ela não tinha pensado ainda, ou que meus cordéis ajudaram uma aula na escola. Isso é o que me move, é o meu sonho!”

Honrando e fazendo jus ao seu nome que significa causador de contendas, aquele que nasce para brigar, discutir e debater, Jarid segue tencionando, ocupando espaços e nos trazendo orgulho, afinal Ela Nos Representa.

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Ocupação Garagem FabLab discute a cultura do faça você mesmo e a democratização da tecnologia como ferramenta de empoderamento

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NoBrasil abre a semana de atividades no espaço LILO junto com João Cassino, Coordenador de Conectividade e Convergência Digital da Prefeitura de São Paulo e responsável pela futura rede municipal de laboratórios de fabricação digital. Saiba +

“Por hackear entendo aquele indivíduo que enxerga apenas o céu como limite, uma pessoa que é um desbravador dos limites possíveis, que vai além de qualquer catraca e que, sobretudo, abre caminhos”.

Yasmin Thayná sobre hackeios no Rio de Janeiro.

O que o contexto brasileiro pode nos ensinar e como ampliar, adaptar ou se espelhar nas práticas de um Brasil cotidiano e real para fortalecer uma cultura do fazer que apesar do leve sotaque americanizado, fala muito sobre nós, sobre o dar um jeito, o se virar, o arranjar solução e improvisar ainda que a base de gambiarra?  E como utilizar esses mesmos nomes e ferramentas da fabricação digital, da distribuição aberta dos métodos e formas de fazer (open source), dos espaços colaborativos (fab labs), da criação de formas alternativas de produzir máquinas que lhe dará acesso a imaginar e projetar quase qualquer coisa, para hackear o sistema e empoderar pessoas? Como objetivamente aproximar desse universo, jovens, estudantes, asfalto, centro e periferia para fomentar autonomia e com ela, um tipo de libertação que permita ao indivíduo através da sua capacidade crítica e criativa, criar novas formas de fazer e agir sendo pleno das suas habilidades em resposta aos  anseios e necessidades que só ele saberá responder?

É um pouco através de toda essa discussão que o NoBrasil terá a honra de abrir a Ocupação Garagem FabLab 2.0, uma semana de atividades que vai acontecer aqui em São Paulo no espaço Lilo para ampliar o debate sobre a democratização da fabricação digital como caminho de baratear e facilitar o acesso aos meios de produção, e da importância dos Fab Labs para disseminar novas tecnologias.

O convite que veio através do Eduardo Lopes, um dos caras a frente do projeto Garagem FabLab e que vem colaborando de forma decisiva para disseminar essas ideias e pensamentos, trará ainda como convidado dividindo a fala com a diretora criativa Diane Lima, o Coordenador de Conectividade e Convergência Digital da Prefeitura de São Paulo e responsável pela futura rede municipal de laboratórios de fabricação digital, João Cassino.

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Para quem não se recorda, no início do ano a prefeitura de São Paulo anunciou que a capital paulista terá 12 laboratórios de fabricação digital (Fab labs) públicos e gratuitos, tornando-se a cidade com a maior rede de Fab Labs do mundo. Além disso, o próprio Garagem Fab Lab como entidade sem fins lucrativos, vem reunindo esforços para dar mais um passo na ampliação da sua estrutura, o que fez com que lançassem uma campanha no Catarse que ainda encontra-se aberta e a espera da sua ajuda, para reformar um novo galpão situado na Barra Funda. Lá a ideia é receber mais pessoas, desenvolver mais projetos, fazer mais cursos, ter mais dias abertos ao público,  crescer e  reproduzir! Para entender um pouco mais sobre o projeto e quem sabe colaborar dá uma olhada no vídeo abaixo!

Por fim, a gente fica de fato bem feliz de poder colaborar com iniciativas como essas e por isso também não deixem de participar e deixar a sua contribuição nessa discussão. Dá uma olhada na programação, visita a página do Garagem Fab Lab no FB e nos vemos lá! A entrada é gratuita.

