Category: Expressão

Empoderadas: histórias negras femininas contadas em primeira pessoa

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Conversamos com Renata Martins e Joyce Prado, criadoras do Empoderadas, uma web série feita por e sobre mulheres negras. Confira!

por Hanayrá Negreiros

A gente aqui no NoBrasil fala tanto de representatividade e de como criatividade é espaço de poder, que quando damos de cara com um projeto desse, que junta essas duas coisas, só nos resta alegria.

O Empoderadas é uma web série feita por e sobre mulheres negras. Renata Martins e Joyce Prado lideram as câmeras e por de trás delas nos mostram histórias de mulheres que estão em constante movimento e articulando suas vidas de acordo com a realidade negra feminina. Mulheres criativas, que nos contam seus pensamentos e pontos de vista e de como lidam com racismo e machismo diários.

11059458_1661107107458849_7307366603609763707_oEmpoderadas especial Marcha do Orgulho Crespo 

Semanalmente as cineastas disponibilizam em sua página no Facebook, entrevistas com essas mulheres, que estão com suas ações em diversos campos de atuação, empoderando e mudando o Brasil. A série vem para quebrar os velhos estereótipos que são reservados para as mulheres negras brasileiras e conta um pouco da história de vida delas, mostrando mulheres em liderança de empresas, historiadoras, bailarinas e outros tantos perfis. Até agora um dos episódios mais comentados foi contando a história da Mc Soffia, uma rapper de 11 anos que conta como lida com o racismo na infância e da importância do seu cabelo crespo.

Conversamos com a Renata, uma das idealizadoras do programa e ela contou pra gente como o projeto surgiu e qual a sua importância nesses tempos do agora: “Joyce e eu, fomos apresentadas por uma conhecida em comum: a psicóloga Clélia Prestes. Há dois anos eu gravei uma palestra da Clélia e conversamos um pouco sobre minha profissão. Meses depois ela conheceu a Joyce em uma aula de dança e, descobriu que ela também trabalhava com cinema e nos colocou em contato via internet. A partir de então, iniciamos um papo sobre nossos projetos pessoais, eu enviei o link do meu curta, Aquém das Nuvens , e ela me enviou o roteiro de um curta que iria dirigir, A Fábula de Vó Itá. Após esse papo online, combinamos um encontro presencial e almoçamos juntas, eu tinha um projeto de curta e a convidei para auxiliar na construção do roteiro. A conversa que era a princípio profissional, se tornou pessoal, conversamos sobre sermos cineastas negras, sobre afeto, e a ausência dele e sobre assuntos gerais que passam por nossa subjetividade.”

Renata conta que a identificação entre as duas foi imediata, pois, ainda que elas partissem de experiências sociais diferentes, o fato de serem mulheres negras as aproximava, as histórias eram muito próximas. E desde então elas se tornaram amigas e aos poucos foram se conhecendo melhor, mas ainda assim não tinham conseguido trabalhar de fato juntas. Isso só aconteceu durante o desenvolvimento do projeto da série de TV Rua Nove, quando uma roteirista e uma escritora não puderam continuar no projeto. Renato Candido e ela coordenavam o desenvolvimento da série e pensaram em alguém que tivesse alguma intimidade com roteiro, foi aí que surgiu o nome da Joyce.

11112834_1661488784087348_6316705699473934024_oEmpoderadas com a consulesa da França no Brasil Alexandra Baldeh Loras. Assita!

Vários questionamentos surgiram sobre a presença/ausência de mulheres negras na construção do discurso audiovisual, seja no roteiro ou na direção. Renata ainda fala que atualmente, essa realidade sofre transformações positivas: “Ainda somos poucas, mas já existimos para o mercado audiovisual como realizadoras, e melhor, somos várias! Eu, Lilian Solá Santiago, Viviane Ferreira, Jéssica Queiroz, Thais Scábio, Larissa Fulana de Tal, Joyce Prado, Yasmin Thayná, Keyla Serruya, Juliana Vicente, Carol Rodrigues, Ana Julia Travia, Michelle Andrews entre tantas outras.”

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Renata diz que a série nasce dessa necessidade de produção, e de experimentação de linguagem. Um nascimento coletivo, do encontro entre duas mulheres negras que colocam seus conhecimentos técnicos, estéticos e narrativos a serviço de outras mulheres negras, que poderão através de suas ações empoderar outras mulheres negras e assim por diante, como se fosse uma corrente, uma corrente de empoderamento. “Ele nasce de uma necessidade de espelhamento, de uma busca verdadeira e de várias perguntas que possibilitam um movimento e sem dúvida, da sensibilidade de quem emprestou, e da pró-atividade de quem embarcou, no início; Joyce Prado, Revista Viração e André Hirae. Minha gratidão a eles.”

É um convite para que todas as pessoas questionem as imagens que consumiram até hoje em silêncio, as histórias que pagaram, pagam e que provavelmente irão pagar de um Brasil que não enxerga os seus com uma mesma lente, é um convite para desaprender hábitos e construções antigas acerca da imagem da mulher.

Renata termina nos contando que a importância de ter um programa como o Empoderadas é a tentativa de, alguma forma fortalecer essas mulheres negras e dizer a elas que não, não estamos sozinhas. São as nossas histórias sendo contadas em primeira pessoa.

11731965_1654903974745829_5588253056704918122_o Em um dos capítulos do Empoderadas, Cris Mendonça e Ana Paula Xongani falar sobre a experiência e os desafios de construir uma marca.
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Muitas caras, muitas expressões

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De Manaus, Keila Serruya é um reflexo provocador do que significa ser muitas em muitas linguagens levando para as ruas a pluralidade de um estado formado por um Brasil inteiro.

por Diane Lima

 

Faz muitos meses que estamos para ter esse papo com a Keila Serruya mas, como acredito que tudo vem na hora certa, entendi que era esse mesmo o momento mais propício para acontecer sobretudo por ser essa talvez a curva exata do tempo em que estejamos mais interessados em discutir em nossos projetos no offline, como podemos entender a nossa diversidade para desenhar, criar e traduzir isso tudo nas mais diferentes linguagens: como podemos transformar toda a nossa história em processo.

Nascida em Manaus, Keila não somente faz isso como vai além: a formação da sua história de vida pode ser ela mesma usada como metáfora e porque não metodologia, para explicar a própria recombinação de formas de expressão que utiliza nos seus trabalhos. Algo como muitas caras, muitas expressões em que a diversidade da memória do corpo pode ser traduzida em essência na própria forma de criar, ver e conceber o mundo. Um resultado que vem entranhado pela relação com a cidade e pelas diferentes formas de existir.

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Posicionando o seu lugar de fala como uma mulher negra, ela nos contou como sua trajetória desemboca completamente no que faz: “eu realmente acho que eu vim para provocar o centro da minha família, questionando todos esses lugares de onde a gente vem. Desde pequena, ouço a minha avó materna dizer que a mãe dela havia ganho “um papel que podia ir embora”. E essa minha avó não tem registro nenhum, é só Maria Lourdes dos Santos, Santos como nome típico dado aos escravos alforriados. Ela disse que quem tinha dado esse papelzinho para a mãe dela ir embora era uma senhora dona dela e que gostava muito dela. Algo que eu só vim entender muito tempo depois. Essa minha avó mudou de Boa Vista, com todos meus tios, tias e minha mãe e vinheram parar aqui em Manaus. Já o meu sobrenome Serruya é judeu, dos Judeus Sefarditas que são aqueles que ficam andando pra lá e pra cá. A família do meu pai diz que ele são Judeus da Espanha, mas na verdade eles passaram uns 150 anos no Marrocos…. uma família de homens brancos onde só o meu pai nasceu negro. Somos uma grande confusão.”

Começando a cantar rap com 16 anos e depois trabalhando com video-dança cresceu na Vila Martins, “um grande cortiço que se roubassem no centro iam bater lá” e um lugar que ela diz ter sido de fundamental importância na sua formação como pessoa: ” tinha gente de todos os tipos: evangélicos fervorosos, gays assumidos, babytrans, pessoas que cultuavam religiões de matrizes africanas, pessoas de todas as cores e com as mais diversas histórias.”

