Category: Expressão

SE VOCÊ QUER JUREMA, EU DOU JUREMA À VOCÊ!*

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“A cabeça é do Orixá e os pés são da Jurema. Não há cabeça que ande sem os pés”.

Imagens, áudio e vídeo criados com o iPhone SE

É que há perguntas que não podem ser dirigidas às pessoas, mas à vida.

Porque a vida não acaba do lado dos vivos.

Vai para além, para o lado dos falecidos. Procura desse outro lado da vida, senhor”.

[Mia Couto, Fala do Feiticeiro Andorinho

*Letra de cantiga de Jurema

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

.

A Jurema é simples. A Jurema é complexa.  Jurema é exorcismo e atende principalmente às demandas cotidianas: doenças físicas, amores e à míngua de sorte. Cada casa, cada juremeiro tem um trato com o rito e com a jurema-bebida. Participamos da Jurema de chão, no Templo Espírita de Umbanda Acácio Valério em João Pessoa. A magia já começa com a nossa ponte: Indra Lumiar. Pelo nome composto, pode-se imaginar: Deus hindu da tempestade com “aquela que é cheia  de luz“. Indra Lumiar é ekedi*  de sua mãe Nanda Lima Ty YeYê Okê, que é Iyá Jibonan* e médium de entidades da Jurema. Ambas foram iniciadas no Candomblé e pertencem ao Ilê Asé Ofá Lorikin (Recife-Pe), dirigida por Doné Bruna Ty Logunedé. Dado que este Ilê não cultua a Jurema Sagrada, Indra e Nanda a cultuam no Templo Espírita de Umbanda Acácio Valério.

O que parece intrincado nesta relação que mistura jurema, orixás e casas diversas se torna direto e natural. Ao serem questionadas sobre tal sincretismo, Indra responde: “A cabeça é do Orixá e os pés são da Jurema. Não há cabeça que ande sem os pés”. Sob um outro ponto de vista, justifica Doné Bruna Ty Logunedé: não há pés que andem sem a cabeça”. Em seu desembaraço, a cosmologia da Jurema se configura na imagem do corpo. Ela é conciliadora e se fortalece sem excluir ou julgar as outras crenças.


*A ekedi, na maioria das casas, também é chamada de mãe e exerce a função de dama de honra do orixá regente da casa. É dela a função de zelar, acompanhar, dançar, cuidar das roupas e apetrechos do orixá da casa, além dos demais orixás, dos filhos e até mesmo dos visitantes.
*Iyá jibonan: Iyá = mãe. Jibonã  é (ji = dar, bí = nascer e onã = caminho) dá caminho ao nascimento”. Mãe que dá caminho ao nascimento, mão que cria. Ela é são responsável pela reclusão do iniciado no Candomblé.

 

 

Sobre o rito

[…] é pela subjetividade (levada a seu paroxismo) que se alcança a objetividade.”

[Michel Leiris, A África Fantasma]

 

Rafael Avancini - Cidades InvisíveisAntes de tudo, vamos descrever o Templo Espirita de Umbanda Acácio Valério. Na entrada da casa murada, ao lado direito da porta tem um pé de jurema branca. Esta árvore tem mais ou menos 50 anos. É frondosa e tem uns saquinhos com coisas dentro, presos nos galhos que só a Ialorixá Graça de Oyá Igbalé, dirigente da casa, pode explicar e cujos segredos não revela. Parecem patuás-souvenirs de Salvador, talvez bolsas de preces de nativos norte-americanos, ou mesmo os papéis coloridos com pedidos que os xintoístas japoneses prendem nos bambus durante o Tanabata Matsuri*. Os filhos da casa quando entram, reverenciam a Jurema-árvore encostando a testa em seu tronco. No hall, sobre a mesa lateral tem conjunto de cinco copos com água de tamanhos variados. São as cidades da jurema*. Ao lado das cidades, pousa um assentamento da Cigana Esmeralda: Um leque espanhol e bijuterias envolvidos por um lenço.

O excesso de símbolos nos intrigam. Deslocam o nosso olhar a todo momento. Uma tesoura de pontas abertas em cruz sobre uma tigela de água no canto, peles e ossos de animais sobre as vigas das portas protegem a sala principal. À primeira vista isto nos causa estranhamento, mas ao observarmos bem, tal inquietação não se refere ao que está sobre ou na porta, mas a porta em si. A porta nos remete à ideia de passagem, da iminência do acesso à um outro mundo.


*Festival das Estrelas festa tradicional japonesa que celebra uma história de amor.
*Cidades da Jurema são reinos habitados pelas entidades. 

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Na   sala principal de aproximadamente 50m2, banquinhos estão colocados em volta de um vaso de porcelana com ervas. Ali sentam-se os filhos da casa após acenderem uma vela. A Ialorixá Graça é a última a sentar. Ela fala pouco, nāo demonstra alegria ou tristeza. Senta-se por último, pois sua preocupação é fazer a sopa para o final do rito. Um tanto quanto parecido com o Oráculo de Matrix que parecia se preocupar mais com os cookies no forno do que com o futuro de Neo, o herói do filme. Seu banquinho é ao lado da porta da sala de assentamento* das outras entidades da Jurema, de onde os filhos da casa entram e saem com frequência, a buscar objetos e bebidas das entidades.


*É o local onde são colocados elementos com poderes de proteção, irradiação e ajuda de forças que vivem no plano espiritual.

O culto da Jurema é reconhecido principalmente pelo presença dos Mestres. Mestres são alguns médiuns e os Mestres também são espíritos. Sobretudo, Mestres são os curandeiros. A  propósito, Mário de Andrade, em Música de Feitiçaria no Brasil faz menção ao uso da palavra mestre: no século XVII, os portugueses chamavam de mestres aos médicos sem licença para a tal prática.


Parênteses: conversando com as entidades

Durante o rito, o Mestre José de Santana vem conversar comigo. Ironiza o Iphone que eu carrego para gravar. Ele faz considerações ao fato de eu ser “escrevinhadora”. Me chama carinhosamente de “Nêga”. Dá uma baforada profunda em seu cachimbo, pede as minhas māos, as defuma e fecha. Defuma meu corpo inteiro. Divide a bebida-jurema comigo. A bebida é servida em uma cuia, tem um gosto de vinho com especiarias e aquece o corpo no momento em que desce garganta abaixo. É um calor morno, sutil que expande na altura do peito. Enquanto isto, seguem-se chegadas e idas de entidades. Uma dos objetivos da jurema de chão é doutrinar os espíritos e os médiuns. Durante as incorporações, algumas destas pessoas se tornam especialmente belas, outras nos mostram as nossas facetas mais abjetas: estão embriagados, são marginais e incontinentes como a Cigana Esmeralda que balança a sua saia e diz profeticamente que eu conhecerei meu “único e verdadeiro” amor. Resisto em perguntar quantas vezes mais isto aconteceria na minha vida.  E rio sozinha entre a desconfiança e o desejo de que aquilo se torne verdade.

[Suzy Okamoto]

Mestre José de Santana fala com Suzy Okamoto

Na cosmologia da Jurema, assim como nos versos do Ifá* há um desenrolar de estórias passionais, de conflitos e misericórdia. Qualquer semelhança com nossas vidas comuns não é mera coincidência. É notável como na Jurema de chão tudo faz  sentido. A música nos hipnotiza. A justaposição de ervas, troncos, velas, ladainhas, cigana, cachaças, boiadeiros, mestres, encantados e as multifacetas das culturas negra, ameríndia e européia se revelam resistentes e sobrevivem. Diante dos mistérios e na impossibilidade de uma compreensão racional, começamos a desconfiar que Ítalo Calvino estava certo em fabular. Talvez a nossa existência não passe de um castelo dos destinos cruzados.

