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As mulheres da terra: práticas femininas no Noroeste paulista

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Em As Mulheres da Terra especial deste mês, Marilia Botelho conta sua jornada de conhecimento no universo das práticas tradicionais das mulheres da região a partir do legado da sua avó.

Imagens e vídeos criados com o iPhone SE
Prólogo
“Minha avó materna nasceu no primeiro dia da Primavera.
Ela me ensinou, através da observação, a cuidar das plantas, fazer xaropes, geleias e chás.
Mulher à frente da sua época, minha avó se formou farmacêutica pela Universidade Fluminense, mas praticou seu ofício apoiada nas práticas tradicionais das curandeiras de seu tempo. Nascida longe, no litoral carioca, ela veio parar no Noroeste Paulista por um acaso do destino – seguia uma irmã que se casara com um morador da região. Aqui viveu boa parte de sua vida e encontrou neste solo sua morada final.
Dela eu herdei o nome e alguns conhecimentos que o tempo não me deixou esquecer: reconhecer a erva quebra-pedra pelas ruas, fazer muda das roseiras,  tomar xarope de guaco no tempo seco, benzer com galho de arruda e se purificar com sal grosso.
Gratidão, vó Marilia!
Gratidão a todas as ancestrais!”

 

foto-1-capim-margosoAs flores do “capim margoso”, seu florescimento é sinal da farta presença de nutrientes no solo.

 

O Noroeste, suas mulheres e sua força

Sol escaldante, terra vermelha, vento seco e estiagem na maior parte do ano contrastam com a água que abunda dos córregos e faz as divisas das cidades como oásis em meio ao deserto rubro e fértil. Assim é o Noroeste Paulista, lugar em que parece existir um sol por habitante e onde pouco havia há cinquenta anos, além da natureza exuberante, em que a cor do solo contrastava com a dos ipês floridos na vegetação.

Para muitas culturas, a terra é um símbolo da fertilidade associada ao feminino; assim como a terra, as mulheres tem em seu útero a capacidade de gerar, nutrir e dar vida. As mulheres da minha terra parecem ter uma força vital nativa deste lugar fértil, corpos endurecidos pelos meses da estiagem e os olhos fundos de buscar nuvens no céu. São a terra e também o sol incandescente que iluminam as famílias, a força motriz dos seus, que orbitam como satélites em volta do astro-mãe. Aqui, as forças destes dois elementos se fundem nas que concebem, cultivam e provém as vidas.  

Como de costume anteriormente, as mulheres eram mantenedoras do lar, detentoras dos conhecimentos da natureza; de verão a verão, conheciam a chegada das chuvas pelo cheiro trazido pelo vento; calculavam a duração da seca pela umidade do ar; estimavam a época da colheita pelas estações do ano. Sabiam sobre a preparação de remédios para os mais variados fins – de bálsamos curativos a emplastros de ervas, caldos e unguentos que punham de pé os enfermos. Eram conhecedoras dos ciclos da vida, sabendo auxiliar nos nascimentos como parteiras e ajudantes; e também manejavam a morte, preparando os corpos para os velórios e enterros. A tecnologia não alcançava o extremo oeste do estado de São Paulo; não havia outra opção senão por fé na reza e confiança nas mãos das que conheciam na prática os segredos da vida e da morte.

Sônia Bortolli, natural de Santa Fé do Sul, benzedeira e líderança comunitária na região. Aprendeu o ofício do benzimento com sua avó, Dolores Gimenez, que lhe ensinou as rezas com a promessa de que Sônia só iniciasse as práticas após o seu falecimento

 

Antes dos médicos e enfermeiros chegarem aqui, existiam as curandeiras e erveiras, conhecedoras das propriedades curativas dos elementos. Antes dos antibióticos, anti-inflamatórios, das anestesias, havia os xaropes, as simpatias, as benzeduras. A farmácia era o quintal repleto de plantas ou a mata, que não ficava tão longe assim. O laboratório era o fogão a lenha: sob fogo baixo, cozinhavam-se lentamente as especiarias que davam vida às poções, garrafadas e beberagens, ou aos doces de frutas colhidas direto do pé.

