Category: Memória

As Mulheres da Terra: Os ofícios ultrajados

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Bailando uma cantiga que trouxe o vento frio do outono foi que eu a vi chegando, a curandeira.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Marilia Botelho

 

Bailando uma cantiga que trouxe o vento frio do outono
foi que eu a vi chegando,
a curandeira.
Veio como uma velha loba de guerra
aferroada de batalhas,
armada de garrafadas
senhora de glebas espirituais.
Foi logo queimando as ervas,
sorria mostrando os dentes [pra espantar mal olhado]
Benzeu meu colo, soprou minha fronte
e me protegeu com seu manto
bordado de paciência.
foto-1Espada de Santa Bárbara: planta amplamente utilizada com fins mágicos. Dizem as mulheres da terra que plantar um maço das espadas em frente a moradia garante proteção ao lar, espantando os maus espíritos e absorvendo as energias negativas

 

O Noroeste Paulista é uma terra distante, conhecida antigamente como “A Princesinha do Sertão”. Foi das últimas áreas a ser colonizada pelos bandeirantes devido à distância com a capital. Levou anos para que os avanços tecnológicos chegassem à região; por fim, estradas e rodovias abriram espaço no sertão paulista. Avançando sobre a terra vermelha banhada do sol escaldante, típico em todos os meses do ano, a modernidade fincou raízes. As mulheres e homens dessas terras aceitaram, resignadamente, o que lhes reservava o futuro.

Nessas linhas, a busca e o registo sobre os tempos antigos do sertão, passa inteiramente sobre a investigação da vivência de mulheres que viveram seus dias sob o chão quente e rubro dessa região.

Aquelas que ilustram os relatos dos ofícios ultrajados são chamadas por muitos nomes: curandeiras, rezadeiras, benzedeiras, erveiras, parteiras, abençoadeiras. O que todas têm em comum é uma força imensa que se apoia nos mistérios do universo. A manipulação da natureza através da agricultura e da fabricação de remédios, o domínio das práticas do nascimento, o tratar com naturalidade da morte, a crença na espiritualidade e o dom da intuição assustaram tanto aos racionalistas da Idade Média, que foi preciso séculos de Inquisição para calar aquelas que desenvolviam seus saberes herdados de geração em geração.

Na Era moderna, os avanços tecnológicos, especialmente na área da saúde, fizeram com que essas práticas fossem alçadas ao nível de mito. Houve intenso trabalho de diversos setores da sociedade a fim de desmoralizar e ultrajar a sabedoria milenar das mulheres do passado. Apesar da campanha contrária, os saberes femininos não morreram totalmente; passando por muitas modificações, eles seguem vivos, ainda que de maneira difusa.

Em nome da valorização da cultura feminina e com o objetivo de catalogar os nomes e as experiências daquelas que traçaram seus caminhos no Noroeste Paulista, essas narrativas buscam ecoar a voz das personagens silenciadas pela História.

 

A Curandeira

Há cerca de cem anos atrás, a curandeiria era a principal fonte de tratamento de boa parte da população. Não havia hospitais modernos e exames investigativos, menos ainda se você morasse no interior do país, em lugares afastados das capitais; restavam poucas opções, senão tratar os doentes com infusões, chás e seguir as tradições de quem trabalhava com a cura sem nenhuma formação acadêmica – a primeira faculdade de medicina do Brasil foi criada em 1832.  

foto-2Capim cidreira: famoso remédio para acalmar os nervos, tratar insônia e dores de cabeça

 

As mulheres foram grandes responsáveis pelas práticas de saúde, cuidados com o corpo e primeiros socorros, mantendo viva a medicina popular das antigas gerações. Nos dias de hoje, as práticas do passado servem como fonte de pesquisa para os que se interessam pela cura natural e terapias complementares; estes tratamentos, chamados de alternativos, estão intimamente associados à natureza pois à ela recorrem para extrair as propriedades de bálsamos, unguentos, xaropes, elixires, caldos e outras formas de remédios caseiros.

Dona Santa, avó da minha amiga, me conta sobre Dona Lídia, senhora que era curandeira em Palmeira d’Oeste, falecida há muitos anos. Segundo ela, Dona Lídia fazia garrafadas, xaropes, pomadas, sabonetes e ensinava as receitas para serem feitas em casa; só cobrava o quanto pudessem lhe pagar. Santinha se lembra de uma vez, quando ela e a filha tiveram tiriça – o nome popular dado para hepatite C. A curandeira indicou banhos diários com picão e chá da mesma erva. Em alguns dias, ela e a filha se curaram da doença. Outra vez, Dona Lídia curou seu filho mais moço do mal da síflis. O remédio foi uma garrafada feita a base de vinho branco de laranja, raiz de salsaparrilha cortada em cruz, erva doce e sementes de laranja amassadas.

É difícil encontrar na região mulheres que se digam curandeiras. Elas já quase não existem, especialmente porque não se reconhecem mais com esse nome. Mas suas práticas de cura seguem vivas no dia-a-dia dos moradores do sertão paulista, seja na preparação de remédios caseiros ou nas receitas mais adversas, como a inalação com eucalipto, o repelente de citronela, os cataplasmas de babosa e os macerados de ervas.

foto-3Dona Santa é uma senhora que conhece dos segredos da natureza. Ainda se lembra de coisas que aprendeu com sua mãe e seu pai, que eram parteiros e benzedeiros pelas bandas do Noroeste

 

A parteira

Houve um tempo em que partejar era um trabalho bastante reconhecido. No passado, antes dos adventos da moderna obstetrícia, as parteiras eram mulheres respeitadas e reconhecidas. Afinal, ser parteira exige tempo e dedicação, não existem partos agendados e os bebês podem escolher nascer a qualquer hora do dia ou da noite. Debaixo de sol forte, ou sob chuva, a parteira não tem escolha quando lhe mandavam chamar – estes são os encargos de seu ofício.

foto-4Nossa Senhora do Bom Parto, Santa que conforta as mulheres na hora de dar a luz. A imagem de Maria com o menino Jesus no colo é um símbolo feminino para o parto; o culto a Santa data do século XI

 

Das profissões registradas nessas linhas, a de parteira é, sem dúvida, a que mais sofreu com o ultraje patrocinado pelo progresso cientificista. Talvez por isso estas mulheres tenham sido obrigadas a resistir firmemente para poderem prosseguir com suas práticas. Desta resistência brotaram frutos de esperança, e ainda é possível encontrarmos parteiras na região, Lucélia Caires, natural do interior Bahia e residente em São José do Rio Preto há 12 anos, se orgulha ao responder quando lhe perguntam sua profissão: “Sou parteira!”

Lucélia é parteira na tradição. Isso quer dizer que ela recebeu os ensinamentos de uma parteira tradicional. O encontro com esta prática aconteceu quando acompanhava um parto domiciliar (sua formação acadêmica é como enfermeira obstetra). Neste dia, ela conheceu os trabalhos de uma parteira de Bauru, formada através da madrinha Suely Carvalho, fundadora do CAIS do Parto, em Recife. Em seguida, viajou de São José do Rio Preto para Olinda para participar da primeira parte da formação do curso de parteiras na tradição; e, em 2015, terminou seus estudos, mudando de vez de profissão: deixou a enfermagem para trabalhar exclusivamente como parteira.

“Quando recomendo a uma gestante tratamento para infecção urinária, por exemplo, estou praticando a curandeiria. Muitas vezes, preciso benzer a casa onde vai acontecer o nascimento. Então também sou benzedeira.”

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No   espaço Florescer da Vida é possível entrar em contato com diversas práticas como benzimentos, reiki, leitura de tarot, leitura de aura, além dos círculos de mulheres

 

As artes do benzimento e da curanderia se misturam no trabalho de Lucélia, que fundou o Florescer da Vida, um centro de atendimento em São José do Rio Preto, onde várias profissionais desenvolvem práticas de cura, além de oficinas de artes e atendimento a gestação, parto e pós parto..