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Orgulho Eu: “quanto menos se define, menos se exclui.”

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Foi à luz de velas que conversamos com o artista Fernando de La Rocque que fala sobre sexo, liberdade e seu processo criativo.

por Diane Lima
Colaboração: Bruno Big

 

Foi numa noite de muita chuva, caos no trânsito e com uma recepção literalmente à luz de velas que chegamos na casa/atelier do artista Fernando de La Rocque. A convite do artista Bruno Big que gentilmente se habilitou a nos apresentar seus amigos e um pouco do rolê das coisas mais legais que o Rio de Janeiro tinha a oferecer, enveredamos por um papo em que a falta de luz para além de um problema, se tornou mais em um marco simbólico para contextualizar não somente as surubas e baratas do universo do Fernando, como também, um pouco da visão quase apocalíptica que ele traz na sua forma de ver o mundo e na própria catarse que surge do seu processo de criação.

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Nascido em Humaitá – segundo ele fruto provavelmente de uma transa de carnaval, e conhecido por trabalhos que inquietam, tiram as pessoas do eixo e as mudam de lugar, chamou-nos atenção como era no espaço da liberdade que o trabalho se refazia.  Em algumas horas de conversa, percebemos que talvez fosse essa a palavra que melhor resumia um pouco da obra de alguém não dado aos aprisionamentos da vida e que emanando carisma e fumaça certeza foi um dos artistas mais vibrantes e queridos que passaram por aqui: “com 25 anos eu tinha um caderno cheio de desenhos e tinha cenas de todos os tipos de transa e aí uma vez minha mãe achou aquilo e se assustou um pouco….e ali foi talvez a primeira vez, que eu tenha percebido um ponto culminante naquelas coisas que simplesmente saiam de dentro de mim: que aquilo podia mexer com a pessoas.”

Dizendo desde pequeno ter interesse pelo modo como as pessoas criativas levavam suas vidas, Fernando nos explicou um pouco sobre seu processo criativo e a busca incessante por novas técnicas e formas de reinventar e reinterpretar os objetos: “no começo quando isso ainda não tinha sido legitimado ainda por outras pessoas que viram um “bom gosto”,  existia uma repelência muito grande das pessoas que falavam assim: eu gosto mas eu não teria, eu gosto mas eu não usaria. Mostrava para um galerista e ele dizia: sexo não vende, caracterizando o trabalho como sexo…..e é isso tudo que me faz pensar sempre que quanto menos se define, menos se exclui. Na verdade, acho que as coisas surgem de uma forma muito primitivo em mim…….. fazer, expressar, desenhar, pintar são coisas que vieram bem antes de alguém fazer a minha cabeça que aquele era um caminho que eu podia seguir na minha vida e dar nomes. Agora por exemplo, estou curtindo umas coisas bem artesanais como amassar o barro, prensar ele numa fôrma que eu mesmo preparei…….também curtindo a pintura e o bordado que é um trabalho minucioso que exige um tempo, atenção e até quase uma obsessividade, algo que para mim é sempre presente nas coisas que eu faço e que é um processo constante: onde eu vou ele está comigo”.

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Parafraseando o Tarkovsky, foi quando o Bruno perguntou sobre o fato da crítica posicionar o trabalho enquanto uma obra que fala de tabus e temas polêmicos que pudemos ver o que vai além e o que está por trás do labor dos traços e formas dos azulejos transantes, fumaças de maconha e das baratas de ouro. Algo como se existisse no fundo a busca por uma harmonia ainda que passeando pelo caos e pela tensão em uma obra que desconcerta, cria interjeições mas também arranca sorrisos.

