Category: Memória

O Lotadão da Vila

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Resolvemos pôr na ordem do dia o desejo antigo de contar a história da casa que mudou a cultura do hip hop de SP

por Diane Lima

Falar da cena hip hop do Brasil sem falar da Black Bom Bom é impossível. Por isso que resolvemos pôr na ordem do dia um desejo antigo e contar um pouco da história do cara que está por trás desse projeto que hospedou e hospeda por tantos anos funkeiros e mc’s e que é também, com total respeito pelo que representa, parte da família NoBrasil. Num papo reto, como já é de costume os que conhecem Flavinho, nome de batismo Flávio Pires, falamos de como surgiu a ideia de enfim colocar a Vila Madalena na rota da cena da black music de São Paulo: “Era uma época em que o Ministério Público não deixava os Racionais trabalhar com aquele preconceito das pessoas dizendo que o rap era violento…. junto com o Brown, pensamos em modificar essa história e mostrar que a distância daqui para o Capão Redondo, daqui para Pirituba ou para qualquer periferia era pouca. Que as pessoas tinham que vir pra cá, para o Jardins, para a Paulista assim como as pessoas daqui também tinham que frequentar as coisas de lá. O Black Bom Bom chegou para destravar esse preconceito ridículo e aí lançamos um modelo de festa que ao invés de divulgarmos o Racionais, chamávamos um outro Mc que fazia o convite para o Mano, o Kl Jay, o Edi Rock e Ice Blue. Apesar de muitas pessoas na época não acreditarem, a gente veio com tanta firmeza e convicção no nome da Black que fomos em frente. Graças a Deus e ao trabalho de todo mundo, a gente conseguiu fazer a casa decolar e hoje é um espaço tradicional na linha hip hop, sendo uma das primeiras a trazer o funk pancadão aqui para São Paulo”.

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Abrindo as portas para receber as expressões e a vozes do povo das quebradas, rompendo com as barreiras e as fronteiras entre periferia e centro e colaborando para aquecer e fortalecer um mercado mais profissional para a black music, viu passar pela seus palcos quase todos os nomes do rap brasileiro, ainda que tendo que enfrentar os embates sociais e políticos já que as denúncias em forma de canção passavam a chegar enfim ao centro e portanto, cada vez mais incomodar: “no primeiro ano fiz questão de mandar várias cartas para o Ministério Público, Polícia Militar dizendo ‘olha, tá vendo?, fizemos um show de rap lá na Vila Madalena e ninguém brigou com ninguém, ninguém matou ninguém, tá tudo sob controle…’ pra provar que não era o rap que era violento, que a violência era do estado contra as pessoas e que ela estava generalizada pela cidade….”

Inteira pintada de preto, deixando revelar em neon apenas seu letreiro, é inegável a mística que envolve a casa, em que o próprio recitar do nome, nos inspira a pensar quantos modos e modas, estilos, gírias e trejeitos surgiram e desapareceram por ali. Celeiro criativo da cultura urbana de SP desde os anos 80, ficou conhecida como a bandeira número 1 da capital paulistana a levar adiante o projeto de desbravar o mercado do hip hop, do funk e da black music, mostrando que não tinha violência e que se podia fazer festa em qualquer lugar.

“A Black Bom Bom é a bandeira número 1 de São Paulo a desbravar o mercado do hip hop, do funk, da black music, e falar que não tinha violência, que podíamos fazer festa em qualquer lugar”.

 

Passado tanto tempo, hoje é possível desenhar um momento totalmente diferente para a cena, que ocupou espaços antes inimagináveis com festas sendo realizadas em grandes boates, em praças públicas ou casas de show em toda SP. Apesar de “velhinha”, como frisa Flavinho no vídeo lendário que compartilhamos aqui com vocês, continua a ser o templo dos jovens da periferia ou do centro que fazem do #lotadão da Vila a #casa monstro da black music do Brasil.

Um salve a Marcelo Bauer pela dedicação e por nos receber sempre tão bem.

#Vem que tem.

 

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Antologia das # do #lotadão da vila ou da #casa monstra da música black

 Reunimos as melhores hashtags do instagram, qual é a sua? 

#blackbombom ta uva mlk

#bbb com os parça

#pelo dim na missão preenchendo os espaços da vitória das guerras cada momento impera vielas platéias o mundo nos espera

                                                                            #manobrown convida

#paizão                                                                       #ZE

#preto tipo A                                  #ducorre

                                                                     #vilafundao                 

#zn                                                 #pra cima                              #cheguei no pistão

                                                                                                                                                                                        #contra nós ninguém será     #e noix

#segue o treco pra curtir black do bom                          #pretinho do poder

          #favela do moinho                                                                           #nego drama

                           #mariguella

#vila madá         # os insanos                #meajudaaeooooooo

#PraNaoTerXerox    #OPaiTaMal        #vemnovinha

#us fora da lei  #kd 1 no seu    #herois urbanos

#daquele jeito #meus canalhas #raxaria
#excorregaaaaaa                                    #os mulekes zick track memo tiu no black bom bom
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Onawale: mulheres que transcendem

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Vá Fundo no universo feminino, poético e sensível de Alile Dara Onawale.

por Diane Lima
“(…) nós, que além de ar e barro
somos água
vos agradecemos, dandaluunda
pela tua parte que nos toca
e nos faz viver
e sermos mar
sermos rio
sermos chuva
e sermos Deus.”
Trecho do poema Louvor de Lande Onawale.

 

Mergulhar no universo feminino sobretudo da mulher negra é a mensagem que carrega nos olhos e na alma Alile Dara Onawale, fotógrafa que com apenas 21 anos, nos presenteia com imagens cheias de sensibilidade e pureza. Baiana passando um tempo no Rio de Janeiro onde estuda fotografia expandida no Parque Lage, teve seus primeiros contatos com a fotografia antes dos 15 anos quando ganhou da avó uma Kodak C310 de presente. Planejando voltar para a Bahia logo em breve onde pretende “explorar mais do que a sua terra natal tem para oferecer”, nos contou um pouco sobre seu processo de criação e motivação: ” na verdade é um processo meio inconsciente, quando eu percebo, já está lá feito. É engraçado pensar na maneira como faço as imagens…. é engraçado porque elas simplesmente surgem na minha frente, a todo momento! Tudo é ‘fotografável’: o andar, a distração, os gestos, tudo. É a minha forma de mostrar para essas mulheres toda minha admiração e todo amor que tenho por elas e pelo que representam”.

Alem de ter um olhar que nos emociona, Alile é ainda dona de um nome que sugere uma ancestralidade africana que nos chamou muito atenção: “Alile é água e Dara vem da música, de tudo o que há de positivo. Onawale foi o nome dada a uma geração de crianças agora já maiores….algumas pessoas do candomblé tem esse nome e colocaram nos seus filhos. Minha mãe diz que é uma espécie de sinônimo para resgate… caminho de volta… resgatar e respeitar sua ancestralidade…”

Depois que soubemos o significado da palavra, fez ainda muito mais sentido olhar para o trabalho de Alile Dara Onawale e saber que nele reside uma prática política de exaltação da mulher negra que tem tudo a ver com o seu nome.

Para NoBrasil ficou a certeza que Onawale além de uma geração de filhos de nomes lindos é também uma geração de talentos, de pais e mães que educaram suas crianças para representar a cultura negra no Brasil e ser motivo de orgulho para todos nós.

Que venham outras gerações.

De braços abertos, NoBrasil agradece.

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De vermelho e azul seja no Pérola ou em Parintins

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Conheça quem são os artistas que todos os anos migram de Parintins à São Paulo para construir o carnaval da Pérola Negra.

por Diane Lima

Todos os anos nos deparamos com os monumentos das alegorias dos carnavais de estados como Rio e São Paulo mas nunca nos damos conta em ir fundo para saber quem são as pessoas por trás daquilo tudo. De onde vieram, onde moram, quais seus sonhos, o que fazem? Por isso, que dando continuidade ao nosso especial de Carnaval, NoBrasil esteve no barracão da Escola de Samba Pérola Negra junto com a fotógrafa e integrante da escola Letícia Lovo, para conhecer “os verdadeiros artistas”, como são carinhosamente chamados os profissionais de Parintins, gente responsável pelas alegorias, engenharias e com certeza, pelas belezas que farão com que o Pérola deixo o grupo de acesso rumo ao tão esperado grupo especial.

Como num movimento migratório, esses parintinenses deixam as suas casas para construir um dos maiores espetáculos da terra, relação que segundo Joe integrante da equipe,  foi construída a partir do preciosismo do trabalho do mestre do boi seu Jair Mendes, uma lenda viva e referência no Festival Folclórico de Parintins onde disputam os famosos Caprichoso e Garantido: “o relato é que desde que ele veio, as pessoas ficaram encantadas com o trabalho que a gente faz lá e desde então, a cada ano vem mais e mais gente pra cá sempre evoluindo”.

