Category: Expressão

A INTERVENÇÃO DISCURSO

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A obra de arte empregada como discurso de ressignificação dos espaços e do meio urbano. A intervenção urbana como a proposta de um discurso de questionamentos e resistências, não somente de artistas, mas também da população e de seu meio.

Imagens criadas com o iphone SE
Por  Clébson Oscar

A intervenção artística, enquanto arte contextual, instaura uma efemeridade na qual a singularidade das relações redefine o “lugar cidade” pelo contato entre as pessoas e pelos desdobramentos surgido a partir das obras interventivas. Tentarei a partir disso articular aqui a relação artista – obra – espaço – público.

A partir dos anos 1970, iniciou-se uma diluição do caráter expositivo e convencional da obra de arte como o objeto (quadro, pintura, escultura, espetáculo, etc.) a ser contemplado em distanciamento e a partir de um dispositivo (galeria, museu, teatro, etc.). A produção da obra de arte sai então de um ideal de arte institucional e passa para o concreto da ordem da cidade a partir da atuação de artistas em outros espaços e dispositivos. Para muitas/os artistas não mais interessa pensar obras para a galeria ou museu, e muito menos a sua comercialização, importa-se cada vez mais que a obra esteja mais próxima do público, estando atrelada a um contexto mais de galeria-cidade.

Assim, numa fuga da institucionalização e numa construção por novas formas de se produzir e se expor, surgem formas e formatos distintos, dispositivos, sentidos e apontamentos diversos que são meios se produzir tais atos interventivos: pixo, lambe, grafite, performance, objeto, instalação, ação pontual, arte sonora, escultura, dentro tantos outros. É possível apontar três contextos diferentes acerca de artistas e a intervenção urbana: aqueles que saem da galeria para a rua; aqueles que já surgem da rua e permanecem nela; e aqueles que nascem da rua e vão para a galeria.

IMAGEM 2 – Legenda Você se vê na tv A gente se vê por aqui

“Você se vê na tv?” “A gente se vê por aqui?”

IMAGEM 3 – Legenda Acidum.

Acidum.

IMAGEM 4 – Legenda “Estupidos”, de Robert Panda IMAGEM 5 – Legenda “Estupidos”, de Robert Panda

Estupidos, de Robert Panda

A rua pode ser interpretada por muitos como uma extensão da galeria de arte, ou seja, um desdobramento dela; enquanto que é possível pensar a rua muito mais como uma ponte utilizada para se poder chegar até a galeria. Hoje é bastante comum encontrar grupos de arte urbana que já alcançaram espaço em exposições coletivas e individuais, lançar publicações de livros e catálogos como até conseguido mercantilizar as suas formas e marcas já conhecidas. E por outro lado, existem aqueles que querem pensar os seus trabalhos de fato para a cidade, em que ela se transforma em seus ateliês abertos.

Em se tratando em espaços ditos ‘públicos’, surgem questões a todo tempo: Que lugares são esses? Como eles são utilizados e assimilados pela população? Quais as suas questões e implicações? Como intervir nesses espaços e ressignificá-los a partir de suas circunstâncias espaciais, territoriais e temporais? Dentro dessas questões, a intervenção artística, sendo uma arte urbana como prática crítica, coloca em jogo a produção simbólica do espaço urbano, repercutindo as contradições, conflitos e relações de poder que o constituem.

Artistas que trabalham com intervenção urbana vêm suscitando questões de grande relevância para a arte contemporânea, colocando fortemente em pauta a relação público/privado: a superfície do muro de uma casa é de propriedade de seus moradores ou da cidade? Se a rua é pública, e se a parte externa dos muros dão para a rua e fazem parte da configuração visual da cidade, então intervenções nesses espaços realmente devem se configurar como invasão de propriedade? Nesse campo de tensões, a intervenção artística atua como dispositivo de reflexões estéticas e políticas, articulando e sobrepondo realidades.

“Em meio aos espaços públicos, as práticas artísticas são apresentação e representação dos imaginários sociais. Evocam e produzem memória podendo, potencialmente, ser um caminho contrário ao aniquilamento de referências individuais e coletivas, à expropriação de sentido, à amnésia citadina promovida por um presente produtivista. É nestes termos que, influenciando a qualificação de espaços públicos, a arte urbana pode ser também um agente de memória política. ” – Vera M. Pallamin.

IMAGEM 6 IMAGEM 7

A busca por uma religação afetiva com os espaços, sejam eles degradados e abandonados, sejam eles espaços de fluxos da cidade, como também os lugares de significados históricos/sociais para a população. O próprio meio urbano se faz matéria de criação não apenas do artista, mas de todos aqueles que reinventam os sentidos dos espaços através de suas experiências, através de uma produção de uma estética compartilhada.

A obra não é de domínio somente do artista, ela transcende da autoria individual para a coletiva, se incorporando a cidade a partir de interferências feitas por outras pessoas, ganhando assim um novo corpo, um novo significado. Um exemplo disso é um mural de lambe-lambe feito da repetição de uma ilustração de uma boca aberta, que ganhou, com o passar das semanas, diversas frases escritas por cima de cada uma dessas bocas, frases como: “vamos fazer escândalo”, “respeite as minas” e entre outras. Tais frases acabaram por encorpar uma nova força para a intervenção inicial.

Numa ressignificação do espaço e da ordem, muros de concreto passam a ter varais de roupas; terreno baldio vira canteiro de girassóis; pneus, vasos sanitários e outros materiais se transformam em jardim em calçadas/praças; troncos de árvores viram casinha de cachorro ou bancos em praça. Entre tantos outros exemplos, praticados não por artistas e muito menos com intenções ‘artísticas’, são vistos por Fortaleza como também em outras cidades e meios urbanos, em que a população se apropria dos espaços públicos e intervém sobre as suas paisagens. Sendo assim, quem de fato pratica intervenção urbana não é apenas o artista, é também a população que reinventa os espaços e meios, interferindo na arquitetura urbana já estagnada pela ordem e a transforma a partir de suas necessidades e motivações.

“Nós podemos imaginar espaços os mais diferentes para as áreas públicas das cidades, mas essa utopia só tem sentido se considerada experimentalmente. Suas implicações e consequências devem ser estudadas na prática4. É importante que o significado da cidade possa nascer do seu uso, no curso da vida cotidiana, envolvendo nos processos decisórios as pessoas diretamente implicadas em cada diferente situação.” – Graziela Kunsch

IMAGEM 8 – Legenda Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.

IMAGEM 9 – Legendo Baião Ilustrado

Baião Ilustrado 

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CLÉBSON OSCAR- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.