Confessando sentir uma alegria intensa quando termina uma obra o que o leva a inclusive a batizá-las, deixou-nos uma reflexão sobre como precisamos ir além dos nomes e dos rótulos e viver intensamente para além do que dizem que somos, das categorias e dos espaços imantados desse mundo que ao passo que caminha para as individualidades, se torna menos permissivo. Ao fim daquela noite, conhecemos o trabalho de alguém que celebra o amor sem roupas e as relações da vida por detrás das aparências. Uma arte de sorrisos que mesmo ainda à luz de velas, busca trazer um novo sentido para o mundo, cativando o público no jogo do perigo e do desafio: sua luz e sombra.

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“A Arquitetura do Corpo é Política”. Fernando Cozendey discute gênero e diversidade na moda brasileira.

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Entrevistamos o designer e é ele que conta um pouco do que está por trás das suas lycras, anseios, universo lúdico e criações.

por VÉRONIQUE VÉRA MBIDA e DIANE LIMA

 

Não haveria frase mais coerente para ilustrar o trabalho do designer Fernando Cozendey que chega para dar continuidade ao nosso especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, do que a célebre passagem do livro Manifesto Contrassexual da Beatriz Preciado que afirma que toda “arquitetura do corpo é política”.  Criando uma imagem de moda capaz de construir um espaço para discussão e sobretudo reflexão, o designer vem sendo em meio a uma nova safra de novos criadores, um dos catalisadores a se preocupar com o impacto e a mensagem que seu trabalho carrega e detona na sociedade. Em tempos onde em todo o mundo se discute a neutralidade de gênero seja a exemplo da aprovação na Suíça do pronome  Hen como alternativa para contrapor a ideia binária que define no poder da palavra os termos sexo e gênero, ou ainda da aprovação na Alemanha da criação de um terceiro gênero e a simples e profunda ação do Google e Facebook de expandir a possibilidade de opções além do masculino e feminino no perfil do usuário,  Fernando Cozendey transcende os limites das imagens estereotipadas de feminilidade e beleza em desfiles que lidos por alguns como fortes e transgressores fazem-se assim chocantes não somente pelo brilhantismo do artista mas também, pelo hábito da não-presença do que de fato somos no contemporâneo em diversidade.

 

“Eficiente nas mais diversas situações, o pronome HEN, pode ser usado quando você não sabe a identidade de gênero da pessoa em questão, quando a pessoa é transgênero, quando você não quer revelar a identidade de gênero, ou quando a identidade de gênero simplesmente parece irrelevante no contexto. É uma das 13 mil novas palavras escolhidas pela Academia Sueca para a inclusão no seu dicionário atualizado, que estará disponível no dia 15 de abril”. Via Quartz– tradução livre

1Fotos Felipe Diniz.

Depois de oito coleções de sucesso de 
crítica e público em que ganhou uma legião de apaixonados pelo seu estilo bem humorado e para muitos, transgressor, Fernando continua a retratar na moda o Brasil que ele sonha, um país em que a realidade das ruas possa povoar também o imaginário da beleza, da criação e do desejo, transformando um discurso que hoje posiciona-se pós-diversidade naquele do respeito à singularidades, estabilizando em imagens, a ânsia do que somos enquanto indivíduos. Em um papo com a nossa colaboradora Véronique Véra Mbida, ele fala sobre a sua trajetória e dá detalhes sobre como foi participar do Londres International Fashion Showcase, evento que ele acaba de voltar cheio de novidades. Dá uma olhada.

NoBr por Véronique Véra Mbida: Qual é a história por trás da sua marca? Como você a descreveria?