Por fim, existe um lado doce em tudo isto. A amabilidade das pessoas do Templo Espírita Acácio Valério nos deixa à vontade. A sopa quentinha, servida ao fim do rito, tem o gosto forte de carne e cominho. Um ambiente familiar vem à tona. Em tempo, nāo é preciso pagar nada pra estar lá. É tudo caridade. Fazemos uma contribuiçāo, mas nada que pague a possibilidade de olhar para o mundo com lirismo e sair mais leve.


*Oráculo Iorubá, Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade tombado pela UNESCO.
*Imagens e áudio captados durante o rito Jurema de Chão no Templo Espírita de Umbanda Acácio Valério. 

 

 SUZSuzy_Okamoto_perfil_NoBrasilY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.

 

Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1  RAFAEL AVANCINI
  Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .

 

Jurema Sagrada
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NoBrasil abre inscrições para o AfroTranscendence 2016: programa de imersão em processos criativos com foco na cultura afro-brasileira contemporânea.

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O PRAZO DE SELEÇÃO É ATÉ DIA 06.10 E AS ATIVIDADES GRATUITAS IRÃO OCORRER NO RED BULL STATION, CENTRO DE SÃO PAULO. SAIBA MAIS E INSCREVA-SE!

Em sua 2a edição, AfroTranscendence propõe o encontro e provoca a troca de conhecimento entre pessoas vindas das mais diferentes práticas, experiências e formas de expressões, incentivando-as a criar novas conexões, possibilidades e olhares em seus processos de criação tendo como inspiração a união entre saberes tradicionais e contemporâneos das culturas negras espalhadas pelo mundo.

A imersão

Para a imersão, que acontece de 26 a 29 de outubro, no Red Bull Station, em São Paulo, 20 selecionados participarão de um programa intensivo com especialistas, artistas e pesquisadores, como Makota Valdina Pinto e Grada Kilomba. As atividades são gratuitas e compostas por palestras, laboratórios, workshops e vivências artísticas que serão divididas em 3 eixos centrais: Descender para Transcender: descolonizando o conhecimento; A memória da Criação: panorama para práticas de inversão no contemporâneo; e Estéticas Negra: pesquisa e processos sincréticos.

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Cruzando esses painéis que servem como arquivo, base de pesquisa e referência, neste ano teremos o laboratório de criação AfroTrans, que propõe exercitar coletivamente a criação de um experiência expandida entre todas as linguagens artísticas tendo como suporte a memória, a palavra, o corpo, o som, a imagem e a tecnologia.

Podem se inscrever pessoas vindas das mais diferentes práticas artísticas ou manifestações tradicionais que estejam pesquisando a cultura afro-brasileira e seus trânsitos como forma de performar o conhecimento, gerar um pensamento crítico e experimentar novas possibilidades estéticas.

Todas as atividades são gratuitas. Em breve, divulgaremos a programação completa.

As inscrições vão até 06 de outubro. Acesse o edital aqui !

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Jurema Sagrada – Prólogo

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Em Jurema Sagrada, especial do mês de setembro, Suzy Okamoto e Rafael Avancini contam a trajetória que percorreram entre juremeiros, babalorixás, yalorixás, ekedjis, Tabajaras e artistas à sombra das árvores e na vibração dos maracás em João Pessoa na Paraíba.

IMAGENS CRIADAS COM O IPHONE SE

Tupi, or not tupi that is the question.

[…]

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju

[Manifesto Antropófago – Oswald de Andrade]1

 

1 – Lua nova, ó Lua Nova! Assoprai em lembranças de mim; eis-me aqui, estou em vossa presença; fazei com que eu tão somente ocupe seu coração.

 

Jurema Sagrada – Maracá Jurema de Chão. Jurema de Chão no Templo Espírita de Umbanda Acácio Valério em João Pessoa, Paraíba. Excerto da pesquisa de Suzy Okamoto e Rafael Avancini sobre a Jurema Sagrada. Julho/2016

 

A Jurema Sagrada, também conhecida como Catimbó, é um culto mágico-religioso, mistura de pajelança com catolicismo, permeado pelo candomblé e feitiçaria europeia. Sua história que data do século XVI é cercada de clandestinidade e repressões. Imagem do mais alto grau de sincretismo cultural, o culto permanece vivo até hoje especialmente nos estados da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Lucas Souza – Templo Espírita de Jurema Mestra Jardecilha

Composta de segredos, parábolas, metáforas e símbolos, o Culto da Jurema, seus ritos – adjunto de jurema, jurema de chão, toque de jurema, toré de jurema –  e suas músicas desafiam uma pesquisa definitiva. Ainda que Mário de Andrade, em Música de feitiçaria no Brasil e Câmara Cascudo, em Meleagro, se apresentem aqui como fiéis escudeiros, os enganos e deduções precipitadas sobre o assunto nos espreitam.

Rafael Avancini - Cidades InvisíveisToque de Jurema – Ile Asé Odé Ibualama

 

Se podemos encontrar um fio da meada neste contexto erudito é o fato da jurema ser movediça e rizomática. Jurema é uma árvore-talismã, Jurema é uma cidade de seres encantados e espíritos curandeiros, Jurema é ciência, Jurema é um enteógeno,  Jurema é êxtase, Jurema é uma mulher, poderosa e cheia de sortilégios.

“Para nós, tal justaposição da magia fantástica com o agir objetivo referido a finalidade parece sintoma da cisão, mas para os índios nao ė algo esquizoide, ao contrario, é uma experiência libertadora e patente da ilimitada possibilidade de relação com o mundo ao redor””  (Aby Warburg)

Isto posto, o que vamos contar aqui NoBrasil é a trajetória que percorremos entre juremeiros, babalorixás, yalorixás, ekedjis, Tabajaras e artistas à sombra das árvores do Templo Espírita de Jurema Mestra Jardecilha (em Alhandra), sob a afável oca da Aldeia Barra do Gramame (em Conde), na vibração dos maracás no Templo Espirita de Umbanda Acácio Valério e ao toque do tambor no Ile Asé Odé Ibualama (ambos em João Pessoa).

Esta pesquisa-experiência foi realizada durante a residência artística na Arapuca ArteResidencia de Serge Huot, sob a curadoria de Carlos Mélo, em julho de 2016, na paradisíaca Área de Proteção Ambiental Estadual de Tambaba, município de Conde, Estado da Paraíba e teve o apoio da Fundação Espaço Cultural do Estado da Paraíba, sob o cuidadoso olhar de Edilson Parra.

Rafael Avancini - Cidades InvisíveisPraia de Arapuca – Paraíba

 

SUZSuzy_Okamoto_perfil_NoBrasilY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.

 

Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1  RAFAEL AVANCINI
  Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .

 

 

Jurema Sagrada
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Morando em terra sem lei

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Pertencer a um espaço é dar significado e re-significado a ele.

