Category: Ruptura

Morando em terra sem lei

0

Pertencer a um espaço é dar significado e re-significado a ele.

 

IMAGENS FEITAS COM O IPAD PRO E O IPHONE SE

 

Foi o que fizeram os moradores removidos da comunidade conhecida como “kinder ovo” e também das margens do Rio Faria Timbó. O Governo Federal ofereceu uma alternativa: recomeçar no mais novo conjunto habitacional da Maré, conhecida como ‘Salsa e Merengue’, no ano 2000. O nome foi referência às casas, graças a uma novela da década de 90.  

Diferente das décadas passadas, o território para de se expandir na horizontal e passa a crescer na vertical. Dessa forma, não é difícil perceber o quão diferente cada favela da Maré é, apesar de ser do mesmo complexo. Os novos moradores do ‘Salsa’ se misturam com a história e o desenvolvimento do lugar, e fazem do comércio uma potência local.  

Desde que a favela é favela, a política de limpeza urbana na cidade acontece. Principalmente nos lugares onde vive preto, pobre e favelado. A segregação visível fazia juízo ao desejo do Estado de excluir. Discriminar. Estereotipar. Em remoções forçadas, não há comunicação com os residentes, e sim a especulação imobiliária e a retomada da apropriação de terra – sem lei. Com interesses – com lei. 

imagem-1Mapa do complexos de Favela da Maré

Ainda que as políticas públicas facilitem novas formas de proteção perante a lei, com a falta de direitos humanos, os interesses políticos e empresariais – ligados diretamente a a cidade que se tornou cidade sede dos jogos – a higienização aconteceu nos quatro cantos do Rio de janeiro.

Segundo o documento Dossiê Megaeventos e Violações dos direitos humanos no Rio de Janeiro, de 2009 até 2015, cerca de 77 mil pessoas foram removidas de suas casas. Com apoio de medidas provisórias, leis votadas ao largo do ordenamento jurídico e longe do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção.  

Essa política chega à Maré novamente em 2014. Em torno de 80 famílias da Salsa e Merengue foram removidas de suas casas recém-construídas. Com uma decisão coletiva e uma alternativa, usar o espaço que não servia. A Prefeitura não fez nenhuma notificação formal para o aviso da remoção forçada das casas. A mídia não fez cobertura sobre o ocorrido. A Prefeitura da cidade e o Exército Brasileiro, que já ocupava o Conjunto de Favelas com jipes, tanques de guerra e armamento pesado trabalharam juntos. Muitos moradores seguravam o documento de posse da casa nas mãos. Era uma situação nova na história da Maré, já que as casas antigas não têm escritura. A resistência e insistência são pequenos significados que as vezes ganham espaço, às vezes não.

BastidoresThaís entrevistando moradores para o último capítulo do especial “Nas águas da Maré.” Fotos  e vídeos feitos com o Iphone SE.

Em 2016, o espaço das Casas está ocupado no Campus Educacional da Maré. Através das construções da Fábrica de Escolas do Amanhã – grupo de 8 escolas municipais que buscam diminuir a evasão escolar de crianças estudantes do primário e do ginásio. Os moradores removidos seguiram suas vidas realocados em casas já prontas. Uma forma de viver sem poder questionar novas medidas. Moradia. Escolas. Contraste. O que é necessidade só quem vive sabe.

imagem-2Thaís na Favela da Maré. Fotos tiradas com o Iphone SE. Imagens criadas com o IpadPro.

 

 


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.

 

 

Nas Águas da Maré
Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Festival de Cinema Africano do Vale do Silício tem edição especial Brasil e abre inscrições para cineastas brasileirxs

0

O NoBrasil é o parceiro oficial do festival que acontece em outubro na Califórnia e chega para fortalecer o debate sobre a presença de mulheres negras no audiovisual.

Fruto de uma colaboração que conecta a diáspora africana do Brasil, EUA e mais de 15 países africanos, o NoBrasil apresenta pela primeira vez uma parceria com o Festival de Cinema Africano do Vale do Silício (SVAFF – Silicon Valley African Film Festival), que acontece de 14 a 16 outubro, em Mountain View no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Chegando na sua sétima edição unindo comunidades, culturas e continentes, este ano o festival criado pelo nigeriano Chike C. Nwoffiah faz um chamado especial para xs cineastas brasileirxs cujas obras reflitam imagens, narrativas e histórias que tragam como inspiração os trânsitos da cultura afro-brasileira.

A cooperação surgiu durante a participação em fevereiro da diretora criativa do NoBrasil Diane Lima no African Diaspora Investment Symposium, evento que reuniu líderes da diáspora africana no Vale do Silício. Segundo ela, um dos objetivos principais do SVAFV – Conexão Brasil é promover o intercâmbio e a troca de experiências entre países, fomentando a criação, a produção e novas possibilidades de difusão e articulação em rede, sobretudo pensando o protagonismo das mulheres negras: “mais do que um festival, ser uma plataforma que compartilha informações, amplia os horizontes e possibilita novas alternativas. Nós mulheres negras estamos assumindo um papel central nas mais diferentes áreas da produção artístico-cultural ao pautar a discussão racial  no intuito de abrir diálogos em busca de direitos e melhorias seja no âmbito privado ou das políticas públicas. A colaboração com o SVAFF é uma tentativa de criar um espaço que permita dar visibilidade e fôlego internacional para que as demandas estruturais que nos colocam à margem dos processos produtivos e criativos possam ressoar trazendo a maior participação de mulheres negras no mercado audiovisual e por conseguinte, na criação de novas narrativas e linguagens que rompa os estereótipos e nos atualize para que não mais sejamos uma projeção do que o sistema colonial predeterminou”.