Fernando: Estou por uma diversidade mesmo de pessoas. Aqui quando você vai a um desfile são só pessoas brancas, loiras e magras. Mas nós não somos só  isso. A brasileira é muito mais uma mistura do que uma raça genuína.
 O Brasil é um país muito segregado e cruel onde não existe um lugar em que você possa se expressar tanto como um indivíduo como na arte. Mas o que as pessoas esquecem é que a moda é também uma forma de arte. Então quero apresentar essa ligação de um jeito mais perceptível, mais concreto nos meus desfiles e trabalhos. Também quero representar quem eu sou, a minha geração. Tenho 25 anos e acho que só a gente sabe o que é ser diferente, e ter essa liberdade social, sexual e de identidade. O sistema precisa mudar para que as coisas mudem realmente na mentalidade brasileira. Pra isso os jovens têm que se apoiar, se juntar e se respeitar, pra ter uma voz e dar forma a uma experiência nova e mais atual.
 Enfim, um dos principais problemas do Brasil é que não sabemos representar quem realmente nós somos  para o mundo. Só queremos representar a mulher européia, e isso é no mínimo patético…. É certamente por causa disso que estamos “atrasados” frente a outros lugares.
 Quando começaremos a nos orgulhar de ser quem somos? 
É isso que eu quero mostrar nos meus desfiles, essa brasilidade.

NoBr por VVM: Você acabou de voltar do Londres International Fashion Showcase,  como tudo aconteceu?


Fernando: A Lenny Niemeyer já conhecia meu trabalho porque ela foi uma das juradas do concurso da Lycra  que participei no final do ano passado. Ela recebeu uma proposta para ser a curadora desse projeto e levar novos designers brasileiros para Londres. Só que tinha que fazer parte da ABEST. Estava desamparado e de repente Lenny mandou algumas das minhas criações e fui finalmente convidado. Foi uma oportunidade muito legal. Infelizmente no Brasil, só quando você vai pra fora que as portas se abrem. Nós não sabemos valorizar o nosso trabalho. Tudo que é de fora é sempre mais interessante, mais bonito….

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NoBr por VVM: Quantas peças você mostrou e qual coleção que você escolheu para apresentar? 

Fernando: Mostrei 3 peças todas escolhidas pela Lenny. O tema da curadoria brasileira era sobre o azul e naturalmente que foi escolhida a coleção Oceano. Fiquei muito feliz com o que ela mandou porque acho que essa coleção chama realmente a atenção por ser muita lúdica e divertida.

NoBr por VVM: Como você descreveria a sua estética e linguagem?


Primeiro eu diria gráfica. Não gosto tanto das coisas orgânicas ou de estampas no meu trabalho. Prefiro brincar com tecidos e criar aquele efeito tipo trompe l’oeil , criando um tom lúdico, engraçado e dramático.

NoBr por VVM: Que tipo de comentário você recebeu em suas criações? Como o seu trabalho foi recebido internacionalmente?


O que eles mais falaram das minhas criações é que elas tem um estilo lúdico, maluco e divertido. Eles estavam super curiosos sobre a construção técnica das peças. Porque no início eles achavam que eram estampas e depois que se aproximam e vêem que não é, que tem nervuras e vieses, e que explico o processo, eles acham muito criativo. Voltei ao Brasil com essa coragem de que tenho que continuar fazendo isso e não posso ter mais medo porque sou jovem, sou maluco, e além disso, vi que tem pessoas lá fora, de outras culturas , que gostam do meu trabalho.

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NoBr: Você tem um processo de pesquisa específico quando você inicia uma nova coleção? 

Não pesquiso nada de moda quando vou fazer uma coleção porque isso me atrapalha. Como quero fazer uma coisa que não existe, tento fugir desse mundo aonde já tem geralmente uma convivência entre os criadores. Eu sou muito ligado com música e sempre consumi de tudo um pouco. Sem preconceito. Me inspiro muito em vídeo clip, em música. Por exemplo, se vou fazer um desfile sobre o funk , como já aconteceu, do início do processo de criação até o último dia só escuto funk costurando no ateliê. Eu penso no meu trabalho como um álbum, e um artista não cria duas vezes a mesma música.

NoBr por VVM: O que fascina você no momento? E como isso alimenta o seu trabalho?


Bigode, cavanhaque. Não posso falar mais.

