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Cartografias Periféricas

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A arte como um dispositivo da construção de um mapeamento da cidade. A relação periferia-centro e dicotomias sociais e a intercessão cidade-artista.

Imagens feitas com o iPhone SE
Por Clébson Oscar

Primeiramente, uma caminhada

Nossa percepção de cidade é limita aos espaços e as rotas que traçamos diariamente: bairro em que mora, bairro onde estuda/trabalha, bairro que frequenta para lazer e outras atividades habituais; na maioria das vezes só conhecemos entre três a cinco bairros, e não por suas totalidades. A cidade é constantemente modificada por movimentos sutis, como o vai e vem de pessoas, fachadas que mudam de cor, e pelos movimentos complexos, das subidas de novos prédios, novos viadutos, construções que cobrem a paisagem e alteram o entorno, situações que alteram drasticamente a dinâmica dos espaços e dos fluxos cotidianos. Sendo assim, a nossa percepção dos espaços se perde dentre tantas alterações diárias, e pelas novas configurações que surgem e incidem sobre eles.

Alguns trabalhos surgem desse apontamento, em vários níveis relacionais, a cidade/rua, o corpo como morada, casa/cidade, são espaços criados em mutação que aderem criativamente entre si, gerando faíscas narrativas e novos modos de habitação e intervenção. De fato, o que nós conhecemos de nossa própria cidade não chega a 20%, e é preciso propor uma investigação não somente dos porquês disso, mas também maneiras de se reconectar e se impregnar a cidade.

Prática: pegue o mapa de seu bairro, trace linhas por cima das ruas que você já passou, use cores diferentes (ex: verde, vermelho, azul, etc.) para apontar as ruas que você já passou entre 3 e 5 vezes no último ano, as ruas que você já passou entre 5 e 10 vezes, e as de mais de 10 vezes, e deixe em branco as ruas que você passou menos de três vezes ou mesmo nem chegou a caminhar nesse último ano.
Resultado: conheço, ou seja, tenho mais conhecimento de espaço/ruas e de alguma forma tenho experimentado e percorrido muito mais o Centro de Fortaleza do que o bairro (Pici) em que moro desde que nasci. Embora seja uma constatação a partir de um recorte especifico de um ano, é no mínimo de se questionar.

“Mapa do Pici e rotas traçadas”

É muito comum ver trabalhos em que se propõe a realizar uma imersão pela favela, como prática corpórea e sensorial acerca dos espaços de convivência, mas é preciso se atentar a certos equívocos: já presenciei deriva de imersão sendo feita de dentro de um carro, com as ruas estreitas do bairro sendo vista através do vidro. Como se propõe a imergir pelo espaço se existe uma janela de vidro e uma carcaça de ferro separando-o do próprio espaço? Que tipo de relação com a cidade é essa que está atrelada muito mais a um distanciamento do que envolvimento?

São as sobreposições espaciais entre: qual o lugar da favela e o lugar da arte? São campos sociais incompatíveis? É complicadíssimo dar a favela apenas o lugar de ser um campo de estudo para trabalhos artísticos/acadêmicos, principalmente quando tais trabalhos são realizados não por moradores da própria favela e sim por pessoas externas e alheias aos contextos íntimos da favela. A visão de uma pessoa que vive a favela a todo instante, e aqui o verbo viver entra com o seu sentido mais intrínseco possível, é totalmente diversa daquele que só conhece a favela através das teorias sociológicas e do abstracionismo das suas próprias proposições artísticas. É preciso entender o lugar da vivência e o lugar da fala.

A favela precisa é de emancipação: cultural, social e política.

Essa investigação da cidade e dos espaços que a compõem não pode se transformar num safari, em que o olhar estrangeiro e exotizador incide sob os espaços e meios, como é o olhar de parte da arte acadêmica sob a favela (olhar esse que facilmente pode se desdobrar num olhar colonizador que se sobrepõe ao do colonizado, no caso, a favela). Aqui deve se propor uma busca continua e diária por envolvimento com a cidade, se juntar a ela, em gestos e ações. Sentir a cidade significa estar solto para caminhadas e revoadas.

CAPA“LUTAR, do artista Emol”

Essa investigação da cidade e dos espaços que a compõem não pode se transformar num safari, em que o olhar estrangeiro e exotizador incide sob os espaços e meios, como é o olhar de parte da arte acadêmica sob a favela (olhar esse que facilmente pode se desdobrar num olhar colonizador que se sobrepõe ao do colonizado, no caso, a favela). Aqui deve se propor uma busca continua e diária por envolvimento com a cidade, se juntar a ela, em gestos e ações. Sentir a cidade significa estar solto para caminhadas e revoadas.

Para se conhecer uma/sua cidade, é preciso se entrelaçar a ela, se provocando a encontros efêmeros (ou não). Entendendo que a cidade é composta não somente das tantas dicotomias entre as regiões centrais e as margens, mas também das conjunturas espaciais que fazem com que essas regiões sejam atravessadas umas pelas outras.

É preciso reconstruir, criar territórios, afetos. Novas paginações duma cartografia urbana, numa procura pelos atores e agentes dessa produção calcada em experimentar a cidade e os espaços.

Aqui se colocam proposições estéticas e políticas que reinserem a experiência da alteridade do espectador em espaços urbanos que, sendo agradável ou não, remete à existência de outros lugares da cidade. Fluxos e ritmos, deslocamentos, insistências urbanas, errâncias, corpografia de exploração. A política como pensamento artístico acerca da cidade, e/ou o pensamento artístico como ato político sobre a cidade.

Das práticas, das intervenções

Numa prática interventiva que reinsere o deslocamento do espectador como estrangeiro em sua própria cidade, o Livro de Rua, projeto encabeçado pelos artistas Eden Loro e Sivirino de Caju, propõe uma cartografia da cidade, um desejo de comunicar-se com a cidade possibilitando encontros. A intervenção se constitui como um livro aberto que tem suas páginas pintadas e espalhadas por vários muros da cidade de Fortaleza, são poemas sucintos e desenhos, que propõe um percurso por pelo menos 40 bairros de todas as regiões da cidade. Para ler e sentir o livro por completo é preciso se deslocar do seu lugar comum e percorrer trajetos que o levarão a lugares desconhecidos da cidade, numa espécie de deriva, em que se estará imerso em descobertas dos espaços.

É interessante de se pensar que praticamente todas as páginas do Livro de Rua passaram por algum tipo de intervenção externa, um gesto semelhante ao que fazemos quando lemos um livro de papel e marcamos algum trecho ou parágrafo do texto, ou quando se escreve uma dedicatória no início. E que nesse caso, de um livro de concreto, que está exposto à chuva, ao sol, aos ventos, ao pó de asfalto, a maresia e às balas perdidas. Um livro que pode acabar tendo um de duas páginas rasgadas, ou melhor dizer, apagadas por outras intervenções ou por alguma propaganda comercial.

livro de rua (1)“Livro de Rua, páginas 99 e 100, Av. Humberto Monte, Fortaleza.”
livro de rua (2)“Mapa de todas as páginas do Livro de Rua.”

