Category: Ruptura

O filme “Clausura” e a experiência de criação da diretora Mariana França.

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“O resultado é o que se vê: um primeiro corte sensível de uma obra que não se pode sintetizar. “CLAUSURA” é um meio para enxergar o eu e o outro.”

Por Alessandra Gama

A depressão é um tema bastante sensível, por suas múltiplas faces e intensidades. Abordá-la, ainda é um desafio do nosso tempo, tanto para as pessoas que convivem com outras, diagnosticadas, sobretudo, para as que são diretamente afetadas. O filme “Clausura”, de Mariana França e Gildo Antonio, vencedor do prêmio Primeiro Olhar, põe em relevo as experiências de desterritorialização e reterritorialização afetiva e social, causadas pela depressão na vida de artistas.

Como lidam com a doença? Como ela se relaciona com as suas obras e como realizam o processo criativo em meio às fases de crise?

O tema é inspirado na história de Mariana França, que além de diretora deste curta-metragem, também é atriz, produtora cultural e paciente diagnosticada com depressão desde 2014. O filme é uma busca sobre se autoconhecer após períodos de crises. As suas experiências esbarram diretamente nas situações enfrentadas pelos entrevistados: Ivam Cabral (ator, roteirista e idealizador da Companhia de Teatro Os Satyros), Tina Gomes (fotógrafa) e Márcia Abos (jornalista e bailarina).

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Mariana iniciou a sua trajetória artística no teatro aos nove anos, em busca de ser “encaixada” em algum círculo, já que a escola como o seu principal lugar de convivência social, lhe excluía das possibilidades de ser e existir como pessoa. Ela se sentiu muitas vezes, uma criança à margem, sendo alvo das piadas racistas, entre a turma de colegas da época. Quem se tornou Mariana, hoje?

“Mariana França é alguém que busca no outro se conhecer melhor. Desde pequena sinto que a vida esqueceu de me dar um manual para lidar com tantas inquietações, que muitas vezes acho que só eu vivo. Mas é no encontro com o outro que a gente descobre que todos fazem o seu melhor, para entender este mecanismo que baseia a nossa existência.”

Com aprendizados em diferentes escolas artísticas como o teatro, o circo e o audiovisual, Mariana, recria, através destas múltiplas linguagens, os mecanismos de reencontro e encantamento com a complexa magia da vida. Como manifesto poético o filme rompe os silenciamentos da depressão. Os planos aproximados da câmera documentam em detalhes, a semântica dos olhares, os gestos das mãos e pés, corpos entregues como pinturas, mas também reticentes, em fricção com si próprios. O olhar documentário do filme implicado na subjetividade da realizadora, transita pelos modos reflexivo, performático e poético, a dizer para nós, espectadores, histórias sobre as idas e vindas em crises depressivas, vividas pelos artistas e como eles as utilizam como matérias de expressão e sentido de suas existências.

“O documentário me fez justamente perceber quais eram os meus mecanismos de criação. O “Clausura” surgiu num momento de uma profunda tristeza, no sentimento de total perda de várias bases importantes pra mim (amigos, família, trabalho, relacionamento). Mas foi uma exceção a todas as coisas que fiz. Pra mim, é difícil criar na profunda tristeza, ou no caso, numa crise depressiva. Entretanto, não importa o que necessite que seja criado, produzido, é preciso uma provocação, a que te faça mergulhar de cabeça naquilo.”

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“Ser mulher negra e dirigindo uma documentário já é por si só um ato de resistência. O audiovisual ainda possui um cenário machista, mas que aos poucos estamos tendo seu lugar devido. A equipe do “Clausura” é rodeado por Manas guerreiras e que desempenham as mais diversas funções (Cecília Santana, produtora, Carol Arbex, Carolin Yukari e Jolene Tracci, câmeras, Alice Crepaldi, som, Mayara Paulelli, Motion Design).”

Mariana França.

A arte torna-se a potência descoberta por Mariana, atravessando as suas fragilidades como ponte para um trabalho de criação, que a leva para dimensões mais inteiras de si, ou mais consciente dos lugares de fragmentação dos sentimentos humanos. Por fim, a arte como lentes de percepção crítica sobre fluxos intensos e constantes da sua subjetividade, como as questões que envolvem a representação objetificada das mulheres negras, por exemplo.

Como uma obra aberta, reflexiva e de linguagem moderna, Mariana França e Gildo Antonio assinam a codireção do documentário e contam essa história a partir de três olhares:  o olhar interrogativo de Mariana para com os entrevistados; o olhar curioso sobre quem é a personagem de Mariana, dirigido por Gildo Antonio; e o olhar que vê a toda equipe e aponta as transformações descobertas durante toda a produção do filme.