 

IMAGENS FEITAS COM O IPAD PRO E O IPHONE SE

 

Foi o que fizeram os moradores removidos da comunidade conhecida como “kinder ovo” e também das margens do Rio Faria Timbó. O Governo Federal ofereceu uma alternativa: recomeçar no mais novo conjunto habitacional da Maré, conhecida como ‘Salsa e Merengue’, no ano 2000. O nome foi referência às casas, graças a uma novela da década de 90.  

Diferente das décadas passadas, o território para de se expandir na horizontal e passa a crescer na vertical. Dessa forma, não é difícil perceber o quão diferente cada favela da Maré é, apesar de ser do mesmo complexo. Os novos moradores do ‘Salsa’ se misturam com a história e o desenvolvimento do lugar, e fazem do comércio uma potência local.  

Desde que a favela é favela, a política de limpeza urbana na cidade acontece. Principalmente nos lugares onde vive preto, pobre e favelado. A segregação visível fazia juízo ao desejo do Estado de excluir. Discriminar. Estereotipar. Em remoções forçadas, não há comunicação com os residentes, e sim a especulação imobiliária e a retomada da apropriação de terra – sem lei. Com interesses – com lei. 

imagem-1Mapa do complexos de Favela da Maré

Ainda que as políticas públicas facilitem novas formas de proteção perante a lei, com a falta de direitos humanos, os interesses políticos e empresariais – ligados diretamente a a cidade que se tornou cidade sede dos jogos – a higienização aconteceu nos quatro cantos do Rio de janeiro.

Segundo o documento Dossiê Megaeventos e Violações dos direitos humanos no Rio de Janeiro, de 2009 até 2015, cerca de 77 mil pessoas foram removidas de suas casas. Com apoio de medidas provisórias, leis votadas ao largo do ordenamento jurídico e longe do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção.  

Essa política chega à Maré novamente em 2014. Em torno de 80 famílias da Salsa e Merengue foram removidas de suas casas recém-construídas. Com uma decisão coletiva e uma alternativa, usar o espaço que não servia. A Prefeitura não fez nenhuma notificação formal para o aviso da remoção forçada das casas. A mídia não fez cobertura sobre o ocorrido. A Prefeitura da cidade e o Exército Brasileiro, que já ocupava o Conjunto de Favelas com jipes, tanques de guerra e armamento pesado trabalharam juntos. Muitos moradores seguravam o documento de posse da casa nas mãos. Era uma situação nova na história da Maré, já que as casas antigas não têm escritura. A resistência e insistência são pequenos significados que as vezes ganham espaço, às vezes não.

BastidoresThaís entrevistando moradores para o último capítulo do especial “Nas águas da Maré.” Fotos  e vídeos feitos com o Iphone SE.

Em 2016, o espaço das Casas está ocupado no Campus Educacional da Maré. Através das construções da Fábrica de Escolas do Amanhã – grupo de 8 escolas municipais que buscam diminuir a evasão escolar de crianças estudantes do primário e do ginásio. Os moradores removidos seguiram suas vidas realocados em casas já prontas. Uma forma de viver sem poder questionar novas medidas. Moradia. Escolas. Contraste. O que é necessidade só quem vive sabe.

imagem-2Thaís na Favela da Maré. Fotos tiradas com o Iphone SE. Imagens criadas com o IpadPro.

 

 


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.

 

 

Nas Águas da Maré
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No caminho de barro, uma casa de concreto

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Nessa segunda matéria do especial “Nas águas da Maré”, Thaís Cavalcante da Silva moradora da Maré, conta a história de Severina Lusia. Confira.

Por Thaís Cavalcante da Silva
Imagens feitas com o Ipad Pro e o Iphone SE

 

Os migrantes nordestinos tinham um destino traçado nos anos 80: morar na Maré em busca de melhores condições de vida. Uma dessas pessoas foi Severina Lusia, mulher humilde que decidiu sair do interior da Paraíba para viver na Maré em 1981. Em tempos de desenvolvimento urbano na cidade, a favela pareceu parar no tempo. Nada crescia se não fosse da vontade dos moradores. O espaço, notável nas matérias da tv, era invisível para as autoridades.

Lusia chegou ao Conjunto de Favelas da Maré sem conhecer nada do Rio de Janeiro, porque não tinha televisão no Nordeste. Não tinha nem luz. Só candelabro. E na Maré a história se repetiu por três anos, já que não tinha dinheiro.

Pura ansiedade antes de pisar na cidade maravilhosa. Mas não tinha casa. Sua esperança era encontrar um lugar bom para morar. Tinha lembranças difíceis do trabalho na roça. Na época, o ônibus que viajou 3 dias, foi da Paraíba até a favela Parque Maré. Era tudo estranho. Tinha medo de sair sozinha. A violência já se mostrava parte da nova realidade. A saudade do Nordeste batia:

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As casas eram construídas cada vez mais perto uma da outra. Sem espaço para varandas. Uma janela se unia a outra casa. E assim a formação rápida do território se tornou populosa, mas ainda com baixo índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Até hoje, o conjunto de favelas tem um número baixo.  Até hoje os moradores lutam por direitos. Saúde. Saneamento. Educação. O básico ainda não é o suficiente.

Morou de aluguel com Geraldo por mais de um ano em um barraco de madeira. A empresa que ele trabalhava faliu, e com tudo o que receberam compraram uma casinha e alguns móveis. Quatro cômodos. Na sala, tinha um fogão, um armário pequeno e a cama de casal – com colchão de capim. Na cozinha, tinha um poço, chamado de “cacimbão”. No banheiro não tinha água, nem chuveiro. Pegavam água da rua e enchiam seus baldes com 20 litros. Lusia ajudava a carregar, mesmo grávida. Resistência.

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Quatro irmãos de sua família decidiram morar na Maré também. Era mais fácil conseguir emprego, a cidade passava por um crescimento industrial. Puderam apoiar um ao outro, mesmo vivendo em favelas diferentes. As casas careciam de saneamento básico e as ruas sem asfalto. A lama, o mato e o barro faziam parte da rotina dos moradores dali.

O Governo Federal percebeu o crescimento desenfreado de várias favelas na Maré. Decidiu então fazer uma intervenção: aterrar as regiões que ainda estavam alagadas. Os moradores dali, foram transferidos para casas pré-fabricadas de alvenaria. A pressão social e higienização urbana do Rio de Janeiro removeu famílias da favela do esqueleto, para ir à Maré. O poder popular mostrava o quão forte era a união de pessoas que lutavam por direitos. Que lutavam por moradia. Que lutavam pela vida.

A mudança acontecia: a 30º Região Administrativa (RA) se instalou e trouxe ao território o reconhecimento de bairro popular. A iniciativa, aconteceu com o objetivo de mudar a visão externa quanto ao que acontecia nas favelas.

O título bairro, tem peso moral.
Favela não.

Às vezes, caía água do telhado e molhava tudo. Mas isso não desanimou Geraldo na construção da casa que passou de tábua à alvenaria. Os conhecimentos manuais que ele trouxe da Paraíba ajudaram nisso. Quando jovem, construiu casa de pau-a-pique com seu pai. Sabia bem o que estava fazendo. Após a mudança, a família visitou o Nordeste apenas 6 anos depois da chegada no Rio de Janeiro.

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Hoje Lusia tem casa própria, e duas filhas.

Vive com água encanada, luz, calçada e outras coisas que hoje trazem o nome bairro com mais força.

Mas o reconhecimento de pertencer ao lugar, fazer parte da sua história e do seu crescimento, tem uma palavra que representa perfeitamente: FAVELA.