11129202_10153164374253780_2300429119865818080_n

Como se inscrever

As inscrições acontecem até dia 01 de agosto e para participar basta acessar a página do SVAFF, ler o regulamento e completar o formulário de inscrição que pode ser preenchido e enviado com um DVD por correio ou ainda uma opção mais simples, que é o envio por email do formulário junto com um link para que o filme seja assistido. Cada realizadora ou realizador pode inscrever mais de um filme, com qualquer duração e formato e a premiação se dá nas categorias narrativa, documentário e animação para curtas e longas além de uma premiação para cineastas emergentes. Ao todo são 35 filmes selecionados, o júri é formado por membros de mais de 07 países e não há taxa de inscrição.

Acesse aqui o edital e inscreva-se!

11149368_10153164374123780_6855376470792716270_n

O projeto Festival de Cinema Africano do Vale do Silício – Conexão Brasil busca ainda conectar criadorxs e realizadorxs numa rede que chega para celebrar os cruzamentos entre a arte, a inovação e a tecnologia. Além dessa primeira chamada, o projeto segue até novembro de 2016 em diferentes etapas que promete novidades e serão lançadas em breve, como a parceria com a AFROFLIX, uma plataforma online colaborativa criada pela cineasta Yasmin Thayná que disponibiliza e produz conteúdos protagonizados por criadores negros.

Acompanhe as nossas redes sociais para ficar por dentro de mais informações  e boa sorte!

Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Assista ao 4° episódio da série AfroTranscendence com Mãe Beth de Oxum

0

Nesse quarto episódio da nossa série, a ativista, comunicadora e embaixadora das matrizes africanas Mãe Beth de Oxum, fala sobre comunicação, tecnologia e o papel da criação de novas mídias como ferramenta para ressignificar e dar visibilidade as culturas dos povos negros e indígenas.

 

“A gente não separa festa de militância, hoje a gente tem uma comunicação que pauta o estado e que não é pautada em lugar nenhum. Eu acho que a comunicação hoje é um gargalo no país e os povos tradicionais precisam da sua comunicação! A gente precisa rackear, criar as nossas rádios, criar nossas tv’s. Se a comunicação do país está vendida para meia dúzia de famílias, o povo tem que virar esse jogo! Temos que criar uma comunicação para mostrar o povo preto, o povo indígena e mostrar inclusive os arranjos produtivos locais que tem sido feito nas periferias, mostrar que o nosso jovem tem um potencial grandioso! A gente tem que ter mídia pra trazer axé, não esse sentido comercial, capitalista, nocivo que está aí, mas um sentido que nos dê condição da gente andar nessa terra valorizando ela, porque sem terra, sem comunicação e sem água, não tem sentido a nossa vida.”

Captura de Tela 2016-06-27 às 17.45.50

Iyalorixá do Ilê Axé Oxum Karê, musicista, cantora, compositora, com vasta experiência no segmento de cultura popular, Mãe Beth de Oxum é um símbolo da cultura pernambucana e difusora do Coco de Umbigada, uma manifestação cultural que veio do século passado com os seus avós. Como líder, vem defendendo a importância da tecnologia à serviço da cultura de matriz africana, o que levou-a a criar à frente do ponto de cultura Coco da Umbigada, uma rádio, programas para a TV, web além do jogo Contos de Ifá, desenvolvido em uma licença livre com o objetivo de contar a história dos Orixás.

IMG_5236-2

“O Brasil é um país que assassina muitas mulheres, assassina muitos jovens, aí tá o extermínio da juventude negra! 50 mil jovens mortos e a sociedade não se indigna com isso. A gente vive num país que fala de guerra o tempo todo, na Síria, no Egito e tal, e a guerra aqui contra o jovem negro que é morto todo dia pelo simples fato de ser pobre e preto? Então a gente precisa de políticas públicas,  a gente precisa de comunicação, de rádio, de tv pra desmascarar essa realidade. Porque não é interessante mostrar a força e a cultura que esses territórios negros tem? “

IMG_5240-2

Dirigida por Yasmin Thayná e escrita por Diane Lima, a série será lançada quinzenalmente e você pode acompanhar aqui, nos canais do NoBrasil. Para ver todos os episódio, é só clicar nas miniaturas abaixo e ir fundo.

Websérie AfroTranscendence

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Renato Vallone
Still: Alile Dara Onawale

Vá Fundo.

Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Escravos de Jó + Receita para dar o troco + Quem ama a ama preta? no Ateliê397

0

A artista Aline Mota convida Aryani Marciano, Janaína Barros e Wagner Leite Viana no encerramento da residência artística do Ateliê397 neste sábado na Vila Madalena.