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Dicas de leitura:

http://qz.com/369725/sweden-will-make-a-gender-neutral-pronoun-official-by-adding-it-to-the-dictionary/

http://www.dazeddigital.com/artsandculture/article/24181/1/you-might-be-able-to-get-a-gender-neutral-uk-passport-soon

http://www.dazeddigital.com/fashion/article/24088/1/inside-selfridges-radical-gender-neutral-department-store

http://www.dazeddigital.com/artsandculture/article/23866/1/you-can-now-define-your-own-gender-on-facebook

 

Vá Fundo.

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Baiana System se consagra como uma experiência audio visual de uma Bahia contemporânea

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Conversamos com um dos principais grupos da cena independente da música brasileira que vem ressiginifcando em som e também imagem, influências de uma Bahia em trânsito.

por Rudah Ribeiro e Diane Lima
Fotos: Filipe Cartaxo

 

“Há uns cinco anos atrás, um amigo de infância, vizinho e seletor de frequências Bnegão me apresentou o som sideral do grupo Baiana System. E logo eu, que já tinha passado um tempo em Salvador e enxergo uma semelhança brutal entre o Rio de Janeiro e a cidade de Jorge Amado me encantei com a pedrada do baixo de SecoBass na linha sonora de King Tubby e King Jammy, as rimas e melodias de Russo Passapusso um claro encontro da Embolada e Coco com o toasting Jamaicano, a guitarra elétrica de Robertinho que me lembra muito o som do Soukous Congolês e o visual extremamente criativo e contemporâneo de Filipe Cartaxo que caminha pelas influências carnavalescas e folclóricas da Bahia, os quatro formando a célula do Baiana que conta ainda com João Meirelles nas bases, Ícaro Sá na percussão e mais recentemente com a participação do produtor musical Mahal Pita que vem colaborando com a banda em imagem e som nessa explosão audio visual que me remete a algo tipo um encontro de Terror Fabulous numa roda de Chula no Recôncavo, ou uma conversa entre Koffi Olomidé e Adrian Sherwood no Curuzu. 

Rudah Ribeiro.

 

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É fácil entender o êxtase das pessoas, baianos e não baianos, ao ouvir o som potente da Baiana System. Mais do que evocar uma espécie de sentimento apoteótico, herança da riqueza de ritmos e de uma verdadeira alquimia que poderosamente sabe como reunir, arrastar e comover como num transe coletivo o grande público, esta que podemos considerar muito mais do que uma banda, consegue ainda realizar um feito dos mais difíceis para qualquer pessoa de qualquer expressão artística, que se propõe a criar e produzir nesse tempo do agora: o desafio de se constituir na sua própria existência como um projeto de arte contemporânea.

Criando um remix entre o global e o local que começa pensando a Bahia dentro dela mesma ao dissecar tal como uma teia, toda uma diversidade de ritmos que o estado produz e que em sua representatividade acaba por ser resumida pela produção da cidade de Salvador, a Baiana desde logo muito cedo entendeu a lógica da diáspora wifi, sintentizando nas suas ondas e timbres, o canto que ecoa pelos quatro cantos do país e também do planeta. Reconhecendo similaridades e conectando música, imagem e comportamento, o grupo pode ser considerado como o centro catalisador de toda uma ebulição que traz uma geração de artistas que, da Bahia, estão aprendendo e redescobrindo o que existe em cada fresta e fronteira quando se mistura samba-reggae, chula, samba duro, axé, pagode e reggae à expressões como a própria música pop e eletrônica, o Dub, o Rap e seus derivados.