Com produção pelo Centro Audiovisual de São Bernardo do Campo e realização da Transver Filmes, o “Clausura” está circulando entre festivais nacionais e internacionais de cinema e foi premiado pela 17a. edição do Encontros de Cinema de Viana do Castelo, ocorrido em maio deste ano, em Portugal. #VoaClausura !

“O resultado é o que se vê: um primeiro corte sensível de uma obra que não se pode sintetizar. “Clausura” é um meio para enxergar o eu e o outro.”


12003154_958864104178511_4096693306721974599_nALESSANDRA GAMA – É coeditora NoBrasil. Mestre em Educação (UFSCar) e Doutoranda em Performances Culturais (UFG), pesquisa questões étnico-identitárias no cinema documentário brasileiro. É também  realizadora, gestora e produtora cultural.
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A INTERVENÇÃO DISCURSO

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A obra de arte empregada como discurso de ressignificação dos espaços e do meio urbano. A intervenção urbana como a proposta de um discurso de questionamentos e resistências, não somente de artistas, mas também da população e de seu meio.

Imagens criadas com o iphone SE
Por  Clébson Oscar

A intervenção artística, enquanto arte contextual, instaura uma efemeridade na qual a singularidade das relações redefine o “lugar cidade” pelo contato entre as pessoas e pelos desdobramentos surgido a partir das obras interventivas. Tentarei a partir disso articular aqui a relação artista – obra – espaço – público.

A partir dos anos 1970, iniciou-se uma diluição do caráter expositivo e convencional da obra de arte como o objeto (quadro, pintura, escultura, espetáculo, etc.) a ser contemplado em distanciamento e a partir de um dispositivo (galeria, museu, teatro, etc.). A produção da obra de arte sai então de um ideal de arte institucional e passa para o concreto da ordem da cidade a partir da atuação de artistas em outros espaços e dispositivos. Para muitas/os artistas não mais interessa pensar obras para a galeria ou museu, e muito menos a sua comercialização, importa-se cada vez mais que a obra esteja mais próxima do público, estando atrelada a um contexto mais de galeria-cidade.

Assim, numa fuga da institucionalização e numa construção por novas formas de se produzir e se expor, surgem formas e formatos distintos, dispositivos, sentidos e apontamentos diversos que são meios se produzir tais atos interventivos: pixo, lambe, grafite, performance, objeto, instalação, ação pontual, arte sonora, escultura, dentro tantos outros. É possível apontar três contextos diferentes acerca de artistas e a intervenção urbana: aqueles que saem da galeria para a rua; aqueles que já surgem da rua e permanecem nela; e aqueles que nascem da rua e vão para a galeria.

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“Você se vê na tv?” “A gente se vê por aqui?”

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Acidum.

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Estupidos, de Robert Panda

A rua pode ser interpretada por muitos como uma extensão da galeria de arte, ou seja, um desdobramento dela; enquanto que é possível pensar a rua muito mais como uma ponte utilizada para se poder chegar até a galeria. Hoje é bastante comum encontrar grupos de arte urbana que já alcançaram espaço em exposições coletivas e individuais, lançar publicações de livros e catálogos como até conseguido mercantilizar as suas formas e marcas já conhecidas. E por outro lado, existem aqueles que querem pensar os seus trabalhos de fato para a cidade, em que ela se transforma em seus ateliês abertos.

Em se tratando em espaços ditos ‘públicos’, surgem questões a todo tempo: Que lugares são esses? Como eles são utilizados e assimilados pela população? Quais as suas questões e implicações? Como intervir nesses espaços e ressignificá-los a partir de suas circunstâncias espaciais, territoriais e temporais? Dentro dessas questões, a intervenção artística, sendo uma arte urbana como prática crítica, coloca em jogo a produção simbólica do espaço urbano, repercutindo as contradições, conflitos e relações de poder que o constituem.

Artistas que trabalham com intervenção urbana vêm suscitando questões de grande relevância para a arte contemporânea, colocando fortemente em pauta a relação público/privado: a superfície do muro de uma casa é de propriedade de seus moradores ou da cidade? Se a rua é pública, e se a parte externa dos muros dão para a rua e fazem parte da configuração visual da cidade, então intervenções nesses espaços realmente devem se configurar como invasão de propriedade? Nesse campo de tensões, a intervenção artística atua como dispositivo de reflexões estéticas e políticas, articulando e sobrepondo realidades.