Em um forte momento de questionamento forte sobre cidade, o Massa Crítica é um movimento de ciclistas existente em várias cidades do Brasil e do mundo, que surge como forma de propagar uso da bicicleta como um meio de transporte, se utilizando do cicloativismo para levantar discursões acerca de mobilidade urbana e direito ao uso dos espaços da cidade. O grupo, intitulado como um coletivo do qual um não fala por todos, realizou diversas ações interventivas em Fortaleza como as ciclofaixas cidadãs, em que são pintadas no asfalto faixas brancas sinalizando o espaço para a bicicleta, sempre realizadas em vias de trânsito intenso e de grande ocorrência de acidentes envolvendo ciclistas. Uma outra ação do grupo, essa de significados mais agudos, é a intitulada “bicicleta fantasma” (em inglês, ghost bike), em que uma bicicleta velha é pintada de branco e presa próxima ao local em que algum ciclista tenha sido morto por veículo motorizado, seja em ato acidental ou não. Alguns pontos de Fortaleza receberam esse tipo de ação, que visa tanto denunciar a violência do trânsito da cidade, como também a necessidade de compartilhamentos dos espaços, além de prestar uma homenagem às vítimas.

massa crítica em 2014“Intervenções do Massa Crítica, imagens reprodução internet.”

E por último, o projeto Parque ampliado do Pajeú é uma pesquisa da artista Cecilia Andrade, que busca uma religação com o riacho Pajeú em Fortaleza, relacionando-se com esse lugar para além de suas características físicas explorando as possibilidades de ampliação do espaço pelas mídias móveis. O riacho foi encoberto por concreto e asfalto no processo de modernização da cidade, canalizados, em drenagem subterrânea ou mesmo enterrado, tendo apenas alguns trechos em canais ao céu aberto ou passando por entre propriedades privadas.

A ação “Excursão com audioguia pelo parque ampliado do Pajeú” utiliza o potencial das mídias locativas para criar camadas ao real, nela os participantes levavam no celular um aplicativo que indicava pontos por onde o riacho passava levando-os a uma excursão pelas ruas do centro histórico. Ao chegar em tais pontos, audioguias eram acionados e uma voz narrava acontecimentos e documentos históricos sobre o riacho. Uma caminhada de investigação acerca do riacho, em que os participantes estariam numa busca subjetiva por narrativas que os levariam a encontrar os resquícios do Pajeú, algumas vezes o áudio leva o participante a encontrá-lo, noutras, ele poderá apenas imaginar por onde anda o Pajeú.

“Excursão Pajeú – Cecília Andrade”

A ação tenta fazer um resgate da memória, da história e dos afetos da cidade, que cada vez mais são esmagados e enterrados pelos processos de modernização e desenvolvimento. A excursão permanece viva, e embora o percurso tenha sido realizado em grupo, qualquer pessoa que esteja na cidade pode participar dessa experiência cartográfica, no site da artista é possível ler um artigo que fala acerca da ação explicando como instalar o aplicativo em seu dispositivo móvel e participar dessa vivência.

Por último, uma rota.
Páginas dos grupos e artistas citados no texto:
Ciclanas: https://www.facebook.com/ciclanas/
Massa Crítica Fortaleza: https://pt-br.facebook.com/MassaCriticaFortaleza
Ciclovida: https://www.ciclovida.org.br/
Cecília Andrade: https://eraumavezumrio.wordpress.com
Eden Loro: https://www.ilustra.org/user/eden-loro/

 

IMG_1969 PBCLÉBSON OSCAR- ARTISTA VISUAL, DESENVOLVE TRABALHOS EM INSTALAÇÃO, VÍDEO, FOTOGRAFIA ANALÓGICA E INTERVENÇÃO URBANA, DA QUAL TAMBÉM DESENVOLVE UMA PESQUISA SOBRE O TEMA. GRADUANDO EM CINEMA E AUDIOVISUAL PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ E PELA VILA DAS ARTES. É ROTEIRISTA E REALIZADOR, TENDO DIRIGIDO DOIS CURTAS METRAGENS QUE ESTÃO CIRCULANDO POR FESTIVAIS E MOSTRAS DE CINEMA, ALÉM DE TRABALHAR COM ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO E MONTAGEM EM CINEMA.

 

 

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O filme “Clausura” e a experiência de criação da diretora Mariana França.

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“O resultado é o que se vê: um primeiro corte sensível de uma obra que não se pode sintetizar. “CLAUSURA” é um meio para enxergar o eu e o outro.”

Por Alessandra Gama

A depressão é um tema bastante sensível, por suas múltiplas faces e intensidades. Abordá-la, ainda é um desafio do nosso tempo, tanto para as pessoas que convivem com outras, diagnosticadas, sobretudo, para as que são diretamente afetadas. O filme “Clausura”, de Mariana França e Gildo Antonio, vencedor do prêmio Primeiro Olhar, põe em relevo as experiências de desterritorialização e reterritorialização afetiva e social, causadas pela depressão na vida de artistas.

Como lidam com a doença? Como ela se relaciona com as suas obras e como realizam o processo criativo em meio às fases de crise?

O tema é inspirado na história de Mariana França, que além de diretora deste curta-metragem, também é atriz, produtora cultural e paciente diagnosticada com depressão desde 2014. O filme é uma busca sobre se autoconhecer após períodos de crises. As suas experiências esbarram diretamente nas situações enfrentadas pelos entrevistados: Ivam Cabral (ator, roteirista e idealizador da Companhia de Teatro Os Satyros), Tina Gomes (fotógrafa) e Márcia Abos (jornalista e bailarina).

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Mariana iniciou a sua trajetória artística no teatro aos nove anos, em busca de ser “encaixada” em algum círculo, já que a escola como o seu principal lugar de convivência social, lhe excluía das possibilidades de ser e existir como pessoa. Ela se sentiu muitas vezes, uma criança à margem, sendo alvo das piadas racistas, entre a turma de colegas da época. Quem se tornou Mariana, hoje?

“Mariana França é alguém que busca no outro se conhecer melhor. Desde pequena sinto que a vida esqueceu de me dar um manual para lidar com tantas inquietações, que muitas vezes acho que só eu vivo. Mas é no encontro com o outro que a gente descobre que todos fazem o seu melhor, para entender este mecanismo que baseia a nossa existência.”

Com aprendizados em diferentes escolas artísticas como o teatro, o circo e o audiovisual, Mariana, recria, através destas múltiplas linguagens, os mecanismos de reencontro e encantamento com a complexa magia da vida. Como manifesto poético o filme rompe os silenciamentos da depressão. Os planos aproximados da câmera documentam em detalhes, a semântica dos olhares, os gestos das mãos e pés, corpos entregues como pinturas, mas também reticentes, em fricção com si próprios. O olhar documentário do filme implicado na subjetividade da realizadora, transita pelos modos reflexivo, performático e poético, a dizer para nós, espectadores, histórias sobre as idas e vindas em crises depressivas, vividas pelos artistas e como eles as utilizam como matérias de expressão e sentido de suas existências.