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a rua dança5a rua dança4a rua dançaA rua na dança – O corpo urbano, projeto que aconteceu em janeiro de 2015, nas cidades amazonenses de Presidente Figueiredo, Manacapuru e Manaus. As fotos são do João Paulo Machado.

Nesse caminhar, passou a questionar “as caixas” e entender que o trabalho era e podia ser muito mais híbrido.  Performance, áudio-visual e artes visuais se misturavam a um tipo de linguagem cinematográfica que não tem como prioridade estar nas grandes telas, mas nas ruas e/ou em instalações em espaços fechados desde que dialogando com outras formas de expressão. E é essa mistura encontrada nas produções da Picolé da Massa, coletivo-produtora que criou e tem como objetivo produzir, difundir, idealizar, escoar e incentivar projetos culturais ligados as artes cênicas, música e audiovisual e tem como um dos últimos trabalhos um projeto que nos chamou muito atenção: o Assim, curta-metragem que desdobrou-se em uma video-instalação na I Mostra Manaus de Artes Visuais transformando-se ainda em uma outra intervenção urbana com video-instalação. A tríade Assim, Assim Aqui e Aqui conta as histórias de vida de Patrícia Fonttine, Nayla Bianca, Paty LaBelle e Layna Fonttine, travestis, transexuais e transformistas:

“pretendo circular com esse projeto por entender que ele cumpre o seu papel de incomodar sobretudo numa cidade em que o Coronel de Barranco ainda se faz presente, mesmo hoje em que a época da borracha nos parece estar tão distante”.

11401135_381241925413020_5738408279277386279_o

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capaVídeo instalação urbana Projeto Aqui. A obra fez parte da I Mostra Manaus de Artes Visuais.

Nessa relação de tensão e amor com a cidade é visível no discurso da Keila, assim como presente também na produção e postura de muitos artistas que se encontram vivendo no dilema  centro X periferia, a vontade de ir mas a permanência por entender a necessidade de continuar, momento que a produção passa a ser símbolo de resistência. Gente que produz apesar de todas as adversidades fazendo da expressão seja lá o quão múltipla ela for, dispositivo para disseminar novas formas de entender o mundo, ferramenta de educação e multiplicação: “o nosso interior é um interior diferente dos outros interiores do Brasil. Em outros lugares, em 1 hora, 40 minutos você está em outra cidade. Aqui não. Eu consigo contar nos dedos dos 62 municípios, àqueles que eu consigo chegar de carro. Manacapuru, Presidente Figueiredo, Itaquatiara….. o resto é tudo barco! É tudo muito distante e isso faz com que as coisas fiquem extremamente excluídas. Por isso que desde de 2013 eu venho tentando dialogar com o interior porque o que adianta eu conhecer os outros lugares sem conhecer as pessoas que estão no interior do meu próprio estado?”

Assim aqui 3Assim aqui 4Assim aqui 2Assim aquiAssim Aqui: Intervenção urbana em video-instalação.

Mormaço Sonoro é a resposta que a Keila encontrou e logo mais em breve estará a bordo navegando pelos rio do norte do país: “a nossa música é o gambá assim como o carimbó é de Belém. Hoje você sabe disso porque há 30 anos atrás existiu no Pará um processo de resgate para que isso chegasse a mais pessoas. Aqui temos o MPA, mas onde já se viu isso? Música Popular Amazonense, uma marmota! Tem os Senhores de Tambores em Maués mas é uma música que não chega para todo mundo, porque realmente a colonização surgiu como uma bola de ferro na cabeça das pessoas antes mesmo dessa música chegar até aqui. Então a gente precisa de diversos processos para restabelecer esses contatos. Por isso que acabo no meu trabalho me apegando tanto a cidade. E essa é uma coisa que quero fazer com o Mormaço Sonoro: convidar grupos de música e transformar isso num registro áudio-visual que pode virar qualquer coisa”.

Colocando todo o seu tempo na criação, seja da sua filha de 04 anos ou de seus projetos multi-linguagem como o incrível A Rua Dança – que você pode assistir agora, Keila vem buscando o equilíbrio de quem abraça a pluralidade de um estado formado por um Brasil inteiro.

Uma honra tê-la por aqui semeando esperança através de um olhar contemporâneo, para nós aquele que reconhece a sua história, recombina e transforma.

Nosso máximo agradecimento a Yasmin Thayná pela conexão.

Documentário sobre o projeto “A rua na dança – O corpo urbano”
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Adentro: Porque precisamos no Design Olhar e Criar para o Brasil?

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NoBrasil + Brasis ministram palestra gratuita na Design Weekend como parte da programação da Design House. Programe-se!

por Diane Lima

 

Foi ontem depois de responder uma entrevista sobre a relação entre Design, Brasil e Cultura para uma pesquisadora-amiga inglesa de nome Jane Hall que fiquei com os dedos coçando para escrever aqui algumas linhas sobre o que vai nortear a palestra do Adentro na Design Weekend, hoje considerada a maior semana de design da América Latina. Para quem não sabe Adentro é um programa de oficinas e cursos criado em parceria NoBrasil + Brasis que tem como objetivo principal estimular o Olhar e o Criar para o Brasil, ele é feito para grupos de pessoas e empresas em busca de conhecer e aplicar repertório brasileiro em seus projetos. Junto com a Mayra Fonseca, pesquisadora e antropóloga que nasceu em Montes Claros- MG, mesma cidade do Darcy Ribeiro e que recebeu seu nome inspirado em sua obra, pensei que não haveria melhor oportunidade de discutir o design brasileiro se não aceitando o convite de participar da programação da Design House, projeto da super curadora Camilla D’Anunziata que acontece durante 04 anos na Design Weekend e que recebe Adentro no dia 16.08, domingo, às 18h na Red Studios.

Mas porque de fato estão uma baiana e uma norte-mineira a dizer que precisamos no Design Olhar e Criar para o Brasil? Na verdade, sempre entendi o design não somente na sua perspectiva estética e utilitária, características às quais a atividade é massivamente reduzida mas, sobretudo pela sua capacidade de comunicar e dar sentido às coisas no mundo. Levando em consideração que nas sociedades ocidentais a cultura é profundamente ligada e dependente do consumo, moldando e transformando a nossa definição coletiva, chegamos a ideia que não há como ser designer sem pensar que esta é uma empreitada inteiramente cultural. E é aí que sem dúvida a gente se encontra.

O Flusser, autor que na minha humilde opinião deveria fazer parte da estante de toda pessoa que trabalha com design e comunicação (junto com o Darcy), diz que todo artefato é produzido por meio da ação de dar forma a matéria seguindo uma intenção. Para transformar a proposição em algo mais simples, vou criar uma imagem: pense em um bloco quadrado grande de madeira em cima de uma mesa. Ao redor, 5 pessoas estão munidas de diversas ferramentas. Quais valores você coloca no seu ato de in-formar essa matéria quando a transforma com suas mãos e punhos? O que sua energia criativa ali empregada irá comunicar ao mundo? Vale a pena mais uma explicação. Flusser diz ainda que etimologicamente a palavra manufatura corresponde ao termo in-formação que por sua vez significa o processo de dar forma a algo: fabricar pois é então um ato de informar.

Explico isso pois na entrevista quando a Jane me perguntou como eu relacionava design e cultura brasileira, eu prontamente respondi que poderíamos pensar isso de diferentes maneiras mas que the first could be the worst (em inglês no texto apenas para manter o trocadilho de palavras que em português quer dizer que a primeira, poderia ser a pior): a nossa profunda vocação em alimentar um câncer plantado no cerne da educação e do mercado de design chamado cultura da cópia. A partir daqui não tenho como falar do assunto sem evocar dois pontos principais.  São eles a contribuição da arquiteta Lina Bo Bardi e do designer Aluízio Magalhães, e o entendimento sobre como a relação entre  industrialização, política e artesanato foram por eles debatidas. Ela nos leva ainda a compartilhar uma outra reflexão atual de Adentro: quais intenções nos levam a escolher um termo em inglês para nomear uma ciência e ofício num país com centenas de idiomas nativos? Quais informações acessamos em nossa prática a partir dessa escolha? Até que ponto esse design dá conta de nós?