Surgindo em 2009 sob a influência da guitarra baiana, traz ainda o conceito de sistema do soundsystem como forma de amplificar, não só o som, mas também, a essência das tradições populares como nos explicou o cantor e compositor Russo Passapusso: ” o sertanejo pode não ouvir Reggae mas ele já tem isso na estrutura musical dele, ele tem esse conhecimento (…) a clave do Ragga é a inversão do Baião e foi essa estrutura do canto falado uma das coisas da linguística que a gente trazia no Bemba*: ao invés de buscarmos referências na Jamaica ou na Inglaterra, fomos pelo caminho oposto, não ser enquadrado como Raggaman e sim ser mais como um Bule Bule, como o cara do Samba do que com o cara da Jamaica. E quando a gente foi por esse caminho foi o fio da meada para a gente se comunicar com nosso público. No Ministerio Público*, a gente tocava Dub e o povo nem queria saber o que era Dub, tocávamos Dancehall e as minas dançavam como se fosse Pagode… a galera entendia a coisa rítmica e começamos a fazer a relação do Pagode com o Ragga, com o que seria Kuduro que estava explodindo. Isso tudo pode ser traduzido hoje na baiana com o Playsom que é no primeiro momento um rewind que vira um Reggae mais cru, tipo que você encontraria no Pelourinho no Bar do Reggae e no segundo rewind, uma coisa ja Freak Africa com aquele surdo virado, mas sempre de uma forma simples e minimalista no fazer dessa experimentação”.

10712502_768917836476572_8250290879286627566_o*Bemba e Ministereo Público são dois dos principais grupos disseminadores da cultura soundsystem em Salvador, ambos do qual o Russo fez parte junto com outro nome importante da cena local, o do multiartista Fael Primeiro. Com frequência Fael faz participação nos shows da Baiana junto com outros convidados como o do rapper Vandal. 

Se no lançamento do primeiro álbum a Baiana foi veículo para alavancar a discussão sobre a crise da indústria do Axé e do formato segregador do carnaval da Bahia, hoje, já pode ser considerada como parte da transformação, entendendo com maturidade a importância do legado e o profissionalismo que essa indústria criou e vivendo no presente o que um dia, para muitos, não passava de utopia com sede de mudança, retrato do que pudemos ver neste ano nas ruas de Salvador. 

Eu acho que o que vai acontecer é o que está acontecendo. As pessoas estão buscando um marco para as situações. Mas não é assim que se dá a coisa, e a gente foge disso porque a historia é mutante. Na real, se parar de ficar acontecendo a gente vai parar a história, vai parar de ser mutante.

Russo Passapusso sobre o Axé Music. 

Experienciando novos formatos de trabalho com o mercado fonográfico, o grupo que mantém a liberdade de criação apesar da parceria com o produtor Daniel Ganjaman, fala ainda como estão tentando lidar com a administração da carreira mantendo Salvador como base mesmo após turnês importantes para países como China, USA, Japão e França: “eu acho que cada um está achando sua maneira, como no Pará com o Tecno Brega que, parecido com Salvador, com o Axé, achou um caminho de auto suficiência do eixo Rio/SP da mesma forma que cada artista está tentando achar o seu formato com ele mesmo se tornando a sua própria empresa” explica Robertinho. Para Russo, trata-se ainda do próprio reflexo da mistura entre ter a internet e também uma equipe multidisciplinar capaz de decidir em conjunto onde se quer estar: “temos essa forma de experimentação…. experimentar um jeito de trabalhar com a nossa liberdade criativa e empresarial. E a gente tem essa raiz musical baiana no qual você tem que ter esse envolvimento de saber como sua arte vai caminhar dentro da máquina. A internet não é so para soltar a música mas também para acompanhar a música… não é só largar a música numa maré mas sim, direcionar seu mercado. A gente já vem de um formato de “coronelismo musical” no qual a gente tem que ir no vento contra. O mercado está numa fase de experimentar mesmo que não goste, a fórmula não está dando mais, tem que baixar essa “corda”… Nós temos a resposta do público de forma instantânea e a gente vê isso como uma linguagem ritual e de mercado também.”

1597643_768918006476555_3626601586717175312_oRobertinho e a guitarra baiana.