“O documentário me fez justamente perceber quais eram os meus mecanismos de criação. O “Clausura” surgiu num momento de uma profunda tristeza, no sentimento de total perda de várias bases importantes pra mim (amigos, família, trabalho, relacionamento). Mas foi uma exceção a todas as coisas que fiz. Pra mim, é difícil criar na profunda tristeza, ou no caso, numa crise depressiva. Entretanto, não importa o que necessite que seja criado, produzido, é preciso uma provocação, a que te faça mergulhar de cabeça naquilo.”

imagem1

“Ser mulher negra e dirigindo uma documentário já é por si só um ato de resistência. O audiovisual ainda possui um cenário machista, mas que aos poucos estamos tendo seu lugar devido. A equipe do “Clausura” é rodeado por Manas guerreiras e que desempenham as mais diversas funções (Cecília Santana, produtora, Carol Arbex, Carolin Yukari e Jolene Tracci, câmeras, Alice Crepaldi, som, Mayara Paulelli, Motion Design).”

Mariana França.

A arte torna-se a potência descoberta por Mariana, atravessando as suas fragilidades como ponte para um trabalho de criação, que a leva para dimensões mais inteiras de si, ou mais consciente dos lugares de fragmentação dos sentimentos humanos. Por fim, a arte como lentes de percepção crítica sobre fluxos intensos e constantes da sua subjetividade, como as questões que envolvem a representação objetificada das mulheres negras, por exemplo.

Como uma obra aberta, reflexiva e de linguagem moderna, Mariana França e Gildo Antonio assinam a codireção do documentário e contam essa história a partir de três olhares:  o olhar interrogativo de Mariana para com os entrevistados; o olhar curioso sobre quem é a personagem de Mariana, dirigido por Gildo Antonio; e o olhar que vê a toda equipe e aponta as transformações descobertas durante toda a produção do filme.

Com produção pelo Centro Audiovisual de São Bernardo do Campo e realização da Transver Filmes, o “Clausura” está circulando entre festivais nacionais e internacionais de cinema e foi premiado pela 17a. edição do Encontros de Cinema de Viana do Castelo, ocorrido em maio deste ano, em Portugal. #VoaClausura !

“O resultado é o que se vê: um primeiro corte sensível de uma obra que não se pode sintetizar. “Clausura” é um meio para enxergar o eu e o outro.”


12003154_958864104178511_4096693306721974599_nALESSANDRA GAMA – É coeditora NoBrasil. Mestre em Educação (UFSCar) e Doutoranda em Performances Culturais (UFG), pesquisa questões étnico-identitárias no cinema documentário brasileiro. É também  realizadora, gestora e produtora cultural.
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A INTERVENÇÃO DISCURSO

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A obra de arte empregada como discurso de ressignificação dos espaços e do meio urbano. A intervenção urbana como a proposta de um discurso de questionamentos e resistências, não somente de artistas, mas também da população e de seu meio.

Imagens criadas com o iphone SE
Por  Clébson Oscar

A intervenção artística, enquanto arte contextual, instaura uma efemeridade na qual a singularidade das relações redefine o “lugar cidade” pelo contato entre as pessoas e pelos desdobramentos surgido a partir das obras interventivas. Tentarei a partir disso articular aqui a relação artista – obra – espaço – público.

A partir dos anos 1970, iniciou-se uma diluição do caráter expositivo e convencional da obra de arte como o objeto (quadro, pintura, escultura, espetáculo, etc.) a ser contemplado em distanciamento e a partir de um dispositivo (galeria, museu, teatro, etc.). A produção da obra de arte sai então de um ideal de arte institucional e passa para o concreto da ordem da cidade a partir da atuação de artistas em outros espaços e dispositivos. Para muitas/os artistas não mais interessa pensar obras para a galeria ou museu, e muito menos a sua comercialização, importa-se cada vez mais que a obra esteja mais próxima do público, estando atrelada a um contexto mais de galeria-cidade.

Assim, numa fuga da institucionalização e numa construção por novas formas de se produzir e se expor, surgem formas e formatos distintos, dispositivos, sentidos e apontamentos diversos que são meios se produzir tais atos interventivos: pixo, lambe, grafite, performance, objeto, instalação, ação pontual, arte sonora, escultura, dentro tantos outros. É possível apontar três contextos diferentes acerca de artistas e a intervenção urbana: aqueles que saem da galeria para a rua; aqueles que já surgem da rua e permanecem nela; e aqueles que nascem da rua e vão para a galeria.

IMAGEM 2 – Legenda Você se vê na tv A gente se vê por aqui

“Você se vê na tv?” “A gente se vê por aqui?”

IMAGEM 3 – Legenda Acidum.

Acidum.

IMAGEM 4 – Legenda “Estupidos”, de Robert Panda IMAGEM 5 – Legenda “Estupidos”, de Robert Panda

Estupidos, de Robert Panda

A rua pode ser interpretada por muitos como uma extensão da galeria de arte, ou seja, um desdobramento dela; enquanto que é possível pensar a rua muito mais como uma ponte utilizada para se poder chegar até a galeria. Hoje é bastante comum encontrar grupos de arte urbana que já alcançaram espaço em exposições coletivas e individuais, lançar publicações de livros e catálogos como até conseguido mercantilizar as suas formas e marcas já conhecidas. E por outro lado, existem aqueles que querem pensar os seus trabalhos de fato para a cidade, em que ela se transforma em seus ateliês abertos.

Em se tratando em espaços ditos ‘públicos’, surgem questões a todo tempo: Que lugares são esses? Como eles são utilizados e assimilados pela população? Quais as suas questões e implicações? Como intervir nesses espaços e ressignificá-los a partir de suas circunstâncias espaciais, territoriais e temporais? Dentro dessas questões, a intervenção artística, sendo uma arte urbana como prática crítica, coloca em jogo a produção simbólica do espaço urbano, repercutindo as contradições, conflitos e relações de poder que o constituem.

Artistas que trabalham com intervenção urbana vêm suscitando questões de grande relevância para a arte contemporânea, colocando fortemente em pauta a relação público/privado: a superfície do muro de uma casa é de propriedade de seus moradores ou da cidade? Se a rua é pública, e se a parte externa dos muros dão para a rua e fazem parte da configuração visual da cidade, então intervenções nesses espaços realmente devem se configurar como invasão de propriedade? Nesse campo de tensões, a intervenção artística atua como dispositivo de reflexões estéticas e políticas, articulando e sobrepondo realidades.

“Em meio aos espaços públicos, as práticas artísticas são apresentação e representação dos imaginários sociais. Evocam e produzem memória podendo, potencialmente, ser um caminho contrário ao aniquilamento de referências individuais e coletivas, à expropriação de sentido, à amnésia citadina promovida por um presente produtivista. É nestes termos que, influenciando a qualificação de espaços públicos, a arte urbana pode ser também um agente de memória política. ” – Vera M. Pallamin.

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A busca por uma religação afetiva com os espaços, sejam eles degradados e abandonados, sejam eles espaços de fluxos da cidade, como também os lugares de significados históricos/sociais para a população. O próprio meio urbano se faz matéria de criação não apenas do artista, mas de todos aqueles que reinventam os sentidos dos espaços através de suas experiências, através de uma produção de uma estética compartilhada.

A obra não é de domínio somente do artista, ela transcende da autoria individual para a coletiva, se incorporando a cidade a partir de interferências feitas por outras pessoas, ganhando assim um novo corpo, um novo significado. Um exemplo disso é um mural de lambe-lambe feito da repetição de uma ilustração de uma boca aberta, que ganhou, com o passar das semanas, diversas frases escritas por cima de cada uma dessas bocas, frases como: “vamos fazer escândalo”, “respeite as minas” e entre outras. Tais frases acabaram por encorpar uma nova força para a intervenção inicial.