 

 

 

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LITERATURA LÉSBICA e DIVERSIDADE

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Não existe uma identidade única para represen­tar a mulher lésbica. Pelo contrário, é exatamente o oposto que a literatura lésbica deveria mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica.

Como ler as representações femininas lésbicas dentro de um mundo androcêntrico?

Seria mais fácil responder a esta pergunta se houvessem representações femininas fora deste contexto. Mesmo o “olhar feminino e lésbico” é construído dentro e a partir de uma sociedade patriarcal, heteronormativa, racista, classicista e sexista.

Quando falamos sobre literatura com temática lésbica, não estamos falando da criação de um rótulo. Estamos falando da criação de uma representatividade.

Mas que representatividade é essa?

Não existe uma identidade única para represen­tar a mulher lésbica. Pelo contrário, é exatamente o oposto que a literatura lésbica deveria mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica.

No entanto, se fosse feito um mapeamento de narrativas lésbicas escritas e publicadas, esta pluralidade estaria realmente representada?

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Segundo CHIMAMANDA ADICHIE:

“É impossível falar sobre uma história única sem falar de poder.[…] Como são contadas, quando são contadas, quantas histórias são contadas, estão realmente dependentes do poder.[…] A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos, não é eles serem mentira, mas eles serem incompletos. [..] Mostre algo como uma coisa única, vezes sem conta, e esse algo se torna a verdade única.”

Até que ponto não aceitamos e reproduzimos os padrões do que supostamente seria uma lésbica “aceitável ” ou “passável”, ao dar voz e representatividade à protagonistas brancas, magras, jovens, “lindas”, “femininas”, de classe média, com grau de instrução superior completo ou universitárias na maioria das narrativas? A exclusão dentro da exclusão ao se privilegiar uma minoria dentro da minoria?

O senso comum heteronormativo, patriarcal, sexista, classicista, racista, transfóbico, machista e homofóbico.
É esse discurso/ideologia que nós queremos reproduzir? 

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Por mais que as estruturas cruéis do poder insistam em tentar nos convencer de que não se adaptar, “ser diferente” é um grande sofrimento, não existe sofrimento maior do que fingir ser quem não se é, desejar ser quem não se é ou deixar de se ser quem se é realmente.

O grande desafio do artista contemporâneo consiste em fugir do senso comum; em não encarar o produto cultural apenas como bem de consumo destinado a agradar e vender, mas como obra de arte; em não perder o caráter mais belo e fundamental da arte: o seu aspecto questionador, de elemento de renovação, transformação, resistência, de romper paradigmas.

Repito: seria ideal que não houvesse a necessidade de clas­sificar. Seria ideal um mundo em que pudéssemos ocu­par todos os espaços sem a necessidade de rótulos. No entanto, esse mundo ainda é só um ideal e, se não rotu­larmos agora, não haverá espaço – para a existência e, muito menos, para nada que possa parecer remotamente transgressor.

Eliminar as classificações não muda nada, pois elas são o efeito e não a causa. Assim sendo, precisamos mudar a própria estrutura, dentro de nós, para que realmente não existam mais classificações ou diferenças.

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DIEDRA ROIZ- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.
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PUBLICAÇÕES DE LITERATURA LÉSBICA

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“A reinvenção do conceito de cidadania emerge do fato de esta ser pensada de uma forma excludente, sustentando-se num paradigma universal, masculino e heterossexual, silenciando vozes que se afastam desta normatividade.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Diedra Roiz

 

“A reinvenção do conceito de cidadania emerge do fato de esta ser pensada de uma forma excludente, sustentando-se num paradigma universal, masculino e heterossexual, silenciando vozes que se afastam desta normatividade. A cultura diz o que ela é e não é, excluindo o outro, o diferente, o que não pode ser incorporado na ordem do mesmo.”

 

Afirmação de Carmo Marques e Conceição Nogueira que Salma T. Muchail complementa:

“É um mecanismo de normalização do eu, isto é, a tecnologia do eu padronizado pela normatização em parâmetros fixos de normalidade social, sendo os adequados a este parâmetro aqueles que podem ser visíveis e dizíveis.”

Na literatura isto não é diferente.

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A mulher tem adquirido um espaço notório, mas ainda não possui um papel tão relevante dentro do universo literário brasileiro. Mulheres lésbicas menos ainda.

Claro que as dificuldades do mercado editorial existem para todos os escritores, a partir do momento em que um livro é considerado um bem de consumo e, como tal, está sujeito às determinações do mercado.

Entretanto, a literatura lésbica enfrenta dificuldades ainda maiores, por se vincular a uma temática específica e a um público específico, mas também por ser considerada por muitos como “literatura menor”, “meramente erótica ou pornográfica”.

img_1412Sequer vou entrar no mérito da importância e necessidade das cenas de sexo na literatura lésbica como forma de registrar e demarcar práticas sexuais ainda consideradas ilícitas e “desconhecidas” e expor um ponto de vista sobre o sexo que foge completamente do falocentrismo da heteronormatividade compulsória. Isso é indiscutível.

“O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que procuramos assenhorear-nos.” (MICHEL FOUCAULT)

Como praticamente não existe interesse por parte das grandes editoras neste segmento literário, as publicações de literatura lésbica são, em sua maioria, pequenas tiragens realizadas por autoras independentes ou pequenas editoras.

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É a resistência em forma de livro.

“É político trabalhar com o recurso que você tem. Cada forma de ser independente é uma forma de resistência a esse universo que quer transformar o livro num produto como outro qualquer. A gente sabe que o livro não é um produto como outro qualquer, ele é um produto muito mais complexo do que a sua materialidade, mas a sua complexidade também passa pela sua materialidade.” (Alice Bicalho)

Vale citar e divulgar algumas destas editoras guerreiras que, contra tudo e todos, continuam ativas, publicando literatura lésbica e resistindo:

Editora Vira Letra: http://www.editoraviraletra.com.br/

Palavras, Expressões e Letras: http://www.editorapel.com.br/

Hoo Editora: http://www.hooeditora.com.br/

Grupo HPM: http://grupohpm.lgbt/categoria-produto/livros/

Metanoia Editora: http://metanoiaeditora.com/

“Por que sou levada a escrever?

Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha.

Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.

Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias.

Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência.” (Gloria Anzaldúa)


DIEDRA ROIZ- Escritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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As Mulheres da Terra: Os ofícios ultrajados

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Bailando uma cantiga que trouxe o vento frio do outono foi que eu a vi chegando, a curandeira.