Joe que tem apenas 22 anos e vem de uma família onde mãe, tios, e irmãos, todos tem um dom para a arte e a técnica, fala sobre as suas impressões e desejos para o futuro: “antigamente quando eu comecei a cortar isopor, minha mãe tinha maior raiva porque eu sujava todo o quintal. Depois que ela viu que eu tinha futuro, começou a incentivar por isso eu tenho muito orgulho da minha família porque somos seis filhos e o menor de 12 anos já estuda isso. Quando eu vou daqui  levo material para ele já incentivando…..gosto do meu trabalho, a gente acaba conhecendo a cultura dos outros locais. Termina o festival e a gente já começa a viajar. Também, tenho o sonho de retomar a faculdade de artes plásticas que tranquei…acho que lá  não temos os ensinamentos que tem  no dia a dia mesmo, mas sei que é importante, como nosso trabalho é manual, artesanal, é mais um caminho para sermos valorizados.”

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Toninho, responsável da equipe e também nascido e criado em Parintins, começou a trabalhar há 10 anos nas festas e festivais de Manaus e Macapá completando esse ano 07 anos de Pérola Negra. Tocando uma equipe onde cada um tem múltiplos talentos e que é composta ainda pelo Eckner, Antonio, Arthur e Bernadino, desenvolve as estruturas metálicas, os movimentos das esculturas e toda a parte mecânica que faz com que as alegorias ganhem vida: “aprendi na família, com meu tio Nei. Antigamente eu não tinha vontade de aprender mas depois que começou a surgir as dificuldades, comecei a me apegar e a querer aprender melhorando a forma de trabalhar a cada ano”. Com 30 anos bem vividos de carnaval em que ensina e aprende diariamente, ele acha que a área é boa para o trabalho e que só depende do talento da pessoa: “a gente fica de 5 a 6 meses aqui em São Paulo e quando volta já é para começar a criar a festa do Boi que acontece em Junho em que passamos mais três meses trabalhando. Depois também ainda não acaba.  Trabalhamos em outras festas ao redor de Manaus como em Manacapuru, Novo Airão, Sairé e a Festa da Tribo.

IMG_8040Toninho, Joe, Antônio, Arthur, Eckner e Berdadino.

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Nesse carnaval que se constrói de Norte a Sul do país, o Antônio nos deixou uma observação: “são os encontros das cores dessas duas regiões do país dentro do Carnaval, porque as cores da Pérola são também as cores dos Bois de Parintins.  Somos vermelho e azul em todos os cantos do Brasil”.

De vermelho e azul, seja em São Paulo ou Paritins, NoBrasil agradece mais uma vez a família Pérola Negra pelo carinho em nos receber abrindo suas portas para que conheçamos como se encontra tamanha diversidade, alegria e sabedoria numa festa só.

Agradecemos também a Letícia Lovo, por nos acompanhar nessa missão registrando essas imagens com tanta dedicação.

É o NoBrasil em Parintins no Pérola Negra.

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3“Para fazer a pastelagem é preciso misturar a resina, água e o papel que depois é aplicado ao isopor para que a pintura segure melhor. Com a  pastelagem pronta fica melhor para pegar a tinta, trabalho que requer muita paciência”  contou-nos  Eckener Lima.

 

Vá Fundo.

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Liberdade para todos nós DJ!

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Reunimos as memórias do produtor Rudah Ribeiro com o trabalho da fotógrafa Daniela Dacorso para falar de funk.

NoBrasil reuniu as memórias do produtor musical Rudah Ribeiro com o trabalho incrível de pesquisa da fotógrafa Daniela Dacorso,  para fazer um balanço do funk carioca passado, presente e futuro.

Daniela que entre 1998 e 2008 fotografou o comportamento do ritmo nos morros e asfaltos no projeto Totoma!, deu uma palavrinha com o NoBrasil e a entrevista compartilhamos com vocês agora:

NOBR: Apesar de ser um projeto finalizado em 2008, foi uma pesquisa que ficou marcada como um documento sobre a cena do funk nesses 10 anos. Porque fazer o Totoma!, como veio a ideia?

Comecei fotografando bandas de amigos, depois me envolvi com o pessoal do hip hop e um amigo do Rap de SP, o Primo, me apresentou ao Catra e a Silvia que era a mulher do Catra que na época se chamava ainda Negativo.  Depois desse encontro, veio um jornalista alemão no Rio que queria fazer uma matéria sobre funk e dei a ideia da gente colar  e fazer do Catra nosso personagem. Logo na primeira noite a gente entrou na van e descobriu o mundo intenso do Funk, indo a todos os bailes, de playboy, de periferia, de comunidade, terminando o quarto baile da noite na Rocinha, no Emoções (…) além disso, eu sempre fui muito envolvida com dança, com a linguagem corporal, com a ancestralidade da rítmica africana e o gestual do funk carrega essa memória ainda que não tenha a intencionalidade. Toda aquela vivência me deixou muito impressionada e fez com que eu passasse a dedicar meus fins de semana e todo o tempo livre que eu tivesse para seguir os funkeiros e entrar nesse universo: ali no meio das danças, do tamborzão, fiquei totalmente apaixonada.

dedada-Dedada
we are going to where we came from / de onde viemos para onde voDe onde viemos pra onde voltaremos

 

NOBR: Essa foi a época em que o Catra ainda estava começando?

Não, na verdade o Catra já era um cara bem conhecido mas só que não tinha explodido a nível nacional como está hoje. Essa época foi mais ou menos a terceira onda do funk, com a ascensão do tamborzão enquanto ritmo já que antes nos bailes era mais predominate a batida do Volt Mix e do Hassan. Daí, comecei a sair com o pessoal do Catra, produtores e dj’s num esquema que era bem prático porque depois eu dava as fotos para eles também… acompanhei ainda os Mc’s Gorila & Preto, a Deise Tigrona e a Gaiola das Popozudas quando elas estavam ainda no comecinho e a Valesca ainda era a líder.

NOBR: Você continua mantendo em seus projetos alguma relação com o funk ?

Hoje em dia eu não estou fotografando mais o funk  mas ele me levou para um outro projeto que se chama (sub) Urbanos. Tanto nas minhas saídas fotojornalísticas quanto nas missões para fotografar o funk, eu rodava muito pela periferia sempre olhando muito na arquitetura e nas customizações do corpo o que me fez ter esse tema até como um projeto que fez parte de um curso de Antropologia Visual, em que eu tratava sobre a  Customização de aparência dos funkeiros e sua atitude corporal. Então, sempre me interessou essa relação de customização entre indivíduo X  espaço urbano, sobretudo se você pensar que esse ritmo gera um comportamento que não segue um padrão classe média dogmático ….nessa montagem dos corpos existe um apelo mais criativo em que se reinventa, se monta e se remonta nesse espaço corporal. Agora, estou em um terceiro projeto que trata desse mesmo corpo e da dança dos funkeiros enquanto escultura: das formas que o corpo faz, como o corpo se molda criando esculturas que através da fotografia é muito perceptível..  a torção e a contorção que se remete a um ponto de gravidade diferente as vezes….

2Imagens do Projeto (sub) Urbanos

 

NOBR: E esse projeto novo já tem nome?

Olha, ainda não até porque o nome é uma parte divertida no meu trabalho. O Totoma! tem a ver com a coisa do sample “toma, totoma toma totoma”… eu gosto de brincar em dar um nome a cada foto, usando tanto termos do funk quanto de uma certa ironia. Tem uma foto que é da mulher melão que ficou Mulher Melão Contra a Fome Mundial….depois os (sub) Urbanos que questiona nesse urbano o que é esse sub alí…

watermelon lady against world hunger / mulher melao contra a fomMulher Melão contra a fome mundial

 

NOBR: Você acha que pode se falar hoje em uma ressignificação do Funk? Como você observa essas mudanças, as ruas do Rio continuam sendo palco? Como você enxerga essa conexão asfalto, areia e favela ?

Acho que é complexo falar dessa ressignificação porque tem o caminhar da cultura como um todo que nos últimos anos passou a ser regida por uma política de valorização da cultura popular e que acabou por influenciar no que o funk era no início, saindo de ritmo marginal para o mainstream como ele se tornou. No início o próprio tráfico era muito mais ostensivo e existia como ainda existe, essa coisa da aventura da ‘patricinha’ subir morro, como algo quase fantástico num contexto em que coexiste a violência X música X sexo X lindas paisagens. Também se você for ver, nesse processo o próprio estilo foi absorvido por diversos outros gêneros musicais como se deixou influenciar também….então você vê forró com batidão em festa de ‘mauricinho’ que entra na festa do sertanejo universitário….

Naquela época os bailes davam uma impressão que você estava em um filme e hoje em dia a maior parte das comunidades que tinham esses bailes não tem mais e quando tem é uma coisa mais regrada. Por outro lado, o que rola na zona sul não são bailes mas muitas festas, que são pagas e não são feitas e pensadas pela e para as pessoas da comunidade.