Clike e assista um pouco do que aconteceu no primeiro workshop Adentro em São Paulo.

 

Ainda que entendendo a importância e inclusive a necessidade de termos uma atividade projetual atravessada pelos efeitos de um mundo globalizado, continuamos sem olhar e criar para o Brasil. Uma contradição para um país que seria, segundo Dijon de Moraes em seu livro entre Mimese e Mestiçagem, o mais habilitado a dar bons ensinamentos ao mundo. Para ele se somos globalizados por natureza, somos também safos no que diz respeito a fazer novas misturas. Isso me faz lembrar que quando olho os projetos mais legais que conheço, tenho na maioria das vezes como resposta justamente aqueles que pacientes e interessados em entender as culturas, expressões e cotidianos do Brasil, conseguiram produzir a partir dos atravessamentos entre esses elementos locais e as informações globais a qual todos os dias somos submetidos, uma trama que recombina e produz pela justaposição de ingredientes tão diferentes, uma cara nova que posiciona o nosso eu no centro do mundo.

Sendo assim,  sempre  chego a conclusão que em sua totalidade o design brasileiro pode ser considerado um design para 20% e um design para 20% é aquele empregado não como uma ferramenta democrática mas sim segregadora. O efeito disso tudo é que não é parte da nossa prática criar tecnologias baseadas em processos e métodos que de fato possam representar a nossa diversidade cultural, seja ela étnica, econômica ou social. Resultado da nossa política de industrialização nos anos 60, mantemos “o costume” de comprar de fora conceitos e métodos “inovadores” ou mais corriqueiramente copiar padrões, formas e estilos enquanto o nosso povo do campo, das vilas, florestas, montanhas, sertões e favelas continuam dando pra gente como fruto de anos de experiência do tal do learning by doing (aprender fazendo), conceito que também importamos nas últimas temporadas, o mais precioso conhecimento para se fazer design: o nosso próprio jeito de ser e encontrar soluções para sobreviver.

“…em sua totalidade o design brasileiro pode ser considerado um design para 20% e um design para 20% é aquele empregado não como uma ferramenta democrática mas sim segregadora”.

Apesar da minha crítica não há uma desesperança mas uma crença que o primeiro passo é discutir e nos situarmos através sobretudo dos trabalhos de excelência de quem está buscando experimentar. Designers como o Rodrigo Almeida, o Sergio J. Matos, o Rodrigo Ambrósio, a Lane Marinho, Fernanda Yamamoto, Andrea Bandoni, os projetos liderados no curso de design na Universidade Federal da Bahia pelo professor e amigo Taygoara Aguiar e o estúdio Questto|Nó apenas para citar alguns poucos que vieram rapidamente na minha mente. De algum modo sempre me levo a pensar que o ato de copiar e criar relações aspiracionais reprimindo uma expressão da subjetividade do sujeito pode ser lida de certa forma como um ato esquizofrênico e isso me faz lembrar de um dos mais importantes ensinamentos que o nosso crescimento econômico dos últimos 8 anos proporcionou: que os 80% querem ter acesso para comprar mas, isso não significa que querem ser classe média no que no corpo e no comportamento isso possa significar. Eles querem continuar livres para expressar suas individualidades e seu próprio jeito de ser e experimentar.

Pensar e Fazer Design que Olhe e Crie para o Brasil é acima de tudo pensar para quem queremos fazer design e nos questionar qual a responsabilidade que temos quando criamos coisas que dão sentido ao mundo. A gente vem discutindo por muito tempo a sustentabilidade e a importância de pensar a matéria mas o que dizemos sobre a violência que existe por trás ou “dentro” dos projetos/produtos/conceitos que criamos se consideramos seu papel mediador em criar relações quando entregues ao outro? Recombinar elementos, mudar as coisas de lugar e construir novas narrativas pode ser um bom caminho para começar. Assim, mantenho a máxima em dizer que processo criativo é espaço de poder e que olhando e criando para o Brasil um outro design que nos valorize, reinvente e liberte, é possível.

Até lá.

Serviço:
Palestra Adentro – gratuita
Onde: Red Studios – Rua Professor Nova Gomes, 228, Vila Madalena, São Paulo
Data: 16 de agosto, domingo
Horário: 18:30h
Confira toda a programação.

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Um olhar sobre o negro da zona rural

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De Amargosa ao Capão Redondo Mailson Soares nos deixa com fortes olhares uma provocação sobre como muda a nossa voz mas nunca a cor da nossa pele, não importa o lugar de onde falamos.

 

Uma sinergia sobre o que se pensa e o que se vê. Essa foi a sensação que tivemos quando fomos trocar uma ideia com o Mailson Soares. E a coincidência se deu pelo encontro entre o que as imagens diziam e o que daqui estávamos pensando e agora gostaríamos de dividir com vocês: qual a diferença entre ser negro em uma grande cidade e ser negro na zona rural? De Amargosa, do Capão Redondo e agora de Los Angeles, Mailson nos deixa com fortes olhares uma provocação sobre como muda a nossa voz mas nunca a nossa pele, independente dos diferentes lugares de onde falamos.
Conheça, se inspire e nunca esqueça que somos todos filhos e filhas do vento.

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NoBr: Oi Mailson, pode falar um pouco da sua trajetória? De onde você é, onde mora e como chegou na fotografia? Fala um pouco da sua história!

Mailson Soares: Filho de Baiano mas sou de São Paulo, especificamente do Capão Redondo, tenho 23 anos e atualmente estou vivendo uma temporada em Los Angeles- CA, para aprimorar meus conhecimentos. Eu sempre gostei de fotografar, mas não somente o ato de capturar a imagem e sim a composição de luz, enquadramento e principalmente expressões. Meu primeiro contato com a fotografia profissional foi no ano de 2009 quando consegui entrar no “Instituto Criar de Tv, Cinema e novas mídias”, foi la onde conheci um dos meus grandes mestres “Roberto Augusto Sócrates” ele quem foi me ensinando como funciona esse mundo, posso dizer que foi ele quem me abriu os olhos e me apresentou a fotografia, especificamente a luz.

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NoBr: Como surgiu a ideia de fazer esse projeto? Qual motivação?


Mailson Soares:
A ideia não surgiu de uma hora para outra, ela foi surgindo a cada dia da minha vida, a cada história que eu ouvia do meu Pai e da minha Mãe me fascinava para conhecer minhas raízes, e quando eu realmente os conheci eu tinha 4 anos de idade e voltei agora depois de 19 anos para os visitar e retratar um pouco do cotidiano, do estilo de vida que é bem diferente da nossa vida urbana.
Muita gente atualmente não conhece a vida rural, ou se conhece sabe apenas que ela existe, o meu intuito em dividir isso é que além de existir, esse povo tem muita história e muita sabedoria.
A minha maior motivação são eles, pois são a história do Brasil, todos nós viemos de um lugar chamado África, todos nós somos descendentes de escravos e viver essa situação de desigualdade me faz pensar: – Se nós somos os donos de uma rica cultura, e através da nossa cultura foram surgindo outras culturas, e formando o Brasil, porque até hoje somos alvo da desigualdade Racial?
Então essa é a minha motivação, é conseguir aprender sobre a minha história e talvez ajudar as pessoas a conhecerem mais, antes de serem contaminados e virarem bonecos da sociedade.

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NoBr: E sobre os planos de futuro? Pode dividir seus sonhos com a gente?