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por Marilia Botelho

 

Bailando uma cantiga que trouxe o vento frio do outono
foi que eu a vi chegando,
a curandeira.
Veio como uma velha loba de guerra
aferroada de batalhas,
armada de garrafadas
senhora de glebas espirituais.
Foi logo queimando as ervas,
sorria mostrando os dentes [pra espantar mal olhado]
Benzeu meu colo, soprou minha fronte
e me protegeu com seu manto
bordado de paciência.
foto-1Espada de Santa Bárbara: planta amplamente utilizada com fins mágicos. Dizem as mulheres da terra que plantar um maço das espadas em frente a moradia garante proteção ao lar, espantando os maus espíritos e absorvendo as energias negativas

 

O Noroeste Paulista é uma terra distante, conhecida antigamente como “A Princesinha do Sertão”. Foi das últimas áreas a ser colonizada pelos bandeirantes devido à distância com a capital. Levou anos para que os avanços tecnológicos chegassem à região; por fim, estradas e rodovias abriram espaço no sertão paulista. Avançando sobre a terra vermelha banhada do sol escaldante, típico em todos os meses do ano, a modernidade fincou raízes. As mulheres e homens dessas terras aceitaram, resignadamente, o que lhes reservava o futuro.

Nessas linhas, a busca e o registo sobre os tempos antigos do sertão, passa inteiramente sobre a investigação da vivência de mulheres que viveram seus dias sob o chão quente e rubro dessa região.

Aquelas que ilustram os relatos dos ofícios ultrajados são chamadas por muitos nomes: curandeiras, rezadeiras, benzedeiras, erveiras, parteiras, abençoadeiras. O que todas têm em comum é uma força imensa que se apoia nos mistérios do universo. A manipulação da natureza através da agricultura e da fabricação de remédios, o domínio das práticas do nascimento, o tratar com naturalidade da morte, a crença na espiritualidade e o dom da intuição assustaram tanto aos racionalistas da Idade Média, que foi preciso séculos de Inquisição para calar aquelas que desenvolviam seus saberes herdados de geração em geração.

Na Era moderna, os avanços tecnológicos, especialmente na área da saúde, fizeram com que essas práticas fossem alçadas ao nível de mito. Houve intenso trabalho de diversos setores da sociedade a fim de desmoralizar e ultrajar a sabedoria milenar das mulheres do passado. Apesar da campanha contrária, os saberes femininos não morreram totalmente; passando por muitas modificações, eles seguem vivos, ainda que de maneira difusa.

Em nome da valorização da cultura feminina e com o objetivo de catalogar os nomes e as experiências daquelas que traçaram seus caminhos no Noroeste Paulista, essas narrativas buscam ecoar a voz das personagens silenciadas pela História.

 

A Curandeira

Há cerca de cem anos atrás, a curandeiria era a principal fonte de tratamento de boa parte da população. Não havia hospitais modernos e exames investigativos, menos ainda se você morasse no interior do país, em lugares afastados das capitais; restavam poucas opções, senão tratar os doentes com infusões, chás e seguir as tradições de quem trabalhava com a cura sem nenhuma formação acadêmica – a primeira faculdade de medicina do Brasil foi criada em 1832.  

foto-2Capim cidreira: famoso remédio para acalmar os nervos, tratar insônia e dores de cabeça

 

As mulheres foram grandes responsáveis pelas práticas de saúde, cuidados com o corpo e primeiros socorros, mantendo viva a medicina popular das antigas gerações. Nos dias de hoje, as práticas do passado servem como fonte de pesquisa para os que se interessam pela cura natural e terapias complementares; estes tratamentos, chamados de alternativos, estão intimamente associados à natureza pois à ela recorrem para extrair as propriedades de bálsamos, unguentos, xaropes, elixires, caldos e outras formas de remédios caseiros.

Dona Santa, avó da minha amiga, me conta sobre Dona Lídia, senhora que era curandeira em Palmeira d’Oeste, falecida há muitos anos. Segundo ela, Dona Lídia fazia garrafadas, xaropes, pomadas, sabonetes e ensinava as receitas para serem feitas em casa; só cobrava o quanto pudessem lhe pagar. Santinha se lembra de uma vez, quando ela e a filha tiveram tiriça – o nome popular dado para hepatite C. A curandeira indicou banhos diários com picão e chá da mesma erva. Em alguns dias, ela e a filha se curaram da doença. Outra vez, Dona Lídia curou seu filho mais moço do mal da síflis. O remédio foi uma garrafada feita a base de vinho branco de laranja, raiz de salsaparrilha cortada em cruz, erva doce e sementes de laranja amassadas.

É difícil encontrar na região mulheres que se digam curandeiras. Elas já quase não existem, especialmente porque não se reconhecem mais com esse nome. Mas suas práticas de cura seguem vivas no dia-a-dia dos moradores do sertão paulista, seja na preparação de remédios caseiros ou nas receitas mais adversas, como a inalação com eucalipto, o repelente de citronela, os cataplasmas de babosa e os macerados de ervas.

foto-3Dona Santa é uma senhora que conhece dos segredos da natureza. Ainda se lembra de coisas que aprendeu com sua mãe e seu pai, que eram parteiros e benzedeiros pelas bandas do Noroeste

 

A parteira

Houve um tempo em que partejar era um trabalho bastante reconhecido. No passado, antes dos adventos da moderna obstetrícia, as parteiras eram mulheres respeitadas e reconhecidas. Afinal, ser parteira exige tempo e dedicação, não existem partos agendados e os bebês podem escolher nascer a qualquer hora do dia ou da noite. Debaixo de sol forte, ou sob chuva, a parteira não tem escolha quando lhe mandavam chamar – estes são os encargos de seu ofício.

foto-4Nossa Senhora do Bom Parto, Santa que conforta as mulheres na hora de dar a luz. A imagem de Maria com o menino Jesus no colo é um símbolo feminino para o parto; o culto a Santa data do século XI

 

Das profissões registradas nessas linhas, a de parteira é, sem dúvida, a que mais sofreu com o ultraje patrocinado pelo progresso cientificista. Talvez por isso estas mulheres tenham sido obrigadas a resistir firmemente para poderem prosseguir com suas práticas. Desta resistência brotaram frutos de esperança, e ainda é possível encontrarmos parteiras na região, Lucélia Caires, natural do interior Bahia e residente em São José do Rio Preto há 12 anos, se orgulha ao responder quando lhe perguntam sua profissão: “Sou parteira!”

Lucélia é parteira na tradição. Isso quer dizer que ela recebeu os ensinamentos de uma parteira tradicional. O encontro com esta prática aconteceu quando acompanhava um parto domiciliar (sua formação acadêmica é como enfermeira obstetra). Neste dia, ela conheceu os trabalhos de uma parteira de Bauru, formada através da madrinha Suely Carvalho, fundadora do CAIS do Parto, em Recife. Em seguida, viajou de São José do Rio Preto para Olinda para participar da primeira parte da formação do curso de parteiras na tradição; e, em 2015, terminou seus estudos, mudando de vez de profissão: deixou a enfermagem para trabalhar exclusivamente como parteira.

