TEMPO DE CURA

2016

Chegamos. Passada a tormenta, sal curtindo a pele

Bebo um litro de alfazema

E flutuo trazendo uma forma de nos fazer de novo sopro de vida.

 

Olhe e se veja.

 

Não somos nós ato de criação?

 

Desenho a minha existência todos os dias. O meu contorno é o oceano.

E é no silêncio da tua imensidão, no axé da palavra, que te batizo Corpo-tempo.

Aquele que entre o ontem e o amanhã, guarda e revitaliza.

Trans-cria, Transcende.

 

Chamando gente-encruzilhada, ressignifico.

Elemento vital do que manifesto:

É hora de esculpir os gestos

Engravidar de vozes

Emparelhar os tempos

Ser língua e linguagem

Oração

Animar o desejo e ser passagem para alguém

Explodir as arquiteturas

Expandir sua arte

Performar o belo

Ser Trans

 

Sendo rito,

Sendo traço,

Sendo rio

Luz, tecnologia, resistência

Canto, imagem, comunicação

 

Mergulho em ti, corpo-arquivo

E faço das tuas memórias caminho

Da minha nova criação.

Trailer Tempo de Cura

Ouça

Uma das faixas criadas pelo produtor musical Mahal Pita a partir do processo de experimentação e pesquisa com a obra AfricaDeus – O Repercutir da Música Negra em lançamento do vinil durante o AfroTranscendence 2016 em colaboração com o Harmonipan Studio. 

Saiba + 

Mentores

Selecionados Imersão

  • Alberto Pereira
  • Ana Claudia de Almeida
  • Danilo Albert Ambrosio – Rincon Sapiência
  • Ducineia Cardoso – Nega Duda
  • Gabriel Vitorino Brasileiro
  • Gabriela Guerra de Almeida
  • Janaina Barros Silva Viana
  • Josyara Gonçalves da Silva Lelis
  • Juliana de Lima Barros
  • Kim Cavalcante
  • Luana Roberta Gonçalves
  • Marcos Aganju
  • Mariana de Matos
  • Marina Janini Costa
  • Mario Lopes Vieira da Silva
  • Nara Lucia da Silva Couto
  • Rafael Henrique da Silva Ribeiro
  • Tainá Lima Nascimento – Criola
  • Vinícius Terra Nova
  • Wagner Leite Viana
  • Winny Rocha

Se há um traço comum que atravessa ainda que em um ínfimo espaço de tempo a existência de todo o corpo negro, é a busca ou necessidade de ressignificar e dar novo sentido ao seu próprio ser.

Diante da violência simbólica investida em sua imagem e da supressão da sua cultura e cosmogonia, recriar o imaginário social, produzir afetações e pôr em circulação valores através de uma arte manifesta se faz para muitxs, uma constante prática de vida.

Utilizando da própria condição humana de dar sentido ao mundo como uma possibilidade de libertação, o movimentar desse corpo negro atravessa a história reinventado-se na intenção de que seja possível deslocar os sujeitos e com ele, o olhar de quem os olha.

Emparelhando os tempos, trazem uma novo arcabouço de saberes. Epistemologias que anunciam estratégias que dançam e fazem do corpo, arquivo para fraturar as bases estruturais de um instituto-ocidente marcado por um conjunto de arquiteturas construídas com as formas da exclusão. Toda fôrma que sitia o nosso olhar e nos condiciona a noções tecno-estético-científicas onde o perfeito é cria da casa-grande.

Se a meta é re-povoar a estética, meta é questionar ela mesma. Meta para liberar a estesia é desfazer a palavra, borrar a imagem, expandir o corpo, deflagrar a engenharia e cutucar a catequese educacional financiada pelo que Temes. Escurecer o olhar, é entender as assimetrias do nosso canto. A operação dialógica e polêmica que ao carregar dois sentidos, utiliza dos sistemas do opressor para expressar sua fé, versar a liberdade, entoar levantes. O sincretismo da linguagem e sua característica transcendental, que come, reza, dança, batuca e encena atualizando no presente, passado e futuro numa só expressão. São as Afrografias da Memória, as oralituras e o que aprendemos com quem vem antes e já estava aqui. [1]

Compreendendo que toda estética é regida por uma ética, são esses valores que dão-se a ver nessa performance do conhecimento que ganha vida nas manifestações artísticas negras contemporâneas do país. É o que a obra pinta, a boca grita e o que frequenta o ritmo. É o que imagens movimentam, o que a luz projeta, a aparência sustenta e o que escreve a linha.

 

Onde cabe essa vida que faz arte para ser vida?
Como romper as arquiteturas?

As cartilhas das fundações, organizações, instituições, corporações e todos os outros porões semeiam na cadeia de toda a sua gestão um racismo estruturante que barra e apita na porta de entrada, a negrura e seu modos de ser. É o efeito de sentido, a semiose da opressão que se concretiza quando não nos vemos, não nos reconhecemos, não somos programados para ser programação e damos meia volta por medo ou contestação a esse projeto de dominação.

Enraizada nos alicerces dessa construção imponente, está o vírus que engendra no corpo, o inconsciente colonial: são os padrões, os modelos, as Gisele’s que vivem em cada espaço cultural, sala de cinema, editoras, auditórios e galerias. São os loiros olhos da curadoria. Que pode não levar esse nome mas carrega a responsabilidade da decisão. Pois quem cura, cura o que? O que é a curadoria se não o tomar de outras narrativas sensíveis para montar e anunciar uma totalidade de discurso? Como são delegadas as vozes, como são geridas as relações de poder e quais os critérios institucionais investidos nessa função?