Mailson Soares: Meus planos para o futuro são continuar aprimorando conhecimento, aprender sobre as diferentes culturas desse nosso mundo e tentar de alguma forma ajudar meu povo, o Capão Redondo está esquecido atualmente, não se vê muitas matérias na tv sobre a criminalidade no capão, isso ja é um bom começo, o próximo passo é continuar a compartilhar nossa historia e mudar esse estereótipo que nos persegue, de que é um lugar perigoso e que a criminalidade domina, de um povo sem cultura e sem expectativa de vida. Isso é mito, meu povo é muito capaz, até mesmo por sermos menos favorecidos a vida toda nós aprendemos a viver assim, tendo em mente que temos que ser 3 vezes melhores.

Muitos de la tem a mesma história que eu tenho, e ligar essas pessoas com as suas raízes, compartilhando um minha vivencia é algo que pode transformar a mentalidade de muita gente.
Meu sonho? Eu sonho em ter uma família, ter meus filhos e principalmente, que eles vivam numa sociedade um pouco diferente, sem essa amnésia de culturas e valores que infelizmente temos hoje.

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#deixaocabelodameninanomundo no TEDxSãoPaulo

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“Deixa o cabelo da menina no mundo é uma metáfora para dizer que é chegada a hora de Ser quem Somos.”

 

Hoje é um dia especial. Pela primeira vez em um ano de NoBrasil me dei a oportunidade de escrever em primeira pessoa e faço isso por alguns motivos de felicidade, entre eles, dizer muito obrigada e reforçar um sentimento que não deixa de ser de esperança: a constatação que estamos todos aprendendo.

Tenho pensando muito desde que participei do TEDXSãoPaulo de qual lugar ecoa a minha voz e o que a minha história pode contribuir para os que vieram dessa vizinhança que na geopolítica, pode ser considerada como a periferia, da periferia, da periferia, da periferia do mundo. Sinto como se o nosso corpo tivesse em uma constante disputa, potencializada pela vontade de nos sentirmos contemplados nesse mundão abismo, que nos faz ser únicos e ao mesmo tempo, muitos. Como um agente político no entanto, nos pegamos a assumir margens para que desse canto possamos ter ressonância diante das violências diárias que somos todos submetidos por apenas ser quem somos. E quando com o NoBrasil falamos de diversidade, é uma tentativa de transformar um discurso tão complexo em algo que chegue para dar um estalo na vida das pessoas já que muitas vezes, com a necessidade de desbravar essas palavras, a gente acabe por nos afastar do mundo real: verdadeiros espaços de ódio como me lembrou uma amiga, ao se referir ao trem lotada do fim do dia.

Estamos todos carregados de dor, buscando o seu e querendo um lugar ao sol que nos dê um pouco mais de energia para ter coragem, coragem para enfrentar as coisas da vida, como me diz minha bisavó. Tentando avançar casas, vivemos como se tivéssemos que vencer cada etapa de um jogo que se faz tão excludente, que nos obriga a falar de representação, ocupação e força. Estamos todos cansados de estar fora, único destino deixado a todas as maiorias-minorias do país. Ainda que entendendo o quanto somos atravessados e gente sem identidade fixa, a quem recorro quando chego num jantar e a única opção é ser a moça do buffet? Talvez isso não seja para você.

O que me traz essa tal esperança é que tem muita gente sonhando, criando e produzindo. E o sonho é o simples despertar que existe para nós uma outra opção. A criatividade é lida aqui como a capacidade de recombinar elementos éticos, estéticos e estratégicos para construir esses novos horizontes, seja nas artes, no design, na comunicação, na educação ou nas tecnologias. Agentes políticos que entenderam que o processo de criação é um espaço de decisão, escolha e por assim dizer, poder, e que teremos que nos reinventar ainda com as marcas da pele.

O nosso objetivo então é um só: conectar essas pessoas. Gente que está transformando o país através da criatividade. Gente que está fazendo micro-revoluções e que entenderam a responsabilidade que existe quando materializamos coisas que dão sentido ao mundo. Que perceberam a violência que existe no simbólico, esse lugar que vai além do que a gente poder ver e descobriram que energia criativa é um bem precioso e que com ela, podemos produzir solidariedades alterando a realidade que tanto criticamos.

Deixa o cabelo da menina no mundo é uma metáfora para dizer que é chegada a hora de ser quem somos! Que somos fruto das histórias que temos para contar e que precisamos continuar aprendendo desse lugar de onde a gente veio, sempre!  Quero ainda agradecer por ter encontrado cada um de vocês, seja no online através do facebook ou do instagram, ou pelas ruas da vida.  Como vocês sabem, continuar esse trabalho não é coisa fácil mas venho acreditando que podemos transformar a nossa dor em ação para que nunca percamos a capacidade de sonhar e criar esses novos mundos. Energia criativa que possa fazer meu cabelo simplesmente, existir.

Com carinho e cabelo no mundo, Diane.

Agradeço especialmente a Mamãe, Vovó Catarina, Vovó Dag, minha irmã Denise, Fernando meu companheiro, tios, tias e primas além dos amigos Gerardo, Tarcísio, Mahal, Yasmin e Cindy, por me aturarem nos dias nervosos de Ted e a Fernanda Yamamoto por me vestir em poesia.
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Campanha #deixaocabelodameninanomundo chega em escolas da Bahia promovendo atividades educativas através do papel transformador da criatividade

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A atividade retorna ao seu local de origem, na cidade de Mundo Novo e para comemorar reunimos algumas das ilustrações e fotos de quem compartilhou e inspirou uma mãe e uma criança. Confira!

Foi na cidade de Mundo Novo, a 350km da capital Baiana, que há mais de 20 anos atrás  Danúsia Maria, mãe da nossa diretora criativa Diane Lima, disparou a seguinte frase: “se a menina quer deixar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo”! A ideia que logo de cara gerou identificação pela forma espontânea e o jeito simples de dizer, viralizou pela internet através da hashtag #deixaocabelodameninanomundo após a Diane contar sua história de vida no TedxSãoPaulo. Surpresa com o movimento, Diane convidou artistas e designers a criarem desenhos, colagens e ilustrações e compartilhar nas redes surgindo assim a campanha #deixaocabelodameninanomundo – Crie, Compartilhe e Inspire uma Mãe e uma Criança: “a gente não imaginava que exatamente essa frase fosse repercutir tanto, uma prova de como estamos todos sensíveis e abertos a discussão, um momento que vimos ser propício para fortalecer ações que unissem educação e criatividade já que por trás do cabelo, da imagem e da estética existe um exercício de construção de uma personalidade que leva a criança a ter autonomia e liberdade.”, pontua Diane.

Diane-TedxDiane Lima, Diretora Criativa do NoBrasil no TEDxSãoPaulo
1Algumas das mais de 400 participações que recebemos através da #deixaocabelodameninanomundo! Veja todas aqui ou acessando @nobrasil em nosso Instagram.

Em menos de um mês do lançamento da campanha a ser comemorado depois de amanhã, o resultado não poderia ser mais animador. O NoBrasil recebeu mais de 400 colaborações de artistas e criativos dos quatro cantos do país que toparam participar e enviaram as suas contribuições fazendo-nos refletir o quanto é ainda escasso imagens que dialoguem de forma lúdica com as crianças negras ou que estimule a auto-estima entre os jovens e adolescentes, resposta que pode ser vista nos números e no alcance da campanha na rede, que ganhou o apoio de órgãos federais, instituições, páginas que tratam sobre auto-estima e educação afro-brasileira e gente da TV, como foi o caso da atrizes Camila Pitanga e Sabrina Nonata.