Acho que a rua como palco é uma característica meio que de cidades tropicais…aqui a gente tem essa cultura do corpo, a praia como esse lugar entre mil aspas que “todos se misturam” mas que na verdade não é bem assim já que quem conhece, sabe que tem os territórios demarcados. O Rio todo está mudando também, a geografia cultural está se transformando e esse verão promete porque toda essa tensão social está voltando, arrastões acontecendo nas praias numa relação contraditória com toda essa mística sobre essa democracia racial e social que quando se vê de perto, percebe-se que não é tão bem assim.

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NOBR: Planos, sonhos? Muitos, alguns, nenhum?

Haa, o sonho é tentar diminuir essa tensão do trabalho para viver e do trabalho que a gente se realiza, o que é contraditório porque o meu trabalho-trabalho que é o fotojornalismo também me alimenta e me inspira já que vejo e vivencio muito as ruas mas é difícil ter tempo para as duas coisas…o desejo é viver de trabalhos autorais ou pelo menos, fazer mais, pesquisar mais….

Daniela Dacorso é mineira e vem de uma família meio árabe meio italiana. Morou em Campinas-SP ainda criança e mudou-se para o Rio aos 07 anos de idade, lugar que diz ter sido desde muito cedo apaixonada. Sempre gostou de arte e acha que não teria dado para outra coisa além de trilhar esse caminho. Ao longo dos anos, foi se descobrindo também dentro do candomblé onde acredita ter fortalecido essa visão mais ecológica e ancestral no seu trabalho. Sobre isso ainda nos esboçou uma preocupação: “tem um monte de morro em que os terreiros estão sendo perseguidos… se o morador chega de branco já é um problema, até porque muitos traficantes são ou viraram evangélicos. Independente da opção religiosa, de qualquer forma a ancestralidade e o gestual é muito verdadeiro, tá no corpo, está lá e vivo.”

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De Los Angeles, o produtor musical Rudah Ribeiro compartilha com a gente as lembranças de quem viu a evolução do Funk do Rio desde os anos 80.
 por Rudah Ribeiro

 

E quem nunca, em uma daquelas gloriosas manhãs de verão carioca a 38 graus, voltando pra casa, seja de 433, 464, 206, 474, 355, 174, 214, 415… ou ainda de kombi ou van ou mesmo subindo ou descendo os infinitos degraus de uma escada em alguma favela na Cidade Maravilhosa, não teve a certeza de que o baile foi “marley, foi bob marley”? …e pra viver vou sonhar, demoro viajar pelas asas do céu vou me libertar”

 É quase unânime a influência do funk na vida de qualquer carioca que tenha nascido nos anos 80, inclusive eu.

Um amigo coreano aqui em Los Angeles, figura lendária da cena hip hop da cidade, uma vez me disse: “o nosso amor à musica é construído na adolescência, o que vem depois a gente curte, mas só as batidas daquela época é que nos tiram da razão”. Certíssimo!

Vai NovinhaVai, Novinha!

Já em meados de 96, as batidas do baile no Cerro Corá estremeciam a janela da minha sala a ponto de estourar o vidro. Dali, já se ouviam as grandes montagens de Miami, no naipe de Stevie B, Little Suzie, Tony Garcia e os melodys com Suel e Amaro, Marcio e Goro e Mc Marcinho. Ao mesmo tempo, apesar de no apartamento do meu pai as ondas sonoras serem ao melhor estilo de Miles Davis, Sade, Peter Tosh, Guru, Cartola, The Cure, Luiz Melodia, o que mais me atraia eram os sons daquela sexta feira de madrugada na favela do Cerro Corá, separada nessa “cidade partida”, nas palavras do escritor Zuenir Ventura e embora não tão partida no meu bairro de Santa Teresa.  Ficava na minha imaginação como seria aquele lugar que abalava com “Spring Love”, “Jack Matador”, “Rap da Princesa”, “Pequena Garota”…

“foi na moral, zona sul cerro coral!”

E como em todo grande movimento cultural, a moda transbordava nas ruas da cidade em forma de sapatos nauru, shortinhos da Pichação, jaquetão do Charlote Hornets (aquela abelinha era neurótica), cabelo asa delta, calças de veludo da Cyclone, bermudão da TCK, Aldeia dos Ventos, sandalinhas de cristal…

Grandes foram os endereços dos bailes: Melo Tênis Clube, Buraco Quente na Mangueira, Salgueiro, Turano, Country de Jacarepaguá, Valão na Rocinha, Chapéu Mangueira, Morro dos Prazeres.

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Afinal, você se mata toda semana em um sub-emprego escravocrata, que te garante a ilusão de uma vida intensa em um dos guetos da cidade, e o funk assim como no passado foram com o candomblé, a capoeira e as rodas de samba, vinha se tornando a nova válvula de escape da população, num ambiente tão democrático e ao mesmo tempo segregado.

Dos cartéis da droga, à polícia corrupta na entrada do morro exercendo papel de “capitão do mato” moderno, a “patricinha” em busca de excitação não encontrada numa vida de mimos na zona sul… A cidade transpirava ansiedade e seus personagens se encontravam nos bailes de sábado à noite.

Na imensa subida do Salgueiro, a estreita viela no Turano ou da ladeira dos Prazeres acompanhado do belíssimo visual da cidade, fazia da entrada no baile, um momento único.

O povo subindo a favela guiada pelo grave das caixas de som do começo do baile, a equipe tocando os clássicos do melody. As motos ganhando o morro, guiadas pelos soldados da comunidade e suas respectivas gatas na garupa carregando ak’s, m16’s, 762, nas costas. As gatinhas de outras comunidades exibindo as famosas calças da gang (tem que ter etiquetinha, se tiver etiquetão foi comprada na feirinha), galeras do break voador, a playbozada da zona sul, o cheiro químico da brizola e a fumaça dos baseados misturados a perfumes e cremes de cabelo. Era a beleza da cidade vista do alto da favela embalada por algum rap do Mc Mascote.

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Nos palcos das equipes Disco Dance Pitbull Cruel, Furacao2000, Pipo’s, Cash Box…se apresentaram Mr Catra, Sapão, Bob Rum, Duda do Borel, Menor do Chapa, Mc Cacau… que fizeram ou ainda fazem sucesso nas madrugadas da cidade.

E na procura da batida perfeita DJ’s como Sany, Grandmaster Rafael, Ratinho, Sandrinho, Cabide…chegaram ao tamborzão, nacionalizando de uma vez o maior movimento cultural do Rio de Janeiro nos últimos 30 anos.

Goste ou não o funk é presente hoje nas boates de São Paulo, NY, Londres, Paris, Luanda, Tokyo…

Grandes tempos foram aqueles dos anos 90, onde uma geração inteira ouviu música através dos poderes do grave espacial do pancadão.  E se alguns só quiseram “ser feliz na favela aonde eu nasci” ou eram “só mais um silva”, quantos não foram embalados num “carrosel de emoções” junto a uma “princesa” curtindo o “rap do festival” porque o “baile foi uma uva” na cidade que “tem ‘mulata’ e futebol, cerveja, chope gelado, muita praia e muito sol”…..

“um anda bonito e o outro elegante”.

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Rudah Ribeiro é produtor e envolvido em projetos com artistas como Emicida, Snoop Dogg e  Karol Conká, essa última de quem é o mais novo manager. Faz colaborações para marcas como Red Bull, Nike, EA Sports FIFA e  dividindo-se entre Brasil e Los Angeles onde mora, criou essa playlist especialmente para você.

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Artivismo

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De São Mateus com Toddy e Val do OPNI, a sentença: “não viemos para vencer, viemos simplesmente para viver”.

por Diane Lima

Uma Arte Ativa. Um estado de arte suspenso. Em Processo. Em que todas as idas e vindas entre um aceno ou outro, toda a doação para um diálogo e toda palavra de apoio constitui no dia-a-dia, micro ações políticas de resistência. Formas de fazer, que nos lembrando o conceito de Escultura Social do Joseph Beuys, se constrói no simples se predispor e em que a Arte, tal como sua redução meramente estética, apresenta-se apenas como resíduo e motivo visual para criar um debate.

Na nossa ida a São Mateus para conhecer o Grupo Opni, uma coisa havia ficado muito claro: era um tipo de Arte da Presença em que as cores nos muros e a tradução do pensamento em formas, não existiria em completude se não fosse o que se passa no trânsito, na interação diária com a comunidade, em atitude, na arte-educação tênue do que aquilo tudo quer dizer. Uma mina que tenta tencionar e impedir de se instalar “nos lugares onde ninguém quer estar e viver” o caminho que para a maioria das pessoas do país foi destinado.