Foto de capa de Aryani Marciano

Neste sábado 07 de maio acontece no Ateliê397  o encerramento da primeira edição do projeto Estamos (muito) abertos, uma imersão de dois meses na qual artistas selecionados numa chamada pública, estiveram envolvidos em seus processos mediados por acompanhamentos críticos, apresentação de portfólio e visitações públicas ocupando o galpão na Vila Madalena numa experiência híbrida de ateliê compartilhado e residência artística. Dentre os 86 inscritos (56 pré-selecionados) chegou-se aos 4 artistas residentes entre eles a artista Aline Mota,  que também foi uma das 20 participantes no AfroTranscendence 2015 e que vem desenvolvendo sua pesquisa em torno de temas como memória, identidade e novas formas de aprendizado coletivo. Para o encerramento do Estamos (muito) abertos, Aline apresenta Escravos de Jó,  um objeto de mediação em formato de publicação que abre diálogos construindo e desconstruindo novas narrativas a partir da cantiga Escravos de Jó: “uma experiência reveladora da potência existente no trabalho de um artista que se quer agente e que através do seu trabalho, nos possibilita uma conversa com um objeto que nos coloca a pensar jeitos outros de performar o conhecimento e descolonizar até aquilo que se molda de forma mais inocente e cristalizado nos arquivos da memória”, completa Diane Lima, curadora do AfroTranscendence que esteve presente em uma das sessões abertas  promovidas pela artista, na qual recebeu outros artistas e pensadores de diferentes linguagens para abrir um espaço de diálogo e colaboração com a obra.

Ampliando e criando outros agenciamentos, Escravos de Jó ganha ressonância com mais duas performances: Receita para dar o troco  dos artistas-pesquisadores Janaína Barros e Wagner Leite Viana e Quem ama a ama preta? de Aryani Marciano, também umas das participantes do AfroTranscendence 2015.  Em Receita para dar o troco, Janaina e Wagner também traçam um paralelo levantando a questão sobre a possibilidade de descolonizar o pensamento sobretudo através da palavra como local onde se instituem relações de poder: “Acrescentar sobre as fabulações em torno dos corpos e dos afetos. Para duvidar se os lugares das assimetrias ou das subalternidades estão dados previamente. Será servida uma fatia de bolo, interrogando o público para perceber como as trocas efetivam e instauram lugares de reinvenção.”

Já Aryani Marciano irá apresentar em Quem ama a ama preta? o que ela define como “um canto de Aryani Marciano e de mulheres pretas além dela, anteriores e contemporâneas”. Uma dose de blues, rap e maracatu sobre raça, gênero e seus reflexos nos relacionamentos amorosos em que a artista citando Grada Kilomba nos coloca a pensar sobre a boca, reflexão que nos conecta com o texto A Cura também inspirado na obra Plantation Memories da mesma autora e que pode ser visto-lido aqui:

“A boca é um órgão muito especial, ela simboliza a fala e anunciação. No âmbito do racismo ela se torna o órgão da opressão por excelência, pois é o órgão que denuncia as verdades desagradáveis e precisa, portanto, ser severamente confinada, controlada e colonizada”.

Três apresentações imperdíveis de quatro artistas que nos convidam a entrar com o corpo todo no corpo da obra abrindo uma janela sobre formas outras de criar memória e ver o mundo.

Nos vemos lá.

Conecte-se no Facebook

Comments

comments

A CURA

0

O texto e a video-performance criada para a abertura dos Diálogos Ausentes no Itaú Cultural, fala sobre a curadoria como prática de invisibilização das práticas artísticos-culturais afro-brasileiras e como possibilidade de cura do nosso trauma colonial.

por Diane Lima 

A Cura é uma versão poética de um artigo em andamento parte da pesquisa que desenvolvo dentro do programa de mestrado de Comunicação e Semiótica na PUC-SP. O texto, que virou video-performance e foi produzido pela equipe de audio-visual do Itaú Cultural, transformou-se então em um convite à reflexão e uma ferramenta de mediação que vem para exercitar dispositivos outros que nos ajude na tarefa de criar-pensar-testar e potencializar, experiências de aprendizado coletivo. A princípio, uma tradução bruta, um se jogar no abismo, uma ponte tímida entre mundos que traz a epistemologia da palavra Cura em dois sentidos: cura, no sentido de curadoria e a curadoria como prática de invisibilização das práticas artísticos-culturais afro-brasileiras e curar como caminho de cura de um trauma colonial que surge no momento em que me autorizo curadora.

Dito isso, compartilho o texto e a video-performance que foi apresentada na abertura dos Diálogos Ausentes e que teve como primeira convidada a artista Rosana Paulino fazendo um panorama da presença negra nas artes visuais. A Cura em específico, está inserido dentro da gravação da palestra no minuto 12 mas vale a pena, muito a pena, assistir até o final.

 

A CURA

 

Como falar das ausências, se eu não podia falar?
Forças resistentes passeiam
Movimentam a boca
Boca, há muito controlada por ferro
Sou livre sem máscara
Vozes ecoam
Suspiro

 

Quem cura, cura o que?
Discurso.
Um genocídio da memória
Enuncio:
Onde está a cura para o meu trauma?
Quem, me invizibilza?
Sou parte de um projeto colonizador.
E por isso, parto de mim
Me desnudo.
Desenho a minha própria cor e forma.
Meu gesto, meu movimento
Reescrevo,
Me conto,
E curo o seu olhar sobre mim.

 

Nesses diálogos ausentes, sou presença
Fratura no que seu projeto criou
Desestabilizo e me experimento
Me lanço
Não espero mais pelo que não sou
Não sou mas o seus olhos em mim
Minha arte é da desconstrução
Afeto
Nesse espaço-tempo sou dispositivo
Crio uma contra-história
E falo a minha própria língua

 

É curando que eu me curo.

