Category: Memória

NoBrasil abre inscrições para AfroTranscendence: programa de imersão em processos criativos com foco na cultura afro-brasileira

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O prazo de seleção é até dia 21.09 e as atividades gratuitas irão ocorrer no Red Bull Station, centro de São Paulo. Saiba mais e inscreva-se!

Foram quase 05 meses de preparação, pesquisa e muita ansiedade para que agora pudéssemos compartilhar com vocês AfroTranscendence, um programa de imersão em processos criativos para promover a cultura afro-brasileira contemporânea. Ele vai acontecer nos dias 08, 09 e 10 de outubro no Red Bull Station, centro de São Paulo.

Entendendo o processo criativo como um espaço potente para se fazer micro-políticas, AfroTranscendence nasce com o objetivo de estimular a troca de conhecimento entre pessoas vindas das mais diferentes práticas e formas de expressões incentivando-as a criar novas conexões, possibilidades e olhares em seus processos de criação tendo como inspiração a união entre saberes tradicionais e contemporâneos das culturas negras espalhadas pelo mundo.

Existem duas formas de participar: inscrevendo-se para a imersão com prazo de seleção até dia 21.09 ou inscrevendo-se nas atividades abertas como as palestras, painéis, video-conferências e exibição de filmes.

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A imersão

Para a imersão serão selecionadas 20 pessoas que durante 3 dias, irão participar de um programa intensivo e gratuito de atividades compostas por palestras, laboratórios, workshops e vivências artísticas que serão divididas em 3 eixos centrais: Saberes, Práticas e Experiências. Tendo a construção de um espaço-tempo de transformação como recorte curatorial, o programa põe em relação as tecnologias e saberes da cultura afro-brasileira com questões fundamentais ligadas as práticas do fazer contemporâneo: memória e ancestralidade, interdisciplinaridade e articulação em rede, local X global, diáspora wi-fi, além de discussões ligadas ao uso de mídias digitais, do espaço urbano e de formas colaborativas do fazer.

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Curadoria

Com curadoria da Diretora Criativa do NoBrasil Diane Lima, AfroT traz um time de mentores composto por diversos especialistas, agentes e pesquisadores em cultura afro-brasileira e estudos pan-africanos que utilizarão de conhecimentos e metodologias experimentais e propositivas para inspirar e exercitar nos 20 selecionados novas formas de olhar e criar:  “Vivemos sem dúvida um momento especial e talvez nunca antes visto para nós povos afrodescendentes e AfroT tem como fonte de inspiração todo esse movimento que conectado e empregando energia criativa em busca de transformação, vem partilhando sentimentos em rede, hackeando o olhar de quem nos olha e fazendo desse nosso corpo político um dispositivo descolonizador do pensamento. E como seria exercitar a potência criativa tendo como inspiração a cultura afro-brasileira e seus trânsitos com as culturas negras espalhadas pelo mundo? Como criar exercícios em direção a liberdade que através da nossa ancestralidade e em diálogo com tecnologias, criarão novas memórias que narrarão hoje quem seremos no futuro do amanhã? Acreditamos que o processo criativo é um espaço de decisão, escolha e poder e AfroTranscendence é fruto dessas inquietações. Um momento onde não estaremos preocupados com resultado mas apenas em exercitar e aprender. Imersos durante 3 dias no Red Bull Station, poderemos nos encontrar, questionar, sacudir, experienciar, recombinar, superar, Transcender”, diz Diane.

Para ter mais detalhes, basta acessar a página http://nobrasil.co/afrotranscendence, tirar as dúvidas sobre o programa, baixar o edital de seleção e se inscrever.

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Empoderadas: histórias negras femininas contadas em primeira pessoa

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Conversamos com Renata Martins e Joyce Prado, criadoras do Empoderadas, uma web série feita por e sobre mulheres negras. Confira!

por Hanayrá Negreiros

A gente aqui no NoBrasil fala tanto de representatividade e de como criatividade é espaço de poder, que quando damos de cara com um projeto desse, que junta essas duas coisas, só nos resta alegria.

O Empoderadas é uma web série feita por e sobre mulheres negras. Renata Martins e Joyce Prado lideram as câmeras e por de trás delas nos mostram histórias de mulheres que estão em constante movimento e articulando suas vidas de acordo com a realidade negra feminina. Mulheres criativas, que nos contam seus pensamentos e pontos de vista e de como lidam com racismo e machismo diários.

11059458_1661107107458849_7307366603609763707_oEmpoderadas especial Marcha do Orgulho Crespo 

Semanalmente as cineastas disponibilizam em sua página no Facebook, entrevistas com essas mulheres, que estão com suas ações em diversos campos de atuação, empoderando e mudando o Brasil. A série vem para quebrar os velhos estereótipos que são reservados para as mulheres negras brasileiras e conta um pouco da história de vida delas, mostrando mulheres em liderança de empresas, historiadoras, bailarinas e outros tantos perfis. Até agora um dos episódios mais comentados foi contando a história da Mc Soffia, uma rapper de 11 anos que conta como lida com o racismo na infância e da importância do seu cabelo crespo.

Conversamos com a Renata, uma das idealizadoras do programa e ela contou pra gente como o projeto surgiu e qual a sua importância nesses tempos do agora: “Joyce e eu, fomos apresentadas por uma conhecida em comum: a psicóloga Clélia Prestes. Há dois anos eu gravei uma palestra da Clélia e conversamos um pouco sobre minha profissão. Meses depois ela conheceu a Joyce em uma aula de dança e, descobriu que ela também trabalhava com cinema e nos colocou em contato via internet. A partir de então, iniciamos um papo sobre nossos projetos pessoais, eu enviei o link do meu curta, Aquém das Nuvens , e ela me enviou o roteiro de um curta que iria dirigir, A Fábula de Vó Itá. Após esse papo online, combinamos um encontro presencial e almoçamos juntas, eu tinha um projeto de curta e a convidei para auxiliar na construção do roteiro. A conversa que era a princípio profissional, se tornou pessoal, conversamos sobre sermos cineastas negras, sobre afeto, e a ausência dele e sobre assuntos gerais que passam por nossa subjetividade.”

Renata conta que a identificação entre as duas foi imediata, pois, ainda que elas partissem de experiências sociais diferentes, o fato de serem mulheres negras as aproximava, as histórias eram muito próximas. E desde então elas se tornaram amigas e aos poucos foram se conhecendo melhor, mas ainda assim não tinham conseguido trabalhar de fato juntas. Isso só aconteceu durante o desenvolvimento do projeto da série de TV Rua Nove, quando uma roteirista e uma escritora não puderam continuar no projeto. Renato Candido e ela coordenavam o desenvolvimento da série e pensaram em alguém que tivesse alguma intimidade com roteiro, foi aí que surgiu o nome da Joyce.