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thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.

 

 

 

Nas Águas da Maré
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CINEMA NOVO e CINEMA NEGRO: DA ESTÉTICA DA FOME À ESTÉTICA DO FAMINTO

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No Brasil, será o Cinema Negro, a “estética do faminto”, capaz de materializar o Zumbi reencarnado anunciado em terras africanas, por Glauber Rocha em “O leão de sete cabeças” ?

“Essa lança partirá a terra em duas. De um lado
ficarão os carrascos; do outro, toda a África…livre.
Contra o ódio, o ódio. Contra o fogo, o fogo.”
(Trecho do diálogo do Zumbi no filme “O Leão de Sete Cabeças”
de Glauber Rocha.)

 

tumblr_oa82kvBpo31twrbr9o1_540No anseio de tentar compreender e definir o Cinema Negro tem-se buscado na aproximação desse gênero ao Cinema Novo para nominar este, daquele, ou vice e versa. A realidade é que as expressões e movimentos culturais tem suas convergências e suas divergências.

Particularmente, me guio pelo ensinamento ancestral de que “cada caso é um caso”, logo, “cada movimento cinematográfico é um movimento cinematográfico”. As tensões são geradas pelas divergências, que por sua vez em muitas ocasiões são geradas pela incompreensão. Diante da tensão apresentada, há sempre a opção de encará-la e se dispor à compreensão com o fim de contribuir com a transformação, essa que enriquece a existência.

Brindemos as tensões. Quando se trata de “Cinema Novo” e “Cinema Negro” elas nos ajudam a transformar nossas existências na compreensão desses dois movimentos cinematográficos.

O ensinamento ancestral, atenua que “tudo com tempo tem tempo”, “cada coisa no seu tempo”, ou ainda que “a fruta só dá no tempo certo”. Destacar as frutas, me faz recordar a fome, e recordar a fome nos permite rememorar uma reflexão de Glauber Rocha, em seu manifesto “Eztetika da Fome”, ao se referir-se ao Cinema Novo como o movimento que:

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O Cinema Novo é movimento que surge na década de 50 como alternativa de um conglomerado de jovens cineastas que objetivam radicalizar e mudar a estética cinematográfica brasileira, vivendo seu período áureo no inicio da década de 60, quando teve seu curso interrompido pela ditadura militar.

No entanto, não dá para refletir movimentos cinematográficos sem pensar quem são os agentes que o compõe, sobretudo quando este propõe-se como um cinema político. Nesse caso, ninguém melhor para destrinchar um movimento do que alguém que o vivenciou ou vivencia. E nesse ponto a cineasta Adélia Sampaio nos permite fazer uma viagem no nascedouro do Cinema Novo, nesta entrevista :

Em sete minutos de um papo que durou pouco mais de uma hora, a narrativa de Adélia nos permite tirar o raio-x do Cinema Novo, feito por alguém que o vivenciou por dentro, nos fazendo transitar da felicidade e orgulho de uma mulher preta que “pulou o muro” e não abriu mão do sonho de realizar cinematograficamente, a dura realidade de que a branquitude e a masculinidade imperaram no Cinema Novo.

tumblr_o8kqmpvsu91twrbr9o1_r1_540Os choques estéticos protagonizados pelos cinema novistas são inquestionáveis, dentre eles destaca-se o fato de ter sido o movimento que garantiu o marco de corpos negros e expressões culturais negras sendo levados às telas do cinema como representantes legítimos da cultura popular nacional. Dando respaldo a compreensão de que o Cinema Novo aglutina muitas obras com “conteúdo negro”, ou seja, conteúdos extraídos da cultura afro-brasileira. O que não nos permite confundir o cinema de conteúdo negro, com o movimento cinematográfico intitulado de “Cinema Negro”. Dirimindo assim, a principal tensão ou compreensão equivocada de que o “Cinema Novo” tenha sido “Cinema Negro”.

Os “bem nascidos” do Cinema Novo, na imersão artística exploratória da “fome”, tiveram a sua disposição os “famintos” para serem porta-voz dos seus discursos e anseios, permitindo que na década de 70 ícones como: Zózimo Bulbul, Antônio Pitanga e Waldir Onofre, que atuaram em muitos filmes cinema novistas, subvertessem a ordem e arriscassem a linguagem cinematográfica como uma possibilidade de expressão de suas existências raciais. Com restos de películas de um dos filmes do Cinema Novo, Zózimo Bulbul roda o curta “Alma no Olho”(1973); em contato com os que detinham os meios de produção no Cinema Novo, Waldir Onofre filmou “As Aventuras Amorosas de um Padeiro”(1975) e Antônio Pitanga filmou o longa “Na Boca do Mundo”(1976).

Glauber Rocha, como legitimo representante do cinema novo, em conexão com os italianos e os franceses, numa coprodução ítalo-francesa, rodou no Congo o filme “O leão de sete cabeças”(1970) reiterando sua escolha estética de chocar por meio do prenuncia da violência como solução para conflitos políticos e sociais; Bulbul, titular da legítima paternidade do “movimento cinema negro brasileiro”, em conexão com Ousmane Sembene e outros cineastas africanos durante exílio em Paris, compreendeu a importância de um “cinema indentitário”, um cinema realizado pelos “famintos”, eternizando “Alma no Olho” como marco de nascimento do movimento político cinematográfico Cinema. No Brasil, será o Cinema Negro, a “estética do faminto”, capaz de materializar o Zumbi reencarnado anunciado em terras africanas, por Glauber Rocha, em “O leão de sete cabeças” ?

Há coerência no “faminto” que entrega a vida para se distanciar da “fome”. Tanto, quanto há na compreensão de que cada movimento político cinematográfico é titular da própria estética.

 

Bibliografia:
1- História e Cinema – Maria Helena Capelato, Eduardo Morettin, Marcos Napolitano, Elias Thomé Saliba. 2 ed. São Paulo: Alameda, 2011.
2- Cinema e História: teoria e representações sociais no cinema – Jorge Nóvoa, José D’Assunção Barros. 2ed. Rio de Janeiro: Apicuri, 2008.
3- A Utopia no Cinema Brasileiro: matriz, nostalgia, distopia – Lúcia Nagib. São Paulo:Cosac Naify, 2006.
4- http://www.tempoglauber.com.br/t_estetica.html

 


vivianeViviane Ferreira é cineasta e advogada com atuação voltada para direitos autorais, direito cultural e direito público. Com um olhar cinematográfico referenciado no cinema de Zózimo Bulbul, assina a direção dos documentários: Dê sua ideia, debata; Festa da Mãe Negra; Marcha Noturna e Peregrinação. Na ficção inicia com o curta experimental “Mumbi 7 Cenas pós Burkina” estrelado por Maria Gal. E chega ao Festival de Cannes -2014 com o curta-metragem “O dia de Jerusa” estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Preside a Associação Mulheres de Odun e é Sócia-fundadora da empresa Odun Formação & Produção.

 

 

O que é Cinema Negro?
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Manguezal: Era uma vez, as palafitas

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Conheça a história de Pedro Fernandes que chegou na comunidade da Maré na década de 1970 e acompanhou de perto a transformação local.

Por Thaís Cavalcante da Silva

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sf Planta das caatingas baianas.