Grupo nascido em 1997 na comunidade de São Mateus, zona leste de São Paulo, carregou através dos tempos diferentes significados  em sua sigla OPNI, tais como Objetos Pixadores Não Indentificados’, ‘Os Policiais Nos Incomodam’ e ‘Os Prezados Nada Importantes’. Hoje, resume-se em ser “um grito de guerra, que representa a voz da periferia!” dividindo-se em diversos projetos como o OPNI ConVida que já teve participações de artistas como Thaíde, Xis e Dexter e na constante construção da “Galeria a Céu Aberto”, onde os artistas mantém desde 2009, um percurso repleto de intervenções.

“São ruas e vielas grafitadas que inspiram comunidades e ressignificam um território marcado pela pobreza e exclusão social”.

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Apesar do tom de entretenimento e de passeio  que um olhar do leigo pode desencadear, não se trata apenas de ruelas coloridas para se visitar. É mais, bem mais. É uma quebrada em seu pleno estado de transformação. Uma palco ativado de uma arte que de nada tem de passiva e introspectiva. Uma arte fazedora que se dá no outro, que toma o espaço público como de assalto e que destitui a figura do artista divino, “é o cotidiano, acessível a toda a gente, processo contínuo, obra aberta para todos os imaginários que na participação, no debate e na ação solidária vão criando mudanças de vida’.

Em nossa chegada na comunidade, uma imersão nessa outra São Paulo, nordestina como nos lembrou Toddy, em que a relação cultural que percorre o nosso imaginário do retirante, da cidade opressora e da São Paulo selva se refazem aos nossos olhos. Do encontro com um cearense que furioso com uma dívida não paga em seu bar, traz a tona o sacrifício que foi para construir aquilo ali – “pra comer eu ia buscar comida era longe!”; do baiano que aparece no Cearense com seu pote de feijoada, mesmo lugar onde 30 minutos antes nos foi servido um inesquecível baião de dois; de um senhor de idade negro cheio de história para contar e que apesar da graça, trocava as pernas e implorava pois mais uma, alcoolismo que não havia  graça nenhuma. E podíamos ficar por horas narrando essas histórias, essas que a gente só houve falar nos números que correm junto a desigualdade social do país. A conclusão é que a galeria a céu aberto é um choque de realidade.

“a gente tem que tentar fazer parte dessa mudança de algum jeito, se a gente vai conseguir a gente não sabe mas a gente acredita que essas pequenas sementes podem gerar grandes frutos”.

Em 17 anos de uma produção artivista  em que predomina a presença e a militância em relação a cultura, a imagem e os problemas da comunidade negra, Val e Toddy, linhas de frente do coletivo já participaram de importantes projetos como ações realizadas junto a comunidades tradicionais e grupos de samba, através do projeto “Esse Graffiti vai dar Samba”, a fundação junto a outros coletivos culturais da ONG São Mateus em Movimento, participação  para representar o graffiti brasileiro no 45º “New Orleans Jazz & Heritage Festival”, que aconteceu nos Estados Unidos dentre outras coisas.

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Para o futuro, eles respondem: “simplesmente fazer.  Fazer sem esperar , porque se a gente for esperar a gente vai parar. Porque você vai querer ficar vendo essa mudança e de repente ela não venha da forma como você está esperando…. então, hoje um dos nossos objetivos é fazer o máximo possível, trocar e dividir”, diz Tody.

Entendendo o que significa ser artista nesse país em que os recursos e o investimento necessário para um debruçamento e uma prática do pensamento e do fazer não chega para todos, que nós aqui NoBrsil chegamos nas linhas que definem o nosso olhar em que a diversidade surge como ativo para a criatividade mas também como diretriz ética produtora de solidariedades. Vive no coração das nossas práticas o interesse em saber quais os caminhos que esses artistas passaram para chegar até ali,  as experiências que impactaram os que estavam ao redor e a forma como encontram para se comunicar e criar belezas, materialidades e inquietações visuais. A tríade História – Experiência – Linguagem é o que nos orienta e o grupo Opni, apareceu como um fiel representante do que aqui queremos mostrar. Essa arte contemporânea, relacional, social que acontece entre eu e você e que deixa a sua lição: “não viemos para vencer, viemos simplesmente para viver”.

O nosso salve ao Tody, Val, Pedro Caravaca, Negotinho, Grande e Cearense pelo rolê, pelo rango, pela conversa, pela confiança e por nos proporcionar uma experiência única.

Do NoBrasil, o nosso muito obrigado.

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Una Isï Kayawa e o Sonho da Cura

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Camilla Coutinho registrou o sonho do pajé Augostinho Manduca de deixar viva, a sabedoria das plantas medicinais.

 

Pode ser coisa só nossa. Mas pode ser coisa sua também.

 

Estamos falando dessa necessidade de se reconectar com a sabedoria ancestral dos povos indígenas, um sentimento que aponta e faz com que nossos olhos sempre voltem e estejam à espreita, em busca de uma forma de se aproximar e entender mais.  Dispostos a entrar em uma nova lógica de pensamento em que a razão não encontra-se numa estrutura una e evolucionista mas, vivenciada por um pensamento ecológico de formas sociais igualitárias em que a experimentação, a reflexão e a contemplação aparecem como um caminho ao que nos assemelha a concepção ocidental de um estado cotidiano de arte, ainda que em suas filosofias, sequer compartilhem de um conceito de estética e arte consciente e por isso, semelhante.

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Nesse nosso caminho aqui NoBrasil em busca dessas aproximações, que surgiu a oportunidade da conversa com Camilla Coutinho, fotógrafa que participou do Una Isï Kayawa – Livro da Cura, projeto pioneiro que teve como objetivo principal, realizar o sonho do pajé Agostinho Manduca Mateus Ika Muru de transcrever a sabedoria medicinal dos Huni Kuin, maior população indígena a habitar o Rio Jordão no Acre. 

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Em quase três anos de trabalho em que subiu mata adentro e percorreu 32 aldeias de um projeto inicial que não iria ter registros fotográficos, Camilla nos contou da experiência de quem esteve perto de um conhecimento que a própria história ocidental não dá conta de quantificar: “tudo começou quando aqui no Rio, passei  à frequentar um ponto de Ayahuasca na igreja do Daime. Lá, encontrei um grupo indígena do Acre e imediatamente me conectei e me identifiquei muito. A partir disso, formamos uma equipe multidisciplinar onde passamos a desenvolver  uma série de projetos culturais com essa tribo e em 2009 comecei a desenvolver projetos lá, saindo mais da cidade e deixando essa coisa que estava mais forte comigo no momento, guiar meus passos”.

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Nas idas e vindas à floresta em que o grupo conheceu  o Seu Agostinho, ele revelou o sonho de fazer um livro vivo, que estaria escrito nos jardins medicinais que ele cultivava mas também, que se tornasse para leitura tal como o dos “brancos”, vontade  parte da sua preocupação em deixar para as gerações mais jovens o conhecimento que por ora era somente transmitido pela tradição oral e que poderia vir a se perder, com a passagem dos pajés da tribo: 

“Os mais antigos sabemos mais ou menos o significado de cada uma dessas espécies, mas estes jovens, eles estão estudando agora. É agora que eles vão começar a reconhecer o nosso documento, a nossa identidade, a biodiversidade da natureza que nós temos. Esse ouro na mão que nunca destruímos”.

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Em uma união de esforços entre o Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o taxinomista Alexandre Quinet, a editora Anna Dantes e pessoas como a Camilla foi possível realizar o sonho de seu Agostinho de reunir pajés antigos e novos para que o conhecimento fosse trabalhado.  Durante 15 dias, os 22 pajés do Rio Jordão debruçaram-se no tema das plantas medicinais e nas histórias tradicionais em oficinas, de onde grande parte do conteúdo surgiu, registrando 106 das 351 plantas reconhecidas como de uso medicinal: “Eu subi o rio com Seu Agostinho nas 32 aldeias e para chegar na última aldeia a gente levava quatro dias de barco. Na mata, ele recolhia entre 10 e 15 plantas e voltávamos para a oficina onde o outro grupo estava fazendo os estudos sobre para que servia cada planta, nome, etc. Nessa missão, aconteceu que eu fui surpreendida porque até então eu só estava fazendo o artístico mesmo, na floresta qualquer coisa é incrível e eu que sempre tirei foto de artista, teatro e produto, me vi de repente tirando fotos de plantas que para eles é um ser muito poderoso, que pode te curar de qualquer doença. Uma experiência para toda a vida.”

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Na conversa com Camilla, todo o diálogo caminhava para um fim difícil de acreditar em uma história mágica para não dizer incrível: “No último dia da oficina, todo mundo foi embora e eu resolvi ficar…queria ir de novo na última aldeia porque é um lugar muito lindo, encantado e isolado de tudo. Eles são muito tradicionais então queria ficar mais um tempo, passar o Natal, o Ano Novo mas, três dias depois, o Seu Agostinho morreu, fez a sua passagem. Nesse dia ele acordou dizendo que queria escrever a última página do livro. Pediu  só para ir antes ali no mato e já voltou passando muito mal, morrendo em seguida no colo do filho que estava com papel e caneta na mão, esperando para escrever”.