 

Conecte-se no Facebook

Comments

comments

AfroTranscendence – Precisamos Falar de Nós

0

Assista e saiba mais sobre a experiência da imersão AfroT. English subtitles.

 

Foram mais de 24 horas de registros em video que se transformaram agora em 1 minuto e meio para dar conta de uma missão impossível: resumir o tanto de emoção, aprendizado e afeto que vivemos durante os 3 dias de AfroTranscendence 2015. O lançamento desse vídeo chega ainda em um momento muito especial. Ver o ‪#‎AfroT‬ sendo considerado uma iniciativa “inovadora” no campo da educação o que está nos levando a caminho do Vale do Silício para participar de um encontro de inovação e investimentos com líderes da diáspora africana de todo o mundo. Queremos agradecer demais a você que se inscreveu, vibrou, compartilhou; ao Red Bull Station por ter aberto as portas, aos 21 imersos, aos mais de 15 mentores, à nossa produtora Hanayrá Negreiros, à diretora Yasmin Thayná e a equipe de feras que fez possível esse video acontecer.

Para a sua direção, pensamos que não haveria outra forma de criá-lo se não partindo da ideia do ritmo: “era preciso criar a atmosfera e o tempo que vivemos ali naquela ancestralidade do futuro. Então, o desafio foi conseguir traduzir a frequência entre a imanência e a transcendência e isso só foi possível com música. Convidamos o produtor musical e também diretor criativo Mahal Pita, para criar uma trilha que desse conta de falar para aqueles olhos que não viram, o sentimento e a energia do que é a experiência AfroTranscedence”, explica a diretora criativa do NoBrasil, Diane Lima.

A edição e a montagem foi feita por Nando Cordeiro, nosso super designer que suou para encontrar também, o tempo das imagens em uma semana de trabalho intenso. As imagens são de Alile Dara Onawale, Bianca Baderna e Raphael Medeiros.

Que venha 2016!

‪#‎AfroT2016‬ ‪#‎precisamosfalardenós‬

Direção: Diane Lima
Trilha: Mahal Pita
Edição: Nando Cordeiro
Imagens: Alile Dara Onawale, Bianca Baderna e Raphael Medeiros

Conecte-se no Facebook

Comments

comments

NoBrasil abre inscrições para AfroTranscendence: programa de imersão em processos criativos com foco na cultura afro-brasileira

0

O prazo de seleção é até dia 21.09 e as atividades gratuitas irão ocorrer no Red Bull Station, centro de São Paulo. Saiba mais e inscreva-se!

Foram quase 05 meses de preparação, pesquisa e muita ansiedade para que agora pudéssemos compartilhar com vocês AfroTranscendence, um programa de imersão em processos criativos para promover a cultura afro-brasileira contemporânea. Ele vai acontecer nos dias 08, 09 e 10 de outubro no Red Bull Station, centro de São Paulo.

Entendendo o processo criativo como um espaço potente para se fazer micro-políticas, AfroTranscendence nasce com o objetivo de estimular a troca de conhecimento entre pessoas vindas das mais diferentes práticas e formas de expressões incentivando-as a criar novas conexões, possibilidades e olhares em seus processos de criação tendo como inspiração a união entre saberes tradicionais e contemporâneos das culturas negras espalhadas pelo mundo.

Existem duas formas de participar: inscrevendo-se para a imersão com prazo de seleção até dia 21.09 ou inscrevendo-se nas atividades abertas como as palestras, painéis, video-conferências e exibição de filmes.

AFRTCNDC-MÃO
A imersão

Para a imersão serão selecionadas 20 pessoas que durante 3 dias, irão participar de um programa intensivo e gratuito de atividades compostas por palestras, laboratórios, workshops e vivências artísticas que serão divididas em 3 eixos centrais: Saberes, Práticas e Experiências. Tendo a construção de um espaço-tempo de transformação como recorte curatorial, o programa põe em relação as tecnologias e saberes da cultura afro-brasileira com questões fundamentais ligadas as práticas do fazer contemporâneo: memória e ancestralidade, interdisciplinaridade e articulação em rede, local X global, diáspora wi-fi, além de discussões ligadas ao uso de mídias digitais, do espaço urbano e de formas colaborativas do fazer.

faixa3

Curadoria

Com curadoria da Diretora Criativa do NoBrasil Diane Lima, AfroT traz um time de mentores composto por diversos especialistas, agentes e pesquisadores em cultura afro-brasileira e estudos pan-africanos que utilizarão de conhecimentos e metodologias experimentais e propositivas para inspirar e exercitar nos 20 selecionados novas formas de olhar e criar:  “Vivemos sem dúvida um momento especial e talvez nunca antes visto para nós povos afrodescendentes e AfroT tem como fonte de inspiração todo esse movimento que conectado e empregando energia criativa em busca de transformação, vem partilhando sentimentos em rede, hackeando o olhar de quem nos olha e fazendo desse nosso corpo político um dispositivo descolonizador do pensamento. E como seria exercitar a potência criativa tendo como inspiração a cultura afro-brasileira e seus trânsitos com as culturas negras espalhadas pelo mundo? Como criar exercícios em direção a liberdade que através da nossa ancestralidade e em diálogo com tecnologias, criarão novas memórias que narrarão hoje quem seremos no futuro do amanhã? Acreditamos que o processo criativo é um espaço de decisão, escolha e poder e AfroTranscendence é fruto dessas inquietações. Um momento onde não estaremos preocupados com resultado mas apenas em exercitar e aprender. Imersos durante 3 dias no Red Bull Station, poderemos nos encontrar, questionar, sacudir, experienciar, recombinar, superar, Transcender”, diz Diane.