Numa ressignificação do espaço e da ordem, muros de concreto passam a ter varais de roupas; terreno baldio vira canteiro de girassóis; pneus, vasos sanitários e outros materiais se transformam em jardim em calçadas/praças; troncos de árvores viram casinha de cachorro ou bancos em praça. Entre tantos outros exemplos, praticados não por artistas e muito menos com intenções ‘artísticas’, são vistos por Fortaleza como também em outras cidades e meios urbanos, em que a população se apropria dos espaços públicos e intervém sobre as suas paisagens. Sendo assim, quem de fato pratica intervenção urbana não é apenas o artista, é também a população que reinventa os espaços e meios, interferindo na arquitetura urbana já estagnada pela ordem e a transforma a partir de suas necessidades e motivações.

“Nós podemos imaginar espaços os mais diferentes para as áreas públicas das cidades, mas essa utopia só tem sentido se considerada experimentalmente. Suas implicações e consequências devem ser estudadas na prática4. É importante que o significado da cidade possa nascer do seu uso, no curso da vida cotidiana, envolvendo nos processos decisórios as pessoas diretamente implicadas em cada diferente situação.” – Graziela Kunsch

IMAGEM 8 – Legenda Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.

IMAGEM 9 – Legendo Baião Ilustrado

Baião Ilustrado 

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CLÉBSON OSCAR- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.

 

 

 

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LITERATURA LÉSBICA e DIVERSIDADE

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Não existe uma identidade única para represen­tar a mulher lésbica. Pelo contrário, é exatamente o oposto que a literatura lésbica deveria mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica.

Como ler as representações femininas lésbicas dentro de um mundo androcêntrico?

Seria mais fácil responder a esta pergunta se houvessem representações femininas fora deste contexto. Mesmo o “olhar feminino e lésbico” é construído dentro e a partir de uma sociedade patriarcal, heteronormativa, racista, classicista e sexista.

Quando falamos sobre literatura com temática lésbica, não estamos falando da criação de um rótulo. Estamos falando da criação de uma representatividade.

Mas que representatividade é essa?

Não existe uma identidade única para represen­tar a mulher lésbica. Pelo contrário, é exatamente o oposto que a literatura lésbica deveria mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica.

No entanto, se fosse feito um mapeamento de narrativas lésbicas escritas e publicadas, esta pluralidade estaria realmente representada?

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Segundo CHIMAMANDA ADICHIE:

“É impossível falar sobre uma história única sem falar de poder.[…] Como são contadas, quando são contadas, quantas histórias são contadas, estão realmente dependentes do poder.[…] A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos, não é eles serem mentira, mas eles serem incompletos. [..] Mostre algo como uma coisa única, vezes sem conta, e esse algo se torna a verdade única.”

Até que ponto não aceitamos e reproduzimos os padrões do que supostamente seria uma lésbica “aceitável ” ou “passável”, ao dar voz e representatividade à protagonistas brancas, magras, jovens, “lindas”, “femininas”, de classe média, com grau de instrução superior completo ou universitárias na maioria das narrativas? A exclusão dentro da exclusão ao se privilegiar uma minoria dentro da minoria?

O senso comum heteronormativo, patriarcal, sexista, classicista, racista, transfóbico, machista e homofóbico.
É esse discurso/ideologia que nós queremos reproduzir? 

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Por mais que as estruturas cruéis do poder insistam em tentar nos convencer de que não se adaptar, “ser diferente” é um grande sofrimento, não existe sofrimento maior do que fingir ser quem não se é, desejar ser quem não se é ou deixar de se ser quem se é realmente.

O grande desafio do artista contemporâneo consiste em fugir do senso comum; em não encarar o produto cultural apenas como bem de consumo destinado a agradar e vender, mas como obra de arte; em não perder o caráter mais belo e fundamental da arte: o seu aspecto questionador, de elemento de renovação, transformação, resistência, de romper paradigmas.

Repito: seria ideal que não houvesse a necessidade de clas­sificar. Seria ideal um mundo em que pudéssemos ocu­par todos os espaços sem a necessidade de rótulos. No entanto, esse mundo ainda é só um ideal e, se não rotu­larmos agora, não haverá espaço – para a existência e, muito menos, para nada que possa parecer remotamente transgressor.

Eliminar as classificações não muda nada, pois elas são o efeito e não a causa. Assim sendo, precisamos mudar a própria estrutura, dentro de nós, para que realmente não existam mais classificações ou diferenças.

IMG_1591

 


DIEDRA ROIZ- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.
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PUBLICAÇÕES DE LITERATURA LÉSBICA

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“A reinvenção do conceito de cidadania emerge do fato de esta ser pensada de uma forma excludente, sustentando-se num paradigma universal, masculino e heterossexual, silenciando vozes que se afastam desta normatividade.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Diedra Roiz

 

“A reinvenção do conceito de cidadania emerge do fato de esta ser pensada de uma forma excludente, sustentando-se num paradigma universal, masculino e heterossexual, silenciando vozes que se afastam desta normatividade. A cultura diz o que ela é e não é, excluindo o outro, o diferente, o que não pode ser incorporado na ordem do mesmo.”

 

Afirmação de Carmo Marques e Conceição Nogueira que Salma T. Muchail complementa:

“É um mecanismo de normalização do eu, isto é, a tecnologia do eu padronizado pela normatização em parâmetros fixos de normalidade social, sendo os adequados a este parâmetro aqueles que podem ser visíveis e dizíveis.”

Na literatura isto não é diferente.

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A mulher tem adquirido um espaço notório, mas ainda não possui um papel tão relevante dentro do universo literário brasileiro. Mulheres lésbicas menos ainda.

Claro que as dificuldades do mercado editorial existem para todos os escritores, a partir do momento em que um livro é considerado um bem de consumo e, como tal, está sujeito às determinações do mercado.

Entretanto, a literatura lésbica enfrenta dificuldades ainda maiores, por se vincular a uma temática específica e a um público específico, mas também por ser considerada por muitos como “literatura menor”, “meramente erótica ou pornográfica”.

img_1412Sequer vou entrar no mérito da importância e necessidade das cenas de sexo na literatura lésbica como forma de registrar e demarcar práticas sexuais ainda consideradas ilícitas e “desconhecidas” e expor um ponto de vista sobre o sexo que foge completamente do falocentrismo da heteronormatividade compulsória. Isso é indiscutível.

“O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que procuramos assenhorear-nos.” (MICHEL FOUCAULT)

Como praticamente não existe interesse por parte das grandes editoras neste segmento literário, as publicações de literatura lésbica são, em sua maioria, pequenas tiragens realizadas por autoras independentes ou pequenas editoras.

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É a resistência em forma de livro.

“É político trabalhar com o recurso que você tem. Cada forma de ser independente é uma forma de resistência a esse universo que quer transformar o livro num produto como outro qualquer. A gente sabe que o livro não é um produto como outro qualquer, ele é um produto muito mais complexo do que a sua materialidade, mas a sua complexidade também passa pela sua materialidade.” (Alice Bicalho)

Vale citar e divulgar algumas destas editoras guerreiras que, contra tudo e todos, continuam ativas, publicando literatura lésbica e resistindo:

Editora Vira Letra: http://www.editoraviraletra.com.br/

Palavras, Expressões e Letras: http://www.editorapel.com.br/

Hoo Editora: http://www.hooeditora.com.br/

Grupo HPM: http://grupohpm.lgbt/categoria-produto/livros/

Metanoia Editora: http://metanoiaeditora.com/

“Por que sou levada a escrever?

Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha.

Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.

Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias.

Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência.” (Gloria Anzaldúa)


DIEDRA ROIZ- Escritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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As Mulheres da Terra: Os ofícios ultrajados

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Bailando uma cantiga que trouxe o vento frio do outono foi que eu a vi chegando, a curandeira.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Marilia Botelho

 

Bailando uma cantiga que trouxe o vento frio do outono
foi que eu a vi chegando,
a curandeira.
Veio como uma velha loba de guerra
aferroada de batalhas,
armada de garrafadas
senhora de glebas espirituais.
Foi logo queimando as ervas,
sorria mostrando os dentes [pra espantar mal olhado]
Benzeu meu colo, soprou minha fronte
e me protegeu com seu manto
bordado de paciência.
foto-1Espada de Santa Bárbara: planta amplamente utilizada com fins mágicos. Dizem as mulheres da terra que plantar um maço das espadas em frente a moradia garante proteção ao lar, espantando os maus espíritos e absorvendo as energias negativas

 

O Noroeste Paulista é uma terra distante, conhecida antigamente como “A Princesinha do Sertão”. Foi das últimas áreas a ser colonizada pelos bandeirantes devido à distância com a capital. Levou anos para que os avanços tecnológicos chegassem à região; por fim, estradas e rodovias abriram espaço no sertão paulista. Avançando sobre a terra vermelha banhada do sol escaldante, típico em todos os meses do ano, a modernidade fincou raízes. As mulheres e homens dessas terras aceitaram, resignadamente, o que lhes reservava o futuro.

Nessas linhas, a busca e o registo sobre os tempos antigos do sertão, passa inteiramente sobre a investigação da vivência de mulheres que viveram seus dias sob o chão quente e rubro dessa região.

Aquelas que ilustram os relatos dos ofícios ultrajados são chamadas por muitos nomes: curandeiras, rezadeiras, benzedeiras, erveiras, parteiras, abençoadeiras. O que todas têm em comum é uma força imensa que se apoia nos mistérios do universo. A manipulação da natureza através da agricultura e da fabricação de remédios, o domínio das práticas do nascimento, o tratar com naturalidade da morte, a crença na espiritualidade e o dom da intuição assustaram tanto aos racionalistas da Idade Média, que foi preciso séculos de Inquisição para calar aquelas que desenvolviam seus saberes herdados de geração em geração.

Na Era moderna, os avanços tecnológicos, especialmente na área da saúde, fizeram com que essas práticas fossem alçadas ao nível de mito. Houve intenso trabalho de diversos setores da sociedade a fim de desmoralizar e ultrajar a sabedoria milenar das mulheres do passado. Apesar da campanha contrária, os saberes femininos não morreram totalmente; passando por muitas modificações, eles seguem vivos, ainda que de maneira difusa.

Em nome da valorização da cultura feminina e com o objetivo de catalogar os nomes e as experiências daquelas que traçaram seus caminhos no Noroeste Paulista, essas narrativas buscam ecoar a voz das personagens silenciadas pela História.

 

A Curandeira

Há cerca de cem anos atrás, a curandeiria era a principal fonte de tratamento de boa parte da população. Não havia hospitais modernos e exames investigativos, menos ainda se você morasse no interior do país, em lugares afastados das capitais; restavam poucas opções, senão tratar os doentes com infusões, chás e seguir as tradições de quem trabalhava com a cura sem nenhuma formação acadêmica – a primeira faculdade de medicina do Brasil foi criada em 1832.  

foto-2Capim cidreira: famoso remédio para acalmar os nervos, tratar insônia e dores de cabeça

 

As mulheres foram grandes responsáveis pelas práticas de saúde, cuidados com o corpo e primeiros socorros, mantendo viva a medicina popular das antigas gerações. Nos dias de hoje, as práticas do passado servem como fonte de pesquisa para os que se interessam pela cura natural e terapias complementares; estes tratamentos, chamados de alternativos, estão intimamente associados à natureza pois à ela recorrem para extrair as propriedades de bálsamos, unguentos, xaropes, elixires, caldos e outras formas de remédios caseiros.

Dona Santa, avó da minha amiga, me conta sobre Dona Lídia, senhora que era curandeira em Palmeira d’Oeste, falecida há muitos anos. Segundo ela, Dona Lídia fazia garrafadas, xaropes, pomadas, sabonetes e ensinava as receitas para serem feitas em casa; só cobrava o quanto pudessem lhe pagar. Santinha se lembra de uma vez, quando ela e a filha tiveram tiriça – o nome popular dado para hepatite C. A curandeira indicou banhos diários com picão e chá da mesma erva. Em alguns dias, ela e a filha se curaram da doença. Outra vez, Dona Lídia curou seu filho mais moço do mal da síflis. O remédio foi uma garrafada feita a base de vinho branco de laranja, raiz de salsaparrilha cortada em cruz, erva doce e sementes de laranja amassadas.

É difícil encontrar na região mulheres que se digam curandeiras. Elas já quase não existem, especialmente porque não se reconhecem mais com esse nome. Mas suas práticas de cura seguem vivas no dia-a-dia dos moradores do sertão paulista, seja na preparação de remédios caseiros ou nas receitas mais adversas, como a inalação com eucalipto, o repelente de citronela, os cataplasmas de babosa e os macerados de ervas.

foto-3Dona Santa é uma senhora que conhece dos segredos da natureza. Ainda se lembra de coisas que aprendeu com sua mãe e seu pai, que eram parteiros e benzedeiros pelas bandas do Noroeste

 

A parteira

Houve um tempo em que partejar era um trabalho bastante reconhecido. No passado, antes dos adventos da moderna obstetrícia, as parteiras eram mulheres respeitadas e reconhecidas. Afinal, ser parteira exige tempo e dedicação, não existem partos agendados e os bebês podem escolher nascer a qualquer hora do dia ou da noite. Debaixo de sol forte, ou sob chuva, a parteira não tem escolha quando lhe mandavam chamar – estes são os encargos de seu ofício.

foto-4Nossa Senhora do Bom Parto, Santa que conforta as mulheres na hora de dar a luz. A imagem de Maria com o menino Jesus no colo é um símbolo feminino para o parto; o culto a Santa data do século XI

 

Das profissões registradas nessas linhas, a de parteira é, sem dúvida, a que mais sofreu com o ultraje patrocinado pelo progresso cientificista. Talvez por isso estas mulheres tenham sido obrigadas a resistir firmemente para poderem prosseguir com suas práticas. Desta resistência brotaram frutos de esperança, e ainda é possível encontrarmos parteiras na região, Lucélia Caires, natural do interior Bahia e residente em São José do Rio Preto há 12 anos, se orgulha ao responder quando lhe perguntam sua profissão: “Sou parteira!”