“Quando recomendo a uma gestante tratamento para infecção urinária, por exemplo, estou praticando a curandeiria. Muitas vezes, preciso benzer a casa onde vai acontecer o nascimento. Então também sou benzedeira.”

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No   espaço Florescer da Vida é possível entrar em contato com diversas práticas como benzimentos, reiki, leitura de tarot, leitura de aura, além dos círculos de mulheres

 

As artes do benzimento e da curanderia se misturam no trabalho de Lucélia, que fundou o Florescer da Vida, um centro de atendimento em São José do Rio Preto, onde várias profissionais desenvolvem práticas de cura, além de oficinas de artes e atendimento a gestação, parto e pós parto..

 

A benzedeira

A benzedeira é uma pessoa fortemente apegada ao poder das palavras. São mulheres de diversas crenças e, por isso, observamos em suas atividades um intenso processo de sincretismo entre catolicismo e religiões de origem africana, além do xamanismo dos povos nativos. As benzedeiras acreditam que a cura pode ser atingida através da fé, por oração e vibrações; por isso, parte dos processos curativos envolvem os benzimentos, passes e rezas.

No campo da saúde, elas trabalham benzendo os que precisam recuperar a vitalidade. Alguns males específicos ficaram famosos pelo tratamento com benzimento; várias mulheres com as quais conversei relataram os cuidados das benzedeiras como primordiais na cura de alguns males populares; doenças como mal de simioto, que a medicina trata como desnutrição ou infecção por bactérias; espinhela caída, que é um mal que ataca com dores nas costas e no abdômen e acomete geralmente pessoas que trabalham nos serviços pesados; ou mesmo o quebranto, também chamado de mal olhado, que seria um “feitiço” posto por outra pessoa que lhe deseje o mal, ou inveje algo que você possui, segundo os relatos, esse mal pode levar a vários sintomas, desde desnutrição em crianças até depressão em adultos

O ofício das benzedeiras é distinto do das parteiras e das curandeiras, pois essas duas são requisitadas em momentos exclusivos do trato com a saúde. Já as benzedeiras, não; elas podem ter suas rezas solicitadas para os mais variados fins.

Converso com Dana Landa, benzedeira há 15 anos. Ela me conta que quando era moça, assistia a avó, Dona Maria, que era parteira e benzedeira na região entre Aparecida d’Oeste e Jales. Apesar de se lembrar das práticas de sua matriarca, Dona Landa relata ter “recebido o dom do benzimento”, por isso, sua reza é diferente da que fazia a avó. De segunda à sexta-feira, a partir das 17h, forma-se fila na frente de sua casa; são pessoas que esperam pela vez de serem atendidas.

“Tem dia que eu benzo até tarde da noite. Benzo gente, benzo roupas; as vezes me trazem sacos cheios de peças pra eu rezar, tem que fazer uma por uma.”

Dona Landa conta que não cobra pelo serviço, apenas aceita aquilo que cada um lhe quiser ofertar. Pergunto se ela usa algum ramo de planta pra benzer e ela conta que não, usa apenas as mãos:

“A força está na fé que eu ponho na reza, e na energia que passo com as mãos. É tanta gente pra benzer que se fosse ver, não teria galho de planta pra todo mundo!”

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Dona Landa pediu que não lhe fotografasse o rosto ou relatasse o local de sua residência; seu receio é que ainda mais pessoas viessem lhe procurar

Entre os ofícios ultrajados, a figura da benzedeira parece ser a que melhor conseguiu se diluir no cotidiano das comunidades onde, ainda hoje, existem muitas desenvolvendo o ofício; seja nas cidades ou na zona rural, elas são procuradas para auxíliar em diversos propósitos, cumprindo assim, as funções espirituais que lhe foram incumbidas.

O respeito às tradições é o principal pilar no qual se sustentam as mulheres que praticam a medicina curativa, os benzimentos e o partejar. Há muita coisa em comum nas práticas dessas mulheres; além disso, é possível reconhecer nelas um profundo respeito às anciãs, que compreenderam os segredos e mistérios do passado e detiveram a sabedoria que seria transmitida de maneira oral às mulheres da família e aquelas próximas que possuíssem o “dom”, ou o “chamado” para os ofícios.

A curandeira, a parteira e a benzedeira são profissões que fazem parte da formação da identidade cultural da população do Noroeste Paulista; em suas práticas sincréticas de medicina popular, fé e crendices vemos a relação existente entre nosso interior com outras regiões interioranas do país, os muitos sertões existentes Brasil a fora.


Referências:

SOARES, M. N. A feitiçaria: entre o oficial e o popular. 2001, Programa de Pós Graduação da UFPB
Perinelli Neto, H. / Nardoque, S./ José Moreira, V. Nas Margens da Boiadeira – Territorialidades, Espacialidades, Técnicas e Produções No Noroeste Paulista, 2010, Editora Expressão Popular

MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.
As Mulheres da Terra
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A LITERATURA LÉSBICA E A INTERNET

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Necessário deixar claro que o compromisso com a escrita na internet não é uma falta de opção, muito pelo contrário. É exatamente a grande opção. Posto, logo existo.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Diedra Roiz

 

Na contramão, à margem da “mídia oficial”, a internet atualmente se apresenta como o mais democrático acesso às pluralidades. Neste sentido, é mais um espaço – poderosíssimo por sinal – de representação.

Em contraponto a uma sociedade que estigmatiza, silencia e que só viabiliza a existência de lésbicas dentro de determinados padrões, a literatura lésbica na internet dá voz e possibilita espaços de identificação, compreensão e construção de si e da vinculação com as outras, através de narrativas (ficcionais ou não) que discorrem sobre vivências (cotidianas ou não) de mulheres que vivem as suas afetividades ou sexualidades centradas em outras mulheres.

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Inúmeros sites e blogs oferecem livre acesso e livre expressão, aliando visibilidade e interatividade e se consolidando como espaços de autoafirmação de uma suposta “identidade lésbica”, que busca romper a clandestinidade através da apropriação das redes de comunicação digitais e sua possibilidade de publicização discursiva através de canais midiáticos “alternativos”.

A literatura na internet persegue a mais bela das prioridades: as trocas de experiência em um espaço público que viabiliza o acesso aos discursos e às obras sem censura ou distinção, dando voz àquelas para quem a “literatura legitimada” é por muitas vezes inatingível.

Necessário deixar claro que o compromisso com a escrita na internet não é uma falta de opção, muito pelo contrário. É exatamente a grande opção.