 

O Conjunto de Favelas da Maré era um território antes mesmo de ser. Os manguezais próximos da Baía de Guanabara passam por uma mudança histórica jamais imaginada: o povoamento da maré, nos anos 40. O Morro do Timbau, o primeiro morro da Maré, tinha terra suficiente para migrantes do Nordeste ocuparem o espaço.

Um desses nordestinos é Pedro Fernandes da Silva. Chegou na Baixa do Sapateiro aos 18 anos, cheio de sonhos e vontade de trabalhar em 1975. Com o crescimento industrial da cidade do Rio de Janeiro, tinham muitas vagas para construção civil – dava até para escolher. Começou como Servente de obras, depois como lojista.

A Av. Brasil era estruturada, mas próximo à Maré a água dominava. Pedro circulava de barco à remo pela sua favela. E sua moradia era parecida com todas as outras dali: feita de palafitas. O jeito era bater a perna de três, com 2m de altura e forçar para encontrar no fundo do manguezal uma terra firme para construir seu barraco. Sobre a água. Conseguiu.

Os caminhos de tábuas ligavam uma casa a outra. Pontes improvisadas, ligavam a vizinhança: e para segurar, só os muros de madeira. Ainda sim algumas pessoas caíam na travessia. Era engraçado, até lembrar que a água era suja. O saneamento básico não existia ali, mas ainda assim o jeitinho de resolver as coisas inspirava os nordestinos-mareenses para ação. A nomeação dos becos e ruas, se davam quando o morador do local falecia. A história e a memória do lugar se constrói em uma terra de contraste: felicidade em viver ali, sem nenhuma violência, mas com poucos direitos.

Antes de Pedro chegar na Baixa do Sapateiro, dois irmãos já estavam na Maré. E a comunicação que tinham um com o outro era através de cartas. A entrega levava de 8 à 15 dias para ir do Rio de janeiro a Paraíba. De mês em mês, conversavam e convidavam para morar próximo, também. No final, dos 14 irmãos, seis decidiram se juntar na favela.

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Um morador conhecido como João da luz, fazia toda a instalação de luz da região. Cobrava de porta em porta. E assim funcionou por muito tempo.

Para buscar água potável – para cozinhar, lavar etc, Pedro usava um barco a remo. Colocava seis latões vazios. Remava até a Ilha do Governador e trazia sua água, que durava cerca de três dias. As viagens se repetiram por alguns anos.

O cotidiano não era sempre o mesmo. De noite, a Maré subia. Às vezes, invadia as casas e molhava a cama. Pela manhã, a água abaixava, mas o fedor aumentava. Pedro tinha dificuldade de dormir pela quantidade de mosquitos. Mas sentiu de perto como tudo mudou muito rápido.

Muitas favelas da Maré nos anos 70 ainda não existiam: Vila do Pinheiro e Vila do João, por exemplo. Era difícil construir uma casa. Mas todos queriam. Quem tinha barraco com madeira nova, era como se tivesse um apartamento. Todo mundo comentava e elogiava.

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Os próprios moradores passaram a aterrar suas ruas. Compravam entulho e o caminhão trazia. Aos poucos, todas as famílias transformaram juntas o seu território. A busca era por uma vida melhor. Quando o Governo de Carlos Lacerda percebeu a mudança na Maré, finalizou o serviço. Aterrou o restante do espaço e entregou casas de alvenaria para alguns moradores, das novas favelas.

Já Pedro Fernandes, comprou sua casa por 400 cruzeiros. Foi difícil, o dinheiro não rendia. Mas as lojas de material de construção do entorno, facilitavam as compras – deixavam dividir em até 20 vezes.

Para fazer o acabamento da casa, a laje, moradores faziam mutirão nos domingos. Cada semana em uma casa diferente. Os moradores se ajudavam muito. Seu sonho realizado: uma casa de alvenaria. Pedro só quis casar depois de ter sua casa própria. E deu certo. Chamou Maria José, que já conhecia no Nordeste, para vir à Maré. Se casaram e tiveram um casal de filhos.

Dali em diante, a história de mais uma família Silva começava.

 

 


thais-cavalcanteThaís Cavalcante da Silva é moradora e jornalista comunitária do Conjunto de Favelas da Maré desde 2012. Acredita no poder da escrita para mudar sua realidade. Já trabalhou como locutora em rádio comunitária, correspondente no portal Viva Favela e atualmente trabalha no jornal comunitário O Cidadão, é correspondente no jornal The Guardian e no portal RioOnWatch.

 

 

 

Nas Águas da Maré
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Meia Lua e Uma Rasteira : a peleja entre poder institucional e o cinema negro

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Afinal, na peleja de golpe para lá e golpe para cá, a SEPPIR já não possui status de ministério, o MINC vive a instabilidade do “existia-deixa de existir-passou a existir novamente” e a Agência Nacional do Cinema precisa se posicionar na ginga, quando se trata de cinema negro: a ANCINE baila como o movimento de “meia-lua” ou golpeia o cinema negro com uma “rasteira”?

Por Viviane Ferreira
Imagens criadas com o Ipad Pro

Ao povo de um Estado que enfrenta o contexto de golpe jurídico, como é o caso do Estado Brasileiro, jamais se nega a memória. Ela é a única capaz de contribuir com o processo de reconstrução e enfrentamentos políticos por ampliação de direitos e extinção de privilégios.

Esquadrianhar o que venha a ser o cinema negro no contexto contemporâneo brasileiro é “sankofear” nossa memória recente sobre as tentativas de estabelecimento de políticas públicas no setor audiovisual, com recorte racial, fundamentadas pelos princípios e objetivos das Ações Afirmativas.

Para tanto, resgatamos a peleja institucional enfrentada para que fosse possível concretizar-se o “Edital Curta Afirmativo”, que se apresentava como uma possibilidade de baile com trocas de “meia-lua” entre o cinema negro e o campo das políticas públicas para o audiovisual, com força para dar direcionamento às politicas de ações afirmativas no setor.

No dia 19 de novembro de 2012 foram lançados os editais: “Prêmio Funarte de Arte Negra”, “Apoio à coedição de livros de autores negros”, “Apoio à pesquisadores negros” e o edital “Curta Afirmativo” esse último em parceria com a Secretaria do Audiovisual. Os editais receberam um conglomerado de mais de 4.000 inscrições, de acordo com publicações do Ministério da Cultura, sendo considerado um grande sucesso e revelador de um universo significativo de produtores culturais negros que encontram dificuldades para acessar os meios de produção cultural, permitidos na legislação brasileira.

Entretanto, no dia 21 de maio de 2013, veio a “rasteira” do capital financeiro defendido pelos privilegiados da aristocracia brasileira contra jovens realizadores do cinema negro, os inscritos nos editais foram surpreendidos com o comunicado da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, que dizia:

“A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR-PR) comunica a decisão do Juiz Federal José Carlos do Vale Madeira, do Tribunal Regional Federal – 1ª Região/TRF, publicada em 21 de maio de 2013, que “determina a imediata sustação de todo e qualquer ato de execução dos Concursos que estejam relacionados aos Editais impugnados pela presente ação popular (= Edital n. 03, de 19 de novembro de 2012, do Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual; Edital Prêmio FUNARTE de Arte Negra; Edital de Apoio à Coedição de Livros de Autores Negros; e Edital de Apoio à Pesquisadores Negros)”.