Mas apesar de iniciar sua mobilização pela internet, a ideia sempre foi romper suas barreiras e co-criar junto com professoras e mães ações educativas nas escolas que, utilizando de métodos criativos, pudessem implementar espaços de compartilhamento, colaboração e sobretudo escuta: “a nossa intenção é fazer um trabalho de muitas mãos, reunindo especialistas, pedagogos e profissionais que tenham projetos criativos-educativos para ir formatando as atividades junto com a gente utilizando a afetividade como princípio básico ao trazer a memória do corpo e a história de cada criança e jovem para o centro do debate, razão pela qual ficamos muito felizes quando acompanhamos a mobilização da professora Juliane Ribeiro, a primeira a realizar de forma espontânea em sua turma em São Paulo, uma atividade do #deixaocabelodameninanomundo. Uma emoção só!”.
Juliane-RibeiroAtividade realizada pela professora Juliana Ribeiro em São Paulo.
2Veja todas as pessoas que participaram acessando @nobrasil no Instagram!
Agora, uma nova etapa se inicia. O #deixaocabelodameninanomundo retorna para Mundo Novo, sua cidade natal entre os dias 06 e 07 de julho onde Diane viveu até os 08 anos, para com o grupo de educadoras, entre elas sua madrinha e mulheres que também foram suas professoras, realizar encontros em escolas da rede municipal com crianças dos 05-07 anos e 08-12 anos: “Iremos testar algumas metodologias com os dois grupos para sentir como elas se desenrolam pois acreditamos que só o exercício e a prática nos darão essas respostas, inclusive de pensar um processo não linear bem como sua continuidade já que a discussão encontra seus principais obstáculos no seio da família, entre as mães e principalmente os pais”. Nesse primeiro momento o grupo vai contar ainda com a participação de Tamires Lima, designer que gentilmente vem colaborando na formatação das atividades a partir da experiência dos seus dois livros infantis, o Tóim e o Fabrincando.
Acho que acima de tudo o #deixaocabelodameninanomundo é uma ação que exalta a possibilidade de se pensar um ativismo estético e visual que traz a criatividade como ferramenta de transformação para que possamos de forma coletiva co-criar juntos para promover micro-revoluções. Um movimento que é feito por quem sente na pele e carrega na memória do corpo uma história de opressão mas que entendeu o que significa ter uma única criança empoderada dentro de casa. Uma campanha que exalta a capacidade de imaginar, sonhar e criar novos mundos.”
3Veja todas as pessoas que participaram acessando @nobrasil no Instagram!
Para saber mais sobre toda a ação, basta acompanhar as nossas redes sociais através da nossa página do facebook e instagram pois faremos uma cobertura completa! E quem se interessar em participar da campanha, ainda dá tempo de contribuir. Basta criar, compartilhar e inspirar uma mãe e uma criança! Quem quiser colaborar com as atividades educativas, nos envia um email para contato@nobrasil.co ! Será um prazer criar esse caminho em conjunto!
Até mais !
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Do Juazeiro do Norte, é Jarid Arraes a escritora que nos representa.

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Lançando seu novo livro As Lendas de Dandara, ela fala sobre seu processo criativo, política, preconceito e nos presenteia com uma história que é pura inspiração.

por Diane Lima

Conhecer Jarid Arraes foi assim, um encantamento.  No gesto, no tom e na poesia, algo nos dizia que falávamos do mesmo lugar, de uma mesma posição em que o Nordeste, esse que corre em nossas veias, estava ali presente com toda a prosa, a métrica e a rima de quem carrega na memória do corpo e com as palavras no dedo, a missão de “dizer dizeres nunca antes ditos”.

Seja na sua produção como jornalista na coluna Questões de Gênero na Revista Fórum ou como escritora, Jarid é hoje uma das mais representativas mulheres da internet, escrevendo textos críticos em defesa dos direitos humanos, com total atenção às mulheres, a diversidade sexual/ gênero e questões raciais. Crescida numa família onde é presente a cultura do cordel bem como forte uma consciência política, aprendeu com o pai, o Hamurabi Batista, o que hoje aos 24 anos dá vida com seus próprios folhetos: uma forma que encontrou de manter viva a tradição abordando através da característica de protesto, ensino e informação própria desse gênero literário, temas, histórias e personagens pouco visibilizados no mainstream das artes brasileiras.

Do seu primeiro cordel de título Dora,  A Negra e Feminista vieram outras tantos e a ideia de contar a história de mulheres negras que os livros fizeram questão de não contemplar. Tomando como sua missão, passou a nos conduzir por um caminho de reconhecimento da nossa ancestralidade, fazendo do cordel um importante documento para promoção da cultura afro-brasileira bem como, ferramenta indispensável para o ensino em casa e nas escolas.  Entre seus títulos que encontra-se disponível no seu site estão, Dandara dos Palmares, Não me chame de mulata, Carolina Maria de Jesus, dentre outros 30 que disputam o nosso interesse e curiosidade por carregar ainda as xilogravuras incríveis feitas de próprio punho pelo pai da Jarid lá mesmo do Cariri.

“Desde muito nova eu sempre quis ser escritora, mas não entendia que aquilo era uma profissão, o que acabou acontecendo mesmo pelo destino, como se tivesse que acontecer. Eu comecei a escrever no meu blog sobre feminismo, depois fui convidada pela Revista Fórum e aí quando eu comecei a escrever os cordéis que eu de repente me dei conta: eu sempre quis ser escritora e agora eu sou escritora, socorro!”

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Fotos da CAROLINA DE MARCHI na matéria incrível que o Brasis fez com a Jarid. Passa lá e dá uma olhada!

Nessa trajetória que já tem muito pra dizer, não nos escapa falar da nossa felicidade em ter a presença de Jarid, que hoje mora em São Paulo, influenciando a tantas outras meninas e mulheres com a sua produção e opinião. Para além da incontestável relevância do que significa tê-la ocupando espaços e sendo porta-voz de tantas outras mulheres, ela não poupa criatividade dando uma aula de como a nossa história e aquilo que carregamos como nossa verdade, são ingredientes fundamentais para nos posicionar e criar coisas lindas no mundo. Como numa alquimia, ela reuniu o seu orgulho, a sabedoria e a tradição da sua família para tratar de assuntos contemporâneos de um jeito mais contemporâneo ainda: mixando, reinventando e inserindo o que era cristalizado na ordem do dia. Um exemplo de como podemos olhar para o Brasil e fazer a inovação na prática, ainda que nem sequer teorizando, vendendo ou falando sobre ela: “me assumir escritora foi um processo difícil, porque faltou referência. Todas as imagens que eu tinha de mulheres escritoras da literatura em geral, nunca era mulheres negras e nem nordestinas, então por muito tempo é difícil a gente acreditar que a gente tem talento suficiente para as pessoas de fato se interessarem pelo o que temos a dizer. Então, é uma coisa muito da auto-estima: se você nunca vê pessoas como você fazendo sucesso nem sendo reconhecidas, como vai achar que é possível? Depois de conseguir romper algumas dessas barreiras e inseguranças pessoais, eu ainda tive que lhe dar com o machismo, com o racismo, com o preconceito contra o Nordeste e contra a gordofobia e me dei conta que as vezes aquilo que você escreve, nem sempre é o suficiente para fazer as pessoas te apresentarem. O mercado quer te encaixar num perfil que é vendável e você tem que ter uma carinha comercial e quando você não se encaixa nesses pré-requisitos de repente passa a não ser mais tão interessante aquilo que você escreve”.

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Ilustração da Aline Válek representando a Iansã e a Dandara ainda bebê, no  seu nascimento .

“As pessoas aqui em São Paulo não tem vergonha de manifestar preconceito contra o nordestino e são essas mesmas pessoas que estão nas editoras, que estão na mídia e que estão em todos os lugares que nós precisamos ter acesso para ter oportunidade na vida. Então, se elas pensam isso do meu povo, elas pensam também isso de mim e como é que elas vão me dar oportunidade, achar que eu sou capaz de escrever uma coisa boa e valorizar o que eu faço? É a partir daí que já se vê essa falsa meritocracia, essa falsa ideia de oportunidade igual para todos: só o fato de eu seu ser nordestina já cria um muro nos separando.”

