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As Mulheres da Terra: As histórias das anciãs

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“É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. “

Imagens criadas com o iPhone SE
por Marilia Botelho

 

 

Notas sobre o progresso:
Você, jovem rapaz, que admira os prédios, o cimento, a construção.
Você, que olha admirado
o shopping center
levantado,
pelas mãos dos que um dia lavraram o chão.
Me chama de louca pela brincadeira
De fingir que as mangas são os brincos da mangueira
Você não vê os ipês floridos na paisagem,
não sabe do carcará e do urubu
voando na imensurável imensidão
Cuidado rapaz, guarda bem com sua pretensão
essa terra é lugar de cabocla
que não tem medo de morar no sertão”

 

Interior de São Paulo, Noroeste do Estado.

No princípio era o nada. O nada, o calor e a natureza. Então chegaram os bandeirantes, a terra foi demarcada, apropriada, vendida. Os caminhos viraram estradas. E foi a estrada o divisor de águas na história da ocupação do Noroeste Paulista; isso porque os municípios localizados nas proximidades das rodovia Euclides da Cunha (SP-320) – que corta a região de São José do Rio Preto a Santa Fé do Sul, foram as que mais se desenvolveram, enquanto os povoados afastados foram lentamente sendo ocupados por gente que vinha de muitos lugares do país.

As mulheres foram agentes e observadoras das mudanças pelas quais passou esta região: as que já viviam por aqui, chamadas caboclas, se encontraram com as migrantes de diversas partes do Brasil, especialmente do Norte; gente de origem humilde que vinha para trabalhar nas terras recém ocupadas. Também assistiram à chegada dos imigrantes italianos, espanhóis e japoneses, os povos estrangeiros predominantes neste território.

É dessa miscelânea cultural que partimos na investigação das tradições femininas, termo que designa as práticas, ou ofícios, desenvolvidos pelas mulheres antes dos adventos da tecnologia; são saberes chamados ancestrais, perpetuados de geração em geração, de mãe para filha através da oralidade. Estas práticas, pouco estudadas e, aparentemente escassas, se encontram diluídas no dia-a-dia das comunidades e das pequenas cidades da região. Uma senhora que reza e benze, outra que faz remédios e ensina receitas, as jardineiras e agricultoras que conhecem os segredos das plantas e da terra; enfim, de diversas maneiras, seguiram vivos alguns ritos femininos, embora talvez não reconhecidos como tais.

A chegada da medicina moderna tardou nesta região afastada da capital; este episódio teve grande impacto sobre o principal rito feminino de passagem: a hora do parto. Hoje a maioria os bebês nascem pelas mãos dos médicos, em salas de cirurgias; não mais pelas mãos das parteiras, que se tornariam comadres da família. O evento que antes era íntimo e familiar, se transformou radicalmente. As mulheres com quem converso se dão conta disso, reconhecem que o tempo mudou muita coisa, transformou a vida das mulheres que vieram depois delas, suas filhas e netas. Através do relato de suas experiências, teço estas narrativas entrelaçando o passado e as práticas femininas com a história da ocupação do lugar.

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As  senhoras da vila:

Dona Nina, 81 anos*

Batemos palmas, uma neta abre o portão. Dona Nina está sentada na cadeira de área; se apoia na bengala e faz menção de se levantar pra dar a mão:

  • Carece levantar não vó.
  • Que bom, meu joelho já não para mais de doer quando fico de pé

O jeito receoso e o olhar atento se impõe, quase assustam, mas com um pouco de insistência as barreiras vão se quebrando. Dona Nina desconfia um pouco do caderno, do aparelho onde faço os registros, da proposta de contar histórias:

  • Tenho nada pra falar não, minha vida é isso aqui só!
  • Mas é o que me interessa mesmo, Dona Nina.

A conversa engata sobre a infância na roça, sobre o trabalho duro debaixo do sol e as consequências no seu corpo: lhe doem muito os joelhos, os dois, desgastados do tempo e da labuta. Enfim, descubro a baiana forte, que ficou órfã de mãe cedo e que amansava mula brava no pasto. Veio do Norte aos 18 anos para trabalhar em uma fazenda na região de Aparecida d’Oeste;  no interior paulista não teve vida fácil: “Ponhava a enxada no ombro e ia mexer na terra com meu véio”.

A conversa ruma pras histórias sobre gestação e parto. Quero saber como é parir. Pergunto à Dona Nina o que faziam com a placenta depois que o bebê nascia:

  • Enterrava, uai! Que pergunta! Você logo vai ser mãe, filha, quer tanto saber dessas coisas. Mulher de hoje em dia não quer saber disso não! E tem que ser pra logo essa barriga, viu? Senão você fica madura e aí não nasce mais filho bonito e com saúde, só moleque mirrado e doente. A gente é igual fruta, depois que amadurece, apodrece!

Ela deu à luz a nove filhos. O primeiro deles nasceu morto, depois de dois dias de trabalho de parto e de fazer todas as rezas e simpatias conhecidas, a parteira a mandou para o hospital porque “não tinha outro jeito” E o marido teve que escolher entre ela e a criança, Dona Nina ainda teria mais filhos, todos nascidos em casa.

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Dona Nina, viveu em Marinópolis desde antes da cidade ser município, se lembra do tempo em que todas as cidades da Comarca eram parte de uma grande fazenda.