 

Diante das ausências da produção negra nos grandes circuitos podemos falar da figura do curador ou do ofício da curadoria como um dispositivo que intensifica essa invisibilização?

Estamos naquilo que ecoa nas praças, encruzilhadas, terreiros, ruas da internet, zonas autônomas e espaços independentes. Tramando o que está fora da linha, criando curva frente aos curadores-policiais-professores. Escudos da branquitude, falência cognitiva. O olhar que cura, não cura, adoece. Os espaços não acolhem, expurgam.

 

Pois qual sala principal está disposta a ver a dor do lamento? Qual auditório nobre está disposto a ouvir o canto ao divino? Qual biblioteca quer rasurar suas páginas com os contos da cozinha? Quem quer ser atirado ao passado ao ver projetado o movimento da imagem da travessia? Que palco quer ver remontado O Mito da Miscigenação Racial e o Eugenismo de Lobato e Nina? Que vernissage vai querer perder seu status de ter “só gente bonita”? Que elevador cabe as contas? Que porta permite a roupa branca suja de dendê no quinto dia?

É preciso descer e implodir a estrutura pois o Negro-Manifesto traz tudo o que tem dentro. Receber a arte negra, é reconhecer os privilégios da supremacia. Ora combatendo, ora tirando tudo o que é centro, não sendo reação, contrário ou resposta. Ser protagonista e ele mesmo poesia. O preto-enunciador desmonta o pensamento, refaz a estrutura, cria envergadura e retira a pátina no concreto usurado do prédio da esquina.

Pensar a curadoria, o racismo estrutural institucional e a produção de conhecimento não é a pesquisa do AfroTranscendence 2016, mas é antes de tudo, o que nos dá vida. Deslocar o Corpo-Tempo para a página principal e trazer para discussão aqui o que nos invisibiliza, é reconhecer que são nesses espaços que se operam os contratos e os regimes que fazem fazer-ser, fazer-ver. Por isso é aqui que se cura e é aqui que o texto recria, o que significa para nós, a palavra curadoria.

[1] MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória. O Reinado do Rosário do Jatobá. Belo Horizonte, Mazza Ed., 1997.

 

 

 

Ficha Técnica:

Curadoria e Direção Criativa: Diane Lima
Coordenadora de projeto: Hanayrá Negreiros
Equipe de criação, produção e comunicação: Nando Cordeiro, Alê Gama, Neomísia Silvestre
Fotografia: Alile Dara Onawale

Agradecimentos: Lorena Vicini, Cynthia Lang, Chike C. Nwoffiah, Alê Gama, Mahal Pita, Tarcisio Almeida, Yasmin Thayná, Danúsia Maria, Juliana Luna, Camila Melo, Martin Giraldo, Fernando Velazquez, Gabriela Pacheco, Fernanda Júlia, Red Bull Amaphiko, Red Bull Station e Goethe Institute.

DIA 26.10, QUARTA-FEIRA

 

Laboratório AfroTrans [IMERSOS]
Diane Lima – Pesquisa, métodos e processos artísticos contemporâneos;
Benjamin Abras – Memória, corporeidades e ressonâncias;
Mahal Pita – Experimentações sonoros e transfigurações digitais;
Vj Vigas – Performances audiovisuais, tecnologias e linguagens expandidas

09h
Boas-vindas aos Imersos e apresentações

 13h
A comida como espaço do encontro e da troca de conhecimento

14h30 Experiência
Memória, corporeidades e ressonâncias com Benjamin Abras

17h Diálogos
Escavando saberes: arqueologia, pesquisa e patrimônio com Paty Marinho
Canjerê patrimonial: as dimensões (i)materiais do simbólico com Alê Gama

DIA 27.10, QUINTA-FEIRA

 

PAINEL [ABERTO AO PÚBLICO]
DESCENDER PARA TRANSCENDER: DESCOLONIZANDO O CONHECIMENTO

11h às 11h30
Abertura

11h30 às 13h
Palestra 1 – Makota Valdina Pinto

14h30 às 16h
Palestra 2 – Ayrson Heráclito

 

17h
LABORATÓRIO AFROTRANS [IMERSOS]

DIA 28.10, SEXTA-FEIRA

 

09h
LABORATÓRIO AFROTRANS [IMERSOS]
PAINEL [ABERTO AO PÚBLICO]
A MEMÓRIA DA CRIAÇÃO: PANORAMA PARA PRÁTICAS DE REINVENÇÃO NO CONTEMPORÂNEO

14h30 às 16h
Palestra 1 – Fernanda Júlia

16h às 17h30
Palestra 2 – Jaime Lauriano

20h
Videoconferência – Grada Kilomba

DIA 29.10, SÁBADO

 

09h
LABORATÓRIO AFROTRANS [IMERSOS]
PAINEL [ABERTA AO PÚBLICO]
A ESTÉTICA NEGRA: PESQUISA E PROCESSOS SINCRÉTICOS

14h30
Palestra – Nego Bispo

16h
Mostra Festival de Cinema Africano do Vale do Silício: exibição de 5 curtas seguido de conversa com Chike C. Nwoffiah e  Yasmin Thayná

 18h30
Uma performance contada, um palestra cantada
Mahal Pita + Lançamento vinil AfricaDeus de Naná Vasconcelos

 20h
Apresentação coletiva – Laboratório AfroTrans