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Cartografias Periféricas

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A arte como um dispositivo da construção de um mapeamento da cidade. A relação periferia-centro e dicotomias sociais e a intercessão cidade-artista.

Imagens feitas com o iPhone SE
Por Clébson Oscar

Primeiramente, uma caminhada

Nossa percepção de cidade é limita aos espaços e as rotas que traçamos diariamente: bairro em que mora, bairro onde estuda/trabalha, bairro que frequenta para lazer e outras atividades habituais; na maioria das vezes só conhecemos entre três a cinco bairros, e não por suas totalidades. A cidade é constantemente modificada por movimentos sutis, como o vai e vem de pessoas, fachadas que mudam de cor, e pelos movimentos complexos, das subidas de novos prédios, novos viadutos, construções que cobrem a paisagem e alteram o entorno, situações que alteram drasticamente a dinâmica dos espaços e dos fluxos cotidianos. Sendo assim, a nossa percepção dos espaços se perde dentre tantas alterações diárias, e pelas novas configurações que surgem e incidem sobre eles.

Alguns trabalhos surgem desse apontamento, em vários níveis relacionais, a cidade/rua, o corpo como morada, casa/cidade, são espaços criados em mutação que aderem criativamente entre si, gerando faíscas narrativas e novos modos de habitação e intervenção. De fato, o que nós conhecemos de nossa própria cidade não chega a 20%, e é preciso propor uma investigação não somente dos porquês disso, mas também maneiras de se reconectar e se impregnar a cidade.

Prática: pegue o mapa de seu bairro, trace linhas por cima das ruas que você já passou, use cores diferentes (ex: verde, vermelho, azul, etc.) para apontar as ruas que você já passou entre 3 e 5 vezes no último ano, as ruas que você já passou entre 5 e 10 vezes, e as de mais de 10 vezes, e deixe em branco as ruas que você passou menos de três vezes ou mesmo nem chegou a caminhar nesse último ano.
Resultado: conheço, ou seja, tenho mais conhecimento de espaço/ruas e de alguma forma tenho experimentado e percorrido muito mais o Centro de Fortaleza do que o bairro (Pici) em que moro desde que nasci. Embora seja uma constatação a partir de um recorte especifico de um ano, é no mínimo de se questionar.

“Mapa do Pici e rotas traçadas”

É muito comum ver trabalhos em que se propõe a realizar uma imersão pela favela, como prática corpórea e sensorial acerca dos espaços de convivência, mas é preciso se atentar a certos equívocos: já presenciei deriva de imersão sendo feita de dentro de um carro, com as ruas estreitas do bairro sendo vista através do vidro. Como se propõe a imergir pelo espaço se existe uma janela de vidro e uma carcaça de ferro separando-o do próprio espaço? Que tipo de relação com a cidade é essa que está atrelada muito mais a um distanciamento do que envolvimento?

São as sobreposições espaciais entre: qual o lugar da favela e o lugar da arte? São campos sociais incompatíveis? É complicadíssimo dar a favela apenas o lugar de ser um campo de estudo para trabalhos artísticos/acadêmicos, principalmente quando tais trabalhos são realizados não por moradores da própria favela e sim por pessoas externas e alheias aos contextos íntimos da favela. A visão de uma pessoa que vive a favela a todo instante, e aqui o verbo viver entra com o seu sentido mais intrínseco possível, é totalmente diversa daquele que só conhece a favela através das teorias sociológicas e do abstracionismo das suas próprias proposições artísticas. É preciso entender o lugar da vivência e o lugar da fala.

A favela precisa é de emancipação: cultural, social e política.

Essa investigação da cidade e dos espaços que a compõem não pode se transformar num safari, em que o olhar estrangeiro e exotizador incide sob os espaços e meios, como é o olhar de parte da arte acadêmica sob a favela (olhar esse que facilmente pode se desdobrar num olhar colonizador que se sobrepõe ao do colonizado, no caso, a favela). Aqui deve se propor uma busca continua e diária por envolvimento com a cidade, se juntar a ela, em gestos e ações. Sentir a cidade significa estar solto para caminhadas e revoadas.

CAPA“LUTAR, do artista Emol”

Essa investigação da cidade e dos espaços que a compõem não pode se transformar num safari, em que o olhar estrangeiro e exotizador incide sob os espaços e meios, como é o olhar de parte da arte acadêmica sob a favela (olhar esse que facilmente pode se desdobrar num olhar colonizador que se sobrepõe ao do colonizado, no caso, a favela). Aqui deve se propor uma busca continua e diária por envolvimento com a cidade, se juntar a ela, em gestos e ações. Sentir a cidade significa estar solto para caminhadas e revoadas.

Para se conhecer uma/sua cidade, é preciso se entrelaçar a ela, se provocando a encontros efêmeros (ou não). Entendendo que a cidade é composta não somente das tantas dicotomias entre as regiões centrais e as margens, mas também das conjunturas espaciais que fazem com que essas regiões sejam atravessadas umas pelas outras.

É preciso reconstruir, criar territórios, afetos. Novas paginações duma cartografia urbana, numa procura pelos atores e agentes dessa produção calcada em experimentar a cidade e os espaços.

Aqui se colocam proposições estéticas e políticas que reinserem a experiência da alteridade do espectador em espaços urbanos que, sendo agradável ou não, remete à existência de outros lugares da cidade. Fluxos e ritmos, deslocamentos, insistências urbanas, errâncias, corpografia de exploração. A política como pensamento artístico acerca da cidade, e/ou o pensamento artístico como ato político sobre a cidade.