Para ter mais detalhes, basta acessar a página http://nobrasil.co/afrotranscendence, tirar as dúvidas sobre o programa, baixar o edital de seleção e se inscrever.

Captura de Tela 2015-08-31 às 14.53.56

Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Empoderadas: histórias negras femininas contadas em primeira pessoa

0

Conversamos com Renata Martins e Joyce Prado, criadoras do Empoderadas, uma web série feita por e sobre mulheres negras. Confira!

por Hanayrá Negreiros

A gente aqui no NoBrasil fala tanto de representatividade e de como criatividade é espaço de poder, que quando damos de cara com um projeto desse, que junta essas duas coisas, só nos resta alegria.

O Empoderadas é uma web série feita por e sobre mulheres negras. Renata Martins e Joyce Prado lideram as câmeras e por de trás delas nos mostram histórias de mulheres que estão em constante movimento e articulando suas vidas de acordo com a realidade negra feminina. Mulheres criativas, que nos contam seus pensamentos e pontos de vista e de como lidam com racismo e machismo diários.

11059458_1661107107458849_7307366603609763707_oEmpoderadas especial Marcha do Orgulho Crespo 

Semanalmente as cineastas disponibilizam em sua página no Facebook, entrevistas com essas mulheres, que estão com suas ações em diversos campos de atuação, empoderando e mudando o Brasil. A série vem para quebrar os velhos estereótipos que são reservados para as mulheres negras brasileiras e conta um pouco da história de vida delas, mostrando mulheres em liderança de empresas, historiadoras, bailarinas e outros tantos perfis. Até agora um dos episódios mais comentados foi contando a história da Mc Soffia, uma rapper de 11 anos que conta como lida com o racismo na infância e da importância do seu cabelo crespo.

Conversamos com a Renata, uma das idealizadoras do programa e ela contou pra gente como o projeto surgiu e qual a sua importância nesses tempos do agora: “Joyce e eu, fomos apresentadas por uma conhecida em comum: a psicóloga Clélia Prestes. Há dois anos eu gravei uma palestra da Clélia e conversamos um pouco sobre minha profissão. Meses depois ela conheceu a Joyce em uma aula de dança e, descobriu que ela também trabalhava com cinema e nos colocou em contato via internet. A partir de então, iniciamos um papo sobre nossos projetos pessoais, eu enviei o link do meu curta, Aquém das Nuvens , e ela me enviou o roteiro de um curta que iria dirigir, A Fábula de Vó Itá. Após esse papo online, combinamos um encontro presencial e almoçamos juntas, eu tinha um projeto de curta e a convidei para auxiliar na construção do roteiro. A conversa que era a princípio profissional, se tornou pessoal, conversamos sobre sermos cineastas negras, sobre afeto, e a ausência dele e sobre assuntos gerais que passam por nossa subjetividade.”

Renata conta que a identificação entre as duas foi imediata, pois, ainda que elas partissem de experiências sociais diferentes, o fato de serem mulheres negras as aproximava, as histórias eram muito próximas. E desde então elas se tornaram amigas e aos poucos foram se conhecendo melhor, mas ainda assim não tinham conseguido trabalhar de fato juntas. Isso só aconteceu durante o desenvolvimento do projeto da série de TV Rua Nove, quando uma roteirista e uma escritora não puderam continuar no projeto. Renato Candido e ela coordenavam o desenvolvimento da série e pensaram em alguém que tivesse alguma intimidade com roteiro, foi aí que surgiu o nome da Joyce.

11112834_1661488784087348_6316705699473934024_oEmpoderadas com a consulesa da França no Brasil Alexandra Baldeh Loras. Assita!

Vários questionamentos surgiram sobre a presença/ausência de mulheres negras na construção do discurso audiovisual, seja no roteiro ou na direção. Renata ainda fala que atualmente, essa realidade sofre transformações positivas: “Ainda somos poucas, mas já existimos para o mercado audiovisual como realizadoras, e melhor, somos várias! Eu, Lilian Solá Santiago, Viviane Ferreira, Jéssica Queiroz, Thais Scábio, Larissa Fulana de Tal, Joyce Prado, Yasmin Thayná, Keyla Serruya, Juliana Vicente, Carol Rodrigues, Ana Julia Travia, Michelle Andrews entre tantas outras.”

11816220_1661107007458859_6395467617205024752_o

Renata diz que a série nasce dessa necessidade de produção, e de experimentação de linguagem. Um nascimento coletivo, do encontro entre duas mulheres negras que colocam seus conhecimentos técnicos, estéticos e narrativos a serviço de outras mulheres negras, que poderão através de suas ações empoderar outras mulheres negras e assim por diante, como se fosse uma corrente, uma corrente de empoderamento. “Ele nasce de uma necessidade de espelhamento, de uma busca verdadeira e de várias perguntas que possibilitam um movimento e sem dúvida, da sensibilidade de quem emprestou, e da pró-atividade de quem embarcou, no início; Joyce Prado, Revista Viração e André Hirae. Minha gratidão a eles.”