foto-2-pila%cc%83oPilão, instrumento de macerar ervas para o preparo de remédios variados

 

Os encargos das mulheres daqui não eram muito diferentes de qualquer lugar afastado das metrópoles: além do manejo com a agricultura, manutenção da casa e criação dos filhos, cabia a elas também os cuidados com as gestantes, os idosos e enfermos. O ofício de curandeira, parteira e benzedeira era comum e bastante respeitado – elas se formavam de maneira prática, observando as mulheres mais velhas que faziam os remédios, ensinavam as rezas e o partejar; aos poucos, iam se tornando elas mesmas as parteiras e rezadeiras, passando adiante seus conhecimentos para as mulheres da família: filhas, irmãs, vizinhas e comadres. Nesse universo intimista havia poucos homens, sendo predominante a presença dos que viviam na órbita do lar.

foto-3-ma%cc%83os-de-dona-anto%cc%82niaMãos de Dona Antônia

Mas as coisas mudaram muito desde a chegada do progresso nesta região. As estradas trouxeram mais gente, as vilas viraram municípios, a população da zona rural migrou para a cidade, os hospitais chegaram e os nascimentos passaram a acontecer pelas mãos dos médicos; os mortos não mais eram velados em casa e preparados pelas mulheres da família. Nesse contexto de progresso tecnológico, mudaram também as mulheres e suas práticas. Adequadas à modernidade, agora as mulheres já não praticam mais como antigamente o partejar e as artes da curandeiria – prática, inclusive, descrita pelo código penal como criminosa, associada ao charlatanismo. Entretanto, por aqui é difícil encontrar uma mulher que não tenha uma receita caseira para tratar as moléstias, ou então uma benzedeira de reza boa que indique para os mais variados tipos de males. No fundo, a impressão que deixam é que são todas curandeiras, praticando um velho ofício do qual já nem se lembram mais o nome.

Raquel Discini de Campos, docente e historiadora, escreve sobre as mudanças ocorridas a partir da metade do século passado nessa região, conhecida como o “sertão paulista”:

“Conforme crença compartilhada, era necessário civilizar o sertão. Mas, antes disso, era necessário civilizar a mulher paulista, a verdadeira construtora daquele lugar porque era o baluarte da família dos modernos bandeirantes.” *


A noção de civilização trouxe consigo a consciência de uma nova mulher, uma mulher desconectada com seus ciclos e a natureza, gerações de mulheres que não aprenderam a escutar as histórias das avós, a pesquisar as ervas e a manipulação dos elementos naturais. Se, por um lado, a chegada da tecnologia trouxe avanços inumeráveis, por outro, também foi responsável pela quase total extinção das atividades femininas executadas ao longo de séculos e perpassadas de maneira oral de mãe para filha. O que interessa nestas linhas, então, é investigar e registrar os vestígios das tradições femininas que sobrevivem na oralidade e nas práticas cotidianas intrínsecas na população.

Cada mulher retratada nestas narrativas carrega consigo a força da própria trajetória, as amarguras dos sofrimentos passados e as bençãos das alegrias vividas. É preciso valorizar seus relatos através da documentação de suas narrativas; indo além ainda, temos de testar suas receitas e aprender com seus partos e suas rezas. Escrever as histórias das tradições destas mulheres é também escrever sobre a história da ocupação desta região. O passado do Noroeste Paulista ainda é fresco na memória de muitas que habitam estas terras, gente que preserva os costumes antigos, que ainda conhecem as histórias e lendas contadas pelas anciãs e guardam consigo as receitas de uma época em que a oralidade era a principal fonte de manutenção dos saberes.

 


*citação: CAMPOS, R. D. A princesa do sertão na modernidade republicana, 2004.

 

 


MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.
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