“Em meio aos espaços públicos, as práticas artísticas são apresentação e representação dos imaginários sociais. Evocam e produzem memória podendo, potencialmente, ser um caminho contrário ao aniquilamento de referências individuais e coletivas, à expropriação de sentido, à amnésia citadina promovida por um presente produtivista. É nestes termos que, influenciando a qualificação de espaços públicos, a arte urbana pode ser também um agente de memória política. ” – Vera M. Pallamin.

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A busca por uma religação afetiva com os espaços, sejam eles degradados e abandonados, sejam eles espaços de fluxos da cidade, como também os lugares de significados históricos/sociais para a população. O próprio meio urbano se faz matéria de criação não apenas do artista, mas de todos aqueles que reinventam os sentidos dos espaços através de suas experiências, através de uma produção de uma estética compartilhada.

A obra não é de domínio somente do artista, ela transcende da autoria individual para a coletiva, se incorporando a cidade a partir de interferências feitas por outras pessoas, ganhando assim um novo corpo, um novo significado. Um exemplo disso é um mural de lambe-lambe feito da repetição de uma ilustração de uma boca aberta, que ganhou, com o passar das semanas, diversas frases escritas por cima de cada uma dessas bocas, frases como: “vamos fazer escândalo”, “respeite as minas” e entre outras. Tais frases acabaram por encorpar uma nova força para a intervenção inicial.

Numa ressignificação do espaço e da ordem, muros de concreto passam a ter varais de roupas; terreno baldio vira canteiro de girassóis; pneus, vasos sanitários e outros materiais se transformam em jardim em calçadas/praças; troncos de árvores viram casinha de cachorro ou bancos em praça. Entre tantos outros exemplos, praticados não por artistas e muito menos com intenções ‘artísticas’, são vistos por Fortaleza como também em outras cidades e meios urbanos, em que a população se apropria dos espaços públicos e intervém sobre as suas paisagens. Sendo assim, quem de fato pratica intervenção urbana não é apenas o artista, é também a população que reinventa os espaços e meios, interferindo na arquitetura urbana já estagnada pela ordem e a transforma a partir de suas necessidades e motivações.

“Nós podemos imaginar espaços os mais diferentes para as áreas públicas das cidades, mas essa utopia só tem sentido se considerada experimentalmente. Suas implicações e consequências devem ser estudadas na prática4. É importante que o significado da cidade possa nascer do seu uso, no curso da vida cotidiana, envolvendo nos processos decisórios as pessoas diretamente implicadas em cada diferente situação.” – Graziela Kunsch

IMAGEM 8 – Legenda Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.

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Baião Ilustrado 

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CLÉBSON OSCAR- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.

 

 

 

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LITERATURA LÉSBICA e DIVERSIDADE

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Não existe uma identidade única para represen­tar a mulher lésbica. Pelo contrário, é exatamente o oposto que a literatura lésbica deveria mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica.

Como ler as representações femininas lésbicas dentro de um mundo androcêntrico?

Seria mais fácil responder a esta pergunta se houvessem representações femininas fora deste contexto. Mesmo o “olhar feminino e lésbico” é construído dentro e a partir de uma sociedade patriarcal, heteronormativa, racista, classicista e sexista.

Quando falamos sobre literatura com temática lésbica, não estamos falando da criação de um rótulo. Estamos falando da criação de uma representatividade.

Mas que representatividade é essa?

Não existe uma identidade única para represen­tar a mulher lésbica. Pelo contrário, é exatamente o oposto que a literatura lésbica deveria mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica.

No entanto, se fosse feito um mapeamento de narrativas lésbicas escritas e publicadas, esta pluralidade estaria realmente representada?

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Segundo CHIMAMANDA ADICHIE:

“É impossível falar sobre uma história única sem falar de poder.[…] Como são contadas, quando são contadas, quantas histórias são contadas, estão realmente dependentes do poder.[…] A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos, não é eles serem mentira, mas eles serem incompletos. [..] Mostre algo como uma coisa única, vezes sem conta, e esse algo se torna a verdade única.”

Até que ponto não aceitamos e reproduzimos os padrões do que supostamente seria uma lésbica “aceitável ” ou “passável”, ao dar voz e representatividade à protagonistas brancas, magras, jovens, “lindas”, “femininas”, de classe média, com grau de instrução superior completo ou universitárias na maioria das narrativas? A exclusão dentro da exclusão ao se privilegiar uma minoria dentro da minoria?

O senso comum heteronormativo, patriarcal, sexista, classicista, racista, transfóbico, machista e homofóbico.
É esse discurso/ideologia que nós queremos reproduzir? 