É um convite para que todas as pessoas questionem as imagens que consumiram até hoje em silêncio, as histórias que pagaram, pagam e que provavelmente irão pagar de um Brasil que não enxerga os seus com uma mesma lente, é um convite para desaprender hábitos e construções antigas acerca da imagem da mulher.

Renata termina nos contando que a importância de ter um programa como o Empoderadas é a tentativa de, alguma forma fortalecer essas mulheres negras e dizer a elas que não, não estamos sozinhas. São as nossas histórias sendo contadas em primeira pessoa.

11731965_1654903974745829_5588253056704918122_o Em um dos capítulos do Empoderadas, Cris Mendonça e Ana Paula Xongani falar sobre a experiência e os desafios de construir uma marca.
Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Muitas caras, muitas expressões

0

De Manaus, Keila Serruya é um reflexo provocador do que significa ser muitas em muitas linguagens levando para as ruas a pluralidade de um estado formado por um Brasil inteiro.

por Diane Lima

 

Faz muitos meses que estamos para ter esse papo com a Keila Serruya mas, como acredito que tudo vem na hora certa, entendi que era esse mesmo o momento mais propício para acontecer sobretudo por ser essa talvez a curva exata do tempo em que estejamos mais interessados em discutir em nossos projetos no offline, como podemos entender a nossa diversidade para desenhar, criar e traduzir isso tudo nas mais diferentes linguagens: como podemos transformar toda a nossa história em processo.

Nascida em Manaus, Keila não somente faz isso como vai além: a formação da sua história de vida pode ser ela mesma usada como metáfora e porque não metodologia, para explicar a própria recombinação de formas de expressão que utiliza nos seus trabalhos. Algo como muitas caras, muitas expressões em que a diversidade da memória do corpo pode ser traduzida em essência na própria forma de criar, ver e conceber o mundo. Um resultado que vem entranhado pela relação com a cidade e pelas diferentes formas de existir.

a rua dança8

Posicionando o seu lugar de fala como uma mulher negra, ela nos contou como sua trajetória desemboca completamente no que faz: “eu realmente acho que eu vim para provocar o centro da minha família, questionando todos esses lugares de onde a gente vem. Desde pequena, ouço a minha avó materna dizer que a mãe dela havia ganho “um papel que podia ir embora”. E essa minha avó não tem registro nenhum, é só Maria Lourdes dos Santos, Santos como nome típico dado aos escravos alforriados. Ela disse que quem tinha dado esse papelzinho para a mãe dela ir embora era uma senhora dona dela e que gostava muito dela. Algo que eu só vim entender muito tempo depois. Essa minha avó mudou de Boa Vista, com todos meus tios, tias e minha mãe e vinheram parar aqui em Manaus. Já o meu sobrenome Serruya é judeu, dos Judeus Sefarditas que são aqueles que ficam andando pra lá e pra cá. A família do meu pai diz que ele são Judeus da Espanha, mas na verdade eles passaram uns 150 anos no Marrocos…. uma família de homens brancos onde só o meu pai nasceu negro. Somos uma grande confusão.”

Começando a cantar rap com 16 anos e depois trabalhando com video-dança cresceu na Vila Martins, “um grande cortiço que se roubassem no centro iam bater lá” e um lugar que ela diz ter sido de fundamental importância na sua formação como pessoa: ” tinha gente de todos os tipos: evangélicos fervorosos, gays assumidos, babytrans, pessoas que cultuavam religiões de matrizes africanas, pessoas de todas as cores e com as mais diversas histórias.”

1

a rua dança5a rua dança4a rua dançaA rua na dança – O corpo urbano, projeto que aconteceu em janeiro de 2015, nas cidades amazonenses de Presidente Figueiredo, Manacapuru e Manaus. As fotos são do João Paulo Machado.

Nesse caminhar, passou a questionar “as caixas” e entender que o trabalho era e podia ser muito mais híbrido.  Performance, áudio-visual e artes visuais se misturavam a um tipo de linguagem cinematográfica que não tem como prioridade estar nas grandes telas, mas nas ruas e/ou em instalações em espaços fechados desde que dialogando com outras formas de expressão. E é essa mistura encontrada nas produções da Picolé da Massa, coletivo-produtora que criou e tem como objetivo produzir, difundir, idealizar, escoar e incentivar projetos culturais ligados as artes cênicas, música e audiovisual e tem como um dos últimos trabalhos um projeto que nos chamou muito atenção: o Assim, curta-metragem que desdobrou-se em uma video-instalação na I Mostra Manaus de Artes Visuais transformando-se ainda em uma outra intervenção urbana com video-instalação. A tríade Assim, Assim Aqui e Aqui conta as histórias de vida de Patrícia Fonttine, Nayla Bianca, Paty LaBelle e Layna Fonttine, travestis, transexuais e transformistas:

“pretendo circular com esse projeto por entender que ele cumpre o seu papel de incomodar sobretudo numa cidade em que o Coronel de Barranco ainda se faz presente, mesmo hoje em que a época da borracha nos parece estar tão distante”.

11401135_381241925413020_5738408279277386279_o

2

capaVídeo instalação urbana Projeto Aqui. A obra fez parte da I Mostra Manaus de Artes Visuais.