11112834_1661488784087348_6316705699473934024_oEmpoderadas com a consulesa da França no Brasil Alexandra Baldeh Loras. Assita!

Vários questionamentos surgiram sobre a presença/ausência de mulheres negras na construção do discurso audiovisual, seja no roteiro ou na direção. Renata ainda fala que atualmente, essa realidade sofre transformações positivas: “Ainda somos poucas, mas já existimos para o mercado audiovisual como realizadoras, e melhor, somos várias! Eu, Lilian Solá Santiago, Viviane Ferreira, Jéssica Queiroz, Thais Scábio, Larissa Fulana de Tal, Joyce Prado, Yasmin Thayná, Keyla Serruya, Juliana Vicente, Carol Rodrigues, Ana Julia Travia, Michelle Andrews entre tantas outras.”

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Renata diz que a série nasce dessa necessidade de produção, e de experimentação de linguagem. Um nascimento coletivo, do encontro entre duas mulheres negras que colocam seus conhecimentos técnicos, estéticos e narrativos a serviço de outras mulheres negras, que poderão através de suas ações empoderar outras mulheres negras e assim por diante, como se fosse uma corrente, uma corrente de empoderamento. “Ele nasce de uma necessidade de espelhamento, de uma busca verdadeira e de várias perguntas que possibilitam um movimento e sem dúvida, da sensibilidade de quem emprestou, e da pró-atividade de quem embarcou, no início; Joyce Prado, Revista Viração e André Hirae. Minha gratidão a eles.”

É um convite para que todas as pessoas questionem as imagens que consumiram até hoje em silêncio, as histórias que pagaram, pagam e que provavelmente irão pagar de um Brasil que não enxerga os seus com uma mesma lente, é um convite para desaprender hábitos e construções antigas acerca da imagem da mulher.

Renata termina nos contando que a importância de ter um programa como o Empoderadas é a tentativa de, alguma forma fortalecer essas mulheres negras e dizer a elas que não, não estamos sozinhas. São as nossas histórias sendo contadas em primeira pessoa.

11731965_1654903974745829_5588253056704918122_o Em um dos capítulos do Empoderadas, Cris Mendonça e Ana Paula Xongani falar sobre a experiência e os desafios de construir uma marca.
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Um olhar sobre o negro da zona rural

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De Amargosa ao Capão Redondo Mailson Soares nos deixa com fortes olhares uma provocação sobre como muda a nossa voz mas nunca a cor da nossa pele, não importa o lugar de onde falamos.

 

Uma sinergia sobre o que se pensa e o que se vê. Essa foi a sensação que tivemos quando fomos trocar uma ideia com o Mailson Soares. E a coincidência se deu pelo encontro entre o que as imagens diziam e o que daqui estávamos pensando e agora gostaríamos de dividir com vocês: qual a diferença entre ser negro em uma grande cidade e ser negro na zona rural? De Amargosa, do Capão Redondo e agora de Los Angeles, Mailson nos deixa com fortes olhares uma provocação sobre como muda a nossa voz mas nunca a nossa pele, independente dos diferentes lugares de onde falamos.
Conheça, se inspire e nunca esqueça que somos todos filhos e filhas do vento.

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NoBr: Oi Mailson, pode falar um pouco da sua trajetória? De onde você é, onde mora e como chegou na fotografia? Fala um pouco da sua história!

Mailson Soares: Filho de Baiano mas sou de São Paulo, especificamente do Capão Redondo, tenho 23 anos e atualmente estou vivendo uma temporada em Los Angeles- CA, para aprimorar meus conhecimentos. Eu sempre gostei de fotografar, mas não somente o ato de capturar a imagem e sim a composição de luz, enquadramento e principalmente expressões. Meu primeiro contato com a fotografia profissional foi no ano de 2009 quando consegui entrar no “Instituto Criar de Tv, Cinema e novas mídias”, foi la onde conheci um dos meus grandes mestres “Roberto Augusto Sócrates” ele quem foi me ensinando como funciona esse mundo, posso dizer que foi ele quem me abriu os olhos e me apresentou a fotografia, especificamente a luz.

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NoBr: Como surgiu a ideia de fazer esse projeto? Qual motivação?


Mailson Soares:
A ideia não surgiu de uma hora para outra, ela foi surgindo a cada dia da minha vida, a cada história que eu ouvia do meu Pai e da minha Mãe me fascinava para conhecer minhas raízes, e quando eu realmente os conheci eu tinha 4 anos de idade e voltei agora depois de 19 anos para os visitar e retratar um pouco do cotidiano, do estilo de vida que é bem diferente da nossa vida urbana.
Muita gente atualmente não conhece a vida rural, ou se conhece sabe apenas que ela existe, o meu intuito em dividir isso é que além de existir, esse povo tem muita história e muita sabedoria.
A minha maior motivação são eles, pois são a história do Brasil, todos nós viemos de um lugar chamado África, todos nós somos descendentes de escravos e viver essa situação de desigualdade me faz pensar: – Se nós somos os donos de uma rica cultura, e através da nossa cultura foram surgindo outras culturas, e formando o Brasil, porque até hoje somos alvo da desigualdade Racial?
Então essa é a minha motivação, é conseguir aprender sobre a minha história e talvez ajudar as pessoas a conhecerem mais, antes de serem contaminados e virarem bonecos da sociedade.

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NoBr: E sobre os planos de futuro? Pode dividir seus sonhos com a gente?

Mailson Soares: Meus planos para o futuro são continuar aprimorando conhecimento, aprender sobre as diferentes culturas desse nosso mundo e tentar de alguma forma ajudar meu povo, o Capão Redondo está esquecido atualmente, não se vê muitas matérias na tv sobre a criminalidade no capão, isso ja é um bom começo, o próximo passo é continuar a compartilhar nossa historia e mudar esse estereótipo que nos persegue, de que é um lugar perigoso e que a criminalidade domina, de um povo sem cultura e sem expectativa de vida. Isso é mito, meu povo é muito capaz, até mesmo por sermos menos favorecidos a vida toda nós aprendemos a viver assim, tendo em mente que temos que ser 3 vezes melhores.

Muitos de la tem a mesma história que eu tenho, e ligar essas pessoas com as suas raízes, compartilhando um minha vivencia é algo que pode transformar a mentalidade de muita gente.
Meu sonho? Eu sonho em ter uma família, ter meus filhos e principalmente, que eles vivam numa sociedade um pouco diferente, sem essa amnésia de culturas e valores que infelizmente temos hoje.

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#deixaocabelodameninanomundo no TEDxSãoPaulo

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“Deixa o cabelo da menina no mundo é uma metáfora para dizer que é chegada a hora de Ser quem Somos.”