 

A benzedeira

A benzedeira é uma pessoa fortemente apegada ao poder das palavras. São mulheres de diversas crenças e, por isso, observamos em suas atividades um intenso processo de sincretismo entre catolicismo e religiões de origem africana, além do xamanismo dos povos nativos. As benzedeiras acreditam que a cura pode ser atingida através da fé, por oração e vibrações; por isso, parte dos processos curativos envolvem os benzimentos, passes e rezas.

No campo da saúde, elas trabalham benzendo os que precisam recuperar a vitalidade. Alguns males específicos ficaram famosos pelo tratamento com benzimento; várias mulheres com as quais conversei relataram os cuidados das benzedeiras como primordiais na cura de alguns males populares; doenças como mal de simioto, que a medicina trata como desnutrição ou infecção por bactérias; espinhela caída, que é um mal que ataca com dores nas costas e no abdômen e acomete geralmente pessoas que trabalham nos serviços pesados; ou mesmo o quebranto, também chamado de mal olhado, que seria um “feitiço” posto por outra pessoa que lhe deseje o mal, ou inveje algo que você possui, segundo os relatos, esse mal pode levar a vários sintomas, desde desnutrição em crianças até depressão em adultos

O ofício das benzedeiras é distinto do das parteiras e das curandeiras, pois essas duas são requisitadas em momentos exclusivos do trato com a saúde. Já as benzedeiras, não; elas podem ter suas rezas solicitadas para os mais variados fins.

Converso com Dana Landa, benzedeira há 15 anos. Ela me conta que quando era moça, assistia a avó, Dona Maria, que era parteira e benzedeira na região entre Aparecida d’Oeste e Jales. Apesar de se lembrar das práticas de sua matriarca, Dona Landa relata ter “recebido o dom do benzimento”, por isso, sua reza é diferente da que fazia a avó. De segunda à sexta-feira, a partir das 17h, forma-se fila na frente de sua casa; são pessoas que esperam pela vez de serem atendidas.

“Tem dia que eu benzo até tarde da noite. Benzo gente, benzo roupas; as vezes me trazem sacos cheios de peças pra eu rezar, tem que fazer uma por uma.”

Dona Landa conta que não cobra pelo serviço, apenas aceita aquilo que cada um lhe quiser ofertar. Pergunto se ela usa algum ramo de planta pra benzer e ela conta que não, usa apenas as mãos:

“A força está na fé que eu ponho na reza, e na energia que passo com as mãos. É tanta gente pra benzer que se fosse ver, não teria galho de planta pra todo mundo!”

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Dona Landa pediu que não lhe fotografasse o rosto ou relatasse o local de sua residência; seu receio é que ainda mais pessoas viessem lhe procurar

Entre os ofícios ultrajados, a figura da benzedeira parece ser a que melhor conseguiu se diluir no cotidiano das comunidades onde, ainda hoje, existem muitas desenvolvendo o ofício; seja nas cidades ou na zona rural, elas são procuradas para auxíliar em diversos propósitos, cumprindo assim, as funções espirituais que lhe foram incumbidas.

O respeito às tradições é o principal pilar no qual se sustentam as mulheres que praticam a medicina curativa, os benzimentos e o partejar. Há muita coisa em comum nas práticas dessas mulheres; além disso, é possível reconhecer nelas um profundo respeito às anciãs, que compreenderam os segredos e mistérios do passado e detiveram a sabedoria que seria transmitida de maneira oral às mulheres da família e aquelas próximas que possuíssem o “dom”, ou o “chamado” para os ofícios.

A curandeira, a parteira e a benzedeira são profissões que fazem parte da formação da identidade cultural da população do Noroeste Paulista; em suas práticas sincréticas de medicina popular, fé e crendices vemos a relação existente entre nosso interior com outras regiões interioranas do país, os muitos sertões existentes Brasil a fora.


Referências:

SOARES, M. N. A feitiçaria: entre o oficial e o popular. 2001, Programa de Pós Graduação da UFPB
Perinelli Neto, H. / Nardoque, S./ José Moreira, V. Nas Margens da Boiadeira – Territorialidades, Espacialidades, Técnicas e Produções No Noroeste Paulista, 2010, Editora Expressão Popular

MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.
As Mulheres da Terra
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As Mulheres da Terra: As histórias das anciãs

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“É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. “

Imagens criadas com o iPhone SE
por Marilia Botelho

 

 

Notas sobre o progresso:
Você, jovem rapaz, que admira os prédios, o cimento, a construção.
Você, que olha admirado
o shopping center
levantado,
pelas mãos dos que um dia lavraram o chão.
Me chama de louca pela brincadeira
De fingir que as mangas são os brincos da mangueira
Você não vê os ipês floridos na paisagem,
não sabe do carcará e do urubu
voando na imensurável imensidão
Cuidado rapaz, guarda bem com sua pretensão
essa terra é lugar de cabocla
que não tem medo de morar no sertão”

 

Interior de São Paulo, Noroeste do Estado.

No princípio era o nada. O nada, o calor e a natureza. Então chegaram os bandeirantes, a terra foi demarcada, apropriada, vendida. Os caminhos viraram estradas. E foi a estrada o divisor de águas na história da ocupação do Noroeste Paulista; isso porque os municípios localizados nas proximidades das rodovia Euclides da Cunha (SP-320) – que corta a região de São José do Rio Preto a Santa Fé do Sul, foram as que mais se desenvolveram, enquanto os povoados afastados foram lentamente sendo ocupados por gente que vinha de muitos lugares do país.

As mulheres foram agentes e observadoras das mudanças pelas quais passou esta região: as que já viviam por aqui, chamadas caboclas, se encontraram com as migrantes de diversas partes do Brasil, especialmente do Norte; gente de origem humilde que vinha para trabalhar nas terras recém ocupadas. Também assistiram à chegada dos imigrantes italianos, espanhóis e japoneses, os povos estrangeiros predominantes neste território.

É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. Estas práticas, pouco estudadas e, aparentemente escassas, se encontram diluídas no dia-a-dia das comunidades e das pequenas cidades da região. Uma senhora que reza e benze, outra que faz remédios e ensina receitas, as jardineiras e agricultoras que conhecem os segredos das plantas e da terra; enfim, de diversas maneiras, seguiram vivos alguns ritos femininos, embora talvez não reconhecidos como tais.

A chegada da medicina moderna tardou nesta região afastada da capital; este episódio teve grande impacto sobre o principal rito feminino de passagem: a hora do parto. Hoje a maioria os bebês nascem pelas mãos dos médicos, em salas de cirurgias; não mais pelas mãos das parteiras, que se tornariam comadres da família. O evento que antes era íntimo e familiar, se transformou radicalmente. As mulheres com quem converso se dão conta disso, reconhecem que o tempo mudou muita coisa, transformou a vida das mulheres que vieram depois delas, suas filhas e netas. Através do relato de suas experiências, teço estas narrativas entrelaçando o passado e as práticas femininas com a história da ocupação do lugar.

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As  senhoras da vila:

Dona Nina, 81 anos*

Batemos palmas, uma neta abre o portão. Dona Nina está sentada na cadeira de área; se apoia na bengala e faz menção de se levantar pra dar a mão:

  • Carece levantar não vó.
  • Que bom, meu joelho já não para mais de doer quando fico de pé

O jeito receoso e o olhar atento se impõe, quase assustam, mas com um pouco de insistência as barreiras vão se quebrando. Dona Nina desconfia um pouco do caderno, do aparelho onde faço os registros, da proposta de contar histórias:

  • Tenho nada pra falar não, minha vida é isso aqui só!
  • Mas é o que me interessa mesmo, Dona Nina.