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Por mais que as estruturas cruéis do poder insistam em tentar nos convencer de que não se adaptar, “ser diferente” é um grande sofrimento, não existe sofrimento maior do que fingir ser quem não se é, desejar ser quem não se é ou deixar de se ser quem se é realmente.

O grande desafio do artista contemporâneo consiste em fugir do senso comum; em não encarar o produto cultural apenas como bem de consumo destinado a agradar e vender, mas como obra de arte; em não perder o caráter mais belo e fundamental da arte: o seu aspecto questionador, de elemento de renovação, transformação, resistência, de romper paradigmas.

Repito: seria ideal que não houvesse a necessidade de clas­sificar. Seria ideal um mundo em que pudéssemos ocu­par todos os espaços sem a necessidade de rótulos. No entanto, esse mundo ainda é só um ideal e, se não rotu­larmos agora, não haverá espaço – para a existência e, muito menos, para nada que possa parecer remotamente transgressor.

Eliminar as classificações não muda nada, pois elas são o efeito e não a causa. Assim sendo, precisamos mudar a própria estrutura, dentro de nós, para que realmente não existam mais classificações ou diferenças.

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DIEDRA ROIZ- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.
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PUBLICAÇÕES DE LITERATURA LÉSBICA

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“A reinvenção do conceito de cidadania emerge do fato de esta ser pensada de uma forma excludente, sustentando-se num paradigma universal, masculino e heterossexual, silenciando vozes que se afastam desta normatividade.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Diedra Roiz

 

“A reinvenção do conceito de cidadania emerge do fato de esta ser pensada de uma forma excludente, sustentando-se num paradigma universal, masculino e heterossexual, silenciando vozes que se afastam desta normatividade. A cultura diz o que ela é e não é, excluindo o outro, o diferente, o que não pode ser incorporado na ordem do mesmo.”

 

Afirmação de Carmo Marques e Conceição Nogueira que Salma T. Muchail complementa:

“É um mecanismo de normalização do eu, isto é, a tecnologia do eu padronizado pela normatização em parâmetros fixos de normalidade social, sendo os adequados a este parâmetro aqueles que podem ser visíveis e dizíveis.”

Na literatura isto não é diferente.

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A mulher tem adquirido um espaço notório, mas ainda não possui um papel tão relevante dentro do universo literário brasileiro. Mulheres lésbicas menos ainda.

Claro que as dificuldades do mercado editorial existem para todos os escritores, a partir do momento em que um livro é considerado um bem de consumo e, como tal, está sujeito às determinações do mercado.

Entretanto, a literatura lésbica enfrenta dificuldades ainda maiores, por se vincular a uma temática específica e a um público específico, mas também por ser considerada por muitos como “literatura menor”, “meramente erótica ou pornográfica”.

img_1412Sequer vou entrar no mérito da importância e necessidade das cenas de sexo na literatura lésbica como forma de registrar e demarcar práticas sexuais ainda consideradas ilícitas e “desconhecidas” e expor um ponto de vista sobre o sexo que foge completamente do falocentrismo da heteronormatividade compulsória. Isso é indiscutível.

“O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que procuramos assenhorear-nos.” (MICHEL FOUCAULT)

Como praticamente não existe interesse por parte das grandes editoras neste segmento literário, as publicações de literatura lésbica são, em sua maioria, pequenas tiragens realizadas por autoras independentes ou pequenas editoras.

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É a resistência em forma de livro.

“É político trabalhar com o recurso que você tem. Cada forma de ser independente é uma forma de resistência a esse universo que quer transformar o livro num produto como outro qualquer. A gente sabe que o livro não é um produto como outro qualquer, ele é um produto muito mais complexo do que a sua materialidade, mas a sua complexidade também passa pela sua materialidade.” (Alice Bicalho)

Vale citar e divulgar algumas destas editoras guerreiras que, contra tudo e todos, continuam ativas, publicando literatura lésbica e resistindo:

Editora Vira Letra: http://www.editoraviraletra.com.br/

Palavras, Expressões e Letras: http://www.editorapel.com.br/

Hoo Editora: http://www.hooeditora.com.br/

Grupo HPM: http://grupohpm.lgbt/categoria-produto/livros/

Metanoia Editora: http://metanoiaeditora.com/

“Por que sou levada a escrever?

Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha.

Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.

Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias.

Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência.” (Gloria Anzaldúa)


DIEDRA ROIZ- Escritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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Literatura lésbica – aquelas que não podem falar dizendo o que não deve ser dito

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“Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.”
Neste especial, a escritora Diedra Roiz revela os caminhos da literatura lésbica no Brasil com sua poética de ressignificação e resistência.