POSTO, LOGO EXISTO

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Entretanto, ao mesmo tempo em que a internet proporciona uma forma prazerosa, lúdica e libertária de escrita, deve ser encarada de maneira responsável e sensata, uma vez que é um canal de comunicação excessivamente direto e explícito.

O diálogo que se estabelece é intenso e instantâneo. Ninguém vai perder seu tempo lendo, comentando e acompanhando se não se identificar imediatamente com o conteúdo.

De acordo com Gisele Marchiori Nussbaumer, a internet permeia tanto a necessidade de alguns se esconderem atrás da tela, quanto a de se fazerem visíveis através dela, às vezes para poderem revelar aspectos de suas vidas que nem sempre são vivenciados em plenitude, o que é bastante comum quando se trata do universo lésbico.

No caso da literatura lésbica, especificamente, a internet serve não só para traduzir, dar voz e tornar visível diversas realidades – e dificuldades – de mulheres que vivem as suas afetividades ou sexualidades centradas em outras mulheres, mas também para possibilitar o diálogo, através da identificação ou até mesmo do estranhamento com as narrativas.

A escrita na internet é um instrumento revolucionário e como tal devemos usá-lo. A internet – como espaço provocativo e propositivo – é uma ferramenta potente na luta de empoderamento e visibilidade.


DIEDRA ROIZEscritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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ASSISTA AO 10° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM EZIO ROSA

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“quando eu pensei na internet e todas as plataformas que estavam surgindo, pensei em não somente encontrar os meus pares mas também, em me preservar: a internet como um lugar de acolhimento”. Neste último episódio da nossa série, o artista Ezio Rosa fala sobre como o online e o offline se encontram: virtualidades ativadas e

“quando eu pensei na internet e todas as plataformas que estavam surgindo, pensei em não somente encontrar os meus pares mas também, em me preservar: a internet como um lugar de acolhimento”.

Neste último episódio da nossa série, o artista Ezio Rosa fala sobre como o online e o offline se encontram: virtualidades ativadas e inscritas na memória do corpo.

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Sobre Ezio Rosa

Criar dispositivos políticos através das novas mídias frente a condição de um não-lugar que dê conta de quem somos. O tumblr Bicha Nagô surge da necessidade de encontrar lugares seguros para propor a discussão sobre homossexualidade com o recorte de classe e raça. A página iniciada pelo performer e ativista Ezio Rosa que também é integrante do bloco Afro Ilu Obá de Min, é uma espécie de diário onde são expostas situações cotidianas do dia-a-dia do gay negro visando problematizá-las ao compartilhar experiências que antes eram silenciadas.

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Websérie AfroTranscendence:

Dirigida por Yasmin Thayná
Escrita por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

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As Mulheres da Terra: As histórias das anciãs

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“É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. “

Imagens criadas com o iPhone SE
por Marilia Botelho

 

 

Notas sobre o progresso:
Você, jovem rapaz, que admira os prédios, o cimento, a construção.
Você, que olha admirado
o shopping center
levantado,
pelas mãos dos que um dia lavraram o chão.
Me chama de louca pela brincadeira
De fingir que as mangas são os brincos da mangueira
Você não vê os ipês floridos na paisagem,
não sabe do carcará e do urubu
voando na imensurável imensidão
Cuidado rapaz, guarda bem com sua pretensão
essa terra é lugar de cabocla
que não tem medo de morar no sertão”

 

Interior de São Paulo, Noroeste do Estado.

No princípio era o nada. O nada, o calor e a natureza. Então chegaram os bandeirantes, a terra foi demarcada, apropriada, vendida. Os caminhos viraram estradas. E foi a estrada o divisor de águas na história da ocupação do Noroeste Paulista; isso porque os municípios localizados nas proximidades das rodovia Euclides da Cunha (SP-320) – que corta a região de São José do Rio Preto a Santa Fé do Sul, foram as que mais se desenvolveram, enquanto os povoados afastados foram lentamente sendo ocupados por gente que vinha de muitos lugares do país.

As mulheres foram agentes e observadoras das mudanças pelas quais passou esta região: as que já viviam por aqui, chamadas caboclas, se encontraram com as migrantes de diversas partes do Brasil, especialmente do Norte; gente de origem humilde que vinha para trabalhar nas terras recém ocupadas. Também assistiram à chegada dos imigrantes italianos, espanhóis e japoneses, os povos estrangeiros predominantes neste território.

É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. Estas práticas, pouco estudadas e, aparentemente escassas, se encontram diluídas no dia-a-dia das comunidades e das pequenas cidades da região. Uma senhora que reza e benze, outra que faz remédios e ensina receitas, as jardineiras e agricultoras que conhecem os segredos das plantas e da terra; enfim, de diversas maneiras, seguiram vivos alguns ritos femininos, embora talvez não reconhecidos como tais.

A chegada da medicina moderna tardou nesta região afastada da capital; este episódio teve grande impacto sobre o principal rito feminino de passagem: a hora do parto. Hoje a maioria os bebês nascem pelas mãos dos médicos, em salas de cirurgias; não mais pelas mãos das parteiras, que se tornariam comadres da família. O evento que antes era íntimo e familiar, se transformou radicalmente. As mulheres com quem converso se dão conta disso, reconhecem que o tempo mudou muita coisa, transformou a vida das mulheres que vieram depois delas, suas filhas e netas. Através do relato de suas experiências, teço estas narrativas entrelaçando o passado e as práticas femininas com a história da ocupação do lugar.

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As  senhoras da vila:

Dona Nina, 81 anos*

Batemos palmas, uma neta abre o portão. Dona Nina está sentada na cadeira de área; se apoia na bengala e faz menção de se levantar pra dar a mão:

  • Carece levantar não vó.
  • Que bom, meu joelho já não para mais de doer quando fico de pé

O jeito receoso e o olhar atento se impõe, quase assustam, mas com um pouco de insistência as barreiras vão se quebrando. Dona Nina desconfia um pouco do caderno, do aparelho onde faço os registros, da proposta de contar histórias:

  • Tenho nada pra falar não, minha vida é isso aqui só!
  • Mas é o que me interessa mesmo, Dona Nina.

A conversa engata sobre a infância na roça, sobre o trabalho duro debaixo do sol e as consequências no seu corpo: lhe doem muito os joelhos, os dois, desgastados do tempo e da labuta. Enfim, descubro a baiana forte, que ficou órfã de mãe cedo e que amansava mula brava no pasto. Veio do Norte aos 18 anos para trabalhar em uma fazenda na região de Aparecida d’Oeste;  no interior paulista não teve vida fácil: “Ponhava a enxada no ombro e ia mexer na terra com meu véio”.