 

Hoje é um dia especial. Pela primeira vez em um ano de NoBrasil me dei a oportunidade de escrever em primeira pessoa e faço isso por alguns motivos de felicidade, entre eles, dizer muito obrigada e reforçar um sentimento que não deixa de ser de esperança: a constatação que estamos todos aprendendo.

Tenho pensando muito desde que participei do TEDXSãoPaulo de qual lugar ecoa a minha voz e o que a minha história pode contribuir para os que vieram dessa vizinhança que na geopolítica, pode ser considerada como a periferia, da periferia, da periferia, da periferia do mundo. Sinto como se o nosso corpo tivesse em uma constante disputa, potencializada pela vontade de nos sentirmos contemplados nesse mundão abismo, que nos faz ser únicos e ao mesmo tempo, muitos. Como um agente político no entanto, nos pegamos a assumir margens para que desse canto possamos ter ressonância diante das violências diárias que somos todos submetidos por apenas ser quem somos. E quando com o NoBrasil falamos de diversidade, é uma tentativa de transformar um discurso tão complexo em algo que chegue para dar um estalo na vida das pessoas já que muitas vezes, com a necessidade de desbravar essas palavras, a gente acabe por nos afastar do mundo real: verdadeiros espaços de ódio como me lembrou uma amiga, ao se referir ao trem lotada do fim do dia.

Estamos todos carregados de dor, buscando o seu e querendo um lugar ao sol que nos dê um pouco mais de energia para ter coragem, coragem para enfrentar as coisas da vida, como me diz minha bisavó. Tentando avançar casas, vivemos como se tivéssemos que vencer cada etapa de um jogo que se faz tão excludente, que nos obriga a falar de representação, ocupação e força. Estamos todos cansados de estar fora, único destino deixado a todas as maiorias-minorias do país. Ainda que entendendo o quanto somos atravessados e gente sem identidade fixa, a quem recorro quando chego num jantar e a única opção é ser a moça do buffet? Talvez isso não seja para você.

O que me traz essa tal esperança é que tem muita gente sonhando, criando e produzindo. E o sonho é o simples despertar que existe para nós uma outra opção. A criatividade é lida aqui como a capacidade de recombinar elementos éticos, estéticos e estratégicos para construir esses novos horizontes, seja nas artes, no design, na comunicação, na educação ou nas tecnologias. Agentes políticos que entenderam que o processo de criação é um espaço de decisão, escolha e por assim dizer, poder, e que teremos que nos reinventar ainda com as marcas da pele.

O nosso objetivo então é um só: conectar essas pessoas. Gente que está transformando o país através da criatividade. Gente que está fazendo micro-revoluções e que entenderam a responsabilidade que existe quando materializamos coisas que dão sentido ao mundo. Que perceberam a violência que existe no simbólico, esse lugar que vai além do que a gente poder ver e descobriram que energia criativa é um bem precioso e que com ela, podemos produzir solidariedades alterando a realidade que tanto criticamos.

Deixa o cabelo da menina no mundo é uma metáfora para dizer que é chegada a hora de ser quem somos! Que somos fruto das histórias que temos para contar e que precisamos continuar aprendendo desse lugar de onde a gente veio, sempre!  Quero ainda agradecer por ter encontrado cada um de vocês, seja no online através do facebook ou do instagram, ou pelas ruas da vida.  Como vocês sabem, continuar esse trabalho não é coisa fácil mas venho acreditando que podemos transformar a nossa dor em ação para que nunca percamos a capacidade de sonhar e criar esses novos mundos. Energia criativa que possa fazer meu cabelo simplesmente, existir.

Com carinho e cabelo no mundo, Diane.

Agradeço especialmente a Mamãe, Vovó Catarina, Vovó Dag, minha irmã Denise, Fernando meu companheiro, tios, tias e primas além dos amigos Gerardo, Tarcísio, Mahal, Yasmin e Cindy, por me aturarem nos dias nervosos de Ted e a Fernanda Yamamoto por me vestir em poesia.
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Um mar sem margens

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Rodrigo Sombra apresenta em imagens o quanto somos sem identidade fixa.

por Diane Lima

Pouco menos de 1 ano, no iniciozinho do NoBrasil, conhecemos o trabalho de Rodrigo Sombra. As imagens vieram logo acompanhadas de uma interjeição-suspiro que nos fez questionar de onde era e quem era a pessoa responsável por tamanha beleza. Apesar de ser um dos trabalhos mais incríveis que desde então a gente encontrou pelo caminho, naquele momento em que estávamos entendendo ainda o que éramos enquanto plataforma e de que lugar estávamos falando, a relação geográfica transformou-se em uma questão: não era Brasil, era Cuba.

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Apenas daí vocês podem ter ideia do que hoje nos traz de volta até o Sombra. Em um momento em que nos questionamos sobre fronteiras, as nossas entre o online e o offline, entre eu, você e o mundo e os trânsitos que nos constituem nesse lugar desprovido de unicidade, um trabalho que nos fala de um mar sem margens, não poderia deixar de estar aqui presente. Com imagens feitas em filme, em Santiago de Cuba, Havana e algumas outras no Benin e Bahia mas que poderiam ser em qualquer lugar entre Dakar, Brixton ou Kingston, ele traz de Cuba pouco ou nada desse lugar inventado e dizível, “com suas ruas buliçosas, vida luxuriante e decadência arquitetônica”, universo que o artista e pesquisador  buscou ir na contra-mão e que ganha apoio numa fala baseada na obra do Édouard Glissant que explica o nosso interesse pela memória desse corpo transeunte e que está presente no único áudio que conseguimos resgatar nesse oceano que nos separou entre esse tempo:

“um mar sem margens, um abismo espacial, horizontal. Um abismo da memória. A narrativa fundadora dos povos da diáspora é o navio negreiro, é o abismo total;  não há nesse sentido nenhuma lógica de filiação, é o estar na água, é a abertura ao novo, ao outro. (…) o conceito de opacidade é muito presente nos meus trabalhos. Você quase não vê. A ideia é que a pessoa não tenha identidade fixa, que a pessoa se pergunte o que ela está vendo. Não é ilustrativo do que é cubano ou brasileiro, é mais uma pergunta”.

1 ano depois que chegamos aqui questionando todos esses lugares e redomas, do que é ou parece ser, do que somos ou de quanto de você habita em mim e de como podemos aprender nessas diferenças, acordar numa quinta-feira com Sombra foi manifesto insurgente para acompanhar uma passagem de ação: movimenta-se como a água, pois uma gota acaba de cair.

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“Respeitar os direitos indígenas é acima de tudo, nosso dever”.

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Conheça a Tucum, projeto que promove a arte indígena e o design sustentável e vem tecendo uma rede inspiradora entre os povos.