Imagens criadas com o iPhone SE

Ao deparar-se com o termo Literatura Lésbica, muita gente se pergunta: o que é isso? Isso existe? Ou, até mesmo, para quê isso?

Infelizmente, quando se trata de dar voz e espaço às “minorias”, esse tipo de reação não é incomum. Uma negação mais cruel do que a do espaço em si, a do valor e da necessidade do mesmo.

Afinal… Segundo este tipo de pensamento, preconceito é separar e classificar. “Para quê cotas? Para quê literatura lésbica? Literatura é literatura, pouco importa se é escrita por mulheres, lésbicas, trans, negras. Somos todos seres humanos, as pessoas são todas iguais!”

Mesmo?

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Seria maravilhoso viver em um mundo onde todos fossem apenas gente e mais nada. Um mundo onde não existissem diferenças, privilégios, relações assimétricas de poder.

Mas esta não é a nossa realidade.

No mundo em que vivemos – onde as estruturas perversas do poder existem a serviço de manter a exclusão, a invisibilidade e o silenciamento de todos que não se enquadrem, e a desigualdade, de forma absolutamente cruel e tirana em seus critérios, elege aqueles que interessam, que detêm o espaço e o direito de falar, de se expressar, de se tornar visíveis -,  rótulos e classificações são necessários exatamente para que os excluídos possam garantir e ocupar direitos e espaços que lhes são interditos.

A Profª Drª Regina Dalcastagné, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, em sua pesquisa cujo resultado pode ser encontrado no texto “Um mapa de ausências” do livro “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, fez um mapeamento das publicações literárias de grandes editoras brasileiras e chegou à triste conclusão de que, em um país tão lindamente repleto de diversidades e pluralidades como o nosso, o perfil da grande maioria dos autores publicados é o seguinte: homem branco, heterossexual, cisgênero, com mais de 40 anos, membro da classe média, jornalista, morador do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

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Se alguém ainda tinha alguma dúvida, acho que depois disso fica bem claro qual o discurso que interessa e a escrita escolhida para ser visível hoje em dia no Brasil.

Nomear de literatura lésbica narrativas de mulheres que vivem as suas afetividades e sexualidades centradas em outras mulheres é de extrema e profunda importância neste momento, pelo aspecto revolucionário, de luta e resistência que isto possui, pelo significado e pelo que representa: dar voz a sexualidades que ainda se produzem trancadas “dentro do armário”, de visibilizar e empoderar uma literatura em que a mulher surge não como simples e silencioso objeto do desejo, mas como sujeito desejante, portadora da voz e do discurso.

Mas por que literatura lésbica e não literatura LGBT?

Saber respeitar a diversidade talvez seja a tarefa mais difícil da sociedade contemporânea, pois é a própria sociedade que homogeneíza a partir da construção de modelos pré-estabelecidos. Dentro do universo LGBT, isto não é diferente: muitas vezes, para uma mulher lésbica cis é necessário lutar para ter seu espaço, suas demandas e sua voz respeitados; para mulheres lésbicas trans, é mais difícil ainda.

A literatura lésbica expressa realidades de mulheres lésbicas (trans ou cis), buscando deixar a invisibilidade num mundo que ainda classifica um casal de mulheres como sendo “duas mulheres sozinhas”, fato que não acontece com um casal de homens, pois o homem, independente de sua orientação sexual, é sempre visto como sujeito e protagonista. Mais do que isso, tais narrativas também servem para desmistificar a visão de que mulheres lésbicas ou são objetos de fetiche e de desejo para homens hetero, ou são mulheres que desejam ser homens. Estereótipos que precisam ser desconstruídos. Vozes que, mesmo dentro do universo LGBT, ainda lutam para serem respeitadas e ouvidas.

Mas o que seria considerado literatura lésbica? Levamos em consideração o tema, o conteúdo, as personagens ou quem escreve?

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Claro que considerar as personagens, o contexto e o “tema” abordado pelo texto é o mais adequado. No entanto, óbvio que um texto escrito por uma lésbica tem o ponto de vista de uma mulher que vive a sua afetividade e sexualidade centrada em outras mulheres visto de dentro, o que traz a voz desta realidade, aquela que possui essa vivência. Afinal, o lugar de onde se fala faz total diferença para o discurso, é impossível dissociar a vivência/essência de quem escreve de seu discurso.

Citando Gloria Anzaldúa:

 “Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.”

Frase que, para mim, pontua e define o conceito de literatura lésbica completamente.