Das práticas, das intervenções

Numa prática interventiva que reinsere o deslocamento do espectador como estrangeiro em sua própria cidade, o Livro de Rua, projeto encabeçado pelos artistas Eden Loro e Sivirino de Caju, propõe uma cartografia da cidade, um desejo de comunicar-se com a cidade possibilitando encontros. A intervenção se constitui como um livro aberto que tem suas páginas pintadas e espalhadas por vários muros da cidade de Fortaleza, são poemas sucintos e desenhos, que propõe um percurso por pelo menos 40 bairros de todas as regiões da cidade. Para ler e sentir o livro por completo é preciso se deslocar do seu lugar comum e percorrer trajetos que o levarão a lugares desconhecidos da cidade, numa espécie de deriva, em que se estará imerso em descobertas dos espaços.

É interessante de se pensar que praticamente todas as páginas do Livro de Rua passaram por algum tipo de intervenção externa, um gesto semelhante ao que fazemos quando lemos um livro de papel e marcamos algum trecho ou parágrafo do texto, ou quando se escreve uma dedicatória no início. E que nesse caso, de um livro de concreto, que está exposto à chuva, ao sol, aos ventos, ao pó de asfalto, a maresia e às balas perdidas. Um livro que pode acabar tendo um de duas páginas rasgadas, ou melhor dizer, apagadas por outras intervenções ou por alguma propaganda comercial.

livro de rua (1)“Livro de Rua, páginas 99 e 100, Av. Humberto Monte, Fortaleza.”
livro de rua (2)“Mapa de todas as páginas do Livro de Rua.”

Em um forte momento de questionamento forte sobre cidade, o Massa Crítica é um movimento de ciclistas existente em várias cidades do Brasil e do mundo, que surge como forma de propagar uso da bicicleta como um meio de transporte, se utilizando do cicloativismo para levantar discursões acerca de mobilidade urbana e direito ao uso dos espaços da cidade. O grupo, intitulado como um coletivo do qual um não fala por todos, realizou diversas ações interventivas em Fortaleza como as ciclofaixas cidadãs, em que são pintadas no asfalto faixas brancas sinalizando o espaço para a bicicleta, sempre realizadas em vias de trânsito intenso e de grande ocorrência de acidentes envolvendo ciclistas. Uma outra ação do grupo, essa de significados mais agudos, é a intitulada “bicicleta fantasma” (em inglês, ghost bike), em que uma bicicleta velha é pintada de branco e presa próxima ao local em que algum ciclista tenha sido morto por veículo motorizado, seja em ato acidental ou não. Alguns pontos de Fortaleza receberam esse tipo de ação, que visa tanto denunciar a violência do trânsito da cidade, como também a necessidade de compartilhamentos dos espaços, além de prestar uma homenagem às vítimas.

massa crítica em 2014“Intervenções do Massa Crítica, imagens reprodução internet.”

E por último, o projeto Parque ampliado do Pajeú é uma pesquisa da artista Cecilia Andrade, que busca uma religação com o riacho Pajeú em Fortaleza, relacionando-se com esse lugar para além de suas características físicas explorando as possibilidades de ampliação do espaço pelas mídias móveis. O riacho foi encoberto por concreto e asfalto no processo de modernização da cidade, canalizados, em drenagem subterrânea ou mesmo enterrado, tendo apenas alguns trechos em canais ao céu aberto ou passando por entre propriedades privadas.

A ação “Excursão com audioguia pelo parque ampliado do Pajeú” utiliza o potencial das mídias locativas para criar camadas ao real, nela os participantes levavam no celular um aplicativo que indicava pontos por onde o riacho passava levando-os a uma excursão pelas ruas do centro histórico. Ao chegar em tais pontos, audioguias eram acionados e uma voz narrava acontecimentos e documentos históricos sobre o riacho. Uma caminhada de investigação acerca do riacho, em que os participantes estariam numa busca subjetiva por narrativas que os levariam a encontrar os resquícios do Pajeú, algumas vezes o áudio leva o participante a encontrá-lo, noutras, ele poderá apenas imaginar por onde anda o Pajeú.

“Excursão Pajeú – Cecília Andrade”

A ação tenta fazer um resgate da memória, da história e dos afetos da cidade, que cada vez mais são esmagados e enterrados pelos processos de modernização e desenvolvimento. A excursão permanece viva, e embora o percurso tenha sido realizado em grupo, qualquer pessoa que esteja na cidade pode participar dessa experiência cartográfica, no site da artista é possível ler um artigo que fala acerca da ação explicando como instalar o aplicativo em seu dispositivo móvel e participar dessa vivência.

Por último, uma rota.
Páginas dos grupos e artistas citados no texto:
Ciclanas: https://www.facebook.com/ciclanas/
Massa Crítica Fortaleza: https://pt-br.facebook.com/MassaCriticaFortaleza
Ciclovida: https://www.ciclovida.org.br/
Cecília Andrade: https://eraumavezumrio.wordpress.com
Eden Loro: https://www.ilustra.org/user/eden-loro/

 

IMG_1969 PBCLÉBSON OSCAR- ARTISTA VISUAL, DESENVOLVE TRABALHOS EM INSTALAÇÃO, VÍDEO, FOTOGRAFIA ANALÓGICA E INTERVENÇÃO URBANA, DA QUAL TAMBÉM DESENVOLVE UMA PESQUISA SOBRE O TEMA. GRADUANDO EM CINEMA E AUDIOVISUAL PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ E PELA VILA DAS ARTES. É ROTEIRISTA E REALIZADOR, TENDO DIRIGIDO DOIS CURTAS METRAGENS QUE ESTÃO CIRCULANDO POR FESTIVAIS E MOSTRAS DE CINEMA, ALÉM DE TRABALHAR COM ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO E MONTAGEM EM CINEMA.

 

 

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