Lucélia é parteira na tradição. Isso quer dizer que ela recebeu os ensinamentos de uma parteira tradicional. O encontro com esta prática aconteceu quando acompanhava um parto domiciliar (sua formação acadêmica é como enfermeira obstetra). Neste dia, ela conheceu os trabalhos de uma parteira de Bauru, formada através da madrinha Suely Carvalho, fundadora do CAIS do Parto, em Recife. Em seguida, viajou de São José do Rio Preto para Olinda para participar da primeira parte da formação do curso de parteiras na tradição; e, em 2015, terminou seus estudos, mudando de vez de profissão: deixou a enfermagem para trabalhar exclusivamente como parteira.

“Quando recomendo a uma gestante tratamento para infecção urinária, por exemplo, estou praticando a curandeiria. Muitas vezes, preciso benzer a casa onde vai acontecer o nascimento. Então também sou benzedeira.”

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No   espaço Florescer da Vida é possível entrar em contato com diversas práticas como benzimentos, reiki, leitura de tarot, leitura de aura, além dos círculos de mulheres

 

As artes do benzimento e da curanderia se misturam no trabalho de Lucélia, que fundou o Florescer da Vida, um centro de atendimento em São José do Rio Preto, onde várias profissionais desenvolvem práticas de cura, além de oficinas de artes e atendimento a gestação, parto e pós parto..

 

A benzedeira

A benzedeira é uma pessoa fortemente apegada ao poder das palavras. São mulheres de diversas crenças e, por isso, observamos em suas atividades um intenso processo de sincretismo entre catolicismo e religiões de origem africana, além do xamanismo dos povos nativos. As benzedeiras acreditam que a cura pode ser atingida através da fé, por oração e vibrações; por isso, parte dos processos curativos envolvem os benzimentos, passes e rezas.

No campo da saúde, elas trabalham benzendo os que precisam recuperar a vitalidade. Alguns males específicos ficaram famosos pelo tratamento com benzimento; várias mulheres com as quais conversei relataram os cuidados das benzedeiras como primordiais na cura de alguns males populares; doenças como mal de simioto, que a medicina trata como desnutrição ou infecção por bactérias; espinhela caída, que é um mal que ataca com dores nas costas e no abdômen e acomete geralmente pessoas que trabalham nos serviços pesados; ou mesmo o quebranto, também chamado de mal olhado, que seria um “feitiço” posto por outra pessoa que lhe deseje o mal, ou inveje algo que você possui, segundo os relatos, esse mal pode levar a vários sintomas, desde desnutrição em crianças até depressão em adultos

O ofício das benzedeiras é distinto do das parteiras e das curandeiras, pois essas duas são requisitadas em momentos exclusivos do trato com a saúde. Já as benzedeiras, não; elas podem ter suas rezas solicitadas para os mais variados fins.

Converso com Dana Landa, benzedeira há 15 anos. Ela me conta que quando era moça, assistia a avó, Dona Maria, que era parteira e benzedeira na região entre Aparecida d’Oeste e Jales. Apesar de se lembrar das práticas de sua matriarca, Dona Landa relata ter “recebido o dom do benzimento”, por isso, sua reza é diferente da que fazia a avó. De segunda à sexta-feira, a partir das 17h, forma-se fila na frente de sua casa; são pessoas que esperam pela vez de serem atendidas.

“Tem dia que eu benzo até tarde da noite. Benzo gente, benzo roupas; as vezes me trazem sacos cheios de peças pra eu rezar, tem que fazer uma por uma.”

Dona Landa conta que não cobra pelo serviço, apenas aceita aquilo que cada um lhe quiser ofertar. Pergunto se ela usa algum ramo de planta pra benzer e ela conta que não, usa apenas as mãos:

“A força está na fé que eu ponho na reza, e na energia que passo com as mãos. É tanta gente pra benzer que se fosse ver, não teria galho de planta pra todo mundo!”

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Dona Landa pediu que não lhe fotografasse o rosto ou relatasse o local de sua residência; seu receio é que ainda mais pessoas viessem lhe procurar

Entre os ofícios ultrajados, a figura da benzedeira parece ser a que melhor conseguiu se diluir no cotidiano das comunidades onde, ainda hoje, existem muitas desenvolvendo o ofício; seja nas cidades ou na zona rural, elas são procuradas para auxíliar em diversos propósitos, cumprindo assim, as funções espirituais que lhe foram incumbidas.

O respeito às tradições é o principal pilar no qual se sustentam as mulheres que praticam a medicina curativa, os benzimentos e o partejar. Há muita coisa em comum nas práticas dessas mulheres; além disso, é possível reconhecer nelas um profundo respeito às anciãs, que compreenderam os segredos e mistérios do passado e detiveram a sabedoria que seria transmitida de maneira oral às mulheres da família e aquelas próximas que possuíssem o “dom”, ou o “chamado” para os ofícios.

A curandeira, a parteira e a benzedeira são profissões que fazem parte da formação da identidade cultural da população do Noroeste Paulista; em suas práticas sincréticas de medicina popular, fé e crendices vemos a relação existente entre nosso interior com outras regiões interioranas do país, os muitos sertões existentes Brasil a fora.


Referências:

SOARES, M. N. A feitiçaria: entre o oficial e o popular. 2001, Programa de Pós Graduação da UFPB
Perinelli Neto, H. / Nardoque, S./ José Moreira, V. Nas Margens da Boiadeira – Territorialidades, Espacialidades, Técnicas e Produções No Noroeste Paulista, 2010, Editora Expressão Popular

MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.
As Mulheres da Terra
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A LITERATURA LÉSBICA E A INTERNET

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Necessário deixar claro que o compromisso com a escrita na internet não é uma falta de opção, muito pelo contrário. É exatamente a grande opção. Posto, logo existo.

Imagens criadas com o iPhone SE
por Diedra Roiz

 

Na contramão, à margem da “mídia oficial”, a internet atualmente se apresenta como o mais democrático acesso às pluralidades. Neste sentido, é mais um espaço – poderosíssimo por sinal – de representação.

Em contraponto a uma sociedade que estigmatiza, silencia e que só viabiliza a existência de lésbicas dentro de determinados padrões, a literatura lésbica na internet dá voz e possibilita espaços de identificação, compreensão e construção de si e da vinculação com as outras, através de narrativas (ficcionais ou não) que discorrem sobre vivências (cotidianas ou não) de mulheres que vivem as suas afetividades ou sexualidades centradas em outras mulheres.

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Inúmeros sites e blogs oferecem livre acesso e livre expressão, aliando visibilidade e interatividade e se consolidando como espaços de autoafirmação de uma suposta “identidade lésbica”, que busca romper a clandestinidade através da apropriação das redes de comunicação digitais e sua possibilidade de publicização discursiva através de canais midiáticos “alternativos”.

A literatura na internet persegue a mais bela das prioridades: as trocas de experiência em um espaço público que viabiliza o acesso aos discursos e às obras sem censura ou distinção, dando voz àquelas para quem a “literatura legitimada” é por muitas vezes inatingível.

Necessário deixar claro que o compromisso com a escrita na internet não é uma falta de opção, muito pelo contrário. É exatamente a grande opção.

POSTO, LOGO EXISTO

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Entretanto, ao mesmo tempo em que a internet proporciona uma forma prazerosa, lúdica e libertária de escrita, deve ser encarada de maneira responsável e sensata, uma vez que é um canal de comunicação excessivamente direto e explícito.

O diálogo que se estabelece é intenso e instantâneo. Ninguém vai perder seu tempo lendo, comentando e acompanhando se não se identificar imediatamente com o conteúdo.