DIEDRA ROIZEscritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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Mídia independente: ferramenta do povo preto

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A convite do NoBrasil, o coletivo e plataforma de criação e comunicação AfroGuerrilha, fará a cobertura do AfroTranscendence 2016 e realizará debate sobre a importância histórica da comunicação independente como ferramenta de resistência. A atividade acontece no dia 29.10 no Red Bull Station, às 11h. Saiba +

Em tempos onde a comunicação se torna ferramenta fundamental na disputa do poder político, na construção de subjetividades, importante canal de difusão de conhecimento e produção cultural, como utilizar e criar estruturas através de uma mídia independente que consiga visibilizar nossas criações e discussões?

Pensando nessa questão que o NoBrasil convida o AfroGuerrilha, uma das maiores plataformas de criação online feita por jovens que produzem comunicação e criam canais de diálogos e conexões entre o povo preto, para ocupar o Red Bull Station durante o AfroTranscendence 2016. A ideia da colaboração, é experimentar uma outra forma de produzir e difundir o conteúdo do AfroT fazendo gerar uma rede de articulação e criação que não somente fala diretamente com o nosso público mas que também é pensada por ele. O AfroG irá montar um estúdio de trabalho, uma estação dentro de uma estação, transmitindo ao vivo entrevistas, palestras e criando intervenções em nossa programação,  completa a diretora criativa do NoBrasil, Diane Lima.

untitled-1AfroGuerrilha.

Para discutir a importância histórica da comunicação independente como instrumento de resistência e luta do povo negro, e como as novas tecnologias de comunicação podem servir de ferramenta para o fortalecimento da comunidade negra do século XXI, paralelo à programação do AfroTranscendence, acontece o debate “Mídia independente: ferramenta do povo preto”, com participação de Silvia Nascimento, jornalista e criadora do site Mundo Negro; e Pedro Borges, jornalista e co-fundador do portal de mídia negra Alma Preta, também integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (COJIRA) e pesquisador da Frente de Mídias Negras de São Paulo.

Nós potencializamos nossa força quando produzimos em rede, quando conectamos nossas diferentes capacidades. Em uma sociedade que impede o acesso das pessoas negras a diferentes tipos de tecnologias e recursos, construir parcerias assim fortalece a comunicação negra independente e permite que ela expresse nossa voz em espaços onde não estamos acostumados a ouvi-la. Para nós, essa colab representa potencializar tais conexões, diz Robin Batista (26), editor do Afroguerrilha, designer e colaborador do Afropunk, uma plataforma alternativa e experimental de música, arte, moda e política que conecta negros de todo o mundo e realizam anualmente um dos maiores festivais de música do mundo (Paris, Nova York e Londres).

12238484_1277618795587425_959322164071626615_oFoto de Vini Monteiro. AfroGuerrilha

 

O debate organizado pelo Afroguerrilha acontece no sábado (29), das 11h às 12h30, no Red Bull Station, e terá mediação do fotógrafo e videomaker, Vini Monteiro. Além de Vini e Robin, Vinicius Gomes (19), fotográfo e jornalista; e Roger de Lima (25), arte-educador; completam a equipe.

Participe do evento aqui http://migre.me/vkiWS e acompanhe a cobertura do AfroG no AfroT pelos canais do AfroGuerrilha e do NoBrasil.

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ASSISTA AO 8° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM MAYRA FONSECA

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Nesse oitavo episódio da nossa série, a antropóloga e pesquisadora Mayra Fonseca, fala sobre a sua descendência indígena norte-mineira, questiona as categorias culturais e os valores de poder investidos no sistema da arte, fala sobre a produção de conhecimento dos saberes “ditos populares”, acervo e memória e afirma: “não há nada mais contemporâneo que a tradição”.

“Pensar Brasil, pensar afro-brasil, pensar brasil indígena, nessas categorias que nós fomos educados a usar, já é um modelo que precisamos nos libertar. Costumo dizer muito assim ó: quem resolveu, quem recebeu e acolheu o poder de chamar algo de uma manifestação cultural popular? E qual que é o impacto de a gente continuar replicando isso? De a gente continuar replicando que uma congada é uma festa popular? Ou a gente continuar replicando que algumas linguagens são periféricas ou naif’s? Que lugar é esse que a gente dá quando a gente separa o que a gente produz como povo, como afro-brasileiros, como brasileiros indígenas, afro-indígenas num território que a gente aprendeu a chamar de Brasil do considerado erudito? Porque a gente ainda replica e aceita esses lugares reducionistas e usados para diferenciar e levar a gente para um lugar de desvalorização?

img_5472Nesse oitavo episódio da nossa série, a antropóloga e pesquisadora Mayra Fonseca, fala sobre a sua descendência indígena, norte-mineira, questiona as categorias culturais e os valores de poder investidos no sistema da arte, fala sobre a produção de conhecimento dos saberes “ditos populares”, acervo e memória e afirma: “não há nada mais contemporâneo que a tradição”.