A conversa engata sobre a infância na roça, sobre o trabalho duro debaixo do sol e as consequências no seu corpo: lhe doem muito os joelhos, os dois, desgastados do tempo e da labuta. Enfim, descubro a baiana forte, que ficou órfã de mãe cedo e que amansava mula brava no pasto. Veio do Norte aos 18 anos para trabalhar em uma fazenda na região de Aparecida d’Oeste;  no interior paulista não teve vida fácil: “Ponhava a enxada no ombro e ia mexer na terra com meu véio”.

A conversa ruma pras histórias sobre gestação e parto. Quero saber como é parir. Pergunto à Dona Nina o que faziam com a placenta depois que o bebê nascia:

  • Enterrava, uai! Que pergunta! Você logo vai ser mãe, filha, quer tanto saber dessas coisas. Mulher de hoje em dia não quer saber disso não! E tem que ser pra logo essa barriga, viu? Senão você fica madura e aí não nasce mais filho bonito e com saúde, só moleque mirrado e doente. A gente é igual fruta, depois que amadurece, apodrece!

Ela deu à luz a nove filhos. O primeiro deles nasceu morto, depois de dois dias de trabalho de parto e de fazer todas as rezas e simpatias conhecidas, a parteira a mandou para o hospital porque “não tinha outro jeito” E o marido teve que escolher entre ela e a criança, Dona Nina ainda teria mais filhos, todos nascidos em casa.

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Dona Nina, viveu em Marinópolis desde antes da cidade ser município, se lembra do tempo em que todas as cidades da Comarca eram parte de uma grande fazenda.

*Dona Nina foi uma das pioneiras da cidade de Marinópolis, residiu no município por tantos anos que ela mesma havia perdido as contas. Apesar da idade avançada, conversava com fluidez e tinha boa memória. Faleceu no fim do outono de 2016, poucos meses depois da tarde em que conversamos na varanda de sua casa.

 

Dona Antônia, 86 anos

O silêncio impressiona, ela já quase não fala porque também escuta pouco. Os olhos fundos parecem perdidos em algum acontecimento do passado. Talvez na infância, vivida em Minas Gerais, ou nos acontecimentos da juventude – teve vida dura como lavradora da terra. Ainda se lembra dos patrões bravos, os senhores donos das plantações que sua família trabalhava, não gosta que falemos sobre o tempo “do Goiás”, a vida era muito difícil.
Dona Antônia ainda consegue me contar baixinho uma história sobre benzimento de quebranto, as palavras da oração ela já não se lembra mais; mas não esquece de quando sua neta Mauricéia foi curada do mal de simioto pelas rezas de uma comadre benzedeira. Teve quatro filhos, todos nascidos em casa. Sempre de madrugada, pouco antes da hora de ir pra roça, chegava sua irmã que era parteira e lhe ajudava no ofício de por criança no mundo.

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Dona Antônia, 86 anos, a Vozinha, uma das moradoras mais antigas de Marinópolis, nascida em Minas Gerais, trabalhou na roça desde moça, chegou na cidade há cerca de 42 anos.

Dona Florentina, 86 anos

O caminho árduo do Norte até o interior do estado de São Paulo foi vencido na carroceria de um caminhão pau de araras, a viagem foi tão longa que Dona Florentina diz ter perdido a conta dos dias. Chegaram primeiro em Auriflama, no córrego das Cruzes; a filha mais velha era criança ainda, Dona Mocinha, que hoje cuida da mãe, tem cerca de 60 anos.

Elas se lembram dos tempos das benzedeiras, que curavam com reza e simpatia as doenças do povo – mal de simioto, quebranto e espinhela caída eram as principais mazelas. Dona Mocinha conta a história do irmão que morreu antes de completar um ano do mal conhecido também como doença do macaco. A mãe, Dona Florentina, concorda com a cabeça, já está na idade do silêncio, em que as mãos contam mais histórias que a boca.

Me impressiono ao ouvir falar que as curandeiras ministravam doses de querosene para as crianças

  • Não era esse querosene estragado igual o de hoje.

Quero saber mais sobre os remédios que as mulheres usavam, ela me conta do tradicional álcool embebido nas ervas.

  • Usava de tudo que era erva, alecrim, arruda, capim limão, eucalipto, gambá, guiné, erva santa maria… As vezes misturavam tudo e faziam uma garrafada de todas as ervas. Elas faziam e davam pra gente levar pra casa pra tratar dos ferimentos das crianças, joelho ralado, torção, batida, dor nas costas. Não tinha remédio igual hoje, né, fia?
dona-florentina-e-dona-mocinhaDona Florentina e a filha Dona Mocinha, moradoras da terra há mais de quarenta anos

 

Noto um nome recorrente nas lembranças das mulheres de Marinópolis, é o da Comadre Gracina, dizem que foi parteira e benzedeira junto com o seu marido. Dona Gracina ajudou muita gente a pôr filho no mundo, benzia plantações, gado, criança doente, idoso acamado. Elas contam que as rezas de Dona Gracina e o esposo eram requisitadas por muita gente da região. Escutei sobre a vez em que um rico senhor de terras buscou ela pra ajudar no nascimento de um filho. Ao ver a gestante já cansada do trabalho de parto, Gracina a fez ficar de pé apoiada nos braços de outra pessoa e empurrou sua barriga para baixo; o neném nasceu já sem respirar e a parteira, conhecedora dos mistérios da vida, fez o menino reviver. Há muitos anos que esta senhora deixou o mundo, mas suas histórias a deixaram viva na pequena comunidade e ainda são contadas pela gente da terra.

Mulheres como Dona Gracina eram comuns nos tempos de antes, essas senhoras eram as responsáveis pela perpetuação de conhecimentos de geração em geração. Houve, de certa maneira, um rompimento nessa linhagem de manutenção dos saberes, com a chegada da tecnologia, o que muitos chamam de progresso. Alguns ensinamentos se perderam com o tempo mas muitos se transformaram e seguem vivos, existindo de maneira semelhante ao que foram no passado. As novas gerações de mulheres estão cada vez mais, mesmo que brevemente, prestando atenção e reverenciando o que dizem as mulheres mais velhas, as que viveram o mundo de outra forma. Isso faz com que seja cada vez mais latente  a necessidade de conhecer, catalogar histórias e registrar os conhecimentos para a inspiração e acesso das novas gerações de mulheres aos conhecimento das práticas de nossas ancestrais.

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MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.

 

 

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TOQUE!

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“e se Exú é seu amigo, é meu também, e esta casa não faz mal a ninguém” [ponto de Exú]

Imagens e vídeos criados com o iPhone SE
Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos Tupis
Sou Tupinambá. Tenho os erês, caboclo Boiadeiro
Mãos de cura, morubixabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curare, flechas e altares
A velocidade da luz
O escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José,
Todos os pajés em minha companhia
[Maria Bethânia in Carta de Amor]

 

Crepúsculo. Bairro de Mangabeira, João Pessoa. Procuramos o Ile Asé Odé Ibualama de Mãe Novinha – Edvania Ferreira Martins Santos – Dofona de Oxóssi no Candomblé Ketu. Na passagem lateral à entrada da casa, diversas imagens dos Orixás nos recebem. Nos fundos do terreno, uma mesa com esculturas em gesso de pomba-giras, jarros de barro e flores formam o altar. Uma imagem em especial nos chama atenção: um homem careca, desfalecido e abraçado à uma garrafa de cachaça. Ele usa um terno azul celeste, camisa amarela mal cobrindo sua barriga proeminente e uma gravata vermelha desproporcionalmente curta que mantém, a despeito da situação, seu colarinho impecável. Sua cabeça é de um Buda com as bochechas coradas. Seu rosto possui feição ambígua entre a serenidade e o deboche. É Mestre Zé Bebinho, uma das entidades que Mãe Novinha recebe e a quem atribui a filiação e a proteção absoluta da casa.