A conversa ruma pras histórias sobre gestação e parto. Quero saber como é parir. Pergunto à Dona Nina o que faziam com a placenta depois que o bebê nascia:

  • Enterrava, uai! Que pergunta! Você logo vai ser mãe, filha, quer tanto saber dessas coisas. Mulher de hoje em dia não quer saber disso não! E tem que ser pra logo essa barriga, viu? Senão você fica madura e aí não nasce mais filho bonito e com saúde, só moleque mirrado e doente. A gente é igual fruta, depois que amadurece, apodrece!

Ela deu à luz a nove filhos. O primeiro deles nasceu morto, depois de dois dias de trabalho de parto e de fazer todas as rezas e simpatias conhecidas, a parteira a mandou para o hospital porque “não tinha outro jeito” E o marido teve que escolher entre ela e a criança, Dona Nina ainda teria mais filhos, todos nascidos em casa.

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Dona Nina, viveu em Marinópolis desde antes da cidade ser município, se lembra do tempo em que todas as cidades da Comarca eram parte de uma grande fazenda.

*Dona Nina foi uma das pioneiras da cidade de Marinópolis, residiu no município por tantos anos que ela mesma havia perdido as contas. Apesar da idade avançada, conversava com fluidez e tinha boa memória. Faleceu no fim do outono de 2016, poucos meses depois da tarde em que conversamos na varanda de sua casa.

 

Dona Antônia, 86 anos

O silêncio impressiona, ela já quase não fala porque também escuta pouco. Os olhos fundos parecem perdidos em algum acontecimento do passado. Talvez na infância, vivida em Minas Gerais, ou nos acontecimentos da juventude – teve vida dura como lavradora da terra. Ainda se lembra dos patrões bravos, os senhores donos das plantações que sua família trabalhava, não gosta que falemos sobre o tempo “do Goiás”, a vida era muito difícil.
Dona Antônia ainda consegue me contar baixinho uma história sobre benzimento de quebranto, as palavras da oração ela já não se lembra mais; mas não esquece de quando sua neta Mauricéia foi curada do mal de simioto pelas rezas de uma comadre benzedeira. Teve quatro filhos, todos nascidos em casa. Sempre de madrugada, pouco antes da hora de ir pra roça, chegava sua irmã que era parteira e lhe ajudava no ofício de por criança no mundo.

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Dona Antônia, 86 anos, a Vozinha, uma das moradoras mais antigas de Marinópolis, nascida em Minas Gerais, trabalhou na roça desde moça, chegou na cidade há cerca de 42 anos.

Dona Florentina, 86 anos

O caminho árduo do Norte até o interior do estado de São Paulo foi vencido na carroceria de um caminhão pau de araras, a viagem foi tão longa que Dona Florentina diz ter perdido a conta dos dias. Chegaram primeiro em Auriflama, no córrego das Cruzes; a filha mais velha era criança ainda, Dona Mocinha, que hoje cuida da mãe, tem cerca de 60 anos.

Elas se lembram dos tempos das benzedeiras, que curavam com reza e simpatia as doenças do povo – mal de simioto, quebranto e espinhela caída eram as principais mazelas. Dona Mocinha conta a história do irmão que morreu antes de completar um ano do mal conhecido também como doença do macaco. A mãe, Dona Florentina, concorda com a cabeça, já está na idade do silêncio, em que as mãos contam mais histórias que a boca.

Me impressiono ao ouvir falar que as curandeiras ministravam doses de querosene para as crianças

  • Não era esse querosene estragado igual o de hoje.

Quero saber mais sobre os remédios que as mulheres usavam, ela me conta do tradicional álcool embebido nas ervas.

  • Usava de tudo que era erva, alecrim, arruda, capim limão, eucalipto, gambá, guiné, erva santa maria… As vezes misturavam tudo e faziam uma garrafada de todas as ervas. Elas faziam e davam pra gente levar pra casa pra tratar dos ferimentos das crianças, joelho ralado, torção, batida, dor nas costas. Não tinha remédio igual hoje, né, fia?
dona-florentina-e-dona-mocinhaDona Florentina e a filha Dona Mocinha, moradoras da terra há mais de quarenta anos

 

Noto um nome recorrente nas lembranças das mulheres de Marinópolis, é o da Comadre Gracina, dizem que foi parteira e benzedeira junto com o seu marido. Dona Gracina ajudou muita gente a pôr filho no mundo, benzia plantações, gado, criança doente, idoso acamado. Elas contam que as rezas de Dona Gracina e o esposo eram requisitadas por muita gente da região. Escutei sobre a vez em que um rico senhor de terras buscou ela pra ajudar no nascimento de um filho. Ao ver a gestante já cansada do trabalho de parto, Gracina a fez ficar de pé apoiada nos braços de outra pessoa e empurrou sua barriga para baixo; o neném nasceu já sem respirar e a parteira, conhecedora dos mistérios da vida, fez o menino reviver. Há muitos anos que esta senhora deixou o mundo, mas suas histórias a deixaram viva na pequena comunidade e ainda são contadas pela gente da terra.

Mulheres como Dona Gracina eram comuns nos tempos de antes, essas senhoras eram as responsáveis pela perpetuação de conhecimentos de geração em geração. Houve, de certa maneira, um rompimento nessa linhagem de manutenção dos saberes, com a chegada da tecnologia, o que muitos chamam de progresso. Alguns ensinamentos se perderam com o tempo mas muitos se transformaram e seguem vivos, existindo de maneira semelhante ao que foram no passado. As novas gerações de mulheres estão cada vez mais, mesmo que brevemente, prestando atenção e reverenciando o que dizem as mulheres mais velhas, as que viveram o mundo de outra forma. Isso faz com que seja cada vez mais latente  a necessidade de conhecer, catalogar histórias e registrar os conhecimentos para a inspiração e acesso das novas gerações de mulheres aos conhecimento das práticas de nossas ancestrais.

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MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.

 

 

As Mulheres da Terra
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ASSISTA AO 9° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM SIDNEY AMARAL

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“Ser artista já é difícil, ser artista negro no Brasil aí já um pouco mais complicado”.
Nesse nono episódio da nossa série, o artista Sidney Amaral, fala sobre a sua carreira, trabalhos e o que está por traz da sua técnica.

“Ser artista já é difícil, ser artista negro no Brasil aí já um pouco mais complicado”.

Nesse nono episódio da nossa série, o artista Sidney Amaral, fala sobre a sua carreira, trabalhos e o que está por traz da sua técnica.

Confira!