 

Assista em HD.

Sobre Mayra Fonseca:

Norte-mineira, de raíz indígena Mayra é mestre em Antropologia, Iniciadora e Editora-Chefe do Brasis, uma central de Conteúdos e Rede de Pesquisas e Projetos para estimular o autoconhecimento do Brasil de forma propositiva. Especialista em diversidade cultural e linguagens, é formada em Comunicação Social pela PUC Minas e é mestre em Antropologia e Etnografia pela Universidade de Barcelona, Espanha. Há mais de doze anos, trabalha com pesquisas culturais e comportamentais em diversos locais do Brasil e da América Latina. Em 2012, co-fundou o www.obrasilcoms.com.br.

mayra-fonsecaWebsérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

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ASSISTA AO 7° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM SALLOMA SALOMÃO

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Nesse sétimo episódio da nossa série, o historiador e pesquisador Salloma Salomão, traça uma perspectiva histórica de como se construiu o racismo na sociedade brasileira, fala sobre identidade nacional, mestiçagem e as estratégias discriminatórias criadas no ocidente para justificar a escravidão.

“O que são os negros na sociedade brasileira? Como eles são socialmente vistos? Existe um negro jeito de ser ou a condição dos negros é determinada sobretudo pelo seu lugar social de subalternidade e de falta de acessos aos bens públicos? Os negros são mortos pela polícia e a justiça não toma atitude? Porque a justiça não toma atitude quando são jovens negros que estão sendo mortos? Porque que a mídia reage diferente quando é morte de população negra, periférica e pobre da morte de alguém da classe média branca? Sabe porque? Porque a mídia nessa sociedade é um instrumento fundamental do poder e ela nos emite mensagens que incidem sobre a nossa autoimagem individual e coletiva.”

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Nesse sétimo episódio da nossa série, o historiador e pesquisador Salloma Salomão, traça uma perspectiva histórica de como se construiu o racismo na sociedade brasileira, fala sobre identidade nacional, mestiçagem e as estratégias discriminatórias criadas no ocidente para justificar a escravidão.

 

Sobre Salloma Salomão:

Músico, Performer, Historiador e Pesquisador. Doutor em História pela PUC São Paulo. Pesquisador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa é atualmente professor de História da África e Diáspora Negra no Centro Universitário Fundação Santo André. Consultor da Secretaria de Educação do Município de São Paulo tem como especialidades temas como cultura musical, lutas pela liberdade, práticas culturais negras no século XIX e XX, identidades étnicas e movimentos negros urbanos, sociabilidades negras em São Paulo e musicalidades africanas.

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Websérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

 

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Pescando uma nova Maré

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Remando contra as águas poluídas da Baía de Guanabara, pescadores da Maré sobrevivem da pesca, lutando para a história das colônias não desaparecer. Assim encerramos o último capítulo da editoria Nas Águas da Maré.

Imagens e videos criados com o iPhone SE

 

O mar, que amedronta muitos por sua grandiosidade, é a melhor forma que a natureza encontrou para se aproximar dos moradores da Praia de Ramos, localizada na ‘ponta’ do Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio.

Pescadores vivem no dia a dia, a recriação de uma lembrança nem tão distante assim, mas que se transforma. Seja nas margens da água, do mangue ou da praia: a pesca artesanal é um estilo de vida.

O trabalho do pescador viajante começa ainda de madrugada. Trouxinhas de roupas são separadas na bolsa, assim como os equipamentos: vara de pesca, carretel, iscas para o peixe, rede resistente e comida. Muitos deles circulam por toda a Baía em busca do melhores peixes e frutos do mar, para depois vender e consumir.

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Um  dos pescadores mais experientes do lugar é Giovan Carlos. Aprendeu a pescar aos 15 anos, com seu pai experiente em pegar camarões. O que era lazer, se tornou rapidamente uma forma de sustento da família. Tem 45 anos, mas faz mais de 30 anos que ele pesca nas águas da Maré. Ainda solteiro, relembra os tempos de palafitas, quando a prática da pesca era mais difícil de ser feita. Os barcos à remo eram pequenos, com pouca tecnologia e sem motor. Hoje, apesar da evolução dos equipamentos, o preço não chega na realidade dos pescadores.

A prática da pesca artesanal é o que Giovan admite fazer de melhor.