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Imagem do Mestre Zé Bebinho

Mas a festa, o toque de jurema é para Mestra Ritinha Genézia. Esta mestra foi prostituta da zona portuária de Recife. Conta sua história que aos quinze anos foi assassinada pelo amante e seu espírito trabalha principalmente nos casos que envolvem romances, insídias e amparos emocionais. A mesa para ela está coberta por uma toalha vermelha com brocados dourados. Sobre a mesa pousa um bolo torre de três camadas, de pasta americana branca com fitas vermelhas e douradas; além de inúmeras garrafas de Martini rosé, sua bebida preferida. Ao lado da mesa, posicionam-se o microfone, o atabaque e outros instrumentos.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Mestra Ritinha Genézia em Mãe Novinha

O dirigente do toque de jurema é o Pai Léo de Ayrá que iniciou Mãe Novinha no Candomblé. Ao microfone, ele abre a gira com os pontos de Exú. A gira começa com os convidados formando a roda com os homens separados das mulheres. Os trajes dos homens são túnicas similares ao vestuário africano e a das mulheres são vestidos e saias rodadas coloridas. Ao toque do atabaque, as cores sucedem-se vertiginosamente em sentido anti-horário.  Seguem-se pontos da jurema até a chegada da Mestra Ritinha incorporada em Mãe Novinha, pelas mãos de Pai Léo. Ao som do refrão Ritinha fogosa, traga o meu amor, ela entra triunfante na roda, balançando o quadril, exibindo o decote dourado e fumando uma cigarrilha na piteira longa. Libidinosa, ela saúda o ogan e oferecendo martini aos seus convidados, faz descer as outras entidades. Como em um efeito dominó, eles vão chegando: Mestra Paulina, Zé do Cangaço, Cigana Esmeralda, e outros tantos boiadeiros e mestres que dividem o pequeno espaço com seus cachimbos, cervejas, leques e bailados. Entre eles, vão se cumprimentando, dançando e festejando. Aos poucos, vão distribuindo conselhos a nós, até então, meros espectadores.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Mestre Zé do Cangaço  e  Mestre Chapéu Amarelo

A experiência do êxtase

por Suzy Okamoto

Na roda, danço ao som do tambor com um copo de martini em minha mão. Chega Zé do Cangaço, me saúda e diz coisas que só eu sei (como saberia ele a respeitos das minhas questões?). Reflito sobre suas recomendações, agradeço seu axé e me divirto permanecendo em movimento. Chega Netinho, o filho da Mãe Novinha, que me oferece um copo de Jurema. Aceito, bebo um gole. Levo o copo ao Rafael que ocupado entre fotos e gravações, declina o brinde. Ao mesmo tempo, a Cigana Esmeralda se aproxima. Ela me reconhece da jurema de chão de outra data e da outra casa. Me cumprimenta, dá um abraço envolvendo-me em sua saia de renda. Quando a sua saia cobre a minha cabeça, perco o controle do meu corpo em movimentos frenéticos. Não sei se giro ou se balanço. Sinto Netinho tentando me conter. Ele diz coisas incompreensíveis bem perto do meu ouvido, da qual a única coisa que eu entendo é um imperativo “segura a matéria!“. O que faz meu corpo seguir um ritmo diferente. Os únicos dados de realidade que me lembro foi ter visto a Indra Lumiar – ekedji da Cigana Esmeralda – amarrar um turbante na minha cabeça. O colorido se apaga, tudo fica branco e eu, que não sou mais eu, flutuo na neblina. A percussão, embora reconhecível, adquire uma lentidão indescritível. Não sei quanto tempo isto dura. Em um determinado momento, me vejo próxima ao ogan, agachada sobre um dos meus joelhos, com as mãos de Pai Léo sobre a minha cabeça que dá um tranco para trás. Volto. Volto lúcida, mais lúcida do que na hora que cheguei em Mangabeira.

Como testemunhas, reconhecemos as entidades e a força do culto apenas pela racionalidade ou por uma análise superficial dos seus símbolos. No encalço da Jurema, seguimos os passos buscando associações com imagens, palavras que foram escritas por pesquisadores importantes como Câmara Cascudo e outros. Mas quando elas se apresentam à nós, ainda que sem nome e nem lógica, como a mais pura experiência, sabemos que existe algo mais do que o mistério: Sabemos que esta experiência marca definitivamente a nossa jornada de 30 dias na Arapuca Arte Residência. Aos poucos, as informações vão se engendrando: a realidade concreta e exuberante das falésias, mar e céu de Tambaba, os Tabajaras, as juremas-árvores, as entidades, os cantos, o sincretismo. Não é possível passar incólume por tudo isto que nos afeta. No entanto, não há promessas de identidade cultural ou mesmo poética. São fios (raízes) soltos e desencapados na imensidão histórica e imaginária da Paraíba e do Brasil. Por uma (in)felicidade, somos reconhecidos pelos nossos corpos mestiços, alegóricos do verão dos trópicos e do Carnaval. Herança de um equívoco colonial traduzido com primor só por Macunaíma de Mário de Andrade.  Todavia, existe um horizonte. Na impossibilidade de verter as experiências vividas em palavras próprias, seguimos com o antropólogo Viveiros de Castro somado ao poeta Arthur Rimbaud: O espírito só pode ser universal (natural) se for corpo, ainda que seja sagradamente desordenado.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Praia de Arapuca e Tambaba – Paraíba

 

 


Suzy_Okamoto_perfil_NoBrasilSUZY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.
Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1RAFAEL AVANCINI
Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .
Jurema Sagrada
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ASSISTA AO 8° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM MAYRA FONSECA

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Nesse oitavo episódio da nossa série, a antropóloga e pesquisadora Mayra Fonseca, fala sobre a sua descendência indígena norte-mineira, questiona as categorias culturais e os valores de poder investidos no sistema da arte, fala sobre a produção de conhecimento dos saberes “ditos populares”, acervo e memória e afirma: “não há nada mais contemporâneo que a tradição”.

“Pensar Brasil, pensar afro-brasil, pensar brasil indígena, nessas categorias que nós fomos educados a usar, já é um modelo que precisamos nos libertar. Costumo dizer muito assim ó: quem resolveu, quem recebeu e acolheu o poder de chamar algo de uma manifestação cultural popular? E qual que é o impacto de a gente continuar replicando isso? De a gente continuar replicando que uma congada é uma festa popular? Ou a gente continuar replicando que algumas linguagens são periféricas ou naif’s? Que lugar é esse que a gente dá quando a gente separa o que a gente produz como povo, como afro-brasileiros, como brasileiros indígenas, afro-indígenas num território que a gente aprendeu a chamar de Brasil do considerado erudito? Porque a gente ainda replica e aceita esses lugares reducionistas e usados para diferenciar e levar a gente para um lugar de desvalorização?

img_5472Nesse oitavo episódio da nossa série, a antropóloga e pesquisadora Mayra Fonseca, fala sobre a sua descendência indígena, norte-mineira, questiona as categorias culturais e os valores de poder investidos no sistema da arte, fala sobre a produção de conhecimento dos saberes “ditos populares”, acervo e memória e afirma: “não há nada mais contemporâneo que a tradição”.

 

Assista em HD.

Sobre Mayra Fonseca:

Norte-mineira, de raíz indígena Mayra é mestre em Antropologia, Iniciadora e Editora-Chefe do Brasis, uma central de Conteúdos e Rede de Pesquisas e Projetos para estimular o autoconhecimento do Brasil de forma propositiva. Especialista em diversidade cultural e linguagens, é formada em Comunicação Social pela PUC Minas e é mestre em Antropologia e Etnografia pela Universidade de Barcelona, Espanha. Há mais de doze anos, trabalha com pesquisas culturais e comportamentais em diversos locais do Brasil e da América Latina. Em 2012, co-fundou o www.obrasilcoms.com.br.

mayra-fonsecaWebsérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

Vá Fundo.

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PAI-NOSSO COM DEUS TUPÃ

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Desarmar as armadilhas do senso comum, a principal delas: a visão idílica e romantizada dos indígenas, foi o nosso maior desafio.