 

Naquele momento, a sensação foi de vazio, para ela e para gente que estava a ouvir a história e não acreditávamos que havia tudo terminado assim: “como eu estava com o filho dele que me acompanhou até a última aldeia, o seu neto foi nos buscar fazendo 12h de um percurso que demora 24h e que é muito perigoso e muito difícil. No instante em que eu entrei na morte de um pajé de um povo, foi tudo muito mágico. Navegando no rio, íamos passando nas aldeias e eu ia escutando o choro das pessoas ecoando na mata,  já que na tradição eles choram por dois dias. Nessa hora eu tive a sensação que eu tinha entrado num vazio.”

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 A família do seu Agostinho acompanha agora de perto o projeto que finalizou quase como uma Missão Espiritual do pajé que veio com a intenção de unir povos e dividir conhecimento, no que acreditamos ser um momento de total reconexão entre nós e o berço da cultura indígena: “ as vezes vejo que é um certo desespero que a gente está sentindo também, de experimentar algo novo, de retornar às raízes, já que tá tudo muito rápido, a tecnologia trazendo soluções mas também problemas e a natureza cobrando. Eles, os índios, continuam lá, do mesmo jeito de milhares de anos, vivendo e comendo da terra até o homem chegar e querer fazer uma hidrelétrica na terra deles, porque a luta na verdade é contra o próprio homem. Como estamos com essa corrida forte com a crise do meio ambiente,  toda essa problemática planetária que está completamente conectada à espiritualidade, sinto que os povos indígenas agora passam a ser mais lembrados por uma nova geração em que eles cheios de amor, apesar de todo esse processo de exclusão, estão aí abertos para compartilhar”.

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Sobre isso Camilla ainda nos contou de um momento único de uma cerimônia em que o Cacique da tribo Yawanauá,  Biraci Brasil Yawanawá, profanou palavras de paz e união que NoBrasil deixa como reflexão para todos nós:  ‘eu só queria agradecer porque o nosso criador está no vendo aqui unidos, porque tem tantos milhões de anos que a gente vem tentando fazer isso e só agora nós estamos conseguindo já que momentos como esse aqui são muito raros…… estou muito feliz de estar aqui, que bom que eu estou vivo para ver tudo isso,

vocês são filhos de uma nova era”.

 

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Além do livro, o projeto resultou na exposição da Camilla, o Sonho que Cura, que foi montada no Parque Laje, onde sem nenhum patrocínio e com a ajuda de muitos, eles reproduziram um Kupixawa, oca que é tradicionalmente uma casa de cura, onde fotos foram plantadas ao redor e colocados no alto para que todos se sentissem observados, tendo a sensação de estar sendo atingindo por aqueles seres, aquelas plantas, aquela cura: A natureza é o que guia. Eles são muito silenciosos porque os sinais são muito sutis…se estamos aqui conversando e de repente vem uma lambida de vento, isso tem um significado muito forte….e eu aprendi muito .”

Nesse livro que só seria de falas e desenhos e que a amizade conquistou a possibilidade dos registros presentes agora NoBrasil, fica o ensinamento de um projeto que fala do poder das plantas na cura do corpo mas que deixa uma lição também por fomentar a cura em nossos corações e mentes, plantando a sementes para que passe a existir cada vez mais união e aproximação entre nós e os povos indígenas.

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LUVA – Michel Borges, um campeão nas Olimpíadas da vida.

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Thierry Des Fontaines nos apresenta Michel, jovem do Vidigal que deu nocaute em quem disse que não era possível.

 

Prazer enorme em compartilhar LUVA, projeto do Thierry Des Fontaines, um dos mais respeitados fotógrafos esportivos do mundo e que será hospedado aqui, Nobrasil.

 

Hoje é um dia muito especial aqui NoBrasil. Especial porque com essa nova história, estamos colocando em prática o que entendemos sobre o que é ser uma plataforma aberta, quando acontece de podermos abraçar e hospedar idéias e projetos de pessoas que acreditam na diversidade e na força da vivência criativa, assim como nós. Gente que entende não a informação como um produto final, isolada e passiva, mas ela como uma forma de existir e criar outras relações. Encontros que acontecem no meio, nos processos e na união de esforços, mãos e cabeças pulsantes. Explosão fruto da conexão entre um e outro, entre nós e vocês. Por isso, o prazer enorme em compartilhar LUVA, projeto do Thierry Des Fontaines, um dos mais respeitados fotógrafos esportivos do mundo e que já passou aqui pelo NoBrasil quando mostramos o seu projeto Bola, momento onde nasceu a primeira semente para criarmos uma ação parasita e hoje hospedarmos esse que será o retrato documental do boxe brasileiro rumo ao Rio 2016.

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Com LUVA, iremos acompanhar junto com o Thierry, histórias como o do boxeador Michel Borges, atleta carioca do Morro do Vidigal e sua trajetória de superação que o fez chegar até aqui e hoje ser promessa de vitória nos Jogos Olímpicos. Apesar da desculpa, adiantamos que não se trata de medalhas e instituições esportivas, mas sobre paixão, lutar, conquistar e ir mais longe. Também, sobre todas as adversidades de quem se arrisca e tem coragem de fazer o que ama, vivendo no que pensamos ser um estado pleno de arte, onde uma constante motivação interna encontra a determinação e a coragem.

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Conversando com o Thierry, descobrimos que o projeto nasceu da sua paixão pelo boxe e pela beleza que enxerga na imagem do corpo projetado na prática desse esporte, plasticidade que ele conseguiu capturar de uma maneira muito particular quando nos apresentou as imagens incríveis que fez do Michel, em suas palavras “um menino gente boa, simpático, centrado e com a cabeça no lugar”.

Nascido e criado no Vidigal, como faz questão de frisar, Michel que  começou aos 10 anos de idade e além da Seleção Brasileira também serve ao Exército, contou-nos que foi o incetivo do seu pai, um trabalhador da construção civil, que o levou ao esporte: ” quando eu era apenas um menino brincava muito de lutinha com meu pai, era a coisa mais divertida de fazer em casa com ele. Sempre que era possível assistia vídeos de grande lutadores de boxe, meu pai sempre falava pra mim que não teve a oportunidade de apenas treinar e competir pois tinha que trabalhar duro na “obra”, e foi aí que começou o amor pelo esporte”.

Depois de algumas conversas e muitas mensagens onde aos poucos foi possível sentir a pureza, a natureza, a dedicação e o caráter desse menino que mudou o rumo da sua história, um fato nos emocionou. Pedindo desculpas, confessou que parte da sua correria para além da vida de treinos, estava nos problemas que seu pai estava passando com uma doença chamada Neuralgia, somado ao problema da sua família, nessa altura da vida, ainda não ter a casa própria: “eu liguei para minha mãe, pra dizer mais uma vez que eu queria ajudar eles, porque eu não queria que ele continuasse trabalhando. Meu pai relutou não queria aceitar porque quer que eu construa as minhas coisas mas depois, apesar dele ser cabeça dura, acabou aceitando, o que me faz pensar que para ele ter feito isso, realmente a situação não deve estar nada boa.”

Naquele momento, ficou claro de onde vinha a sua motivação para ir em frente. Da vontade de querer dar uma melhor condição a uma mãe que passou a vida trabalhando em casa de família e ao seu Severino ou seu Raminho, pra quem ele hoje já transforma em realidade, o que era apenas sonho.

 

Ao ouvir o Michel que agora treina em São Paulo, pensamos quantos jovens e crianças poderiam ter o mesmo destino, se tivessem o mesmo incentivo e amparo: “Apesar de todas as dificuldades que minha família passou pra criar eu e minhas 3 irmãs, em uma comunidade que era dominada pelo tráfico, fico muito feliz pela educação que nos foi dada, e agradeço muito aos meus pais por tudo pois se não fosse  eles  hoje eu não seria um atleta de elite da Seleção Brasileira. Por minha família ser bem humilde e não ter condições de ter uma casa própria é o que me mantém muito forte pra conquistar meus sonhos, “vitórias” no boxe e conseguir realizar meu grande sonho e objetivo que é dar uma casa do jeitinho que eles merecem”.

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Essa atitude nos deu a certeza de que com ou sem medalhas, esse boxeador hoje com 23 anos é um campeão nas Olimpíadas da vida, representante vitorioso da dureza do que é nascer pobre numa favela nesse país, situação que te condiciona a não ter perspectivas e a não poder e nem querer sonhar com dias melhores. Que traumatiza, revolta e fere ao ter que ver alguém da sua família trabalhar ainda que sem condições físicas, ao ver destrato, sofrer diariamente humilhação, preconceito e racismo .

Além disso, Michel Borges é um exemplo vivo do que o esporte pode fazer por uma criança, é um nocaute em que diz que não é possível e um grito de esperança contra a corrupção, as diferenças sociais e exclusão que persistem em existir nesse país.  Por isso, será para ir fundo sobre o esporte como veículo de transformação a nossa próxima matéria, em que ele nos apresenta o cara que acreditou, o disciplinou e é seu mestre: Raff Giglio. 