Seu primo, Rinaldo Valentim de Melo, aprendiz do trabalho há 4 meses, saiu de Caxias e para se juntar ao grupo. O crescimento da colônia, tem incentivo da família, na maioria das vezes. Assim como os outros, Rinaldo fica no mar durante uma semana, às vezes duas, com mais 12 pessoas em um só barco. Resiste pela necessidade. Pelo pela união e história do lugar. Sua maior surpresa até hoje foi quando um barco de grande porte trouxe cerca de 10 toneladas de peixe. Há diferentes tipos e são vendidos nas feiras durante a semana, nas favelas da Maré do entorno. Frescos. Limpos.

Não só os moradores próximos da Praia de Ramos/Piscinão de Ramos vivem esse estilo de vida, temos moradores da Baixa do Sapateiro, entre outros. As ruas e becos da Maré escondem histórias de pessoas que vivem da natureza e usam a criatividade para continuar trabalhando com o que gostam dentro de seu território.

As águas da Praia de Ramos e do Canal do Cunha se confundem com a da Baía de Guanabara, que sofre com poluição desde o aterramento da Ilha do Fundão nos anos 50, espaço que hoje mantém a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Maré, que já conviveu com a maior colônia de pesca do Rio de Janeiro nos anos 70, passou pela industrialização do território e a precariedade no saneamento básico, vive o aumento da poluição.

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A estimativa é que as águas da Baía recebem 10 mil toneladas de esgoto por segundo. Para amenizar a situação, 10 embarcações conhecidas como Eco barcos, recolhem 45 toneladas de resíduos por mês. O que não é suficiente, pois o conjunto de favelas tem um baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes da urbanização do território, o número de famílias sustentadas pela pesca na cidade chegava a 23 mil, como acontecia nos tempos de Palafitas. O transporte de objetos e pessoas eram os barcos. O trabalho, assim como a pesca, era manual. A vida, simples. Mas sempre superando obstáculos sociais. Hoje, poucos arriscam a viver e a conviver com o mar.

Giovan desafaba: os interesses privados, o petróleo e construções na cidade afetam diretamente sua realidade. Devido aos problemas, o futuro dessas águas é incerto. Mas pretende continuar vivendo dessa forma, reivindicando em reuniões com autoridades locais para buscar soluções e incentivando os jovens ao trabalho manual no mar. Assim como seu pai lhe ensinou.

A navegação nas águas da Maré continua. É a luta diária pela preservação da história e da memória do lugar.


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.
Nas Águas da Maré

 

 

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NoBrasil abre inscrições para o AfroTranscendence 2016: programa de imersão em processos criativos com foco na cultura afro-brasileira contemporânea.

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O PRAZO DE SELEÇÃO É ATÉ DIA 06.10 E AS ATIVIDADES GRATUITAS IRÃO OCORRER NO RED BULL STATION, CENTRO DE SÃO PAULO. SAIBA MAIS E INSCREVA-SE!

Em sua 2a edição, AfroTranscendence propõe o encontro e provoca a troca de conhecimento entre pessoas vindas das mais diferentes práticas, experiências e formas de expressões, incentivando-as a criar novas conexões, possibilidades e olhares em seus processos de criação tendo como inspiração a união entre saberes tradicionais e contemporâneos das culturas negras espalhadas pelo mundo.

A imersão

Para a imersão, que acontece de 26 a 29 de outubro, no Red Bull Station, em São Paulo, 20 selecionados participarão de um programa intensivo com especialistas, artistas e pesquisadores, como Makota Valdina Pinto e Grada Kilomba. As atividades são gratuitas e compostas por palestras, laboratórios, workshops e vivências artísticas que serão divididas em 3 eixos centrais: Descender para Transcender: descolonizando o conhecimento; A memória da Criação: panorama para práticas de inversão no contemporâneo; e Estéticas Negra: pesquisa e processos sincréticos.

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Cruzando esses painéis que servem como arquivo, base de pesquisa e referência, neste ano teremos o laboratório de criação AfroTrans, que propõe exercitar coletivamente a criação de um experiência expandida entre todas as linguagens artísticas tendo como suporte a memória, a palavra, o corpo, o som, a imagem e a tecnologia.

Podem se inscrever pessoas vindas das mais diferentes práticas artísticas ou manifestações tradicionais que estejam pesquisando a cultura afro-brasileira e seus trânsitos como forma de performar o conhecimento, gerar um pensamento crítico e experimentar novas possibilidades estéticas.

Todas as atividades são gratuitas. Em breve, divulgaremos a programação completa.

As inscrições vão até 06 de outubro. Acesse o edital aqui !

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