Empolgada com o novo desafio, As Lendas de Dandara, livro feito com muito carinho e que narra em ficção contos da vida de Dandara dos Palmares, não deixou de mencionar a responsabilidade por abordar essa tão importante mas desconhecida personagem da nossa história, o que demandou um longo trabalho de pesquisa: “tudo começou com o cordel pois eu quis fazer uma série de cordéis biográficos sobre mulheres negras da história do Brasil e entre elas, tinha a Dandara dos Palmeiras que eu conheci por acaso, quando uma companheira num coletivo que eu fazia parte no Cariri, citou ela numa fala. Pesquisando na internet, achei algumas informações um pouco controversas com inclusive teóricos dizendo que ela nunca existiu. Até que eu escrevi um texto para a Fórum no dia da Consciência Negra em que a chamada era: “E a Dandara dos Palmares, vocês sabem quem foi?”.  O texto bombou muito e eu recebi muitos comentários bem desaforados com muita gente dizendo que ela era só uma lenda. Aí eu pensei: bom, se ela é só uma lenda, eu vou criar lendas de Dandara, porque daí vai ter mais conteúdo sobre ela, vão ter que falar mais dela, pesquisar e investigar! A ideia então é falar sobre ela de forma poética em que o discurso da militância só vem pelas atitudes, palavras e ações da própria personagem. Para mim tem sido um momento muito lindo, estou muito orgulhosa, porque se ela existiu ou não, a presença dela em nosso imaginário já é uma referência e exemplo de força para todas as mulheres negras. Uma história que merece ser perpetuada”.

O livro que é uma produção independente (aloww editoras, depois do lançamento que tal chamar a Jarid para conversar e levar a proposta para mais pessoas?),  vai sair em formato impresso e e-book e tem lançamento previsto para Julho, vai trazer as ilustrações e a colaboração mais que especial da ilustradora e também escritora Aline Válek que breve esperamos mostrar mais por aqui e é braço direito de Jarid nessa caminhada.

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Buscando com o seu trabalho deixar uma colaboração que seja relevante e faça a diferença na vidas pessoas, nos contou ainda como foi se descobrir como mulher negra e como o feminismo a ajudou a entender o seu papel no mundo: “minha mãe sempre me ensinou a ser independente e ter autonomia, aprendi o feminismo na prática dentro de casa. Depois pesquisando mais, foi que eu conheci feministas negras que falavam sobre identidade racial, porque até então eu me via como miscigenada. Até que uma companheira minha, a Carla Agressilva (sim é um sobrenome poético!) lá do Cariri falou: “Jarid, você tem que parar de dizer que você é miscigenada pois na história do Brasil, existiu uma política oficial de miscigenação para branquear a população e toda vez que você concorda com isso, você está fazendo o jogo do racismo!”. Ainda que minha pele fosse um pouco mais clara, era nela que eu sofria já que eu carregava todos os traços que me identificavam como mulher negra. Foi aí que comecei a entender, a aceitar o que via no espelho e o empoderamento que veio com esse reconhecimento foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida .”

Citando a importância de ter uma nordestina esse ano na maior Festa Literária do país- FLIP, a Karina Buhr, finaliza com a gente falando do que espera para o futuro: “tudo o que eu quero é que tudo o que eu falo contra, possa deixar de existir. Eu acho que é minha missão de vida! As pessoas até podem achar ingênuo quando falo que meu sonho é mudar o mundo e elas falam disso como se fosse algo pejorativo e eu não acho pejorativo, acho que a gente tem que ter essa intenção porque se não a gente age como se fôssemos robôs que não tem nenhum propósito com o que faz. Eu me sinto muito realizada quando eu recebo uma mensagem de uma pessoa dizendo que meu texto fez ela refletir em uma coisa que ela não tinha pensado ainda, ou que meus cordéis ajudaram uma aula na escola. Isso é o que me move, é o meu sonho!”

Honrando e fazendo jus ao seu nome que significa causador de contendas, aquele que nasce para brigar, discutir e debater, Jarid segue tencionando, ocupando espaços e nos trazendo orgulho, afinal Ela Nos Representa.

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Orgulho Eu: “quanto menos se define, menos se exclui.”

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Foi à luz de velas que conversamos com o artista Fernando de La Rocque que fala sobre sexo, liberdade e seu processo criativo.

por Diane Lima
Colaboração: Bruno Big

 

Foi numa noite de muita chuva, caos no trânsito e com uma recepção literalmente à luz de velas que chegamos na casa/atelier do artista Fernando de La Rocque. A convite do artista Bruno Big que gentilmente se habilitou a nos apresentar seus amigos e um pouco do rolê das coisas mais legais que o Rio de Janeiro tinha a oferecer, enveredamos por um papo em que a falta de luz para além de um problema, se tornou mais em um marco simbólico para contextualizar não somente as surubas e baratas do universo do Fernando, como também, um pouco da visão quase apocalíptica que ele traz na sua forma de ver o mundo e na própria catarse que surge do seu processo de criação.

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Nascido em Humaitá – segundo ele fruto provavelmente de uma transa de carnaval, e conhecido por trabalhos que inquietam, tiram as pessoas do eixo e as mudam de lugar, chamou-nos atenção como era no espaço da liberdade que o trabalho se refazia.  Em algumas horas de conversa, percebemos que talvez fosse essa a palavra que melhor resumia um pouco da obra de alguém não dado aos aprisionamentos da vida e que emanando carisma e fumaça certeza foi um dos artistas mais vibrantes e queridos que passaram por aqui: “com 25 anos eu tinha um caderno cheio de desenhos e tinha cenas de todos os tipos de transa e aí uma vez minha mãe achou aquilo e se assustou um pouco….e ali foi talvez a primeira vez, que eu tenha percebido um ponto culminante naquelas coisas que simplesmente saiam de dentro de mim: que aquilo podia mexer com a pessoas.”

Dizendo desde pequeno ter interesse pelo modo como as pessoas criativas levavam suas vidas, Fernando nos explicou um pouco sobre seu processo criativo e a busca incessante por novas técnicas e formas de reinventar e reinterpretar os objetos: “no começo quando isso ainda não tinha sido legitimado ainda por outras pessoas que viram um “bom gosto”,  existia uma repelência muito grande das pessoas que falavam assim: eu gosto mas eu não teria, eu gosto mas eu não usaria. Mostrava para um galerista e ele dizia: sexo não vende, caracterizando o trabalho como sexo…..e é isso tudo que me faz pensar sempre que quanto menos se define, menos se exclui. Na verdade, acho que as coisas surgem de uma forma muito primitivo em mim…….. fazer, expressar, desenhar, pintar são coisas que vieram bem antes de alguém fazer a minha cabeça que aquele era um caminho que eu podia seguir na minha vida e dar nomes. Agora por exemplo, estou curtindo umas coisas bem artesanais como amassar o barro, prensar ele numa fôrma que eu mesmo preparei…….também curtindo a pintura e o bordado que é um trabalho minucioso que exige um tempo, atenção e até quase uma obsessividade, algo que para mim é sempre presente nas coisas que eu faço e que é um processo constante: onde eu vou ele está comigo”.

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Parafraseando o Tarkovsky, foi quando o Bruno perguntou sobre o fato da crítica posicionar o trabalho enquanto uma obra que fala de tabus e temas polêmicos que pudemos ver o que vai além e o que está por trás do labor dos traços e formas dos azulejos transantes, fumaças de maconha e das baratas de ouro. Algo como se existisse no fundo a busca por uma harmonia ainda que passeando pelo caos e pela tensão em uma obra que desconcerta, cria interjeições mas também arranca sorrisos.

Confessando sentir uma alegria intensa quando termina uma obra o que o leva a inclusive a batizá-las, deixou-nos uma reflexão sobre como precisamos ir além dos nomes e dos rótulos e viver intensamente para além do que dizem que somos, das categorias e dos espaços imantados desse mundo que ao passo que caminha para as individualidades, se torna menos permissivo. Ao fim daquela noite, conhecemos o trabalho de alguém que celebra o amor sem roupas e as relações da vida por detrás das aparências. Uma arte de sorrisos que mesmo ainda à luz de velas, busca trazer um novo sentido para o mundo, cativando o público no jogo do perigo e do desafio: sua luz e sombra.

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“Esse ao meu ver é uma das maiores diversões da música instrumental: cada um pode ter sua própria viagem.”