Fotos e vídeos criados com o iPhone SE

“Afirmar que os índios estão ‘próximos à natureza’ é uma forma de contra-senso […]

para estar próximo a natureza é preciso que a natureza exista…” (Philippe Descola)

O encontro com os índios tabajaras foi um ponto de inflexão na trajetória da pesquisa. A primeira interlocução na Aldeia Barra do Gramame foi com a D. Maria José, mãe de Cacique Carlos Tabajara. Sob a oca, ela pegava os remédios de “brancos” junto aos médicos da Funai. Um verdadeiro balde de água fria em nossa busca pelo gérmen do culto religioso que envolve medicina vernacular. Desarmar as armadilhas do senso comum, a principal delas: a visão idílica e romantizada dos indígenas, foi o nosso maior desafio.

A despeito de D. Maria José fazer uso dos medicamentos da medicina convencional, ela conhece bem as plantas e o uso delas. Apontando para as ervas da aldeia diz: Tudo é remédio. Hortelã da folha grande… Fazemos lambedor* do cajueiro roxo, lambedor de cupim … Tudo a gente faz remédio. Folha da mangueira… cana da índia para dor nos rins… chá de raiz de vassourinha…”.  D. Maria José atribui à Deus os seus conhecimentos. Em um claro argumento cristão, ela diz: “Eu não acredito que ninguém venha ao mundo que não seja ao Pai e o Filho. Mas complementa: E aqui, entre os índios da gente tem o Deus Tupã… quando estamos entre os antepassados, na hora do toré*, a reza é Pai Nosso com o Deus Tupã“.


  • xarope
  • culto, festa, dança de roda

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

D. Maria José Tabajara

Ao indagá-la sobre a Jurema, D. Maria José simplesmente nos responde: “aqui não tem jurema, não… jurema tem em Alhandra. Mas tem muitas músicas…”. E canta: “Tabajara é guerreiro, Tabajara no seu Juremá…”. O conteúdo desta cantiga nos traz o fio da meada que conduz à Jurema Sagrada. Na tradição do Catimbó, Juremá é reino dos cultos primitivos às forças da natureza. Suas forças não acossam (não são incorporadas),  elas são invocadas. Este Reino é governado por Tupã, a mesma divindade suprema da mitologia dos indígenas de língua tupi. Todavia, para os Tabajaras – senhores do rosto da terra*  a Mãe-Terra é a figura mítica dominante e a pajelança é em torno e dentro dela.

Relato Cacique Carlinhos Tabajara

Olhe, a gente trabalha de maneira sutil e tem hora pra isso.  Nós vamos pra dentro de uma mata de acordo com a natureza, a nossa Mãe Terra. Nós vamos para dentro do cabelo dela porque ali chegam diversos antepassados nossos para observar e nós chegamos para conversar com eles. Então, ali fazemos os nossos pedidos. Ali, chegam no pensamento da gente, o que a gente quer enxergar. Uma dúvida que a gente tem. Chega uma música que a gente não sabia. Nós fazemos os pedidos de segurança para o nosso povo e para nossas lideranças. Para tudo temos hora. É dessa forma que a gente respeita nossa mãe natureza: Amando os cabelos dela. A gente acha protegido dentro do cabelo da Mãe Terra porque ali é nossa casa. Nós não queremos isto: esta devastação mexendo nos cabelos, principalmente onde o cabelo está mais bonito. […] Olhe, a nossa Mãe-terra é a nossa mãe.  E mãe se zela, não é pra negócio. Não é pra se vender não é pra se trocar. Quem quer dar fim à sua mãe? […] Nós somos contra a venda das terras dentro das sesmarias do nosso território. […] Nós fazemos nossos rituais nós agradecemos por tudo que a natureza nos dá. Nós agradecemos o peixe que a gente pesca no Rio Gramame, no Rio Graú, que é em Tambaba, no Rio Abaí, no Rio Bucatú. […] Tudo nós agradecemos pelo que Deus dá a gente. Todas as nossas músicas são pedidos: nossas músicas da Jurema, nossas músicas das matas, nossas músicas dos nossos antepassados… São momentos de alegria no toré e também são pedidos. Como a gente tem a cautela e a sutileza de fazer estes trabalhos temos a coerência de tirar o remédio ou tirar um pau da mata pra fazer uma escora ou uma oca. Nós temos que pedir licença a nossa mãe-terra e ao nosso pai Tupã. [..] Nós éramos um povo que acreditávamos no fogo, na lua e no sol. O fogo é fogo o sol é Guaraci e a lua é Jaci. Mas era um povo que tinha fé. […] Hoje nós somos um povo indígena aculturado. Aculturado quer dizer o que? Quer dizer que nós temos outras culturas de outros povos mas nós não esquecemos da nossa. Nós temos a própria cultura-mãe.


  • Segundo o Vocabulário de Bluteau, de 1721, etimologicamente, tabajaras vem do tupi tobayara que significa senhores do rosto da terra. Considerados extintos, em 2006 iniciaram um processo de reconhecimento étnico, oficializado em 2010 pela FUNAI e Ministério Publico Federal. A população atual é de aproximadamente 1000 habitantes que residem nas cidades de Conde, Alhandra e arredores de João Pessoa.

 

_n6a8740-2Cacique Carlos Tabajara

 

O traço messiânico é presente nesta fala. No entanto, a solicitude revelada no timbre grave da voz nos desconcerta. Nos desconcerta porque o que pensávamos ser a “origem” da Jurema Sagrada não é. Jurema é só um dos fios desta madeixa. Para além do foco da nossa pesquisa, Cacique Carlos nos apresenta o próprio emaranhado dos cabelos da Mãe-Terra: a secular questão territorial permeada pela violência, o desaparecimento dos tabajaras, o reconhecimento étnico recente, as questões ambientais que atravessam e são atravessadas pela evangelização e pela pajelança “aculturada” à qual ele se refere como sendo a sua base de estudos  e na qual os tabajaras são capazes de modificar seu (nosso) destino.

Nós temos nossas pajelanças. […] Nós temos muitas simpatias. […] Nós temos simpatia de proteção. Temos a simpatia de fazer fogo. Temos nosso toré da chuva. […] Nós temos essas inteligências. […] Nós sabemos como é que a gente espanta uma pessoa sem dizer nada e ele. […] As simpatias mais fortes e as palavras de nossa reza para afugentar a dor, a gente não pode ensinar. É um segredo.  Sabe quem tiver experiência e quem nasceu pra aquilo.

Rafael Avancini - Cidades InvisíveisCacique Carlos Tabajara

 

Cacique Carlos nos conta sobre a presença dos espíritos dos antepassados nos torés. Diz ser possível escutá-los e até vê-los. Simone Tabajara, sua esposa, tem um relato semelhante – “quando estamos reunidos dançando… a energia… a música… quando a gente canta, os espíritos do antepassados chegam na hora. Igual a eu fazer um cocar: tem um espírito ajudando, me dando força. Tudo que eu aprendi a fazer, eu vi em um sonho – nos lembrando da afirmação do líder yanomami Davi Kopenawa –  “quem não é olhado pelos xapiripë (espíritos) não sonha, só dorme como um machado no chão*.” anunciando a triste sina de nos tornarmos uma ferramenta potente, mas inerte e sem vida.

Para os tabajaras, dançar, fazer pedidos, afastar maus-espíritos, cantar, Deus, Tupã estão no mesmo plano de imanência: trabalhar pode ser um modo de ser tocado pelo espírito, sonhar é um modo de aprender. Mas tudo isto depende da integridade da Mãe-Terra. Não se trata exclusivamente da questão territorial. É o que o antropólogo Kaj Århem chama de ecosofia: um sistema integral de idéias, valores e prática […] um conhecimento ecológico convertido em crença. Para os índios, se não houver mata não há espíritos ou inteligência. A exuberância das matas é diretamente proporcional a possibilidade da existência em plenitude.