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Sobre Sidney Amaral:

Sidney Amaral utiliza com a mesma desenvoltura o desenho/pintura e a escultura. Seu olhar busca novos significados e associações nos objetos do dia a dia. Questionando o lugar do negro na sociedade, é um dos grandes nomes da arte afro-brasileira tendo participado de exposições coletivas e individuais importantes, como “O Banzo, o Amor e a Cozinha de Casa” no Museu Afro Brasil  e Histórias Mestiças no Instituto Tomie Ohtake com curadoria de Adriano Pedrosa. Recentemente teve uma obra sua adquirida pela Pinacoteca do Estado de São Paulo. No AfroTranscendence irá falar sobre a importância da técnica na atividade Adentro realizada no Museu Afro Brasil.

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Websérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

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Literatura lésbica – aquelas que não podem falar dizendo o que não deve ser dito

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“Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.”
Neste especial, a escritora Diedra Roiz revela os caminhos da literatura lésbica no Brasil com sua poética de ressignificação e resistência.

Imagens criadas com o iPhone SE

Ao deparar-se com o termo Literatura Lésbica, muita gente se pergunta: o que é isso? Isso existe? Ou, até mesmo, para quê isso?

Infelizmente, quando se trata de dar voz e espaço às “minorias”, esse tipo de reação não é incomum. Uma negação mais cruel do que a do espaço em si, a do valor e da necessidade do mesmo.

Afinal… Segundo este tipo de pensamento, preconceito é separar e classificar. “Para quê cotas? Para quê literatura lésbica? Literatura é literatura, pouco importa se é escrita por mulheres, lésbicas, trans, negras. Somos todos seres humanos, as pessoas são todas iguais!”

Mesmo?

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Seria maravilhoso viver em um mundo onde todos fossem apenas gente e mais nada. Um mundo onde não existissem diferenças, privilégios, relações assimétricas de poder.

Mas esta não é a nossa realidade.

No mundo em que vivemos – onde as estruturas perversas do poder existem a serviço de manter a exclusão, a invisibilidade e o silenciamento de todos que não se enquadrem, e a desigualdade, de forma absolutamente cruel e tirana em seus critérios, elege aqueles que interessam, que detêm o espaço e o direito de falar, de se expressar, de se tornar visíveis -,  rótulos e classificações são necessários exatamente para que os excluídos possam garantir e ocupar direitos e espaços que lhes são interditos.

A Profª Drª Regina Dalcastagné, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, em sua pesquisa cujo resultado pode ser encontrado no texto “Um mapa de ausências” do livro “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, fez um mapeamento das publicações literárias de grandes editoras brasileiras e chegou à triste conclusão de que, em um país tão lindamente repleto de diversidades e pluralidades como o nosso, o perfil da grande maioria dos autores publicados é o seguinte: homem branco, heterossexual, cisgênero, com mais de 40 anos, membro da classe média, jornalista, morador do Rio de Janeiro ou de São Paulo.

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Se alguém ainda tinha alguma dúvida, acho que depois disso fica bem claro qual o discurso que interessa e a escrita escolhida para ser visível hoje em dia no Brasil.

Nomear de literatura lésbica narrativas de mulheres que vivem as suas afetividades e sexualidades centradas em outras mulheres é de extrema e profunda importância neste momento, pelo aspecto revolucionário, de luta e resistência que isto possui, pelo significado e pelo que representa: dar voz a sexualidades que ainda se produzem trancadas “dentro do armário”, de visibilizar e empoderar uma literatura em que a mulher surge não como simples e silencioso objeto do desejo, mas como sujeito desejante, portadora da voz e do discurso.

Mas por que literatura lésbica e não literatura LGBT?

Saber respeitar a diversidade talvez seja a tarefa mais difícil da sociedade contemporânea, pois é a própria sociedade que homogeneíza a partir da construção de modelos pré-estabelecidos. Dentro do universo LGBT, isto não é diferente: muitas vezes, para uma mulher lésbica cis é necessário lutar para ter seu espaço, suas demandas e sua voz respeitados; para mulheres lésbicas trans, é mais difícil ainda.

A literatura lésbica expressa realidades de mulheres lésbicas (trans ou cis), buscando deixar a invisibilidade num mundo que ainda classifica um casal de mulheres como sendo “duas mulheres sozinhas”, fato que não acontece com um casal de homens, pois o homem, independente de sua orientação sexual, é sempre visto como sujeito e protagonista. Mais do que isso, tais narrativas também servem para desmistificar a visão de que mulheres lésbicas ou são objetos de fetiche e de desejo para homens hetero, ou são mulheres que desejam ser homens. Estereótipos que precisam ser desconstruídos. Vozes que, mesmo dentro do universo LGBT, ainda lutam para serem respeitadas e ouvidas.

Mas o que seria considerado literatura lésbica? Levamos em consideração o tema, o conteúdo, as personagens ou quem escreve?

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Claro que considerar as personagens, o contexto e o “tema” abordado pelo texto é o mais adequado. No entanto, óbvio que um texto escrito por uma lésbica tem o ponto de vista de uma mulher que vive a sua afetividade e sexualidade centrada em outras mulheres visto de dentro, o que traz a voz desta realidade, aquela que possui essa vivência. Afinal, o lugar de onde se fala faz total diferença para o discurso, é impossível dissociar a vivência/essência de quem escreve de seu discurso.

Citando Gloria Anzaldúa:

 “Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você.”

Frase que, para mim, pontua e define o conceito de literatura lésbica completamente.


DIEDRA ROIZEscritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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TOQUE!

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“e se Exú é seu amigo, é meu também, e esta casa não faz mal a ninguém” [ponto de Exú]

Imagens e vídeos criados com o iPhone SE
Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos Tupis
Sou Tupinambá. Tenho os erês, caboclo Boiadeiro
Mãos de cura, morubixabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curare, flechas e altares
A velocidade da luz
O escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José,
Todos os pajés em minha companhia
[Maria Bethânia in Carta de Amor]

 

Crepúsculo. Bairro de Mangabeira, João Pessoa. Procuramos o Ile Asé Odé Ibualama de Mãe Novinha – Edvania Ferreira Martins Santos – Dofona de Oxóssi no Candomblé Ketu. Na passagem lateral à entrada da casa, diversas imagens dos Orixás nos recebem. Nos fundos do terreno, uma mesa com esculturas em gesso de pomba-giras, jarros de barro e flores formam o altar. Uma imagem em especial nos chama atenção: um homem careca, desfalecido e abraçado à uma garrafa de cachaça. Ele usa um terno azul celeste, camisa amarela mal cobrindo sua barriga proeminente e uma gravata vermelha desproporcionalmente curta que mantém, a despeito da situação, seu colarinho impecável. Sua cabeça é de um Buda com as bochechas coradas. Seu rosto possui feição ambígua entre a serenidade e o deboche. É Mestre Zé Bebinho, uma das entidades que Mãe Novinha recebe e a quem atribui a filiação e a proteção absoluta da casa.