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Nossa colaboradora Véronique Véra Mbida conversou com os Beach Combers e o resultado você vê agora.

por VÉRONIQUE VÉRA MBIDA 

 

O Rio de Janeiro é, definitivamente, uma cidade cheia de surpresas! Algumas semanas atrás eu estava andando pela praia de Ipanema, quando ouvi um som inesperado: o som dos Beach Combers. Totalmente viciada com o Vintage, tive uma queda com o estilo preppy 60s esporte chique do estilo deles. Além disso, os Beach Combers têm aquela atitude do sexual-blasé que coloca no ar um tesão inexplicável. Tudo é perfeitamente orquestrado! Mais tarde, depois, que voltei para casa eu percebi: Beach Combers era na verdade o nome de uma série canadense de televisão do início dos anos 70, que teve 19 temporadas. Será que o Guzz, porta-voz da banda é canadense?

NoBr por Véronique Véra Mbida: Qual é a história por trás da banda e me tira logo uma dúvida: tem alguém canadense entre vocês?

GUZZ: A história da banda começa com um baterista que comprou uma guitarra em Curitiba. Daí ele resolve começar a compor seus temas e contar sua história. Esse baterista é Bernar Gomma, guitarrista e compositor dos Beach Combers. Nos encontramos pelos bares, shows e estúdios do Rio. Além disso, Beach Combers porque somos ratos de praia e porque gostamos, além de garimpar pérolas musicais obscuras perdidas, de criar também. Ninguém é canadense aqui. Ainda….. Mas temos planos de conseguir a cidadania e nos mudarmos pra Toronto.

NoBr por VVM: Do que a música de vocês fala?

GUZZ: A nossa música fala de muitas coisas. Viagens siderais, tubos gigantes, alienígenas superpoderosos, corrida de motocas envenenadas, brigas em bar, histórias de amor. Na cabeça de cada um, passa um filminho enquanto a música rola. Provavelmente, cada um tem uma interpretação da canção. Esse ao meu ver é uma das maiores diversões da música instrumental. Cada um pode ter sua própria viagem. Sem se preocupar com certos ou errados. No final das contas somos uma banda instrumental. Damos ênfase às belas melodias e às composição dos temas.

 

NoBr por VVM: Há uma “vibe” dos anos 60s na sua música. Quem são as suas influências musicais?
Sim, com certeza. Nossas influências são muitas. De anos 60 podemos falar que Ventures, Dick Dale, The Pop’s, Stones, The Sonics, George Harrison são grandes influências nossas. Mas não paramos por aí. Ouvimos muitas coisas diferentes, não somente 60s rock ou surf music. E acaba que tudo isso vai entrando de alguma maneira na nossa sonoridade.

NoBr por VVM: Me fala mais sobre a sua relação com a música, o retro vintage…. e o vinil?

Amamos coisas antigas. Vintage, retrô e sucata. Chamem do que quiserem. É possível dizer que as músicas, bandas e instrumentos dos anos 60 são grandes influências nossas. Mas não ficamos presos ao passado nem tentamos emular a sonoridade ou as características dos anos 60. Apenas usamos como inspiração como tudo mais que está ao nosso redor que achamos interessante.

NoBr por VVM: Que imagem vocês acham que a música dos Beach Combers transmite?

Nossa, essa é difícil. Várias imagens, na verdade não saberia dizer exatamente. Por conta de sermos um trio instrumental as imagens que nossas músicas transmitem dependem muito mais de quem as absorve e reinterpreta nos seus cerebelos. Essa pergunta deveríamos fazer a você. Véronique, que imagens surgem na sua cabeça quando você ouve nosso som?

NoBr por VVM: Gosto muito daquele uniforme vermelho/branco. Vocês estão super elegantes! Ai, quem é a sua estilista?

Muito obrigado. =) No momento, o pessoal da Quero Melancia, de Brasilia que confeccionou as novas beach shirts de 2015. Baseadas em desenhos nossos. Sempre bolamos nossos próprios uniformes desde que começamos a Verão do Amor Tour 2010-2011. A estreia de Lucas Leão na banda, e começo da chamada era de ouro da banda.

NoBr por VVM: A musica rock não é o estilo preferido dos brasileiros então, como o público carioca recebeu o som de vocês? E em geral qual é a sua opinião sobre a música brasileira (samba, bossa nova, funk, etc.) ?

Acho que o rock é tão brasileiro quanto sueco, japonês e senegalês. Foi o tempo que rock era algo americano ou anglo-fixado. Boa parte do que ouvimos diariamente e nos influencia bastante são bandas brasileiras dos anos 60 de rock. Logo, não tem como as pessoas não estarem acostumadas com rock. Até banda de sucesso roqueira o Rio já teve, né?
O público vem recebendo bem o nosso som, desde o começo. Por sermos cariocas e termos feito os primeiros (e mais de 600 shows no Rio desde 2009) conseguimos manter essa conexão com o carioca roqueiro e não-roqueiro.

Minha opinião sobre a música brasileira não importa muito. O mais importante é como a música brasileira e mundial me toca. Adoro samba-rock, soul e funk brasileiro dos anos 70, funk carioca adoro as coisas antigas e proibições. Muita coisa. Somos músicos e apaixonados por música e pelo que fazemos.

NoBr por VVM: Como vocês operam para compor?

Normalmente, Bernar Gomma aparece no estúdio com uma ideia nova, um riff, uma melodia e vamos trabalhando em cima, cada um dando uma ideia e compondo suas partes. Por exemplo, todos esses grooves maneiros que estão no nosso album de estreia “Ninguém segura os Beach Combers” de 2012 são de Lucas Leão, que gravou tudo num take só. Mas no geral começam com uma harmonia e melodia criadas pelo Bernar.

NoBr por VVM: Qual é o título da musica que vocês acham mais legal de tocar ao vivo?

Putz, mais uma difícil de responder. Varia muito. Costuma ser uma canção nova e empolgante. As vezes uma perdida do repertório que volta pra agradar as pessoas.
No momento, minha favorita é Expresso da Meia-noite, inédita que estará entre as 13 canções do novo álbum.

NoBr por VVM: Vocês fazem os seus shows no espaço público meio como uma performance…Vocês se definem como artistas?

Sim tocamos nas ruas, praças do Rio e onde mais conseguirmos. Oferecemos performances, mas não como as de alunos de teatro. Não nos definimos como artistas. Mas como músicos. =D

NoBr por VVM: Vocês já receberam objetos bizarros como doação? Tipo o que ?

Bizarros mesmo, não. Tipo nunca recebemos um coração de pombo ou gato preto empalhado, nada do tipo. Até seria legal. Recebemos já bilhetes carinhosos, peixe frito, vodka, vinho, água, números de telefone, moedas de chocolate, brinquedos. Várias doações. Somos como o Exército da Salvação aceitamos tudo. Mas não fazemos frete.

NoBr por VVM: O que vocês gostam mais sobre o fato de tocar na rua? O menos?

O contato direto com o público e o desafio de conquistar as pessoas que estão de passagem. O que menos gostamos é do sol forte na careca (Guzz), trânsito parado e falta de vagas (Lucas) e chatos que falam pegando e crackudos que tentam atrapalhar o show (Bernar).

 

NoBr por VVM: Quem é aquela garota lindíssima que sempre está dançando?

Que trabalha conosco? Se for uma que parece a Clara Nunes com a Valentina do Crepax é Camila Blocksberg, nossa beach combate número 1.  Além de dançar ela nos ajuda com a venda de vinils e cds em shows.

NoBr por VVM: Tenho a certeza que um monte de pessoas já quer vocês se tornar super famosos.
Então, qual é o plano? Vocês estão trabalhando sobre o que no momento?

Aposto que sim. Mas não queremos ser famosos. Participantes de reality shows são famosos. Queremos viver com dignidade da nossa música que é nosso trabalho, emprego e empresa. Vestimos a camisa, o short e o tênis dela diariamente. Somos provavelmente uma das bandas que mais trabalham no Rio. 24 por 7. Fama é pra quem não tem nada pra oferecer de verdade. Queremos deixar nosso legado independente da parada de sucessos.