 

Queremos finalizar dando um salve ao Thierry por nos possibilitar fazer parte dessa história contada por belas imagens e muita verdade. Ao Michel, o nosso profundo obrigado por representar a nação com tamanha bravura, competência, garra e humildade. É apenas por pessoas como você que o NoBrasil existe nesse nosso papel de incentivar, ver brilhar e empoderar  a quem essa mensagem chegar, que acredite:  a revolução, a transformação e a mudança acontece dentro de você. 

Com a presença da sua pessoa e imagens incríveis, NoBrasil convida a todos a se inspirar, superar e vencer.

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Com Tempo Com Coragem Com Coração:
A Militância Estética de Thaís Muniz

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Com os turbantes, ela quer trocar com as pessoas, ganhar sorrisos e devolver espelhos.

por Diane Lima
Ilustração: Marcos Almeida

 

Uma performance de contato que através da poesia estética dos turbantes, promove  uma forma particular de trocar com as pessoas, ganhar sorrisos e devolver espelhos.

 

Essa é uma das missões por trás do Turbante-se e a grande paixão da designer e gestora criativa, Thaís Muniz. Baiana de Feira de Santana, Thaís é uma dessas pessoas de alma lavada, que nasceram para contagiar e literalmente fazer a cabeça de todos os que aparecem à sua frente, motivo pelo qual foi uma das grandes inspirações para que o especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira acontecesse. É preciso que seja dito ainda que essa turbanteira e uma das mentes mais criativas que conhecemos é também parte da família NoBrasil, que viu como amiga-irmã crescer vontades, nascer obstáculos nunca deixando portanto de nos lembrar que a luta sempre vale a pena. Aqui estamos e fica registrada então a nossa mais profunda gratidão. 

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 Seja através das performances, de um workshop ou dos tutorias que lança em sua página no Facebook, a ação apesar de pacífica e lúdica tem bem claro o  seu objetivo: causar pane nos padrões de beleza dominantes, reverenciar e espalhar a beleza da cultura e estética negra e, acima de tudo, propor o turbante como veículo que conduz o resgate da auto-estima. Entre as ações já realizadas estão a participação dentro de hospitais no Outubro Rosa na campanha contra o câncer de mama, os encontros com jovens que buscam por um momento de transformação e afirmação da beleza, vivências em quilombos como o do Gurugi na Paraíba ou em festivais como o que ocorreu na cidade histórica de Rio de Contas, local no qual inclusive, a performance de contato Turbante-se nasceu: “foi um lugar especial para celebrar tudo o que eu vinha fazendo por ser em um quilombo cuja sua vila era povoada por escravos fugidos. A performance que leva o mesmo nome do projeto e que aconteceu a convite do Festival Rua dos Inventos, propôs que as pessoas trocassem um sorriso por um turbante e uma foto instantânea (tipo Polaroid), imagens feitas em colaboração com a fotógrafa Shai Andrade. Da reação das pessoas tivemos filas, convites para ir até as casas e um envolvimento que marcou, foi profundo e até inesperado.”

 “A ação ocorreu por toda a cidade e a galera ficava falando que onde tinha burburinho, é porque tinha turbante no meio”.

 

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1510586_464113877051396_1383266811_nFotos acima de Shai Andrade

Uma moda que não é consumo pelo consumo

 

Apesar de trazer  uma prática que reúne estética+pano+adorno e tem tudo para ser enquadrada enquanto “moda”, Thaís se coloca em um lugar onde as fronteiras, os rótulos e as vontades de fazer não tem limites, e em que a causa é mais importante do que o produto/serviço do seu trabalho. Nesse lugar, o que vale mais é o alto nível de sensibilidade empregada e feita através de um objeto cavalo-de-troia que promove uma reflexão sobre as mudanças de paradigmas inscritas na memória do corpo no que tange o seu aceitar e se permitir: ” sempre que me perguntam seu eu trabalho com moda eu sempre fico em dúvida se digo que sim, ou se digo que não diretamente, porque por mais que eu desenvolva um trabalho ligado ao indumento, não é uma moda como instaurada no imaginária, consumo pelo consumo. Isso está expresso também em trabalhos de outras pessoas que se posicionam como eu de forma independente e dentro do design, pois quando gerimos todo o processo, da motivação à pesquisa, começamos a entender de maneira mais latente como é possível interligar todos os suportes na construção da nossa própria linguagem, que pode as vezes nem ser de moda, mas traduz o que você quer dizer .”

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10003928_464100267052757_1419956570_nFotos acima de Eládio Machado

Garimpando tecidos por onde passa e depois ressignificando-os seja com sobreposição de padrões ou intervenções de artistas convidados como fez com o grafiteiro SuperAfro, a designer vem preparando o lançamento das suas próprias estampas além de uma série de documentários. Traz ainda como reforço à construção da identidade da sua marca, uma embalagem feita com as saudosas redinhas de fruta normalmente encontradas nas feiras como a de São Joaquim, na capital baiana. A perícia no recontextualizar o objeto popular é parte ainda dessa tentativa de imprimir na tradição, um olhar contemporâneo, reinserido-o como elemento possível para fazer uso no dia-a-dia da mesma maneira como encara o acessório de cabeça. Pra gente, fica claro que não se trata apenas de delimitá-lo no pior do que a palavra tendência pode representar quando emaranhada com o consumo, mas de posicioná-lo como dispositivo simbólico que representa para além da nostalgia e do desgaste de um elemento cultural, as suas transformações, adições, subtrações e dinâmicas. Exatamente como citando Godard coloca a Suely Rolnik quando traçando encontros entre subjetividade, arte, corpo e política diz que:

“a cultura é a regra e a arte é a exceção”.

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Ao ver pelas ruas a tag do artista e grafiteiro SuperAfro e a reflexão que essa assinatura inspira nos muros, Thaís o convidou para assinar  a primeira tiragem de lenços da @turbante_se & co.

 

Da internet, extraiu todo o potencial da rede em reunir pessoas em grupos de interesse para compartilhar a sua causa, promover os eventos e as vendas online, movimentação que está sendo feita agora da Europa, onde faz nesse momento, a Turbante-se EuroTrip.  Em tempos onde muito se discute sobre apropriação cultural, escolheu para se oportunizar a criar trânsitos com outras culturas e deixar a semente sobre o que no fundo significa e representa suas amarrações : “o que sinto é que encontrei uma forma muito especial de trocar com as pessoas. Apesar de o turbante ter sido um elemento que foi renegado por muito tempo é cada vez mais presente um movimento em todo o mundo de resgate e de expressão do seu uso, como um posicionamento político. A minha função é justamente inspirar e ensinar sobre a arte das amarrações, motivo pelo qual priorizo o contexto histórico e a reflexão sobre o que elas representam criando nas pessoas relações de significado para que não se torne algo frívolo, banal e sem o devido respeito.”

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1511366_464092367053547_332253926_n Turbantes feitos para a Marie Claire Austrália em passagem por Salvador

Quando perguntamos sobre o futuro e o que ela espera do projeto, veio a memória uma frase do Osho presente no texto que explicamos o que queríamos dizer com esse especial quando falamos Com Coragem: “É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser”. E como tal, ela pontuou que entre tecidos, estampas, encontros e qualquer pitada de vaidade que possa existir nessa trajetória, o melhor mesmo era quando ao finalizar um turbante vinha o sorriso: “fiscalizo para que a pessoa não fique durante o processo se olhando no espelho e essa sensação de surpresa quando chega ao fim, é gratificante. Maneira de transformar e de mostrar que tudo pode ser de uma outra forma, trocando em dois minutos que seja de conversa, o mínimo de energia porque é nesse momento que as pessoas se abrem, conversam, se envolvem e se apaixonam também. 

É isso que eu espero, continuar gerando sorrisos.”

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4   5Fotos da performance de contato no Festival dos Inventos em Rio de Contas que contou ainda com a colaboração da fotógrafa Shai Andrade

Nosso único desejo é que Thaís Muniz continue conseguindo Com Coragem e esse sorriso no rosto, criar uma legião de apaixonados com a sua militância, pequenas revoluções individuais que agem no único lugar que a  ditadura da beleza não pode chegar: na alma e no coração. 

Vá Fundo NoBrasil.co 

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tumblr_n3ivahbDum1tqa3k8o1_1280  8 9Fotos de Shai Andrade

Saiba mais: http://turbante-se.tumblr.com
https://www.facebook.com/turbante.se

Vá Fundo.

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A jóia rara do samba

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Acompanhe e se emocione de hoje até o carnaval com os desafios da Escola Pérola Negra para subir ao grupo especial.

Só quem sabe a emoção que bate no peito quando se vê de perto a engrenagem que é uma Escola de Samba, é quem já botou o pé numa quadra, num barracão, sambódromo ou quem está dentro dela. É impressionante. E pode nos chamar de #emocionados, porque é assim mesmo que estamos nos sentindo desde que começamos a acompanhar uma das escolas mais envolventes e luxuosas de São Paulo, a Pérola Negra.