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ENTENDA O CASO:

Os Editais do Minc, realizados em parceria com a SEPPIR, foram impugnados por uma ação popular apresentada por Pedro Leonel Pinto de Carvalho, procurador aposentado do estado do Maranhão. Para a ministra Luiza Bairros (Igualdade Racial), “a decisão judicial demonstra que a vitória jurídica obtida no STF (Superior Tribunal Federal) deverá ser seguida por uma outra batalha, a ideológica, até que as ações afirmativas sejam entendidas como necessárias em todos os campos da vida social, e não apenas na educação.

“A SEPPIR fará todo o esforço, juntamente com a Advocacia Geral da União-AGU e o MinC, para que esta decisão seja revertida; para fazer valer o direito de artistas negros a recursos públicos que assegurem a expressão da nossa diversidade cultural.”

A vitória jurídica obtida no Superior Tribunal Federal a qual o comunicado se refere foi o reconhecimento da constitucionalidade da Política de Ações Afirmativas e implementação da Política de Cotas nos vestibulares das Universidades Públicas brasileiras, como instrumento capaz de permitir que o Estado assegure o acesso à educação superior para a população negra.

Diante da utilização de princípios jurídicos, com interpretações enviesadas, para impedir a garantia da igualdade formal e material à população negra, mesmo diante do fato de que a comunidade negra representa uma parcela de mais de 50% da população brasileira. A hermenêutica indispensável a função de legislar impõe ao jurista a árdua batalha de não distanciar-se de uma visão ampla capaz de dosar sua interpretação diante de um caso concreto, uma vez que, por meio de sua interpretação contribui com o firmamento dos princípios que rascunham, escrevem e reescrevem a história de um povo, elemento integrante, do Estado Democrático de Direito, considerando que interpretar é:

“Construir a partir de algo, por isso significa reconstruir: a uma, porque utiliza como ponto de partida os textos normativos, que oferecem limites à construção de sentidos; a duas, porque manipula a linguagem, à qual são incorporados núcleos de sentidos, que são, por assim dizer, constituídos pelo uso, e preexistem ao processo interpretativo individual” (Humberto Ávila, p.24)

Humberto Ávila dialoga com a nossa compreensão de que mesmo nas ciências jurídicas é importante observarmos o todo, identificarmos o sentido de determinadas construções, e percebermos como elas na realidade serão reconstruções. Nesse sentido, o princípio de igualdade assegurado e defendido no caput do art. 5º da Carta Magna de 1988, traz em si a ideia de completude orientada pelos seus dois principais componentes: o princípio da isonomia, e o conceito de equidade. Ao inferir que todos são iguais perante a Lei, a Constituição, impõe que todos sejam visto de forma isonômica, já que:

“A lei não deve ser fonte de privilégios ou perseguições, mas instrumento regulador da vida social que necessita tratar equitativamente todos os cidadãos. Este é o conteúdo político-ideológico absorvido pelo princípio da isonomia e juridicizado pelos textos constitucionais em geral.” (Celso Antônio Bandeira de Mello, Conteúdo Jurídico do Principio da Igualdade, p. 10)

Dessa forma, a noção isonômica traz para perto da hermenêutica constitucional o conceito de equidade, muito bem elucidado pela afirmação de Aristóteles, ao defender que igualdade consiste em tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.

Identificar os componentes do princípio de igualdade não é suficiente para compreender sua amplitude e complexidade, entretanto, o estudioso Celso Antônio Bandeira de Mello, lega à “Isonomia” e a “Equidade” a responsabilidade de figurarem como componentes indissociáveis ao princípio de igualdade. A isonomia justifica-se pela compreensão da justiça mediante igualdade. Aplicação da lei para todos de forma igual. E a equidade pelo reconhecimento das particularidades e aplicação da Lei na proporção das especificidades.

De posse da compreensão dos dois componentes que integram o princípio de igualdade, nos fica nítida a percepção de que, o que conhecemos, como igualdade, nascida no seio da Revolução Francesa, em 1789, e disseminada pelos Estados Democráticos de Direito, é a classificada pela doutrina jurídica como igualdade formal, uma vez que se apoia na premissa e fundamento de que todos são iguais perante a lei, sem diferença de peso ou de medida. Alicerçando-se única e exclusivamente pelo princípio da Isonomia.

Entretanto, de posse da compreensão trazida primeiramente por Aristóteles aprofundada por Boaventura de Souza Santos, ao defender que:

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Passamos a compreender que para garantia da eficácia do princípio de igualdade, é indispensável, uma hermenêutica jurídica, que leve em conta, todos os pesos e todas as medidas, envolvendo o caso concreto. Atraindo para o núcleo do princípio da igualdade o princípio da equidade como baliza do princípio da isonomia. Dessa forma nos pomos diante daquilo que a doutrina classifica como igualdade material, que de acordo com Joaquim Barbosa, está:

“Longe de se apegar ao formalismo e à abstração da concepção igualitária do pensamento liberal oitocentista, recomenda, inversamente, uma noção “dinâmica”, “militante” de igualdade, na qual necessariamente são devidamente pesadas e avaliadas as desigualdades concretas existentes na sociedade, de sorte que as situações desiguais sejam tratadas de maneira dessemelhante, evitando-se assim o aprofundamento e a perpetuação de desigualdades engendradas pela própria sociedade”.

O DIREITO | A CULTURA | A ESQUERDA

A cultura, na qualidade de direito, pode ser entendida como ferramenta de transmissão e reprodução de ideias e valores, de grupos sociais dominantes, ou compreendida como ferramenta capaz de exprimir a crítica das ideias e práticas existentes. A polarização dos objetivos de utilização cultura como ferramenta, apreendida da obra de Marilena Chauí, nos permite interiorizar luta utópica, em busca da compreensão que cultura é:

“A capacidade de decifrar as formas da produção social e dos valores, da produção das obras de pensamento e das obras de arte e, sobretudo, é a esperança racional de que dessas experiências e ideias, desses valores e obras surjam um sentido libertário, com força para orientar novas práticas sociais e políticas das quais possa nascer outra sociedade. ”

Nesse sentido, a autora, ao descrever partidos políticos, de esquerda, como integrante de grupos sociais que vislumbram na cultura o objetivo de exprimir a crítica das ideias e práticas existentes, nos aponta que em via de regra, esses a concebem sob três prismas.

O primeiro trata-se a compreensão da cultura como ferramenta própria dos especialistas, uns fazem, produzem e possuem ao passo que outros recebem passivamente. A lógica da soberania da competência impera e divide a sociedade em dois grupos, segundo Chauí:

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O segundo prisma atém-se às belas artes: teatro, artes plásticas, literatura, cinema, música, dança. Ferramentas artísticas típicas dos talentosos, ou formados especificamente para dominá-las. A cultura aqui é despida da obrigatoriedade dos seus modos de inserção na sociedade e na história de forma dialética. Traduzindo-a como objeto espetaculoso devorado pelo lazer e o entretenimento. Garantindo uma recepção mergulhada na passividade.

Já no terceiro prisma, Chauí, nos aponta que a cultura é instrumento de agitação política, aglutinando em torno de si os dois prismas anteriores, com intuito de compreender a cultura como um “fazer arte” produzindo e reproduzindo “mensagens” para atrair e convencer a consciência de massa. Chauí atenua, aqui:

“Concebe-se a “cultura” como algo a serviço de algo “não cultural”, isto é a política.”