Por Véronique Véra Mbida
Foto de capa: Simone Giovine

Tucum é o nome de uma palmeira encontrada em todo o território brasileiro, cujas folhas, frutos e sementes são amplamente utilizadas por povos indígenas. Forte e resistente como a fibra extraída das folhas, TUCUM pretende tecer redes entre os povos do Brasil, oferecendo uma experiência emocional através do apelo estético. Convencido de que a arte e a moda são linguagens universais que têm uma capacidade de sensibilizar  e engajar as pessoas, TUCUM destaca a importância da valorização do artesanato dos povos indígenas do Brasil como um patrimônio que todos nós devemos zelar, aprender e interagir com o máximo respeito, transparência e acima de tudo, responsabilidade.

“Conhecer a nós mesmos na história é ver a nós mesmos
como objetos; é ver a nós mesmos no modo da terceira
pessoa em vez de deliberar e agir como sujeitos e
agentes na primeira pessoa.” Akeel Bilgrami.

Se posicionando como uma marca ativista, Tucum foi formalmente criada no verão de 2013 mas, no entanto, para Amanda  Santana, ex-cabeleireira e maquiadora profissional, a aventura começou bem antes, quando ela conheceu o seu marido, um antropólogo indigenista que já morou em meio aos povos indígenas e segue trabalhando com a causa há mais de dez anos. Amanda nos conta que um dia ela decidiu se juntar a uma das viagens do Fernando, momento em que foi pega cheia de preconceitos e que lhe deu a certeza o quão é folclórica e estereotipada a visão que os livros de história nos conta sobre as culturas indígenas,  que pouco ou nada teve a ver com a realidade com que ela encontrou: “São pessoas como você e eu! Só que eles tem um modo diferente de enxergar o universo”. Ela nos contou também que apesar de cada vez mais existir o contato com tecnologia, o seu uso vem sendo aplicado sem prejudicar ou onerar os princípios de suas vidas . Usam por exemplo o celular para filmar seus rituais e depois publicam as imagens no Facebook, acreditando que isso gera uma outra forma de troca com outras etnias e outras aldeias.

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Completamente enfeitiçada com tantas maravilhas, após a primeira viagem Amanda conheceu muitas outras tribos. Ela costumava trazer descobertas incríveis que usava com orgulho todos os dias no seu salão de beleza, antigamente localizado na rua Jardim Botânico aqui no Rio de Janeiro. Gradualmente, acabou passando o amor pela estética indígena para amigos, pessoas próximas e clientes que sempre pediam que ela trouxesse mais novidades. O salão de beleza passou a ser usado como espaço para um bazar, que por sua vez deu luz em Santa Teresa à loja TUCUM, uma verdadeira ponte entre o centro urbano e os povos tradicionais brasileiros: “Na Tucum, indígenas, pesquisadores e artistas fazem parte de uma rede plural e aberta de conhecimento, troca e criação. Nosso propósito é difundir a diversidade cultural expressa nas artes e ofícios, valorizando os diferentes modos de criar e existir. Nos preocupamos com toda estrutura da cadeia produtiva, a fim de estabelecer duradouras parcerias. Nas relações estabelecidas com os artesãos, atentamos às questões políticas, socioambientais e particularidades que os diferentes contextos locais nos colocam. A Tucum é também uma forma de ativismo.”

Por conta do trânsito, Amanda se vê como uma curadora. Cada produto é fabricado artesanalmente, guardando características únicas e não é difícil perceber as diferenças entre as peças feitas por um povo e outro, graças aos padrões gráficos, às cores ou material preferencialmente usado. O exemplo é a semente da tiririca, também chamada “capim-navalha”. Por causa dos seus espinhos é tradicionalmente usada no artesanato Krahô, uma etnia que habita o norte do Tocantins. Os Kayapós, por sua vez, utilizam miçangas de variados tamanhos e cores geralmente vivas, criando grafismos que representam a cosmologia própria da etnia. Prezando pela transparência, o site lançado uma semana atrás é bastante completo e fornece informações sobre a história de cada peça, com dados sobre o povo, o artista-artesão, o tipo de material utilizado, as técnicas e os conhecimentos associados. Traz também uma mapa que mostra onde vivem todas as 12 etnias que estão ali sendo representadas: “Manifestações estéticas fundamentadas por saberes ancestrais transmitidos por várias gerações. Modos de produzir que não são estáticos, ao contrário, possuem um caráter dinâmico, em constante processo de transformação. Nosso interesse está especialmente nas dinâmicas próprias com que cada povo interage tradição com inovação e incorpora elementos contemporâneos e de outras culturas”.

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TUCUM1 A Capim-Navalha e a Semente de Tiririca

Essa troca cultural não seria possível sem a ajuda de um Rede bem estabelecida de organizações, como a APAMINKTAJ – a Associação das Produtoras de Artesanato das Mulheres Indígenas Kaxinawá de Tarauacá e Jordão, que tem como objetivo, organizar as artesãs indígenas na busca de mercado para agregar valor aos produtos aos mercados não-indígenas, o CENTRO CULTURAL KÀJRE, que trabalha na organização do manejo sustentável de matérias-primas (sementes de tiririca, cabeça-de-formiga, fibras do tucum e buriti) e na comercialização das peças já prontas, e também o Terra Comum, projeto da Duda Souza que nós falamos por aqui na divulgação do crowdfunding para a revitalização da Escola Mavutsinin na aldeia Kamayurá e que vem realizando projetos incríveis pelo Alto do Xingú.  Para nós aqui NoBrasil, para além da exuberância que a estética artesanal nos proporciona,  aos nossos olhos, a maior beleza do projeto é a transparência nos diálogos em relação a uma comercialização justa como também, ser a Tucum um mecanismo que infiltrada nos espaços de poder do mundo não-indígena, serve como catalisador das causas políticas e econômicas do movimento indígena, como uma recente mobilização para visibilizar o sequestro de um jovem Kaiowá de 17 anos e o apoio contra o Projeto de Lei n.º 7.735/2014 (atual PLC n.º 02/2015) que sai em defesa dos recursos genéticos e patrimônio tradicionais do Brasil.

Nesse sentido, é preciso que cada vez mais entendamos os trânsitos dos objetos no mundo não somente em sua faceta decorativa e de adorno, mas sobretudo pelo o que ele representa enquanto força motriz para geração de renda, significado simbólico na troca entre povos e principalmente, discurso político. De cá, ficamos com a gratidão de ter uma marca brasileira tecendo diálogos e abrindo caminhos para que cada vez mais pensemos as culturas e os direitos indígenas como parte essencialmente de nós.