As cidades encantadas da Jurema Sagrada são elementos desta mata a serem preservados. Angico, Manacá, Junça, Catucá, Aroeira, Jurema e Tambaba não são meras metáforas ou símbolos. Existe uma realidade biológica neste sistema a ser estudada. Se cada cidade possui seu reinado, suas entidades, seus encantados, quantos mais espíritos errantes (e vidas concretas) poderiam encontrar refúgio nesta natureza se assim ela permanecesse?


  • KOPENAWA, D.; ALBERT, B. A queda do céu. São Paulo: Ed. Cia das Letras, 2014.

 


Suzy_Okamoto_perfil_NoBrasilSUZY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.
Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1RAFAEL AVANCINI
Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .
Jurema Sagrada
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Naná Vasconcelos: instrumento de reinventar som

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Afrotranscendence recebe reedição em formato vinil da obra “Africadeus – O repercutir da música” em lançamento no Brasil pela Harmonipan Studio e convida para abrir um diálogo com a obra do produtor musical Mahal Pita.

por Neomísia Silvestre
Foto capa: Itamar Crispim.

 

Berimbau. O instrumento redescobriu o homem. Naná. O homem transformou barulho-música, ruído-música, silêncio-música. Juntos, criaram uma nova percepção de pensar a sonoridade negra e romperam fronteiras definidas duma capoeira que não lhes cabia. Foram do toque angola ao jazz experimental de Pat Metheny. Afinal, corpo-instrumento que não carrega limitação, ganha o mundo. E assim o fez Naná Vasconcelos (1944-2016), músico pernambucano, aclamado mundialmente como um dos melhores percussionistas e mestre na arte do berimbau, dono de uma intuição única.

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Em entrevista dada à artista e produtora cultural Juci Reis, ele diz que o instrumento lhe deu uma concepção musical e espiritual capaz de mudar sua vida. Seu álbum de estreia, “Africadeus”, lançado na França em 1972, inaugura e nos presenteia um jeito experimental de fazer e pensar a música negra no mundo:

“Africadeus me fez espiritualmente tomar consciência de mim mesmo, me disciplinar, me organizar, ser um solista de percussão. Africadeus representa a espinha dorsal da nossa cultura, que é a África”.


Juci é responsável pela pesquisa, produção e formatação do livro-CD “Africadeus – O repercutir da música”, relançado pela Harmonipan Studio, em 2014. “Africadeus se constitui como uma espécie de registro de relevância cultural para a música afro-brasileira, latino-americana e africana. Uma obra à frente de seu tempo que, desde 1972, combina a força da música negra com o free jazz – conceitos ligados à experimentação – e descoberta de outros instrumentos sonoros, porém, que na ausência de interesse e registro de transmissão, viveu no culto, na obscuridade comercial e na segregação polarizada, especialmente no Brasil”, diz.

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No início de sua careira, Naná era baterista. Quando migrou para o berimbau e passou a explorar suas possibilidades sonoras, relata que tinha certo medo de tocar no Brasil, por experimentar certos ritmos que não eram da capoeira e, assim, provocar e transcender o tradicional. “Tocar berimbau foi um grande desafio, pois quando você faz uma coisa que só você faz não é fácil. Eu procurei fazer um grupo com brasileiros, mas não deu muito certo porque todo mundo estava querendo a Bossa Nova. Esse negócio de solo, fazer show com apresentação de berimbau me levou a descobrir o corpo. (…) Eu sou um Brasil que o Brasil não conhece”. 

Dos primeiros exemplos de artistas que se destacam internacionalmente e depois regressam com certo prestígio ao país de origem, Naná não atraía refletores, como os vanguardistas da Tropicália ou da Bossa Nova. Como explica Juci, o artista experimentou a segregação e o mascaramento da indústria fonográfica brasileira, uma realidade assinalada por certo esvaziamento ou esquecimento notável quando se trata de músicos afro-brasileiros. A exemplo, Africadeus nunca pôde ser lançado no Brasil ou distribuído oficialmente; e se caracteriza por excelência experimental e resistência, por ter passado mais de 40 anos para ser reconhecido em território nacional.

 

 

Africadeus em vinil

Lançado em 2016 em equipamentos culturais da América do Norte, como MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, Africadeus chega ao Brasil pelo Harmonipan Studio, que traz a reedição da obra de Naná Vasconcelos em formato vinil e faz um dos seus lançamentos durante o Afrotranscendence, no dia 29 de outubro, no Red Bull Station, às 18h30, em São Paulo. O processo de pesquisa e elaboração do vinil foi desenvolvido ao longo de quatro anos, junto a parceiros nacionais e internacionais, a fim de assegurar os lançamentos e distribuições no Brasil em 2016, sem nenhum apoio institucional brasileiro.

Composto por três peças de longa duração, em torno de 40 minutos, onde a experimentação com o berimbau é sublinhada pelo imaginário de Naná, a obra é considerada fundamental para a inauguração da música experimental brasileira, ao mesmo tempo em que pede atenção às possibilidades e não fronteiras da musicalidade afro-brasileira; além de potencializar a difusão da história da nossa música por meio da obra de Naná.

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Durante o processo de pesquisa e produção do vinil, Juci nos conta que o projeto de cunho experimental possibilitou a construção de uma pesquisa sobre música negra no Brasil com foco no reconhecimento e na valorização das obras de importância histórica para a cultura afro-brasileira. Também, de maneira substancial, que permitesse o lançamento de uma obra que fortalecesse tanto a cultura nacional como a identidade dos grupos afro-brasileiros.

“Foram catalogados mais de 200 obras sonoras desenvolvidas entre 1960 e 1980 por artistas afro-brasileiros e/ou que experimentavam sonoridades por meio de elementos de matriz africana (…). Destaquei nessa pesquisa a necessidade da reedição de Africadeus por sua potência enquanto registro sonoro de grande relevância à música brasileira, que reúne elementos da musicalidade de matriz africana, da oralidade e da cultura regional. Segundo o próprio Naná Vasconcelos afirma, ‘precisamos de movimentos como esses para não deixar que morram manifestações de nossa cultura que, por falta de registro, estão desaparecendo’”.

Pesquisa e processos: Mahal Pita e Africadeus

 

A partir de conversas entre Juci e Diane Lima, curadora do AfroT, surgiu a ideia de explorar a pesquisa sonora de Naná, ativando-a, dando vida e homenageando o músico que faleceu em março deste ano, a partir da produção de Mahal Pita, que teve acesso ao material de pesquisa e irá experimentar as possibilidades e reverberações de Africadeus no laboratório AfroTrans e numa apresentação no dia 29.

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Mahal Pita + Africadeus

 

Mahal que é baiano, produtor musical, diretor criativo e integrante do Baiana System, é um dos mentores desta edição do Afrotranscendence e, com os imersos, soma a ressignificação da música negra na obra de Naná com sua linha de pesquisa e produção sobre a transfiguração das culturas urbanas da Bahia, conectando-as com possibilidades tecnológicas e estímulos contemporâneos da diáspora global. Sua pesquisa passa por experimentações entre som e imagem, desenvolvendo projetos que transitam pelo multiverso do popular urbano baiano na fronteira entre o sagrado e o profano.

Um diálogo imperdível que ressignifica, atualiza e cria na frequência dos tempos.

Uma experiência que se referência na obra edificada por um grande músico que deixou como legado um jeito negro de fazer música.

A valorização do trabalho de quem registra, documenta e pesquisa como forma de produzir conhecimento deixando para quem vem depois formas de mergulhar no patrimônio afro-brasileiro.

Uma performance, que abre ao som da língua e do corpo, a nossa comunicação transcendental.