*Dona Nina foi uma das pioneiras da cidade de Marinópolis, residiu no município por tantos anos que ela mesma havia perdido as contas. Apesar da idade avançada, conversava com fluidez e tinha boa memória. Faleceu no fim do outono de 2016, poucos meses depois da tarde em que conversamos na varanda de sua casa.

 

Dona Antônia, 86 anos

O silêncio impressiona, ela já quase não fala porque também escuta pouco. Os olhos fundos parecem perdidos em algum acontecimento do passado. Talvez na infância, vivida em Minas Gerais, ou nos acontecimentos da juventude – teve vida dura como lavradora da terra. Ainda se lembra dos patrões bravos, os senhores donos das plantações que sua família trabalhava, não gosta que falemos sobre o tempo “do Goiás”, a vida era muito difícil.
Dona Antônia ainda consegue me contar baixinho uma história sobre benzimento de quebranto, as palavras da oração ela já não se lembra mais; mas não esquece de quando sua neta Mauricéia foi curada do mal de simioto pelas rezas de uma comadre benzedeira. Teve quatro filhos, todos nascidos em casa. Sempre de madrugada, pouco antes da hora de ir pra roça, chegava sua irmã que era parteira e lhe ajudava no ofício de por criança no mundo.

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Dona Antônia, 86 anos, a Vozinha, uma das moradoras mais antigas de Marinópolis, nascida em Minas Gerais, trabalhou na roça desde moça, chegou na cidade há cerca de 42 anos.

Dona Florentina, 86 anos

O caminho árduo do Norte até o interior do estado de São Paulo foi vencido na carroceria de um caminhão pau de araras, a viagem foi tão longa que Dona Florentina diz ter perdido a conta dos dias. Chegaram primeiro em Auriflama, no córrego das Cruzes; a filha mais velha era criança ainda, Dona Mocinha, que hoje cuida da mãe, tem cerca de 60 anos.

Elas se lembram dos tempos das benzedeiras, que curavam com reza e simpatia as doenças do povo – mal de simioto, quebranto e espinhela caída eram as principais mazelas. Dona Mocinha conta a história do irmão que morreu antes de completar um ano do mal conhecido também como doença do macaco. A mãe, Dona Florentina, concorda com a cabeça, já está na idade do silêncio, em que as mãos contam mais histórias que a boca.

Me impressiono ao ouvir falar que as curandeiras ministravam doses de querosene para as crianças

  • Não era esse querosene estragado igual o de hoje.

Quero saber mais sobre os remédios que as mulheres usavam, ela me conta do tradicional álcool embebido nas ervas.

  • Usava de tudo que era erva, alecrim, arruda, capim limão, eucalipto, gambá, guiné, erva santa maria… As vezes misturavam tudo e faziam uma garrafada de todas as ervas. Elas faziam e davam pra gente levar pra casa pra tratar dos ferimentos das crianças, joelho ralado, torção, batida, dor nas costas. Não tinha remédio igual hoje, né, fia?
dona-florentina-e-dona-mocinhaDona Florentina e a filha Dona Mocinha, moradoras da terra há mais de quarenta anos

 

Noto um nome recorrente nas lembranças das mulheres de Marinópolis, é o da Comadre Gracina, dizem que foi parteira e benzedeira junto com o seu marido. Dona Gracina ajudou muita gente a pôr filho no mundo, benzia plantações, gado, criança doente, idoso acamado. Elas contam que as rezas de Dona Gracina e o esposo eram requisitadas por muita gente da região. Escutei sobre a vez em que um rico senhor de terras buscou ela pra ajudar no nascimento de um filho. Ao ver a gestante já cansada do trabalho de parto, Gracina a fez ficar de pé apoiada nos braços de outra pessoa e empurrou sua barriga para baixo; o neném nasceu já sem respirar e a parteira, conhecedora dos mistérios da vida, fez o menino reviver. Há muitos anos que esta senhora deixou o mundo, mas suas histórias a deixaram viva na pequena comunidade e ainda são contadas pela gente da terra.

Mulheres como Dona Gracina eram comuns nos tempos de antes, essas senhoras eram as responsáveis pela perpetuação de conhecimentos de geração em geração. Houve, de certa maneira, um rompimento nessa linhagem de manutenção dos saberes, com a chegada da tecnologia, o que muitos chamam de progresso. Alguns ensinamentos se perderam com o tempo mas muitos se transformaram e seguem vivos, existindo de maneira semelhante ao que foram no passado. As novas gerações de mulheres estão cada vez mais, mesmo que brevemente, prestando atenção e reverenciando o que dizem as mulheres mais velhas, as que viveram o mundo de outra forma. Isso faz com que seja cada vez mais latente  a necessidade de conhecer, catalogar histórias e registrar os conhecimentos para a inspiração e acesso das novas gerações de mulheres aos conhecimento das práticas de nossas ancestrais.

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MARILIA BOTELHO SOARES DUTRA FERNANDES
É natural de Palmeira d’Oeste, SP. Formada em Letras pela UNESP, em Rio Preto, é escritora, jornalista, compositora e produtora cultural no Noroeste Paulista. A natureza, as mulheres e o clima de sua região são fontes de inspiração em sua escrita.

 

 

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