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Do ponto de vista político e cultural a nação brasileira passou por alguns ciclos de “busca” ou “construção” de uma identidade nacional, assim como, em tantas outras nações ao redor do mundo, as identidades culturais, sempre foram vistas como foco definidor de uma identidade nacional. A cultura se põe como foco definidor de identidades nacionais, a partir do século XVIII, quando passa a ser definida, de acordo com Marilena Chaui, como:

“os resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, de seu trabalho e de sua sociabilidade, resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Na medida em que o pensamento da ilustração conserva a ideia antiga de que a cultura é advento do estado social e da vida política, isto é, da vita civile, cultura torna-se sinônimo de civilização, como expressão dos costumes e das instituições enquanto efeitos da formação e da educação dos indivíduos, do trabalho e da sociabilidade”

Admitir a cultura como sinônimo de civilização ou resultado da formação ou educação dos seres humanos, contribuiu para que a cultura figurasse como direito no cerne das buscas e indagações humanas acerca dos direitos fundamentais, ou direitos humanos, desde o período axial, entre os séculos VIII a II a.C, culminando no reconhecimento efetivo, da cultura como direito, entre os direitos fundamentais, declarados de segunda geração, na Declaração Universal dos Direito Humanos, pela ONU, em 1948.

A Indústria Audiovisual, por lançar mão de todas as dimensões – ferramentas de especialista; belas artes; instrumento de agitação politica – de interação com a cultura, é um espaço que oferece possibilidades de democratização das expressões culturais. Pensar em democratizar racialmente o audiovisual brasileiro é tão importante quanto buscar a criação e a implementação de políticas públicas e de ação afirmativa em um país como o Brasil, aonde o debate sobre relações raciais vem sendo intensificado com a finalidade de suprir lacunas deixadas como herança de uma sociedade escravocrata.

Ao realizarmos o recorte racial, no contexto da Indústria Audiovisual como espaço possível para o exercício da liberdade de expressão cultural de forma igualitária e fruição do direito à cultura, sem respostas, nos questionamos: quais os pontos de alinho e desalinho, à luz da diversidade ético-racial, entre a igualdade formal garantida nos dispositivos que regulam as ações da ANCINE e a igualdade material constatada no resultado das ações, dos últimos dez anos, incentivadas pela ANCINE?

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O CINEMA ENQUANTO MÍDIA

O Audiovisual é um campo de comunicação que ao longo da sua história foi utilizado para disseminar convicções políticas e ideológicas. Sua indústria alicerça-se numa estrutura hierárquica com intento de permitir que de acordo com a função ocupada, o indivíduo cinematográfico consiga defender ou por vezes até impor suas próprias convicções. Nessa hierarquia temos, por exemplo, o diretor subordinado ao produtor, o diretor de fotografia subordinado ao diretor e o operador de câmera subordinado ao diretor de fotografia.

Nessa estrutura hierárquica, que possibilidade – o cinema enquanto mídia-, oferece para o exercício da expressão cultural por parte da população negra? Em outras palavras, que possibilidade os/as negros/as têm de utilizá-lo como meio de expressão para disseminar suas convicções?

cb82b678f6ebb5b29c53063e3f84c0bcA Indústria Audiovisual, além de circular e disseminar valores ideológicos, também circula altos valores econômicos. Enquanto a ideologia é disseminada para o grande mercado consumidor, os valores econômicos permanecem concentrados nas mãos dos poucos que possuem capital para investir, ‘capital’ aqui está sendo compreendido em seu sentido amplo, englobando o capital financeiro, o capital social e histórico que podem ser concentrados pelo indivíduo.

Ao criar um edital, especifico, para atender o público de jovens negros, em parceria com a Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas, o Ministério da Cultura reconhece o potencial da indústria cinematográfica como ferramenta de construção e disseminação de convicções e discursos culturais, e a realidade de parcela significativa da juventude brasileira, ou seja os jovens negros, de inacessibilidade de recursos que permita-lhe a fruição de seu direito cultural por meio do audiovisual. Apoiando-se nas Ações Afirmativas para tentar garantir o acesso dessa parcela da juventude aos recursos públicos garantidores da produção cultural.

A experiência, bem sucedida do Edital Curta Afirmativo, nos exige questionar a aplicabilidade dos dispositivos legais que regulam as ações da ANCINE no processo de aquecimento do mercado audiovisual. À luz da diversidade étnico racial, é preciso nos dedicarmos ao trabalho investigativo de identificar a participação dos profissionais negros, nos dividendos do setor da indústria audiovisual.

Garantir que a Ancine siga passos dados pela SAV-Secretaria do Audiovisual e adeque seus instrumentos jurídico à compreensão de Boaventura de Souza Santos, no âmbito do audiovisual, garantindo o direito dos profissionais negros do setor serem iguais quando a diferença os inferioriza e diferentes quando a universalidade os descaracterizam, é de muita relevância no contexto racial brasileiro, através de um enfoque que priorize a relação entre a diversidade étnico-racial e o desenvolvimento econômico e social.

Neste contexto, concluímos que, a adoção – urgente e indispensável – de ações afirmativa em todos os setores do mercado audiovisual é uma das ferramentas basilares à disposição do Estado, para elaboração de políticas públicas, no intuito de alcançar a democratização e garantir igualdade – formal e material – na fruição do direito à cultura por todos os grupos raciais que compõem a sociedade brasileira e nutrem relação com o setor.

Se a presente escrita, ou escrita-presente, é capaz de ancorar-se em argumentos concebidos em uma base epistemológica que não é afro-centrada e ainda assim não deixar brecha para compreensão da importância de ações afirmativas para o setor, espera-se que ela seja embrião de um fio condutor do dialogo entre o cinema negro brasileiro e a ANCINE no sentindo de esquadrinharmos PRODAVs e PRODECINES AFIRMATIVOS.

Afinal, na peleja de golpe para lá e golpe para cá, a SEPPIR já não possui status de ministério, o MINC vive a instabilidade do “existia-deixa de existir-passou a existir novamente”e a Agência Nacional do Cinema precisa se posicionar na ginga, quando se trata de cinema negro: a ANCINE baila como o movimento de “meia-lua” ou golpeia o cinema negro com uma “rasteira”?

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Referências Bibliográficas

BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 14ª edição. Malheiros editora. São Paulo/SP, 2004.
GRAU, Eros Roberto. Ensaio e o discurso sobre a interpretação do Direito. 2ª edição. Editora Malheiros, São Paulo/SP, 2003.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Editora Almeida, 2000.
BANDEIRA DE MELLO, Celso Antônio. O conteúdo jurídico do princípio da igualdade. 3ª edição. 22ª tiragem. Malheiros Editores. São Paulo/SP. 2013.
BARROSO, Luís Roberto. Fundamentos teóricos e filosóficos do novo Direito Constitucional Brasileiro (Pós-modernidade, teoria crítica e pós-positivismo). Revista Direito e Democracia. Universidade Luterana do Brasil. Ciências Jurídicas. Canoas. Ed ULBRA, 2000.
SANTOS, Boaventura de Souza. A construção multicultural da igualdade e da diferença. Oficinas CFS nº 135, de 1999.
CHAUI, Marilena. Cidadania cultural, o direito à cultura. 1ª edição. Fundação Perseu Abramo. São Paulo/SP,2006.
BAHIA, Lia. Discurso, políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. Organização da coleção Lia Calabr. – São Paulo: Itaú Cultural: Iluminuras, 2012.
GOMES, Joaquim B. Barbosa. Ação Afirmativa & princípio constitucional da igualdade: o Direito como instrumento de transformação social. A experiência dos EUA. Rio de Janeiro/RJ. Renovar, 2001.
_______. O debate constitucional sobre as ações afirmativas.
_______. A recepção do instituto da ação afirmativa pelo direito constitucional brasileiro.
_______. e Fernanda Duarte Lopes Lucas da Silva. As Ações Afirmativas e os Processos de Promoção da Igualdade Efetiva.