Nessa relação de tensão e amor com a cidade é visível no discurso da Keila, assim como presente também na produção e postura de muitos artistas que se encontram vivendo no dilema  centro X periferia, a vontade de ir mas a permanência por entender a necessidade de continuar, momento que a produção passa a ser símbolo de resistência. Gente que produz apesar de todas as adversidades fazendo da expressão seja lá o quão múltipla ela for, dispositivo para disseminar novas formas de entender o mundo, ferramenta de educação e multiplicação: “o nosso interior é um interior diferente dos outros interiores do Brasil. Em outros lugares, em 1 hora, 40 minutos você está em outra cidade. Aqui não. Eu consigo contar nos dedos dos 62 municípios, àqueles que eu consigo chegar de carro. Manacapuru, Presidente Figueiredo, Itaquatiara….. o resto é tudo barco! É tudo muito distante e isso faz com que as coisas fiquem extremamente excluídas. Por isso que desde de 2013 eu venho tentando dialogar com o interior porque o que adianta eu conhecer os outros lugares sem conhecer as pessoas que estão no interior do meu próprio estado?”

Assim aqui 3Assim aqui 4Assim aqui 2Assim aquiAssim Aqui: Intervenção urbana em video-instalação.

Mormaço Sonoro é a resposta que a Keila encontrou e logo mais em breve estará a bordo navegando pelos rio do norte do país: “a nossa música é o gambá assim como o carimbó é de Belém. Hoje você sabe disso porque há 30 anos atrás existiu no Pará um processo de resgate para que isso chegasse a mais pessoas. Aqui temos o MPA, mas onde já se viu isso? Música Popular Amazonense, uma marmota! Tem os Senhores de Tambores em Maués mas é uma música que não chega para todo mundo, porque realmente a colonização surgiu como uma bola de ferro na cabeça das pessoas antes mesmo dessa música chegar até aqui. Então a gente precisa de diversos processos para restabelecer esses contatos. Por isso que acabo no meu trabalho me apegando tanto a cidade. E essa é uma coisa que quero fazer com o Mormaço Sonoro: convidar grupos de música e transformar isso num registro áudio-visual que pode virar qualquer coisa”.

Colocando todo o seu tempo na criação, seja da sua filha de 04 anos ou de seus projetos multi-linguagem como o incrível A Rua Dança – que você pode assistir agora, Keila vem buscando o equilíbrio de quem abraça a pluralidade de um estado formado por um Brasil inteiro.

Uma honra tê-la por aqui semeando esperança através de um olhar contemporâneo, para nós aquele que reconhece a sua história, recombina e transforma.

Nosso máximo agradecimento a Yasmin Thayná pela conexão.

Documentário sobre o projeto “A rua na dança – O corpo urbano”
Conecte-se no Facebook

Comments

comments

Adentro: Porque precisamos no Design Olhar e Criar para o Brasil?

0

NoBrasil + Brasis ministram palestra gratuita na Design Weekend como parte da programação da Design House. Programe-se!

por Diane Lima

 

Foi ontem depois de responder uma entrevista sobre a relação entre Design, Brasil e Cultura para uma pesquisadora-amiga inglesa de nome Jane Hall que fiquei com os dedos coçando para escrever aqui algumas linhas sobre o que vai nortear a palestra do Adentro na Design Weekend, hoje considerada a maior semana de design da América Latina. Para quem não sabe Adentro é um programa de oficinas e cursos criado em parceria NoBrasil + Brasis que tem como objetivo principal estimular o Olhar e o Criar para o Brasil, ele é feito para grupos de pessoas e empresas em busca de conhecer e aplicar repertório brasileiro em seus projetos. Junto com a Mayra Fonseca, pesquisadora e antropóloga que nasceu em Montes Claros- MG, mesma cidade do Darcy Ribeiro e que recebeu seu nome inspirado em sua obra, pensei que não haveria melhor oportunidade de discutir o design brasileiro se não aceitando o convite de participar da programação da Design House, projeto da super curadora Camilla D’Anunziata que acontece durante 04 anos na Design Weekend e que recebe Adentro no dia 16.08, domingo, às 18h na Red Studios.

Mas porque de fato estão uma baiana e uma norte-mineira a dizer que precisamos no Design Olhar e Criar para o Brasil? Na verdade, sempre entendi o design não somente na sua perspectiva estética e utilitária, características às quais a atividade é massivamente reduzida mas, sobretudo pela sua capacidade de comunicar e dar sentido às coisas no mundo. Levando em consideração que nas sociedades ocidentais a cultura é profundamente ligada e dependente do consumo, moldando e transformando a nossa definição coletiva, chegamos a ideia que não há como ser designer sem pensar que esta é uma empreitada inteiramente cultural. E é aí que sem dúvida a gente se encontra.

O Flusser, autor que na minha humilde opinião deveria fazer parte da estante de toda pessoa que trabalha com design e comunicação (junto com o Darcy), diz que todo artefato é produzido por meio da ação de dar forma a matéria seguindo uma intenção. Para transformar a proposição em algo mais simples, vou criar uma imagem: pense em um bloco quadrado grande de madeira em cima de uma mesa. Ao redor, 5 pessoas estão munidas de diversas ferramentas. Quais valores você coloca no seu ato de in-formar essa matéria quando a transforma com suas mãos e punhos? O que sua energia criativa ali empregada irá comunicar ao mundo? Vale a pena mais uma explicação. Flusser diz ainda que etimologicamente a palavra manufatura corresponde ao termo in-formação que por sua vez significa o processo de dar forma a algo: fabricar pois é então um ato de informar.