 


Serviço:

AfroTranscendence 2016

Red Bull Station – Centro de SP

Praça da Bandeira, 137 – Centro, São Paulo
www.redbullstation.com.br

18h – Uma performance contada, um palestra cantada
Mahal Pita + Lançamento vinil AfricaDeus de Naná Vasconcelos – entrada gratuita

Evento do facebook aqui

 

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ASSISTA AO 7° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM SALLOMA SALOMÃO

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Nesse sétimo episódio da nossa série, o historiador e pesquisador Salloma Salomão, traça uma perspectiva histórica de como se construiu o racismo na sociedade brasileira, fala sobre identidade nacional, mestiçagem e as estratégias discriminatórias criadas no ocidente para justificar a escravidão.

“O que são os negros na sociedade brasileira? Como eles são socialmente vistos? Existe um negro jeito de ser ou a condição dos negros é determinada sobretudo pelo seu lugar social de subalternidade e de falta de acessos aos bens públicos? Os negros são mortos pela polícia e a justiça não toma atitude? Porque a justiça não toma atitude quando são jovens negros que estão sendo mortos? Porque que a mídia reage diferente quando é morte de população negra, periférica e pobre da morte de alguém da classe média branca? Sabe porque? Porque a mídia nessa sociedade é um instrumento fundamental do poder e ela nos emite mensagens que incidem sobre a nossa autoimagem individual e coletiva.”

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Nesse sétimo episódio da nossa série, o historiador e pesquisador Salloma Salomão, traça uma perspectiva histórica de como se construiu o racismo na sociedade brasileira, fala sobre identidade nacional, mestiçagem e as estratégias discriminatórias criadas no ocidente para justificar a escravidão.

 

Sobre Salloma Salomão:

Músico, Performer, Historiador e Pesquisador. Doutor em História pela PUC São Paulo. Pesquisador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa é atualmente professor de História da África e Diáspora Negra no Centro Universitário Fundação Santo André. Consultor da Secretaria de Educação do Município de São Paulo tem como especialidades temas como cultura musical, lutas pela liberdade, práticas culturais negras no século XIX e XX, identidades étnicas e movimentos negros urbanos, sociabilidades negras em São Paulo e musicalidades africanas.

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Websérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

 

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JUREMA: Axis mundi*

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Em resumo, o aprendizado do dia: apropriar-se das ervas em dissonância com a natureza pode ter consequências indesejáveis ou mobilizar energias desconhecidas.

IMAGENS, ÁUDIO E VÍDEO CRIADOS COM O IPHONE SE

Fui na mata buscar Jurema

Fui, fui, fui, fui,

Fui na mata buscar ela

Para me fazer feliz!

[canção tabajara para a Jurema]

“Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium”. [Hebreus, XI]**

Jurema é, antes de tudo, o nome popular da árvore do gênero acácia. Só como árvore já daria uma exaustiva compilação simbólica. Universalmente, a árvore é o símbolo da morte e da regeneração, símbolo das relações entre o céu (galhos) e a terra (raízes); representa um eixo no qual percorrem todos os que passam do visível para o invisível. Do carvalho para os celtas, oliveiras para o Islã, à Árvore das Almas do filme Avatar de James Cameron muitas são as “árvores do mundo”. A Acácia-jurema não poderia ser diferente: ela aparece na Bíblia como a madeira do santuário de Javé (Exôdo, 35-40), na lenda africana bambara como a lasca de madeira que deu origem ao zunidor e também no hinduísmo como matéria-prima da concha sacrificial de Brahma. É também a matéria da coroa de Cristo cujos espinhos evocam os raios do sol e o triunfo.


  * 1 Eixo do mundo
** Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêm.
Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

T

Todos os aspectos simbólicos nos dão pistas para nos aproximarmos da devoção que está em torno desta árvore. A transversalidade destas informações amparam o teor sincrético do próprio culto. Dados concretos como as propriedades físicas da madeira ou químicas da Jurema endossam e também trazem equívocos à sua importância. As raízes e as cascas da  jurema preta (mimosa hostillis),  do qual é feito o vinho da Jurema, apresenta o alcalóide N,N dimetiltriptamina – DMT, uma substância alucinógena cujos efeitos são comparados ao LSD nas visões lisérgicas e mudanças das percepções. No entanto, nada garante que ao ingerir o vinho de jurema, fora do contexto mágico-religioso, possamos ser arrebatados pelos espíritos dos mestres ou encantados. Mesmo porque o vinho da jurema é um sacramento destinado somente aos juremeiros, especialmente no momento de seu “tombo”, quando ele oferece alimento às suas correntes espirituais e cujos conhecimentos eles guardam em segredo. O mesmo ocorre em relação aos cultos – torés – dos índios Tabajaras aonde eles compartilham a bebida entre si com o objetivo de entrar em contato com os seus antepassados e com as forças da natureza.

Bate asa e canta galo* – Templo Espírita de Jurema Mestra Jardecilha

Uma coisa é apreender a Jurema-árvore por um processo intelecto-simbólico e a outra é vivenciar a magia e a fé que a circunda. Ao chegar no Templo Espírita de Jurema Mestra Jardecilha**, em Alhandra, a relação entre a natureza e o culto da Jurema Sagrada se desvela. O terreiro é rodeado por onze juremas pretas, uma jurema branca, um manacá e três aroeiras. Em dias claros, reina uma sombra e uma brisa suave faz as árvores farfalharem entre o canto do galo e o barulho da cidade. O lugar tem dimensões mágicas de uma floresta encantada. Um efeito sinéstesico se faz presente quando o sons, as cores e aromas das ervas plantadas se misturam aos relatos de Lucas Souza, neto da Mestra Jardecilha (1934-1988) e herdeiro espiritual da casa.


* Cantiga de abertura de mesa do Catimbó.
** Detalhes da história da Mestra Jardecilha podem ser encontrados no artigo “Cidade da Mestra Jardecilha”: memória e identidade de um território simbólico em Alhandra de Francisco Sales de Lima Segundo http://www.29rba.abant.org.br/resources/anais/1/1401160851_ARQUIVO_cidade-mestra-jardecilha-rba-natal.pdf

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

E

Entre uma cachimbada e outra, Lucas, 21 anos, estudante de Ciências da Religião da Universidade Federal da Paraíba, conta com eloquência a história do terreiro e de sua trajetória espiritual. Assim como a sua avó, muito cedo, aos 7 anos, Lucas apresentou sinais de mediunidade; aos 15 anos tombou – foi para o mundo espiritual em sonho – na jurema, e aos 17 raspou a cabeça para Omulú no Candomblé, em suas palavras, em agrado e respeito à sua ancestralidade. Desde então,  assumiu a responsabilidade da casa, cuidando de quem o procura, assim como cuidando da tradição da Jurema. Seu mentor espiritual é Mestre Canito, um cangaceiro austero e de fala objetiva. Em muitos momentos, durante a conversa, Lucas parece tomar a forma oculta de alguém mais velho. Uma presença paira no ar. Um olhar absorto, pausas longas entre um assunto e outro, como se estivesse a escutar algo que os outros ao redor não podem ouvir. Fala sobre o universo da jurema: as cidades, o cruzeiro de 7 pontas, o maracá, o cachimbo e a bebida-jurema. 

[…] 7 anos eu passei foi em terra

outros 7 eu passei foi no mar
Ó jurema preta senhora rainha
abra a cidade mas a chave é minha.

[cantiga do Catimbó]

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

S

Sete são as pontas do cruzeiro da Jurema, sete são as cidades sagradas e suas ciências: Angico, Manacá, Junça, Catucá, Aroeira, Jurema – Plantas, árvores ou áreas de florestas – e Tambaba, esta última, uma cidade encantada por onde passam todos os espíritos antes que cheguem para trabalhar no Catimbó. Segundo Lucas, estas cidades invisíveis  e seus espíritos habitantes detêm conhecimento dessas energias, magia e medicina. Por intermédio de seus médiuns, os espíritos cultuam, emanam e abalam essas forças para assim triunfarem em seus trabalhos. O maracá com o seu som faz o discípulo entrar em transe, exorciza os seres indesejados e chama a ancestralidade. A fumaça do cachimbo é o meio de comunicação com o universo herdada da tradição indígena.