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Primeiro, porque só paixão define a complexa tarefa de orquestrar, com tantas adversidades e variáveis, o monstruoso sistema organizacional que, unindo enredo, samba e alegoria, possibilita a construção de um discurso tão homogêneo e único, capaz de condensar toda a diversidade e riqueza da cultura barroca brasileira. Em meio ao caos diário, um desfile de escola de samba parece, paradoxalmente, pôr ordem e trazer uma unidade quase que inimaginável à mistura do que representa as nossas emoções, os nossos valores  e a nossa estética.  Um convite para repensar o que nos faz ser esse povo misturado, coletivo e improvável, que surpreende apenas no ato de existir ao sermos únicos ainda que múltiplos. Se você nunca sentiu isso de perto, o conselho é que venha.

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Nessa levada, é para o NoBrasil uma honra poder ter a oportunidade de acompanhar de perto, a partir de hoje até o carnaval, a construção desse ritual cheio de exuberância que será feito pela Pérola Negra, que vai nos mostrar ainda toda a aventura e sacrifício para sair do acesso e voltar para o grupo especial, lugar que de antemão já sabemos que é o seu lugar.

Nosso pontapé inicial começa com dois momentos muito importantes: os 41 anos da escola comemorados no último dia 07 de agosto e a esperada apresentação dos figurinos pilotos, que tivemos acesso na sexta em primeira mão, com fotos exclusivas de Haroldo Sabóia. Investigando a história da escola, descobrimos que foi fazendo alusão à joia rara e ao rótulo da cerveja Pérola Negra, que a agremiação da Vila madalena nasceu no seu melhor estilo mesa de bar. Mas engana-se quem pensa que é uma escola de bairro nobre, de playba, endinheirados, badalo e boom imobiliária. A Vila da Pérola é a da vida real, quando ela era, de fato, um reduto de operários e de gente que vivia em comunidade, sentimento que a gente vê preservado pela escola quando nos dias de domingo, abre as ruas para que o povo do bairro, do Mangue, do Sem Querer e de todos os cantos, venham se emocionar com esse “exemplo maior de comunidade”.

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Para o carnaval 2015, é o sentimento de retorno as raízes que parece conduzir as decisões tanto dos seus dirigentes quanto artísticas. No âmbito da gestão, muita gente satisfeita com uma diretoria que parece entender a necessidade de um formato organizacional participativo que, ouvindo a todos, recolhe as expertises e sabedorias individuais para fazer o melhor para o coletivo. Na direção criativa, o talento do artista plástico Fábio Borges  que, como carnavalesco, depois de uma teórica quarta parada definitiva do carnaval e de, nesse período de três anos, ter mergulhado nos estudos sobre o design de jóias, reestreia nos sambódromos na maior das coincidências numa escola de nome Pérola: “sendo a Pérola em si uma joia, ela não precisa ser lapidada e estando pronta, tornou-se a sua própria história a melhor a ser contada.”  Fábio nos adianta ainda qual trajeto o samba de 2015 vai puxar:  “por a pérola fazer parte da história da humanidade, começamos no primeiro setor através dos mitos da sua criação entre os povos antigos, que as consideravam uma dádiva divina, uma gota que cai do céu em forma de lágrima dos deuses. Viajamos até a Grécia antiga, trazendo a Vênus Afrodite e em seguida a percepção da pérola como símbolo religioso, normalmente associada a ideia do paraíso ou de muito valor, como na conhecida expressão ‘não jogue pérolas aos porcos’ ou no alcorão quando é dito que ‘os eleitos do paraíso se vestirão de pérolas e serão servidos por donzelas de pérolas'”.

perola_negra_nobrasil_foto_haroldo_saboia-0212Fábio Borges, o carnavalesco da Pérola

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perola_negra_nobrasil_foto_haroldo_saboia-0276Dinho, Presidente da Pérola que juntamente com o vice-presidente Flavinho Pires estão promovendo uma gestão participativa na escola

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Estreando oficialmente no carnaval paulista em 1976, a escola já teve 18 participações no Grupo Especial.  Em 2013 foi campeã do Grupo de Acesso, retornando a Elite Paulistana das Escola de Samba em 2014. Tiveram vários momentos inesquecíveis de glórias e desafetos, alegrias e tristezas, mas sempre sem perder a paixão pelo samba como bem lembra a letra do hino composto pelo poeta Pasquale Nigro, compositor, um dos idealizadores da escola, morador da Vila Madalena e ainda ativo nos assuntos da escola.

Escuta só o samba enredo oficial deste ano e de 2014

Durante nossa visita no barracão situado debaixo do viaduto Mofarrej na zona oeste de São Paulo, conversamos ainda num clima de total alegria e confiança, com outros profissionais que estão colocando de pé esse enredo , trabalhando com total dedicação para que a escola suba novamente fazendo da delicadeza da pérola o seu grande trunfo. Com essa visita que teve como guia a Dn. Nina, uma das diretoras e apaixonadas pela escola, ficamos também bastante ansiosos pela chegada dos artistas de Parintins, responsáveis nos próximos meses a dar vida aos carros que hoje não passam de uma emaranhado de ferro. Acompanhar o fazer de cada escultura, de alegorias gigantes com metros de altura só nos vai fazer lembrar a cada minuto uma frase que o Fábio falou e que  ficou na nossa cabeça: uma vez dentro do carnaval, é quase impossível sair dele.

Entre luxo, história e riqueza é mesmo na maior das passarelas que brilha a mais preciosa PÉROLA NEGRA, a Jóia Rara do Samba.

“Venha, você verá que vale a pena, chegar à Vila Madalena e ver o povo sambar.”

 

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 Saiba mais em: http://www.gresperolanegra.com.brhttps://www.facebook.com/gresperola

 

Vá Fundo.

 

 

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Por debaixo da cordinha

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Pedro Marighella aprendeu com “cumpade Washington” que ensinou pra gente que toda tentativa de enquadrá-lo é inútil.

Essa matéria não era para falar sobre o Pedro (isoladamente) e essa entrevista não era para ser publicada. Primeiro porque a gente tinha imaginado que as respostas iriam tomar um outro rumo mas quando recebemos a bomba, nos demos conta da mensagem subliminar ou da piada interna que sutilmente nos convidava a repensar: Pedro Marighella não poderia ser encaixado em nenhum lugar e toda tentativa de apreensão e enquadramento da sua forma de fazer as coisas,  seria esquivada por debaixo da cordinha como nos ensinou com sabedoria nosso querido “Cumpade” Washington e com o mesmo humor que Pedro certamente deve olhar tudo o que vê.

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Isso porque talvez ele faça jus como contemporâneo e por assim dizer, descompassado desse tempo por natureza, ao que ele diz esperar como artista de si e dos outros referindo-se a pertinência e por assim ser tão pertencente, sai navegando entre as linguagens e suportes, reinventando qualquer experiência cotidiana em um espaço de combustão onde se conectam referências, os tempos e as gerações.

Sobre ela não podíamos também deixar de perguntar – por mais tititi que isso possa parecer –  o que significa ser neto de Carlos Marighella, um dos mais importantes nomes da história do Brasil. Se somos as histórias que temos para contar, não seria espanto algum nosso interesse pelo o que constitui as referências de um dos mais fascinantes artistas da sua geração, sobretudo quando isso quer dizer que elas dizem respeito a história viva do nosso país e o que faz basicamente ser hoje, eu e você. Descendo alguns degraus abaixo da superfície, Pedro é um desses que para nossa sorte, não se contenta com a simplista tarefa de catar os símbolos/signos/conceitos e representá-los de forma decrescente, num exercício óbvio, quando se trata de mexer com referências carregadas de preconceitos ou de todo o estereótipo que cerca quase tudo que envolva a cidade de Salvador. Numa alquimia lúdica e cheia de humor, ele é capaz de esvaziar quase todo o sentido das coisas e preencher novamente, como quando com uma câmera infiltrada dentro de uma lata de cerveja, se embrenhou na multidão do carnaval para criar Mata, Parlamento ou seus projetos de música Som Peba e Omã, metade guerrilha política e metade zombaria, como quem tira onda com sua cara e diz em outras palavras você não está entendendo nada.

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E foi esse um dos motivos que dissemos no início que essa matéria não seria sobre ele. A nossa pretensão inicial era incluí-lo num especial de artistas de Salvador que vem discutindo o pagode como espaço político e de grande relevância sócio-cultural numa matéria que vai ser publicada nos próximos dias de nome “Eles provam a você que você não sabe nada sobre o pagode baiano” mas como a gente também vai até o chão, decidimos que podemos ir a fundo mais pra frente e ele volta numa parte II, parasitada junto com os outros. Também para explicar, o que você, depois da entrevista, vai ficar curioso para saber, quando ele profetiza dizendo “Documentários sendo feitos pelo Facebook”.