De acordo com Gisele Marchiori Nussbaumer, a internet permeia tanto a necessidade de alguns se esconderem atrás da tela, quanto a de se fazerem visíveis através dela, às vezes para poderem revelar aspectos de suas vidas que nem sempre são vivenciados em plenitude, o que é bastante comum quando se trata do universo lésbico.

No caso da literatura lésbica, especificamente, a internet serve não só para traduzir, dar voz e tornar visível diversas realidades – e dificuldades – de mulheres que vivem as suas afetividades ou sexualidades centradas em outras mulheres, mas também para possibilitar o diálogo, através da identificação ou até mesmo do estranhamento com as narrativas.

A escrita na internet é um instrumento revolucionário e como tal devemos usá-lo. A internet – como espaço provocativo e propositivo – é uma ferramenta potente na luta de empoderamento e visibilidade.


DIEDRA ROIZEscritora, diretora teatral e atriz. Tem oito livros publicados: os romances O SUAVE TOM DO ABISMO – Reflexão (2016), O SUAVE TOM DO ABISMO – Absorção (2015), O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS e MEDOS (2009), LEGADO DE PAIXÃO (2014), AMOR ÀS AVESSAS (2015) e LUAS DE MARIAS (2016 – em parceria com Wind Rose), a coletânea de contos BOLEROS DE PAPEL (2011) e o livro de poesias AMA/DOR/A (2014). Carioca com tendências gaúchas morando em Florianópolis – Santa Catarina, casada (com a escritora gaúcha Wind Rose), praticante do budismo de Nichiren Daishonin. Todos os textos que publicou na internet estão reunidos no site: www.diedraroiz.com/
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ASSISTA AO 10° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM EZIO ROSA

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“quando eu pensei na internet e todas as plataformas que estavam surgindo, pensei em não somente encontrar os meus pares mas também, em me preservar: a internet como um lugar de acolhimento”. Neste último episódio da nossa série, o artista Ezio Rosa fala sobre como o online e o offline se encontram: virtualidades ativadas e

“quando eu pensei na internet e todas as plataformas que estavam surgindo, pensei em não somente encontrar os meus pares mas também, em me preservar: a internet como um lugar de acolhimento”.

Neste último episódio da nossa série, o artista Ezio Rosa fala sobre como o online e o offline se encontram: virtualidades ativadas e inscritas na memória do corpo.

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Sobre Ezio Rosa

Criar dispositivos políticos através das novas mídias frente a condição de um não-lugar que dê conta de quem somos. O tumblr Bicha Nagô surge da necessidade de encontrar lugares seguros para propor a discussão sobre homossexualidade com o recorte de classe e raça. A página iniciada pelo performer e ativista Ezio Rosa que também é integrante do bloco Afro Ilu Obá de Min, é uma espécie de diário onde são expostas situações cotidianas do dia-a-dia do gay negro visando problematizá-las ao compartilhar experiências que antes eram silenciadas.

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Websérie AfroTranscendence:

Dirigida por Yasmin Thayná
Escrita por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

Vá Fundo.

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As Mulheres da Terra: As histórias das anciãs

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“É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. “

Imagens criadas com o iPhone SE
por Marilia Botelho

 

 

Notas sobre o progresso:
Você, jovem rapaz, que admira os prédios, o cimento, a construção.
Você, que olha admirado
o shopping center
levantado,
pelas mãos dos que um dia lavraram o chão.
Me chama de louca pela brincadeira
De fingir que as mangas são os brincos da mangueira
Você não vê os ipês floridos na paisagem,
não sabe do carcará e do urubu
voando na imensurável imensidão
Cuidado rapaz, guarda bem com sua pretensão
essa terra é lugar de cabocla
que não tem medo de morar no sertão”

 

Interior de São Paulo, Noroeste do Estado.

No princípio era o nada. O nada, o calor e a natureza. Então chegaram os bandeirantes, a terra foi demarcada, apropriada, vendida. Os caminhos viraram estradas. E foi a estrada o divisor de águas na história da ocupação do Noroeste Paulista; isso porque os municípios localizados nas proximidades das rodovia Euclides da Cunha (SP-320) – que corta a região de São José do Rio Preto a Santa Fé do Sul, foram as que mais se desenvolveram, enquanto os povoados afastados foram lentamente sendo ocupados por gente que vinha de muitos lugares do país.

As mulheres foram agentes e observadoras das mudanças pelas quais passou esta região: as que já viviam por aqui, chamadas caboclas, se encontraram com as migrantes de diversas partes do Brasil, especialmente do Norte; gente de origem humilde que vinha para trabalhar nas terras recém ocupadas. Também assistiram à chegada dos imigrantes italianos, espanhóis e japoneses, os povos estrangeiros predominantes neste território.

É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. Estas práticas, pouco estudadas e, aparentemente escassas, se encontram diluídas no dia-a-dia das comunidades e das pequenas cidades da região. Uma senhora que reza e benze, outra que faz remédios e ensina receitas, as jardineiras e agricultoras que conhecem os segredos das plantas e da terra; enfim, de diversas maneiras, seguiram vivos alguns ritos femininos, embora talvez não reconhecidos como tais.

A chegada da medicina moderna tardou nesta região afastada da capital; este episódio teve grande impacto sobre o principal rito feminino de passagem: a hora do parto. Hoje a maioria os bebês nascem pelas mãos dos médicos, em salas de cirurgias; não mais pelas mãos das parteiras, que se tornariam comadres da família. O evento que antes era íntimo e familiar, se transformou radicalmente. As mulheres com quem converso se dão conta disso, reconhecem que o tempo mudou muita coisa, transformou a vida das mulheres que vieram depois delas, suas filhas e netas. Através do relato de suas experiências, teço estas narrativas entrelaçando o passado e as práticas femininas com a história da ocupação do lugar.

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As  senhoras da vila:

Dona Nina, 81 anos*

Batemos palmas, uma neta abre o portão. Dona Nina está sentada na cadeira de área; se apoia na bengala e faz menção de se levantar pra dar a mão:

  • Carece levantar não vó.
  • Que bom, meu joelho já não para mais de doer quando fico de pé

O jeito receoso e o olhar atento se impõe, quase assustam, mas com um pouco de insistência as barreiras vão se quebrando. Dona Nina desconfia um pouco do caderno, do aparelho onde faço os registros, da proposta de contar histórias:

  • Tenho nada pra falar não, minha vida é isso aqui só!
  • Mas é o que me interessa mesmo, Dona Nina.

A conversa engata sobre a infância na roça, sobre o trabalho duro debaixo do sol e as consequências no seu corpo: lhe doem muito os joelhos, os dois, desgastados do tempo e da labuta. Enfim, descubro a baiana forte, que ficou órfã de mãe cedo e que amansava mula brava no pasto. Veio do Norte aos 18 anos para trabalhar em uma fazenda na região de Aparecida d’Oeste;  no interior paulista não teve vida fácil: “Ponhava a enxada no ombro e ia mexer na terra com meu véio”.

A conversa ruma pras histórias sobre gestação e parto. Quero saber como é parir. Pergunto à Dona Nina o que faziam com a placenta depois que o bebê nascia:

  • Enterrava, uai! Que pergunta! Você logo vai ser mãe, filha, quer tanto saber dessas coisas. Mulher de hoje em dia não quer saber disso não! E tem que ser pra logo essa barriga, viu? Senão você fica madura e aí não nasce mais filho bonito e com saúde, só moleque mirrado e doente. A gente é igual fruta, depois que amadurece, apodrece!