 


vivianeViviane Ferreira é cineasta e advogada com atuação voltada para direitos autorais, direito cultural e direito público. Com um olhar cinematográfico referenciado no cinema de Zózimo Bulbul, assina a direção dos documentários: Dê sua ideia, debata; Festa da Mãe Negra; Marcha Noturna e Peregrinação. Na ficção inicia com o curta experimental “Mumbi 7 Cenas pós Burkina” estrelado por Maria Gal. E chega ao Festival de Cannes -2014 com o curta-metragem “O dia de Jerusa” estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Preside a Associação Mulheres de Odun e é Sócia-fundadora da empresa Odun Formação & Produção.

 

 

O que é Cinema Negro?
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Confira o resultado dxs seis editorxs selecionadxs!

Por Ale Gama

Dois sentimentos traduzem a experiência que tivemos neste final de semana, nesse momento tão importante de selecionar as editorias que irão ocupar a nossa plataforma: prazer e celebração. Foi muito prazerosa a experiência de ler pessoas e iniciativas que, indo a fundo em nossa diversidade, tem produzido formas criativas para causar as micro-revoluções tão necessárias ao nosso tempo.

Celebramos nosso corpo expansivo olhando para os vários dispositivos semeados Brasil adentro. Processos disparadores de potência. Com os ensinamentos das filosofias ancestrais africanas, aprendemos que as razões instintivas, sintéticas e analíticas, coexistem. As ervas maceradas geram sumos e insumos para as curas do ser. Os povos da terra, os ribeirinhos e quilombolas nos ensinam que a ciência é composta por diversos modos de saberes e o urbanismo pode ser tático, orgânico e sinestésico, enquanto a física quântica nos atravessa 24 horas por dia.

O tempo das urgências sociais nos desafia para a formação dessa rede, das conexões com a natureza, com as comunidades e os territórios que habitamos. A tecnologia sendo útil na criação, registro e descentralização das informações, compartilhando desejos e anseios,  fazendo ressoar aos quatro cantos do país, outras vozes, outras narrativas. A expressividade que forma vocabulários e linguagens, nos impulsiona à criação de novas metáforas e experimentos diferentes das formas hegemônicas, assim, propomos a inventividade como enfrentamento das violências simbólicas.

A densidade inscrita nas 60 propostas que recebemos (e celebramos!) para ocupar a nossa casa, nos rendeu o duro exercício seletivo, mas com isso, transbordamos de felicidade por caminhos tão inovadores e sensíveis à nossa diversidade, pulsando transformações e novos olhares de mundo. A massiva presença das mulheres (uhuu!) se torna um espelho de quem e o quê veremos nas próximas edições e nos próximos seis meses: vamos transitar pelo Ceará, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Paraíba e São Paulo.

Nossos critérios para essa seleção atravessaram gênero, regionalidades e a ideia de descentralização do eixo Rio-São Paulo. Também, idade, temática, as narrativas e seus lugares de produção. Nossas escolhas envolveram temas ligados aos saberes tradicionais, cartografia + intervenção urbana, literatura, cinema e favela, com suas formas múltiplas de criação, circulação, enraizamento e ruptura.

Ramificar nossa plataforma para a editoria compartilhada é vibrar a formação de uma rede que tanto esperávamos e notadamente já nasce existindo, só nos faltava a conexão, o ato de criar fluxos convergentes Por uma Política da Diversidade!

Viviane Ferreira, BA

Thaís Silva, RJ

Marilia B. Soares, SP

Diedra Roiz, SC

Clébson Oscar, CE

Suzy Okamoto, SP

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Festival de Cinema Africano do Vale do Silício tem edição especial Brasil e abre inscrições para cineastas brasileirxs

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O NoBrasil é o parceiro oficial do festival que acontece em outubro na Califórnia e chega para fortalecer o debate sobre a presença de mulheres negras no audiovisual.

Fruto de uma colaboração que conecta a diáspora africana do Brasil, EUA e mais de 15 países africanos, o NoBrasil apresenta pela primeira vez uma parceria com o Festival de Cinema Africano do Vale do Silício (SVAFF – Silicon Valley African Film Festival), que acontece de 14 a 16 outubro, em Mountain View no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Chegando na sua sétima edição unindo comunidades, culturas e continentes, este ano o festival criado pelo nigeriano Chike C. Nwoffiah faz um chamado especial para xs cineastas brasileirxs cujas obras reflitam imagens, narrativas e histórias que tragam como inspiração os trânsitos da cultura afro-brasileira.

A cooperação surgiu durante a participação em fevereiro da diretora criativa do NoBrasil Diane Lima no African Diaspora Investment Symposium, evento que reuniu líderes da diáspora africana no Vale do Silício. Segundo ela, um dos objetivos principais do SVAFV – Conexão Brasil é promover o intercâmbio e a troca de experiências entre países, fomentando a criação, a produção e novas possibilidades de difusão e articulação em rede, sobretudo pensando o protagonismo das mulheres negras: “mais do que um festival, ser uma plataforma que compartilha informações, amplia os horizontes e possibilita novas alternativas. Nós mulheres negras estamos assumindo um papel central nas mais diferentes áreas da produção artístico-cultural ao pautar a discussão racial  no intuito de abrir diálogos em busca de direitos e melhorias seja no âmbito privado ou das políticas públicas. A colaboração com o SVAFF é uma tentativa de criar um espaço que permita dar visibilidade e fôlego internacional para que as demandas estruturais que nos colocam à margem dos processos produtivos e criativos possam ressoar trazendo a maior participação de mulheres negras no mercado audiovisual e por conseguinte, na criação de novas narrativas e linguagens que rompa os estereótipos e nos atualize para que não mais sejamos uma projeção do que o sistema colonial predeterminou”.

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Como se inscrever

As inscrições acontecem até dia 01 de agosto e para participar basta acessar a página do SVAFF, ler o regulamento e completar o formulário de inscrição que pode ser preenchido e enviado com um DVD por correio ou ainda uma opção mais simples, que é o envio por email do formulário junto com um link para que o filme seja assistido. Cada realizadora ou realizador pode inscrever mais de um filme, com qualquer duração e formato e a premiação se dá nas categorias narrativa, documentário e animação para curtas e longas além de uma premiação para cineastas emergentes. Ao todo são 35 filmes selecionados, o júri é formado por membros de mais de 07 países e não há taxa de inscrição.

Acesse aqui o edital e inscreva-se!

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O projeto Festival de Cinema Africano do Vale do Silício – Conexão Brasil busca ainda conectar criadorxs e realizadorxs numa rede que chega para celebrar os cruzamentos entre a arte, a inovação e a tecnologia. Além dessa primeira chamada, o projeto segue até novembro de 2016 em diferentes etapas que promete novidades e serão lançadas em breve, como a parceria com a AFROFLIX, uma plataforma online colaborativa criada pela cineasta Yasmin Thayná que disponibiliza e produz conteúdos protagonizados por criadores negros.

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