No momento estamos finalizando nosso novo single “Rei da praia”. Gravado em São Paulo ano passado e finalizado no Rio este ano. Vamos rodar o clipe agora em Março e Maio ele deve sair. Com uma super festa e você e todos mais estão, desde já, convidados !

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“A Arquitetura do Corpo é Política”. Fernando Cozendey discute gênero e diversidade na moda brasileira.

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Entrevistamos o designer e é ele que conta um pouco do que está por trás das suas lycras, anseios, universo lúdico e criações.

por VÉRONIQUE VÉRA MBIDA e DIANE LIMA

 

Não haveria frase mais coerente para ilustrar o trabalho do designer Fernando Cozendey que chega para dar continuidade ao nosso especial Com Tempo Com Coragem Com Coração – Ritmo Independente na Moda Brasileira, do que a célebre passagem do livro Manifesto Contrassexual da Beatriz Preciado que afirma que toda “arquitetura do corpo é política”.  Criando uma imagem de moda capaz de construir um espaço para discussão e sobretudo reflexão, o designer vem sendo em meio a uma nova safra de novos criadores, um dos catalisadores a se preocupar com o impacto e a mensagem que seu trabalho carrega e detona na sociedade. Em tempos onde em todo o mundo se discute a neutralidade de gênero seja a exemplo da aprovação na Suíça do pronome  Hen como alternativa para contrapor a ideia binária que define no poder da palavra os termos sexo e gênero, ou ainda da aprovação na Alemanha da criação de um terceiro gênero e a simples e profunda ação do Google e Facebook de expandir a possibilidade de opções além do masculino e feminino no perfil do usuário,  Fernando Cozendey transcende os limites das imagens estereotipadas de feminilidade e beleza em desfiles que lidos por alguns como fortes e transgressores fazem-se assim chocantes não somente pelo brilhantismo do artista mas também, pelo hábito da não-presença do que de fato somos no contemporâneo em diversidade.

 

“Eficiente nas mais diversas situações, o pronome HEN, pode ser usado quando você não sabe a identidade de gênero da pessoa em questão, quando a pessoa é transgênero, quando você não quer revelar a identidade de gênero, ou quando a identidade de gênero simplesmente parece irrelevante no contexto. É uma das 13 mil novas palavras escolhidas pela Academia Sueca para a inclusão no seu dicionário atualizado, que estará disponível no dia 15 de abril”. Via Quartz– tradução livre

1Fotos Felipe Diniz.

Depois de oito coleções de sucesso de 
crítica e público em que ganhou uma legião de apaixonados pelo seu estilo bem humorado e para muitos, transgressor, Fernando continua a retratar na moda o Brasil que ele sonha, um país em que a realidade das ruas possa povoar também o imaginário da beleza, da criação e do desejo, transformando um discurso que hoje posiciona-se pós-diversidade naquele do respeito à singularidades, estabilizando em imagens, a ânsia do que somos enquanto indivíduos. Em um papo com a nossa colaboradora Véronique Véra Mbida, ele fala sobre a sua trajetória e dá detalhes sobre como foi participar do Londres International Fashion Showcase, evento que ele acaba de voltar cheio de novidades. Dá uma olhada.

NoBr por Véronique Véra Mbida: Qual é a história por trás da sua marca? Como você a descreveria?



Fernando: Estou por uma diversidade mesmo de pessoas. Aqui quando você vai a um desfile são só pessoas brancas, loiras e magras. Mas nós não somos só  isso. A brasileira é muito mais uma mistura do que uma raça genuína.
 O Brasil é um país muito segregado e cruel onde não existe um lugar em que você possa se expressar tanto como um indivíduo como na arte. Mas o que as pessoas esquecem é que a moda é também uma forma de arte. Então quero apresentar essa ligação de um jeito mais perceptível, mais concreto nos meus desfiles e trabalhos. Também quero representar quem eu sou, a minha geração. Tenho 25 anos e acho que só a gente sabe o que é ser diferente, e ter essa liberdade social, sexual e de identidade. O sistema precisa mudar para que as coisas mudem realmente na mentalidade brasileira. Pra isso os jovens têm que se apoiar, se juntar e se respeitar, pra ter uma voz e dar forma a uma experiência nova e mais atual.
 Enfim, um dos principais problemas do Brasil é que não sabemos representar quem realmente nós somos  para o mundo. Só queremos representar a mulher européia, e isso é no mínimo patético…. É certamente por causa disso que estamos “atrasados” frente a outros lugares.
 Quando começaremos a nos orgulhar de ser quem somos? 
É isso que eu quero mostrar nos meus desfiles, essa brasilidade.

NoBr por VVM: Você acabou de voltar do Londres International Fashion Showcase,  como tudo aconteceu?


Fernando: A Lenny Niemeyer já conhecia meu trabalho porque ela foi uma das juradas do concurso da Lycra  que participei no final do ano passado. Ela recebeu uma proposta para ser a curadora desse projeto e levar novos designers brasileiros para Londres. Só que tinha que fazer parte da ABEST. Estava desamparado e de repente Lenny mandou algumas das minhas criações e fui finalmente convidado. Foi uma oportunidade muito legal. Infelizmente no Brasil, só quando você vai pra fora que as portas se abrem. Nós não sabemos valorizar o nosso trabalho. Tudo que é de fora é sempre mais interessante, mais bonito….

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NoBr por VVM: Quantas peças você mostrou e qual coleção que você escolheu para apresentar? 

Fernando: Mostrei 3 peças todas escolhidas pela Lenny. O tema da curadoria brasileira era sobre o azul e naturalmente que foi escolhida a coleção Oceano. Fiquei muito feliz com o que ela mandou porque acho que essa coleção chama realmente a atenção por ser muita lúdica e divertida.

NoBr por VVM: Como você descreveria a sua estética e linguagem?


Primeiro eu diria gráfica. Não gosto tanto das coisas orgânicas ou de estampas no meu trabalho. Prefiro brincar com tecidos e criar aquele efeito tipo trompe l’oeil , criando um tom lúdico, engraçado e dramático.

NoBr por VVM: Que tipo de comentário você recebeu em suas criações? Como o seu trabalho foi recebido internacionalmente?


O que eles mais falaram das minhas criações é que elas tem um estilo lúdico, maluco e divertido. Eles estavam super curiosos sobre a construção técnica das peças. Porque no início eles achavam que eram estampas e depois que se aproximam e vêem que não é, que tem nervuras e vieses, e que explico o processo, eles acham muito criativo. Voltei ao Brasil com essa coragem de que tenho que continuar fazendo isso e não posso ter mais medo porque sou jovem, sou maluco, e além disso, vi que tem pessoas lá fora, de outras culturas , que gostam do meu trabalho.

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NoBr: Você tem um processo de pesquisa específico quando você inicia uma nova coleção? 

Não pesquiso nada de moda quando vou fazer uma coleção porque isso me atrapalha. Como quero fazer uma coisa que não existe, tento fugir desse mundo aonde já tem geralmente uma convivência entre os criadores. Eu sou muito ligado com música e sempre consumi de tudo um pouco. Sem preconceito. Me inspiro muito em vídeo clip, em música. Por exemplo, se vou fazer um desfile sobre o funk , como já aconteceu, do início do processo de criação até o último dia só escuto funk costurando no ateliê. Eu penso no meu trabalho como um álbum, e um artista não cria duas vezes a mesma música.

NoBr por VVM: O que fascina você no momento? E como isso alimenta o seu trabalho?


Bigode, cavanhaque. Não posso falar mais.

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Dicas de leitura:

http://qz.com/369725/sweden-will-make-a-gender-neutral-pronoun-official-by-adding-it-to-the-dictionary/

http://www.dazeddigital.com/artsandculture/article/24181/1/you-might-be-able-to-get-a-gender-neutral-uk-passport-soon

http://www.dazeddigital.com/fashion/article/24088/1/inside-selfridges-radical-gender-neutral-department-store

http://www.dazeddigital.com/artsandculture/article/23866/1/you-can-now-define-your-own-gender-on-facebook

 

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