Ela deu à luz a nove filhos. O primeiro deles nasceu morto, depois de dois dias de trabalho de parto e de fazer todas as rezas e simpatias conhecidas, a parteira a mandou para o hospital porque “não tinha outro jeito” E o marido teve que escolher entre ela e a criança, Dona Nina ainda teria mais filhos, todos nascidos em casa.

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Dona Nina, viveu em Marinópolis desde antes da cidade ser município, se lembra do tempo em que todas as cidades da Comarca eram parte de uma grande fazenda.

*Dona Nina foi uma das pioneiras da cidade de Marinópolis, residiu no município por tantos anos que ela mesma havia perdido as contas. Apesar da idade avançada, conversava com fluidez e tinha boa memória. Faleceu no fim do outono de 2016, poucos meses depois da tarde em que conversamos na varanda de sua casa.

 

Dona Antônia, 86 anos

O silêncio impressiona, ela já quase não fala porque também escuta pouco. Os olhos fundos parecem perdidos em algum acontecimento do passado. Talvez na infância, vivida em Minas Gerais, ou nos acontecimentos da juventude – teve vida dura como lavradora da terra. Ainda se lembra dos patrões bravos, os senhores donos das plantações que sua família trabalhava, não gosta que falemos sobre o tempo “do Goiás”, a vida era muito difícil.
Dona Antônia ainda consegue me contar baixinho uma história sobre benzimento de quebranto, as palavras da oração ela já não se lembra mais; mas não esquece de quando sua neta Mauricéia foi curada do mal de simioto pelas rezas de uma comadre benzedeira. Teve quatro filhos, todos nascidos em casa. Sempre de madrugada, pouco antes da hora de ir pra roça, chegava sua irmã que era parteira e lhe ajudava no ofício de por criança no mundo.

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Dona Antônia, 86 anos, a Vozinha, uma das moradoras mais antigas de Marinópolis, nascida em Minas Gerais, trabalhou na roça desde moça, chegou na cidade há cerca de 42 anos.

Dona Florentina, 86 anos

O caminho árduo do Norte até o interior do estado de São Paulo foi vencido na carroceria de um caminhão pau de araras, a viagem foi tão longa que Dona Florentina diz ter perdido a conta dos dias. Chegaram primeiro em Auriflama, no córrego das Cruzes; a filha mais velha era criança ainda, Dona Mocinha, que hoje cuida da mãe, tem cerca de 60 anos.

Elas se lembram dos tempos das benzedeiras, que curavam com reza e simpatia as doenças do povo – mal de simioto, quebranto e espinhela caída eram as principais mazelas. Dona Mocinha conta a história do irmão que morreu antes de completar um ano do mal conhecido também como doença do macaco. A mãe, Dona Florentina, concorda com a cabeça, já está na idade do silêncio, em que as mãos contam mais histórias que a boca.

Me impressiono ao ouvir falar que as curandeiras ministravam doses de querosene para as crianças

  • Não era esse querosene estragado igual o de hoje.

Quero saber mais sobre os remédios que as mulheres usavam, ela me conta do tradicional álcool embebido nas ervas.

  • Usava de tudo que era erva, alecrim, arruda, capim limão, eucalipto, gambá, guiné, erva santa maria… As vezes misturavam tudo e faziam uma garrafada de todas as ervas. Elas faziam e davam pra gente levar pra casa pra tratar dos ferimentos das crianças, joelho ralado, torção, batida, dor nas costas. Não tinha remédio igual hoje, né, fia?
dona-florentina-e-dona-mocinhaDona Florentina e a filha Dona Mocinha, moradoras da terra há mais de quarenta anos

 

Noto um nome recorrente nas lembranças das mulheres de Marinópolis, é o da Comadre Gracina, dizem que foi parteira e benzedeira junto com o seu marido. Dona Gracina ajudou muita gente a pôr filho no mundo, benzia plantações, gado, criança doente, idoso acamado. Elas contam que as rezas de Dona Gracina e o esposo eram requisitadas por muita gente da região. Escutei sobre a vez em que um rico senhor de terras buscou ela pra ajudar no nascimento de um filho. Ao ver a gestante já cansada do trabalho de parto, Gracina a fez ficar de pé apoiada nos braços de outra pessoa e empurrou sua barriga para baixo; o neném nasceu já sem respirar e a parteira, conhecedora dos mistérios da vida, fez o menino reviver. Há muitos anos que esta senhora deixou o mundo, mas suas histórias a deixaram viva na pequena comunidade e ainda são contadas pela gente da terra.

Mulheres como Dona Gracina eram comuns nos tempos de antes, essas senhoras eram as responsáveis pela perpetuação de conhecimentos de geração em geração. Houve, de certa maneira, um rompimento nessa linhagem de manutenção dos saberes, com a chegada da tecnologia, o que muitos chamam de progresso. Alguns ensinamentos se perderam com o tempo mas muitos se transformaram e seguem vivos, existindo de maneira semelhante ao que foram no passado. As novas gerações de mulheres estão cada vez mais, mesmo que brevemente, prestando atenção e reverenciando o que dizem as mulheres mais velhas, as que viveram o mundo de outra forma. Isso faz com que seja cada vez mais latente  a necessidade de conhecer, catalogar histórias e registrar os conhecimentos para a inspiração e acesso das novas gerações de mulheres aos conhecimento das práticas de nossas ancestrais.

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MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.

 

 

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ASSISTA AO 9° EPISÓDIO DA SÉRIE AFROTRANSCENDENCE COM SIDNEY AMARAL

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“Ser artista já é difícil, ser artista negro no Brasil aí já um pouco mais complicado”.
Nesse nono episódio da nossa série, o artista Sidney Amaral, fala sobre a sua carreira, trabalhos e o que está por traz da sua técnica.

“Ser artista já é difícil, ser artista negro no Brasil aí já um pouco mais complicado”.

Nesse nono episódio da nossa série, o artista Sidney Amaral, fala sobre a sua carreira, trabalhos e o que está por traz da sua técnica.

Confira!

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Sobre Sidney Amaral:

Sidney Amaral utiliza com a mesma desenvoltura o desenho/pintura e a escultura. Seu olhar busca novos significados e associações nos objetos do dia a dia. Questionando o lugar do negro na sociedade, é um dos grandes nomes da arte afro-brasileira tendo participado de exposições coletivas e individuais importantes, como “O Banzo, o Amor e a Cozinha de Casa” no Museu Afro Brasil  e Histórias Mestiças no Instituto Tomie Ohtake com curadoria de Adriano Pedrosa. Recentemente teve uma obra sua adquirida pela Pinacoteca do Estado de São Paulo. No AfroTranscendence irá falar sobre a importância da técnica na atividade Adentro realizada no Museu Afro Brasil.

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Websérie AfroTranscendence:

Dirigido por Yasmin Thayná
Escrito por Diane Lima
Produção: Hanayrá Negreiros
Direção de fotografia: Raphael Medeiros
Som: Avelino Regicida
Montagem: Victor Guerra
Still: Alile Dara Onawale

Vá Fundo.

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