Explico isso pois na entrevista quando a Jane me perguntou como eu relacionava design e cultura brasileira, eu prontamente respondi que poderíamos pensar isso de diferentes maneiras mas que the first could be the worst (em inglês no texto apenas para manter o trocadilho de palavras que em português quer dizer que a primeira, poderia ser a pior): a nossa profunda vocação em alimentar um câncer plantado no cerne da educação e do mercado de design chamado cultura da cópia. A partir daqui não tenho como falar do assunto sem evocar dois pontos principais.  São eles a contribuição da arquiteta Lina Bo Bardi e do designer Aluízio Magalhães, e o entendimento sobre como a relação entre  industrialização, política e artesanato foram por eles debatidas. Ela nos leva ainda a compartilhar uma outra reflexão atual de Adentro: quais intenções nos levam a escolher um termo em inglês para nomear uma ciência e ofício num país com centenas de idiomas nativos? Quais informações acessamos em nossa prática a partir dessa escolha? Até que ponto esse design dá conta de nós?

Clike e assista um pouco do que aconteceu no primeiro workshop Adentro em São Paulo.

 

Ainda que entendendo a importância e inclusive a necessidade de termos uma atividade projetual atravessada pelos efeitos de um mundo globalizado, continuamos sem olhar e criar para o Brasil. Uma contradição para um país que seria, segundo Dijon de Moraes em seu livro entre Mimese e Mestiçagem, o mais habilitado a dar bons ensinamentos ao mundo. Para ele se somos globalizados por natureza, somos também safos no que diz respeito a fazer novas misturas. Isso me faz lembrar que quando olho os projetos mais legais que conheço, tenho na maioria das vezes como resposta justamente aqueles que pacientes e interessados em entender as culturas, expressões e cotidianos do Brasil, conseguiram produzir a partir dos atravessamentos entre esses elementos locais e as informações globais a qual todos os dias somos submetidos, uma trama que recombina e produz pela justaposição de ingredientes tão diferentes, uma cara nova que posiciona o nosso eu no centro do mundo.

Sendo assim,  sempre  chego a conclusão que em sua totalidade o design brasileiro pode ser considerado um design para 20% e um design para 20% é aquele empregado não como uma ferramenta democrática mas sim segregadora. O efeito disso tudo é que não é parte da nossa prática criar tecnologias baseadas em processos e métodos que de fato possam representar a nossa diversidade cultural, seja ela étnica, econômica ou social. Resultado da nossa política de industrialização nos anos 60, mantemos “o costume” de comprar de fora conceitos e métodos “inovadores” ou mais corriqueiramente copiar padrões, formas e estilos enquanto o nosso povo do campo, das vilas, florestas, montanhas, sertões e favelas continuam dando pra gente como fruto de anos de experiência do tal do learning by doing (aprender fazendo), conceito que também importamos nas últimas temporadas, o mais precioso conhecimento para se fazer design: o nosso próprio jeito de ser e encontrar soluções para sobreviver.

“…em sua totalidade o design brasileiro pode ser considerado um design para 20% e um design para 20% é aquele empregado não como uma ferramenta democrática mas sim segregadora”.

Apesar da minha crítica não há uma desesperança mas uma crença que o primeiro passo é discutir e nos situarmos através sobretudo dos trabalhos de excelência de quem está buscando experimentar. Designers como o Rodrigo Almeida, o Sergio J. Matos, o Rodrigo Ambrósio, a Lane Marinho, Fernanda Yamamoto, Andrea Bandoni, os projetos liderados no curso de design na Universidade Federal da Bahia pelo professor e amigo Taygoara Aguiar e o estúdio Questto|Nó apenas para citar alguns poucos que vieram rapidamente na minha mente. De algum modo sempre me levo a pensar que o ato de copiar e criar relações aspiracionais reprimindo uma expressão da subjetividade do sujeito pode ser lida de certa forma como um ato esquizofrênico e isso me faz lembrar de um dos mais importantes ensinamentos que o nosso crescimento econômico dos últimos 8 anos proporcionou: que os 80% querem ter acesso para comprar mas, isso não significa que querem ser classe média no que no corpo e no comportamento isso possa significar. Eles querem continuar livres para expressar suas individualidades e seu próprio jeito de ser e experimentar.

Pensar e Fazer Design que Olhe e Crie para o Brasil é acima de tudo pensar para quem queremos fazer design e nos questionar qual a responsabilidade que temos quando criamos coisas que dão sentido ao mundo. A gente vem discutindo por muito tempo a sustentabilidade e a importância de pensar a matéria mas o que dizemos sobre a violência que existe por trás ou “dentro” dos projetos/produtos/conceitos que criamos se consideramos seu papel mediador em criar relações quando entregues ao outro? Recombinar elementos, mudar as coisas de lugar e construir novas narrativas pode ser um bom caminho para começar. Assim, mantenho a máxima em dizer que processo criativo é espaço de poder e que olhando e criando para o Brasil um outro design que nos valorize, reinvente e liberte, é possível.

Até lá.

Serviço:
Palestra Adentro – gratuita
Onde: Red Studios – Rua Professor Nova Gomes, 228, Vila Madalena, São Paulo
Data: 16 de agosto, domingo
Horário: 18:30h
Confira toda a programação.

Conecte-se no Facebook

Comments

comments