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Colares de miçangas feitos pelos povos do Xingu

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DRR Posse: Defensores do Ritmo Rua

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Contrariando as estatísticas, Mr. Grande-E conta sobre sua história de superação e o crescimento da D.R.R. Posse, a primeira posse do Brasil: “a mesma arma que matou ele, me atingiu também, mas eu sobrevivi.”

por Diane Lima
Imagem da Capa de Quinho Fonseca

 

Conhecemos o Mr Grande-E em nosso rolê com o coletivo Opni em São Mateus, extremo leste da cidade de São Paulo. Digamos que esse tenha sido o nosso primeiro contato formal, já que na real, a gente já sacava a DRR Posse por ver vários manos portando bonés e camisetas com a marca – que até então a gente não sabia o que de fato significava – e claro, pela conexão fechada do nosso parça Flavio Pires que nos apresentou a essa cena do hip hop da ZE.

Depois desse primeiro encontro que rolou num bar onde, nada mais, nada menos, para a nossa surpresa, um barrão era assado por inteiro em um sábado desses garoado e gordo de SP, entramos no carro do Alessandro Almeida Souza, vulgo Grande, que nos deu carona quando já estávamos de partida. Nesse caminho, enquanto ele ia fazendo revelações sobre a sua batalha de vida, íamos nos surpreendendo com uma história dessas que tinha tudo para ser ficção, mas que estava ali contrariando as estatísticas através do relato de mais um sobrevivente a escapar do já conhecido destino dos jovens das periferias do Brasil.

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Com 38 anos, 26 deles como militante do movimento hip hop, Grande começou como dançarino de break em 88 quando frequentava a Praça São Bento, no centro da cidade. Mudando-se para São Mateus em 92, passou a integrar o D.M.B – Defensores do Movimento Break até criar a D.R.R Posse – Defensores do Ritmo Rua, a primeira Posse de Break Rappers, dançarinos e grafiteiros de São Paulo. Para quem não está ligado, uma Posse é a mesma coisa do que se chama nos EUA de uma crew ou ainda mesmo, um Bonde. Nessa época, era comum a DRR, que já se chamou também Defensores do Movimento Break, enfrentar rachas em outras zonas e bairros da cidade: “Quando a gente ia rachar com os caras da zona sul por exemplo,  isso queria dizer que íamos participar de uma disputa de áreas para ver quem era o melhor dançarino. Passaram a existir várias Posses em SP como por exemplo, a Jabaquara Break… era um período que o  Rap ainda era uma coisa nova NoBrasil, meio que acabando de chegar…”.

Junto com a DRR veio o DeMenos Crime que foi o primeiro grupo de Rap da Posse e que inclusive lançou em outubro o clip A Todos da Várzea com a presença do Ronaldo Fenômeno e também o Consciência Humana, este último, que lançou ano passado seu álbum Firma Forte. A Posse é ainda oficialmente representada pelo B-Boy Catatau, que em total atividade, participa como júri de vários outros rachas em todo o Brasil além de nos representar pelo mundo.

Pichador nato como costuma se denominar,  foi através da intimidade com os desenhos que Grande, que também trabalhou para várias marcas no Brás, lugar de onde ele diz ter criado a Fatal Surf – nome que em 2011 atingiu o quarto lugar das marcas de esporte mais vendidas no país,  teve a ideia de também começar a fazer camisetas e bonés da DRR que logo se transformou e ganhou o título de ser A MARCA (assim mesmo em letras garrafais) a representar o Hip Hop Brasileiro.

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Para chegar até aí, portanto, muita coisa aconteceu. Por volta de 1996, Grande entrou na vida do crime, período que durou 04 anos até ser preso e ver seu parceiro de todas as fitas conhecido como Pancho, ser morto pela polícia: “sei que ele tá olhando por mim, como antes eram duas pessoas em uma… eu e esse mano, sem palavras…. a mesma arma que matou ele, me atingiu também, mas eu sobrevivi…”.

Hoje em liberdade, Grande nos contou que de três em três dias sonha com Pancho: “ele era uma das pessoas fortes no meio da revolução do rap…. desde que ele morreu, eu sonho com ele no rolê comigo, conversando de fitas que acontecem hoje em dia, é muito louco…. até falaram para eu acender umas velas, fazer umas orações para ele, é como se ele não tivesse morrido…”

Caravaca PedroFoto: Pedro Caravaca

E uma das motivações, que ele nos contou ter sido crucial para cair na criminalidade, foi a vontade de fazer seu disco: “antigamente, a gente não fazia música para atacar um outro MC e sim para atacar o sistema… era contra a polícia, contra o governo e contra pobreza…. na nossa época não era como hoje, era gente passando fome na rua de verdade… hoje em dia tá muito fácil né, qualquer um baixa um programa pelo pc e faz uma música, uma base de rap. Na nossa época não era assim, na nossa época a gente pegava os pedacinhos de fita cassete, pegava os loops, juntava e cantava em cima. Agora você imagina em 88, em 89 sem internet, sem whatsapp, sem facebook, como que a gente tinha que divulgar o rap? Era tudo no corpo a corpo, indo nas escolas, entregando os flyers, indo nos bailes, era muito dessa fita, tiu!”.

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1 – “Hoo mr.grande-E se escondendo do freshi pois nessa época estava sendo procurado hastra bone do BRASIL” 2 – Pancho e Grande-E   3- Grande na época do grupo U-Negro 4 – Com Pancho

Hoje, com três filhos que estudam e fazem faculdade, Grande continua morando na Vila Fundão de São Mateus, no pé do morro, na 3 divisão, trilhando a sua missão de revolucionar ao ser exemplo de superação, que nos lembra todos os dias o que de fato é e como nasceu o rap nacional, que apesar de agora atingir seu momento de glória, alcançando novas escalas de mercado, de reconhecimento e de penetração na vida cultural do país, já teve seus dias de sufoco e de total exclusão. Nesse sentido, a história do Mr. Grande-E nos aproxima de volta ao significado principal desse movimento no combate aos problemas sociais e da realidade sobre o que acontece nas favelas e quebradas de todo o país: “é o que eu falo para o pessoal: a gente é da velha escola, velhos trabalhadores, a gente trabalhou, a gente construiu o rap, a gente fez o alicerce do rap, a gente carregou as lata de concreto do rap e se hoje ele está com mais acessos, tem que dar graças a essa velha guarda. Não tenho nada contra a geração nova que está chegando, mas acho que eles tem que ter cuidado com as pessoas que deixaram a casa arrumada, certo?  Começar a convidar o pessoal das antigas, dizer que estamos aqui, dizer que estamos vivos…. é o que sempre falo também, a gente pegou tudo dos americanos, a gente pegou o estilo, pegou o jeito, as batidas e a música mas o que a gente não pegou foi o business, porque, pô, se a gente ensinou os caras a fazer o rap e eles mesmos dizem que foi a gente que ensinou a fazer esse rap diferente, então ensina a gente agora, também, sobre esse novo mercado! Porque eles não chegam aqui e falam: olha, o sonho de vocês não era montar uma estrutura boa na periferia, a gente foi lá, provou do filé então vamo provar do filé junto com a gente – porque aqui a gente ta comendo osso ainda! Eu não acho justo de esquecer os outros rappers e eu também não acho justo deixar tudo nas costas dos Racionais porque o Brown não vai ficar 70 anos cantando rap…. também acho injusto com a gente mesmo, que batalhou pra que eles estivessem nesse lugar aí hoje, que esses MC’s estejam brigando entre si! A gente tem que brigar é contra o sistema e aproveitar essa mídia toda que eles tem hoje para isso porque essas TV’s, que estão pegando esses MC’s novos aí agora, foi porque não conseguiram pegar a gente…. porque na nossa época, o que que a gente pregava? A gente pregava que a revolução não seria televisionada!”