Nessa caminhada de 15 anos, talvez tenha sido nesse carnaval, que a baiana tenha dado o seu passo mais ousado: o de consagrar o que o dia foi, em síntese, uma música experimental, em um projeto audio visual que celebra o pop e, por assim dizer, o próprio povo baiano e que pôde ser visto em um crescimento de público nas ruas e na internet através do próprio lançamento do lyric video de PlaySom. Com direção de Cartaxo e Mahal Pita, esse último que assina a direção musical, junto com a gente, de um novo projeto de música do NoBrasil chamado BR.LAB.MP3, o video que foi produzido e lançado de forma independente, chegou ainda para reafirmar, junto com o Furdunço (trio estilizado que carregava a identidade visual do grupo), as famosas máscaras distribuídas em todos os shows, a cenografia e o projeto de áudio DropSom, o compromisso e o entendimento dos integrantes sobre o que é fazer música na era da experiência e da imagem.

” Do Caribe, Russo falou de SoundSystem e Robertinho de África…. eu acho q a imagem da Bahia, da coisa das festas de largo que são fotografadas é uma síntese de tudo isso que a gente quer mostrar, desde o carrinho de café que é uma coisa ainda muito forte para a gente, aos desenhos africanos, às estampas… também, das memórias de quando a gente viajou que percebeu que a mesma máscara do Caribe está aqui também no interior e que são as nossas Caretas. Ao fim, são todos esses símbolos universais que junto com uma linguagem pop a gente tenta unir na imagem do grupo”.

Cartaxo,  sobre a concepção da imagem da Baiana System como um exercício que segue a mesma lógica de mistura musical.

Contribuindo com a Baiana através da sua pesquisa com música eletrônica e ritmos populares da Bahia que deu frutos a projetos como Braunation, A.MA.SSA e o documentário Do Nosso Jeito, Mahal, que chegou para somar com sua experiência como diretor criativo e produtor, nos conta como foi gravar PlaySom: “”Desenvolver junto com a Baiana essa primeira produção feita com tanto cuidado e alcançar uma repercussão tão veloz no ambiente da reflexão e da análise consciente, seja ela de qual motivação for, nos mostra que as pessoas estão abertas a quebra de paradigmas. O Pagode assim como outras culturas populares desse tempo, parecem sempre colocadas mais próximas da crítica rasa do que da reflexão e isso ainda é o que impulsiona a trabalhar; Tem que respeitar a rua. Fazer, assim como pensar, é sempre importante e vamos indo!”.

Para 2015, a Baiana promete muitas novidades como o lançamento ainda no primeiro semestre de um novo disco produzido por Ganjaman além do show que vai acontecer dia 03 de abril na Praia do Forte em que o grupo recebe Emicida. Para quem está chegando agora, um seja bem-vindo ao navio pirata com a certeza de que você acaba de conhecer um grupo que aos passos da contribuição da música baiana, veio para mudar a história da música brasileira. Playsom! Já ouviu é dejavu.

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10482609_827996250568730_7019750837099243043_oO baixo de SecoBass, um dos músicos mais importantes da nova geração de artistas brasileiros.
10443176_745267128841643_9074422620878718226_o 10926283_827996373902051_8670360167571802363_oMahal Pita e João Meirelles. João além do Baiana criou o projeto Tropical Selvagem, que breve falaremos por aqui.
1921060_789187487782940_5407507646392449601_oAs criações do Diretor Criativo da Baiana, Felipe Cartaxo.
11001592_837379956297026_9209390633448126925_oBaiana convida BNegão e Flora Matos. Russo Passapusso ainda toca seu projeto solo em que lançou seu mais novo álbum, o aclamado Paraíso da Miragem.

10710270_765820616786294_6494108787169303126_oBNegão e Fael Primeiro.
10712600_768918119809877_6402156976653984237_oO Rapper Vandal.
10981049_833895579978797_9098297825473681862_oO produtor Daniel Ganjaman

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