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Imagem do Mestre Zé Bebinho

Mas a festa, o toque de jurema é para Mestra Ritinha Genézia. Esta mestra foi prostituta da zona portuária de Recife. Conta sua história que aos quinze anos foi assassinada pelo amante e seu espírito trabalha principalmente nos casos que envolvem romances, insídias e amparos emocionais. A mesa para ela está coberta por uma toalha vermelha com brocados dourados. Sobre a mesa pousa um bolo torre de três camadas, de pasta americana branca com fitas vermelhas e douradas; além de inúmeras garrafas de Martini rosé, sua bebida preferida. Ao lado da mesa, posicionam-se o microfone, o atabaque e outros instrumentos.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Mestra Ritinha Genézia em Mãe Novinha

O dirigente do toque de jurema é o Pai Léo de Ayrá que iniciou Mãe Novinha no Candomblé. Ao microfone, ele abre a gira com os pontos de Exú. A gira começa com os convidados formando a roda com os homens separados das mulheres. Os trajes dos homens são túnicas similares ao vestuário africano e a das mulheres são vestidos e saias rodadas coloridas. Ao toque do atabaque, as cores sucedem-se vertiginosamente em sentido anti-horário.  Seguem-se pontos da jurema até a chegada da Mestra Ritinha incorporada em Mãe Novinha, pelas mãos de Pai Léo. Ao som do refrão Ritinha fogosa, traga o meu amor, ela entra triunfante na roda, balançando o quadril, exibindo o decote dourado e fumando uma cigarrilha na piteira longa. Libidinosa, ela saúda o ogan e oferecendo martini aos seus convidados, faz descer as outras entidades. Como em um efeito dominó, eles vão chegando: Mestra Paulina, Zé do Cangaço, Cigana Esmeralda, e outros tantos boiadeiros e mestres que dividem o pequeno espaço com seus cachimbos, cervejas, leques e bailados. Entre eles, vão se cumprimentando, dançando e festejando. Aos poucos, vão distribuindo conselhos a nós, até então, meros espectadores.

Rafael Avancini - Cidades Invisíveis

Mestre Zé do Cangaço  e  Mestre Chapéu Amarelo

A experiência do êxtase

por Suzy Okamoto

Na roda, danço ao som do tambor com um copo de martini em minha mão. Chega Zé do Cangaço, me saúda e diz coisas que só eu sei (como saberia ele a respeitos das minhas questões?). Reflito sobre suas recomendações, agradeço seu axé e me divirto permanecendo em movimento. Chega Netinho, o filho da Mãe Novinha, que me oferece um copo de Jurema. Aceito, bebo um gole. Levo o copo ao Rafael que ocupado entre fotos e gravações, declina o brinde. Ao mesmo tempo, a Cigana Esmeralda se aproxima. Ela me reconhece da jurema de chão de outra data e da outra casa. Me cumprimenta, dá um abraço envolvendo-me em sua saia de renda. Quando a sua saia cobre a minha cabeça, perco o controle do meu corpo em movimentos frenéticos. Não sei se giro ou se balanço. Sinto Netinho tentando me conter. Ele diz coisas incompreensíveis bem perto do meu ouvido, da qual a única coisa que eu entendo é um imperativo “segura a matéria!“. O que faz meu corpo seguir um ritmo diferente. Os únicos dados de realidade que me lembro foi ter visto a Indra Lumiar – ekedji da Cigana Esmeralda – amarrar um turbante na minha cabeça. O colorido se apaga, tudo fica branco e eu, que não sou mais eu, flutuo na neblina. A percussão, embora reconhecível, adquire uma lentidão indescritível. Não sei quanto tempo isto dura. Em um determinado momento, me vejo próxima ao ogan, agachada sobre um dos meus joelhos, com as mãos de Pai Léo sobre a minha cabeça que dá um tranco para trás. Volto. Volto lúcida, mais lúcida do que na hora que cheguei em Mangabeira.

Como testemunhas, reconhecemos as entidades e a força do culto apenas pela racionalidade ou por uma análise superficial dos seus símbolos. No encalço da Jurema, seguimos os passos buscando associações com imagens, palavras que foram escritas por pesquisadores importantes como Câmara Cascudo e outros. Mas quando elas se apresentam à nós, ainda que sem nome e nem lógica, como a mais pura experiência, sabemos que existe algo mais do que o mistério: Sabemos que esta experiência marca definitivamente a nossa jornada de 30 dias na Arapuca Arte Residência. Aos poucos, as informações vão se engendrando: a realidade concreta e exuberante das falésias, mar e céu de Tambaba, os Tabajaras, as juremas-árvores, as entidades, os cantos, o sincretismo. Não é possível passar incólume por tudo isto que nos afeta. No entanto, não há promessas de identidade cultural ou mesmo poética. São fios (raízes) soltos e desencapados na imensidão histórica e imaginária da Paraíba e do Brasil. Por uma (in)felicidade, somos reconhecidos pelos nossos corpos mestiços, alegóricos do verão dos trópicos e do Carnaval. Herança de um equívoco colonial traduzido com primor só por Macunaíma de Mário de Andrade.  Todavia, existe um horizonte. Na impossibilidade de verter as experiências vividas em palavras próprias, seguimos com o antropólogo Viveiros de Castro somado ao poeta Arthur Rimbaud: O espírito só pode ser universal (natural) se for corpo, ainda que seja sagradamente desordenado.

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Praia de Arapuca e Tambaba – Paraíba

 

 


Suzy_Okamoto_perfil_NoBrasilSUZY OKAMOTO
Artista visual, Mestre em artes visuais em Estética e História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp. Professora do Núcleo de Design do Centro Universitário de Belas Artes, aonde leciona as disciplinas direcionadas para a pesquisa e criação. Entre suas principais exposições estão “Dor, forma e Beleza”, na Pinacoteca do Estado de SP, IX Salão de Arte da Bahia – Museu de Arte Moderna de Salvador, além de participação em diversos festivais internacionais de vídeo.
Rafael_Avancini_perfil_NoBrasil-1RAFAEL AVANCINI
Fotógrafo e cinematógrafo gaúcho. Trabalha principalmente com música, moda e arte. Tem sua pesquisa autoral em torno do nu, da performance e das poéticas do corpo, Como cinematógrafo participou do longa-metragem “Amor Líquido”, do diretor Vítor Steinberg e dos curtas, “Coquetel Motolove” junto à escola de cinema Inspiratorium e “Fantasma da Saudade no Vale da Morte” de Lufe Bollini, ganhador do Lisbon International Film Festival 2016 como Best Underground Film” .
Jurema Sagrada
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