Untitled-1“Gostaria que vocês entendessem que tudo que fiz até hoje foi por amor e que minha caminhada não acaba….. se eu sai, então segura sua onda e fica de boa…. meus mano tão comigo, o rap tá comigo e eu tô com vcs”.

 

Olhando para o futuro,  Grande dividiu com a gente ainda, seus próximos passos, como o lançamento do site da D.R.R previsto para início de 2015, além das suas aspirações de expansão da marca, que já conta com representantes em vários estados como Recife, Santa Catarina, além de cidades como Hong Kong, Los Angeles e Nova York: “estamos trabalhando aí, desenvolvendo novas estampas e batalhando para transformar a DRR numa marca conhecida em todo o Brasil. A gente quer sair do gueto e deixar o mundo ver a nossa história, saber que estamos aqui, na luta, fazendo a revolução. Além disso vou lançar meu novo álbum que vai se chamar Antes Só do que Mal acompanhado.”

Queríamos agradecer ao Grande por ter aberto a sua vida, contado a sua história e nos inspirado sobre a importância de superar e resistir. Sem dúvida, a D.R.R Posse representa a tantos outros jovens dessas quebradas do Brasil, que vê na história da marca um símbolo de força e coragem. Para além do que essa história contou, a D.R.R é, principalmente, símbolo que representa aqueles que, ainda enfrentando todas as adversidades e muitas vezes errando, prova que é possível, sobreviver e vencer.

Tamojunto, é tudo nosso Tiu!

Um Salve a família D.R.R, Pedro Caravaca, Coletivo Opini, Denis e a Torcida Jovem, 100 Querer, Pérola. ÉNox.

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Caravaca Pedro 2Foto: Pedro Caravaca

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LAOR: Coragem para viver, paixão para ir além.

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Em entrevista histórica, conversamos com o Luis Álvaro Ribeiro, ex-presidente do Santos que fala sobre sua luta pela vida, amor pelo futebol e o futuro do Peixe.

Ele é um apaixonado. Daqueles que os olhos brilham e a voz firme, narra uma trajetória vitoriosa pelo Santos Futebol Clube e pela vida. Sem dúvida, encontrar o Luís Álvaro Ribeiro e ter ele com a gente aqui hoje, foi como ter tido acesso a uma parte viva da história do futebol brasileiro, honra que só foi possível, pelas mãos do amigo Flávio Pires que mais uma vez, nos conecta com o que há de melhor da cultura criativa brasileira.

Conhecido por ser um verdadeiro guerreiro ao ter resistido aos problemas de saúde e ser o responsável por transformar O Peixe num símbolo de profissionalismo quando se trata de futebol nacional, LAOR – siglas que representa Luis Álvaro Oliveira Ribeiro, recebeu o NoBrasil em sua casa no Alto de Pinheiros para falar sobre superação, paixão e as eleições do próximo sábado para a presidência do clube. Juntamente com a fotógrafa Letícia Lovo, que registrou de forma muito sensível as quase duas horas de conversa e muito aprendizado que tivemos por lá, o mais vitorioso presidente do clube fora da era Pelé fez graça, deu risada e com muito bom humor, compartilhou de todas as suas dores de amor e do coração, já que um dia antes, havia terminado um intenso relacionamento.

Alvinegro antes mesmo de nascer, uma vez que o desenvolvimento do clube se confunde com a própria história da sua família,  contou como tudo começou: “o meu avô em 1916, comprou o terreno da Vila Belmiro e morreu como presidente do Santos. Meu pai herdou essa paixão do meu avô e desde que nasci, ele tinha paciência de me levar para os estádios quando a torcida não eram mais do que meia dúzia. Eu me lembro que no colégio onde estudei, só tinha um Santista como eu: o Senador Eduardo Suplicy.  Nós dois éramos apontados como ET’s, imagine torcer para o Santos, que coisa mais esdrúxula! Desde então eu tive a chance de ver alguns dos momentos mais felizes da minha vida serem concretizados por 11 malucos que vestiam o manto sagrado e se transformaram em bicampeões mundiais de futebol.

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Conselheiro por 17 anos e dirigente mão de ferro reconhecido pela honestidade e excelente nível administrativo em combate a corrupção no futebol, desentendeu-se com a então diretoria, prometendo apenas voltar quando a maioria dos associados assim quisessem. Passando logo depois disso do que ele chama de “um dos maiores perrengues da sua vida”, chegou a passar para o lado de lá por 4 vezes, até que 40 dias depois, foi convencido ainda no hospital a sair candidato a Presidência do Clube: “Paixão, a gente acaba pagando pelo preço e eu combalido pelas paradas cardíacas e pelos problemas no coração, saí candidato. Acho que como Deus gosta muito de mim, perdi a eleição. Se eu tivesse sido eleito em 2003, provavelmente, eu não estaria aqui dando essa entrevista.”

Em 2008 e 2009, com o Santos quase rebaixado, ganhou as eleições mais improváveis da história do futebol brasileiro sendo três meses depois, campeão paulista além de levar o Santos pela primeira vez a ser campeão brasileiro e também para Libertadores em 2011: “eu vivi uma noite de êxtase naquele dia frio de junho quando enfrentamos o Penãrol no Pacaembú. Eu, do lado do Pelé e do Neymar, entrando no gramado depois da conquista da taça e beijando o gramado do Pacaembú é uma cena que eu não esqueço jamais. Como não esqueço também, dos olhos brilhantes da torcida nas arquibancadas. Naquela sensação de euforia, depois de 48 anos o Santos volta a ser campeão da Libertadores e se habilita a disputar o mundial. Acredito que esse tenha sido o momento mais sublime da minha vida”.

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Preocupado com a situação que o time se encontra, não deixou de manifestar a sua opinião sobre as eleições para nova presidência que acontece no próximo sábado: “não posso deixar de pedir ao Torcedor Santista que me ajude a eleger o Fernando Silva como Presidente, porque sei que ele é o único homem capaz de continuar o trabalho que eu havia começado rumo a profissionalização do Santos.”