 NoBr:  Como se constrói o universo conceitual do seu trabalho nos diferentes suportes em que utiliza? Qual o ponto que une Pedro artes, Pedro música ou Pedro a qualquer coisa que venha a fazer?

 Não sei (risos)… Em 2013 (acho) participei de um bate-papo no Museu de Arte Moderna da Bahia (na programação da mostra “Sala do diretor”) com o Artur Scovino e falamos sobre a importância de experiências em espaços culturais ligados as artes visuais e formação… Bem, em meu caso esse papel (da formação) foi desempenhado por métodos menos convencionais (o que acredito, paradoxalmente, seja o mais comum). Por exemplo, sinto que minha formação tem menos de museu e mais de publicações impressas e experiências cotidianas. Mesmo com uma identificação prematura de minha vocação ao desenho, minha primeira experiência consciente em um espaço das artes plásticas foi só na adolescência, no MAM da Bahia mesmo. Logo, acredito que as instituições tiveram papel meramente legitimador em minha formação básica.

Tomando como princípio que em Salvador, cidade onde vivi praticamente toda minha vida, o circuito tradicional de artes visuais era a até pouco tempo quase inexistente (digo, no sentido de abrigar a produção satisfatoriamente), nos resta retirar do tradicional a responsabilidade pela construção do repertório visual, do discurso, do pensamento plástico e aplicar a outros fatores. Gosto de pensar nas capas de disco da música popular, nas indumentárias, performances e decoração de carnaval como circuitos de artes visuais. E gosto de pensar nessa minha fala como uma provocação também. Nesse sentido, me acho bem apto à multidisciplinariedade (risos) e meu “universo conceitual” deve vir muito daí.

Tudo isso pra dizer que não dou muita atenção pro suporte. A história que contei acima é pra ilustrar como me dei conta disso.

Por esses dias li na Revista Recibo (http://issuu.com/recibo/docs/recibo67__online) um texto sobre o Seth Siegelaub e o fluxo que levou artistas dos anos 60 e 70 a produzirem peças conceituais em forma de publicações impressas… Acho que atualmente é mais necessário/interessante pensar no circuito onde você emprega o conteúdo do que o objeto/mídia da obra. É um fundamento que vem lá da contra-cultura do século XX… ou do carnaval da Bahia (risos)?

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NoBr: Os últimos dois anos vem sendo para Salvador de total renovação cultural. Música, gueto, estilo, expressões libertárias, misturas e novas junções. Como você vê tudo isso? Onde você acha que todo esse “movimento” vai dar e como isso influencia diretamente no seu trabalho?

Não vejo uma renovação cultural total… Ou algo fora do normal numa trajetória de mudança. Discordo (risos). Sempre aconteceu isso só que com repertórios diferentes. Acho que estamos dentro do comum em um processo histórico global. Agora, posso dizer que tenho identificação com o contexto atual em diversos níveis e isso me deixa feliz e me excita. Gosto de produzir pra fazer parte da atualidade. Sempre gostei de ficção científica e sempre achei que o futuro seria não-clássico, tipo, não-homogêneo… tipo, surpreendente. Acho que estamos nisso e indo adiante.

NoBr: A resposta acima define o posicionamento ideológico enquanto pessoa e artista?

Não sei (risos). Talvez sim. Fui condicionado (coisa da minha formação, só pode) a achar que produção artística tá associada a uma problematização de tema (as vezes quero fazer de conta que não acredito mais nisso, mas não). Superada uma questão eu a abandono e sigo adiante. O desencadeamento de fatores históricos, das coisas que me cercam na narrativa do tempo… a expectativa de que do Brasil, da Bahia, de todo tipo de povo não identificado tradicionalmente como protagonista possa surgir uma civilização com novas propostas pra existência. Isso me fascina! Fiz uma montagem que é uma foto de carnaval com o texto “PARLAMENTO”: é uma provocação sobre a possibilidade do carnaval como ferramenta política. Exemplificando. Minha atenção tá nessas coisas.

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NoBr: Não sei até que ponto é confortável ou inteligente a pergunta mas, o que significa vir de uma família que deixou um legado político e ideológico tão forte para o Brasil?  

Ô! Significa muito, né? Eu tava falando dessas formações transversais (que eu acho as mais incríveis)… Pô, meu avô era um parlamentar de 1945 que discutia (os ainda pouco discutidos) direito ao divórcio, liberdade de culto (além das bandeiras tradicionais da esquerda)… noutro contexto era o cara do “pegar em armas” na ALN… e ainda se fantasiava de “mula manca” no carnaval.

http://jornalggn.com.br/blog/lucianohortencio/que-me-importa-que-a-mula-manque-eu-quero-e-rosetar

http://youtu.be/7Mw386dVhcY?t=27m55s

http://www.pedromarighella.com.br/2013/06/16/277/

http://www.pedromarighella.com.br/2013/04/02/233/

Pense aí (risos).

Pensando nele, gosto de pensar nessa utopia de Darcy Ribeiro

(http://www.youtube.com/watch?v=JMlYQzZf3DQ)

Diversidade, democracia, acesso, direitos… são ideias bem difundidas hoje e amplamente divulgadas (com mais ou menos aderência), mas nem sempre foi assim. Não veio com o mundo. São ideias que têm que ser pensadas, aprimoradas e aplicadas. Então, se viver numa sociedade diversificada é um direito aplicado há… não faz tanto tempo (historicamente falando), penso que esse personagem que é meu avô (e outros) se inventou e também foi inventado na tentativa de nos encontrarmos nesse fluxo/prática/utopia. Um personagem de natureza improvável com desafios muito definidos.

NoBr: Onde você imagina que seu trabalho pode te levar? Você pensa nisso, isso importa? Se não, o que importa? Qual a relação dele com o público? O que você espera com ele? Nada ou alguma coisa?

Você contaria a história do capitalismo no século XX pela obra de Michael Jackson? Eu contaria (risos). Espero dos artistas em geral e de mim mesmo alguma pertinência.

NoBr: Você quer falar um pouco sobre os outros projetos? Um pouco da participação na Nova Mão Afro no Museu Afro Brasil ou da Sala do Diretor? E sobre a Bienal, pode falar um pouco do que está desenvolvendo? O que vem pela frente?

 É, falando em pertinência, esses projetos que você citou têm muito dessa preocupação.

Produzi esse painel grande no Museu Afro Brasil, o MATA (que na verdade é uma série com muitas peças), que é uma composição baseada em registros coletados de carnaval e de outras festas super populares e super povoadas. Fala sobre paranoias sociais e se diluir na massa humana, brincando com a definição de “mato”, “mata”. Mato é um tipo de vegetação ou uma definição social? Transporto a iconografia da multidão e da festa familiar pro soteropolitano, pro brasileiro e vou! (http://www.pedromarighella.com.br/category/mata/)

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Publicação MATA from Pedro Marighella on Vimeo.

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“Nem é pagode, nem é morte” (http://www.pedromarighella.com.br/category/nepnem/) é uma série que trabalha até com uma reflexão mais íntima, mas mando esse “pagode” meio como isca… pra deslocar o interesse de grupos específicos. Vou fazer o quê se as vezes aprisionam as palavras em lugares e contextos específicos. As vezes sou abusado e dá nisso (risos).

Tô trabalhando nesse momento num projeto pra Bienal da Bahia, o ENSAIO/PAGODÃO, um espaço de trabalho que vai decorrer numa publicação sobre a cena musical do pagodão (gênero musical hiper popular na Bahia). O mote é inserir o tema, que apesar de extremamente corriqueiro, é pouco explorado pelo meio de artes visuais. Quase uma provocação, é uma desculpa pra uma imersão que me faltava, uma tentativa de familiarização por significados que me inquietam e deslumbram. Em detrimento da saúde econômica e popularidade do gênero, além do preconceito por parte dos circuitos tradicionais, sinto as discussões sobre o tema reduzidas. Estou fazendo minha parte como cidadão, artista e curioso pra ver se a coisa cresce – no maior respeito (risos).

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Bem, acho que além da Bienal o ENSAIO ainda vai me tomar algum tempo e atenção. Tem o Som Peba e o OMÃ que são projetos com música que gosto muito. Quero produzir mais e por aí mesmo. Sem muita surpresa.

Na playlist do NoBrasil o Som Peba + o projeto OMÃ, que Pedro desenvolve junto com Tiago Félix.

NoBr: NoBrasi, significa também não Brasil, sobre a possibilidade de falarmos e mostrarmos um outro Brasil. O Que seria um NãoBrasil para você? Se é que… O Brasil te interessa ou a Bahia te basta?

“Não Brasil”? No sentido de outro…? Não existe. Acho que vocês estão enganados (risos)

O Brasil é o berço do improvável (profetizando).

NoBr: Fale qualquer coisa, pensamento, reclamação, reivindicação,  apelo que você julgue importante e que não foi contemplado.

“Documentários sendo feitos pelo Facebook”.

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