Na prática de Alhandra, a jurema de salão, como é chamada a bebida servida às entidades nos cultos, é feita de vinho de jurema, cachaça com mel de engenho e ervas. O vinho da jurema é preparado poucas vezes. No Templo da Mestra Jardecilha, o último preparo aconteceu há nove anos atrás e foi e é usado em rituais fechados. Neste legado, o vinho da jurema auxilia o discípulo a compreender os caminhos da cura de problemas de saúde, especialmente os mentais e emocionais nas escutas astrais e interações com campos cósmicos presentes em uma erva ou na natureza. Lucas deixa bem claro sobre a importância dos segredos e das restrições que cercam o uso do vinho, bem como demonstra uma preocupação com o uso recreativo de psicoativos como o DMT e o canabinóides.

Uma cena presenciada durante a nosso encontro nos colocam também neste lugar de atenção. Ao assistirmos a discreta D. Nina – mãe de Lucas e filha da Mestra Jardecilha – cuidando das plantas, observamos que a cada retirada de uma minúscula folha, ela fecha os olhos, pede licença e faz um prece, demonstrando profundo respeito à natureza. Sua relação com as ervas é visceral: as ervas são sua extensão. D. Nina não incorpora entidades mas tem um papel fundamental na casa. Ela é a cabeça de mesa do Templo. Ela auxilia as entidades, traduzindo a sua fala aos consulentes, faz rezas e benzeduras com ervas. Cinco minutos com ela é o suficiente para conhecer ervas e encantamentos das quais nunca ouvimos falar. Em resumo, o aprendizado do dia: apropriar-se das ervas em dissonância com a natureza pode ter consequências indesejáveis ou mobilizar energias desconhecidas.

Esta mesma dimensão extraordinária é relatada pelos índios Tabajaras que habitam o litoral da Paraíba. Nos antecedentes indígena da Jurema, (que veremos no próximo post) conhecimentos botânicos, conhecimentos espirituais, soluções de problemas de saúde, de sortilégios, bem como festas e danças não são categorias estanques. Constantemente, estas esferas tem suas fronteiras borradas ou sobrepostas, o que nos leva a confirmar o ponto de Oxóssi que canta: tempo disse, tempo dirá, que é funda a raiz da Jurema.

Suzy_Okamoto_perfil_NoBrasilSUZY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.
Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1RAFAEL AVANCINI
Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .
Jurema Sagrada
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ASSISTA AO 6° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM MOISÉS PATRÍCIO

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Nesse sexto episódio da nossa série, o artista Moisés Patrício, fala sobre sua produção e como a cosmovisão afro-brasileira influencia nas suas criações.

 

“As minhas referências filosóficas são afro-orientadas, parte da percepção desse conhecimento que é mantido nas rodas de samba, que é mantido nesses espaços de resistência”.

Nesse sexto episódio da nossa série, o artista Moisés Patrício, fala sobre sua produção e como a cosmovisão afro-brasileira influencia nas suas criações.

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Sobre Moisés Patrício:

Reconhecido como um dos expoentes da arte afro-brasileira contemporânea, Moisés Patrício é ao mesmo tempo um artista e uma ativista, que com sua sensibilidade e o conhecimento nato de um corpo-pesquisador-transeunte, busca integrar em seu trabalho as diferentes culturas presentes no país. Passeando por dois mundos, o virtual e o real, compartilha foto-performances, produz ocupações artísticas e traz o ritual como símbolo primeiro do seu fazer.

captura-de-tela-2016-09-28-as-07-19-14Websérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
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Montagem: Victor Guerra
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Pescando uma nova Maré

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Remando contra as águas poluídas da Baía de Guanabara, pescadores da Maré sobrevivem da pesca, lutando para a história das colônias não desaparecer. Assim encerramos o último capítulo da editoria Nas Águas da Maré.

Imagens e videos criados com o iPhone SE

 

O mar, que amedronta muitos por sua grandiosidade, é a melhor forma que a natureza encontrou para se aproximar dos moradores da Praia de Ramos, localizada na ‘ponta’ do Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio.

Pescadores vivem no dia a dia, a recriação de uma lembrança nem tão distante assim, mas que se transforma. Seja nas margens da água, do mangue ou da praia: a pesca artesanal é um estilo de vida.

O trabalho do pescador viajante começa ainda de madrugada. Trouxinhas de roupas são separadas na bolsa, assim como os equipamentos: vara de pesca, carretel, iscas para o peixe, rede resistente e comida. Muitos deles circulam por toda a Baía em busca do melhores peixes e frutos do mar, para depois vender e consumir.

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Um  dos pescadores mais experientes do lugar é Giovan Carlos. Aprendeu a pescar aos 15 anos, com seu pai experiente em pegar camarões. O que era lazer, se tornou rapidamente uma forma de sustento da família. Tem 45 anos, mas faz mais de 30 anos que ele pesca nas águas da Maré. Ainda solteiro, relembra os tempos de palafitas, quando a prática da pesca era mais difícil de ser feita. Os barcos à remo eram pequenos, com pouca tecnologia e sem motor. Hoje, apesar da evolução dos equipamentos, o preço não chega na realidade dos pescadores.

A prática da pesca artesanal é o que Giovan admite fazer de melhor.

Seu primo, Rinaldo Valentim de Melo, aprendiz do trabalho há 4 meses, saiu de Caxias e para se juntar ao grupo. O crescimento da colônia, tem incentivo da família, na maioria das vezes. Assim como os outros, Rinaldo fica no mar durante uma semana, às vezes duas, com mais 12 pessoas em um só barco. Resiste pela necessidade. Pelo pela união e história do lugar. Sua maior surpresa até hoje foi quando um barco de grande porte trouxe cerca de 10 toneladas de peixe. Há diferentes tipos e são vendidos nas feiras durante a semana, nas favelas da Maré do entorno. Frescos. Limpos.

Não só os moradores próximos da Praia de Ramos/Piscinão de Ramos vivem esse estilo de vida, temos moradores da Baixa do Sapateiro, entre outros. As ruas e becos da Maré escondem histórias de pessoas que vivem da natureza e usam a criatividade para continuar trabalhando com o que gostam dentro de seu território.

As águas da Praia de Ramos e do Canal do Cunha se confundem com a da Baía de Guanabara, que sofre com poluição desde o aterramento da Ilha do Fundão nos anos 50, espaço que hoje mantém a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A Maré, que já conviveu com a maior colônia de pesca do Rio de Janeiro nos anos 70, passou pela industrialização do território e a precariedade no saneamento básico, vive o aumento da poluição.

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A estimativa é que as águas da Baía recebem 10 mil toneladas de esgoto por segundo. Para amenizar a situação, 10 embarcações conhecidas como Eco barcos, recolhem 45 toneladas de resíduos por mês. O que não é suficiente, pois o conjunto de favelas tem um baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes da urbanização do território, o número de famílias sustentadas pela pesca na cidade chegava a 23 mil, como acontecia nos tempos de Palafitas. O transporte de objetos e pessoas eram os barcos. O trabalho, assim como a pesca, era manual. A vida, simples. Mas sempre superando obstáculos sociais. Hoje, poucos arriscam a viver e a conviver com o mar.

Giovan desafaba: os interesses privados, o petróleo e construções na cidade afetam diretamente sua realidade. Devido aos problemas, o futuro dessas águas é incerto. Mas pretende continuar vivendo dessa forma, reivindicando em reuniões com autoridades locais para buscar soluções e incentivando os jovens ao trabalho manual no mar. Assim como seu pai lhe ensinou.

A navegação nas águas da Maré continua. É a luta diária pela preservação da história e da memória do lugar.


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.
Nas Águas da Maré

 

 

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