“A chance de eu ter ajudado o Santos, ainda que quase tenha custado a minha vida, valeu a pena. Se eu voltasse atrás, apesar de todos os aborrecimentos, tentaria fazer uma revolução de novo como a gente fez em 2010, 2011 e 2012. O Fernando Silva trabalhou comigo nos dois primeiros anos e era o cara que disparado, mais entendia de futebol. Além de tudo, é um corajoso, porque pegar o Santos, na situação que o Santos está, desacreditado perante a torcida e devendo o que não tem para pagar, é um ato de bravura.”

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“Eu só vendi o Neymar quando ele sentou aqui na minha mesa e disse que queria ir embora.”

Dono de declarações memoráveis e famoso por ter conseguido o feito de segurar o Neymar frente as pressões dos mais diversos clubes estrangeiros, foi rápido e certeiro quando perguntamos o que enfim falta para um crescimento justo no futebol brasileiro, que contemple instituições, jogadores, a torcida e que dê suporte para que tantos outros jovens, possam brilhar: ” o que falta é competência profissional e desapego a dinheiro e a cargos públicos. A tendência natural dos clubes de futebol brasileiros, é de gastar mais do que arrecada, fazer dívida e quando aparece um jogador bom, vender para tampar o buraco de caixa. E eu achei que o Brasil podia dar uma demonstração de crescimento e maturidade não exportando mais matéria-prima. Porque é isso que é um jogador jovem quando mandado lá para fora, somente matéria-prima. E encarei o desafio de segurar o Neymar e só o vendi quando ele sentou aqui na minha mesa e disse que queria ir embora e respeitando o ser humano em primeiro lugar, assim o fiz. No entanto, antes disso, resisti a todas as pressões que você possa imaginar, de clubes ingleses, espanhóis… Por isso, fui também recebido pelo Presidente da República pelo gesto de “patriotismo” por ter dado uma lição para os gringos lá fora dizendo que a gente não é mais curral deles, que a gente tem competência para ser uma das maiores economias do mundo e também do futebol.”

Corajoso e inclinado aos desafios, LAOR deixa uma mensagem de superação, profissionalismo, amor pelo futebol e pela vida.

Como o Santos, o campeão dos campeões.

Dá o play.

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A criança que existe em você

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Cores e um universo lúdico são as marcas do Tainan Cabral, artista que analisa suas obras como uma releitura de si

por Diane Lima

Poucas palavras nesse dia de hoje já que é visível que as imagens valerão por mil delas. Apesar disso, uma pequena introdução.  Conhecemos o Tainan Cabral através de uma turma que já passou aqui pelo NoBrasil e que anda fazendo umas articulações bem interessantes por BH, o Matheus Alves e a Tainá Lima. Cheio de cores e com um universo onírico que chama atenção, o trabalho do Tainan foi amor pela primeira vista sobretudo pelo fato de estarmos tão interessados na palavra Lúdico e pelo o que ela representa para a cultura popular brasileira. Nessa nossa compreensão que vai contaminar alguns projetos que vamos lançar logo em breve, o caráter do brincante, do jogo, da performance e da imaginação surgirá como recurso para legitimar uma leveza que julgamos necessária para entender o mundo, nos comunicar com as pessoas, promover encontros e nos relacionar com elas em sua maior potência.

Celebrando a criança que existe dentro de nós, resolvemos por compartilhar o resultado da entrevista que fizemos com o Tainan ainda num dia muito especial: o seu aniversário.

Data simbólica pra gente e também pra ele, convidamos você para conhecê-lo um pouco mais e festejar com o NoBrasil um momento de descoberta em que a brincadeira, irá fazer muitas revoluções.

Vem que tem e parabéns Tainan.

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NoBR: Oi Tainan, pode falar um pouco pra gente, de onde você é, quantos anos e contar um pouquinho da sua trajetória?

Tenho 23 anos, nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, num bairro chamado Jabour, mas logo cedo me mudei pra Governador Valadares, onde morei por alguns anos e depois retornei novamente ao Rio. Nessas idas e vindas, desde muito cedo sempre demonstrei interesse pelo desenho, obviamente ainda não tinha dimensão do quão grande era esse universo e onde ele poderia me levar, mas sempre foi instigante para mim estar desenhando ou colorindo. Com naturalidade se tornou minha terapia e por amar desenhar, também era minha diversão. Um pouco mais tarde, no inicio de minha adolescência, comecei perceber o graffiti. O interessante é que desde aquela época, me ocorria algo que acontece até hoje. Toda vez que eu passava na frente de uma pintura que me chamasse a atenção pela beleza, eu sentia um bem estar. Creio que foi a partir daí que eu comecei a descobrir minha essência e enxergar minha maior vocação. Então, depois de um bom tempo, já com 18 anos, resolvi arriscar pintar na rua. Minha primeira experiência foi muito divertida e excitante, porém o resultado ainda era imaturo, pois estava só no começo da busca pela identidade. O ato de estar na rua pintando, me renovava como injeções de empolgação para continuar pintando e buscando minha linguagem. Essa busca nunca acaba. Hoje ainda me encontro nesse caminho de estudos de referencias e inspirações que cada vez mais se aprofunda e faz eu me conhecer mais.

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NoBr: E nessa busca por referências e linguagens, qual pesquisa que te direciona? Existe algum universo específico que você tenta retratar na suas imagens?

Minhas pinturas são rostos retratados de uma maneira bem orgânica e desfigurada, que fazem parte de um mundo onírico. Geralmente não idealizo ou determino o que vai ser o desenho, sempre começo sem saber como será o final, a única coisa que determino é a silhueta do desenho e a divisão dos elementos dentro desse meu escopo. A partir disso deixo minha mente e coração trabalharem, distribuindo as cores e ornamentos dentro da face do desenho.

Ao olhar para as pinturas dos mestres, Matisse e Picasso, que são uns dos artistas que mais admiro, nitidamente se percebem muitas referencias da arte africana, inclusive, foi Matisse que apresentou a arte africana para o Picasso. Antes de conhecer a história dos dois, já admirava as pinturas, mas depois que conheci um pouco mais sobre a história, eu tomei mais gosto pelo trabalho e comecei a perceber a arte africana. E desde então, posso dizer que Matisse e Picasso, são como guias visuais em meu trabalho. Antes de pintar, eu passo um certo tempo contemplando algumas pinturas dos dois, isso me inspira muito. Posso citar também a moda e fotografia, que estou sempre degustando. É algo que me dá muitas referencias. E a partir desse emaranhado de coisas boas, eu olho para dentro também, pois acredito que o que faço, é parte de mim, e se meu olhar for só para fora, meu trabalho vai crescer, mas sem peso e sem essência. Então, para que isso não ocorra, eu tenho um costume de estudar meu próprio trabalho, como se fosse uma releitura de mim mesmo. Nossa, isso é algo muito bom de se fazer, pois vejo que consigo crescer mas crescer para dentro. Isso significa, fazer desenhos diferentes, que tenham ligações entre si, por meio desse releitura que é feita.

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NoBr:  E sobre projetos futuros, planos, sonhos, segredos? Alguma novidade que possa nos contar?

Hoje estou trabalhando na produção de uma série de telas em um trabalho paralelo, chamado Dínamo, que futuramente resultará em um exposição. Pretendo logo em breve também, montar uma exposição individual, mas não estou com pressa…. E no dia 3 de dezembro, eu e Cety Soledade, estaremos indo para Aracaju ministrar uma palestra e um workshop na 12ª SEDE, um evento promovido pelo Curso de Design Gráfico da Universidade Tiradentes. Por enquanto sigo trabalhando nas telas novas no ateliê, e junto a isso, fazendo a pintura de um painel de 42m² para o evento de 450 anos do Rio de Janeiro, que terá o encerramento no dia 8 de dezembro.

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Antropofagia em Azul e Vermelho

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Em nossa segunda história de Entre², ele faz um retorno ao desenho e a aquarela para congelar um processo que só se acumula e se multiplica.

Em uma dessas nossas pesquisas pelo Instagram, encontramos o trabalho do Matheus Galves, um diretor de arte mineiro de 27 anos. Logo no primeiro contato, tivemos a certeza que não se tratava de nada muito pronto no sentido de uma possível pretensão, mas, que no entanto, encontrava-se totalmente concretizado em seu direcionamento enquanto pesquisa, processo, quereres e anseios. Da leitura que fizemos daquele emaranho de referências e produções, para o que tivemos como resposta, uma grata revelação se confirmou: “A base de todo o meu processo é fundamentada na observação e na paixão que tenho pela cultura popular brasileira. Daí nascem os desenhos, as pinturas, as pesquisa que desenvolvo para outros artistas, os trabalhos em geral. Uma forma de me manter conectado a essas raízes e de trazê-las à tona todos os dias através da arte”.

Nascido em Minas Gerais, Tucuxi, como é chamado, formou-se em gastronomia onde atuou durante um período na realização de pesquisas e elaboração de cardápios para alguns restaurantes de Belo Horizonte, sempre com foco na cultura e ingredientes brasileiros. Estendendo a vocação para a moda e se especializando em Produção e Crítica da Cultura Brasileira, contou-nos sobre as suas origens e como elas influenciam na forma como vê e pinta seu Brasil:

“Sempre fui criado dentro desse universo das fazendas em Minas, das benzedeiras, do quintal repleto de plantas, pedras, animais, música, da cozinha farta… enfim, dessa riqueza popular que sempre foi muito natural para mim. Sou descendente de índios e, por parte de mãe, a família sempre esteve ligada ao estudo de plantas através das benzeções ou mesmo para compor as chamadas garrafadas, para tratar de possíveis doenças do corpo e também do espírito. Mas com o tempo, isso foi se perdendo um pouco, inversamente proporcional ao meu interesse, que veio despertando de forma bastante instintiva, numa busca crescente por uma conexão maior às minhas origens. Da infância até a adolescência, mudei muito de cidades pelo Brasil. E por mais que isso exigisse uma readaptação constante, me apegava e me utilizava dos recursos culturais locais para estar conectado a um ponto comum e criar uma zona de conforto, que era baseada na vivência dessas matrizes culturais. Independente de quaisquer lugares do país que eu estivesse, me permitia sentir, vivenciar essas experiências, o que me possibilitou ter uma infância maravilhosa, fundamental para a construção desse trabalho que venho desenvolvendo atualmente”.

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Mas o que nos chamou mais atenção em seu trabalho foi, sobretudo, a possibilidade de conexão que ele apresenta entre um olhar contemporânea sob uma expressão tradicional. Tucuxi, como um bom contador de histórias visuais, narra a sua trajetória onde convivem formas, texturas, alimentos, aquarelas, paisagens, detalhes – e se você fecha os olhos até aromas –, nos fazendo aproximar de um imaginário de pureza que, sem medo, se arrisca a falar de um pensamento não inacabado, aberto e genuíno e que nos lembrou uma recente matéria da I-D que questiona por que jovens artistas estão retornando ao desenho na era digital.

“Meus processos nascem da observação e do resgate da cultura popular brasileira. E os trabalhos buscam chamar a atenção, de forma crítica, para a desvalorização e perda dessas manifestações genuinamente nacionais. Seja pintando Espadas-de-São-Jorge, Palmeiras, Bananeiras ou Índios em rituais como o Kuarup, o meu objetivo é único: focar e atrair os olhares para a nossa cultura. Dizer que precisamos cuidar do nosso país, do nosso povo!

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Nesse Entre com Matheus Galves, história que dá prosseguimento a nossa vontade de mergulhar nos processos e pensar sobre como projetos, pré-projetos ou experimentações que admiramos são pensadas, cartografadas, editadas e se conectam entre repertório, o contemporâneo, a linguagem e o outro, que descobrimos ainda o que está por trás dos seus constantes desenhos azuis e vermelhos e também, sobre por que retomá-lo como forma de expressão:

“o motivo de nomear grande parte dos trabalhos de “Antropofagia em Azul”, é justamente por ser uma pesquisa constante, inspirada pelo Movimento Antropofágico do Oswald de Andrade, indo de encontro à valorização e busca da criação de uma identidade brasileira através desse resgate cultural. E a cor azul, pelo fato de ser uma ponte conectiva entre o céu e o mar, entre um algo intangível e outro que se pode tocar, mas, que acima de tudo, pode-se sentir. Além de representar um elemento masculino. E a “Antropofagia Visceral”, em vermelho, é o elemento feminino, por vezes frágil e por tantas outras, extremamente forte, visceral. É o que utilizo para dar vida às pinturas das florestas antropofágicas e também para as feridas. Como quem diz que sangra por estar vivo, pedindo socorro, atenção… Venho me dedicando ainda exclusivamente ao trabalho de direção de arte e de artista visual, desenvolvendo conceitos e pesquisas também para outros artistas plásticos e grafiteiros. Acredito que me encontro no processo de construção de uma identidade para esse meu trabalho autoral. Observando a cidade, testando novos suportes, plataformas… O meu próximo passo é abordá-la com algumas intervenções, me apoderando do espaço urbano para transmitir diferentes mensagens,  com o codinome de KUARUP…”

Talvez apenas o toque, a liberdade e a flexibilidade que a mão livre permite, fosse capaz de fazer pulsar a simplicidade e congelar em partes uma investigação que nunca se finda, apenas se amálgama e multiplica.

Que Oswald floresça.

Nosso salve as Minas Gerais.

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Vá Fundo.

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