Se há um traço comum que atravessa ainda que em um ínfimo espaço de tempo a existência de todo o corpo negro, é a busca ou necessidade de ressignificar e dar novo sentido ao seu próprio ser.

Diante da violência simbólica investida em sua imagem e da supressão da sua cultura e cosmogonia, recriar o imaginário social, produzir afetações e pôr em circulação valores através de uma arte manifesta se faz para muitxs, uma constante prática de vida.

Utilizando da própria condição humana de dar sentido ao mundo como uma possibilidade de libertação, o movimentar desse corpo negro atravessa a história reinventado-se na intenção de que seja possível deslocar os sujeitos e com ele, o olhar de quem os olha.

Emparelhando os tempos, trazem uma novo arcabouço de saberes. Epistemologias que anunciam estratégias que dançam e fazem do corpo, arquivo para fraturar as bases estruturais de um instituto-ocidente marcado por um conjunto de arquiteturas construídas com as formas da exclusão. Toda fôrma que sitia o nosso olhar e nos condiciona a noções tecno-estético-científicas onde o perfeito é cria da casa-grande.

Se a meta é re-povoar a estética, meta é questionar ela mesma. Meta para liberar a estesia é desfazer a palavra, borrar a imagem, expandir o corpo, deflagrar a engenharia e cutucar a catequese educacional financiada pelo que Temes. Escurecer o olhar, é entender as assimetrias do nosso canto. A operação dialógica e polêmica que ao carregar dois sentidos, utiliza dos sistemas do opressor para expressar sua fé, versar a liberdade, entoar levantes. O sincretismo da linguagem e sua característica transcendental, que come, reza, dança, batuca e encena atualizando no presente, passado e futuro numa só expressão. São as Afrografias da Memória, as oralituras e o que aprendemos com quem vem antes e já estava aqui. [1]

Compreendendo que toda estética é regida por uma ética, são esses valores que dão-se a ver nessa performance do conhecimento que ganha vida nas manifestações artísticas negras contemporâneas do país. É o que a obra pinta, a boca grita e o que frequenta o ritmo. É o que imagens movimentam, o que a luz projeta, a aparência sustenta e o que escreve a linha.

Onde cabe essa vida que faz arte para ser vida?
Como romper as arquiteturas?

As cartilhas das fundações, organizações, instituições, corporações e todos os outros porões semeiam na cadeia de toda a sua gestão um racismo estruturante que barra e apita na porta de entrada, a negrura e seu modos de ser. É o efeito de sentido, a semiose da opressão que se concretiza quando não nos vemos, não nos reconhecemos, não somos programados para ser programação e damos meia volta por medo ou contestação a esse projeto de dominação.

Enraizada nos alicerces dessa construção imponente, está o vírus que engendra no corpo, o inconsciente colonial: são os padrões, os modelos, as Gisele’s que vivem em cada espaço cultural, sala de cinema, editoras, auditórios e galerias. São os loiros olhos da curadoria. Que pode não levar esse nome mas carrega a responsabilidade da decisão. Pois quem cura, cura o que? O que é a curadoria se não o tomar de outras narrativas sensíveis para montar e anunciar uma totalidade de discurso? Como são delegadas as vozes, como são geridas as relações de poder e quais os critérios institucionais investidos nessa função?

Diante das ausências da produção negra nos grandes circuitos podemos falar da figura do curador ou do ofício da curadoria como um dispositivo que intensifica essa invisibilização?

Estamos naquilo que ecoa nas praças, encruzilhadas, terreiros, ruas da internet, zonas autônomas e espaços independentes. Tramando o que está fora da linha, criando curva frente aos curadores-policiais-professores. Escudos da branquitude, falência cognitiva. O olhar que cura, não cura, adoece. Os espaços não acolhem, expurgam.

Pois qual sala principal está disposta a ver a dor do lamento? Qual auditório nobre está disposto a ouvir o canto ao divino? Qual biblioteca quer rasurar suas páginas com os contos da cozinha? Quem quer ser atirado ao passado ao ver projetado o movimento da imagem da travessia? Que palco quer ver remontado O Mito da Miscigenação Racial e o Eugenismo de Lobato e Nina? Que vernissage vai querer perder seu status de ter “só gente bonita”? Que elevador cabe as contas? Que porta permite a roupa branca suja de dendê no quinto dia?

É preciso descer e implodir a estrutura pois o Negro-Manifesto traz tudo o que tem dentro. Receber a arte negra, é reconhecer os privilégios da supremacia. Ora combatendo, ora tirando tudo o que é centro, não sendo reação, contrário ou resposta. Ser protagonista e ele mesmo poesia. O preto-enunciador desmonta o pensamento, refaz a estrutura, cria envergadura e retira a pátina no concreto usurado do prédio da esquina.

Pensar a curadoria, o racismo estrutural institucional e a produção de conhecimento não é a pesquisa do AfroTranscendence 2016, mas é antes de tudo, o que nos dá vida. Deslocar o Corpo-Tempo para a página principal e trazer para discussão aqui o que nos invisibiliza, é reconhecer que são nesses espaços que se operam os contratos e os regimes que fazem fazer-ser, fazer-ver. Por isso é aqui que se cura e é aqui que o texto recria, o que significa para nós, a palavra curadoria.

[1] MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória. O Reinado do Rosário do Jatobá. Belo Horizonte, Mazza Ed., 1997.

Diane Lima é pesquisadora, curadora e diretora criativa. Especializou-se em Arte e Contemporaneidades e é mestranda em Comunicação e Semiótica na PUC-SP onde pesquisa estética negra e a produção de sentido nas práticas artísticas contemporâneas afro-brasileiras. Como diretora criativa do NoBrasil, uma plataforma de pesquisa e experimentos curatoriais, criou o AfroTranscendence, programa de imersão em processos criativos para promover a cultura afro-brasileira contemporânea. É integrante do conselho do Festival de Cinema Africano do Vale do Silício e curadora da mostra Diálogos Ausentes, projeto do Itáu Cultural que discute a presença dxs negrxs nas mais diferentes formas de expressão.

Coordenação, pesquisa, comunicação e produção

Alê Gama

Alessandra Gama é pesquisadora, gestora e realizadora artístico-cultural. Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (PPGEd-UFSCar), especializou-se em metodologias participativas de Inventários de Patrimônio Cultural, pela Universidade de Lisboa. Atua no eixo interdisciplinar entre a educação e as expressividades artístico-culturais como repertórios de criação e dedica-se a pesquisas engajadas no campo das visualidades estéticas, memória e fluxos afro-identitários. Tem como fruição investigativa, o patrimônio cultural imaterial e suas linguagens de expressão, como abordagens propositivas a inovação social. É co-editora e mentora de projetos do NoBrasil.

Hanayrá Negreiros

Metade paulista e metade maranhense, Hanayrá é formada em Moda e mestranda em Ciência da Religião pela PUC/SP, onde desenvolve pesquisa sobre vestimentas e adornos do corpo dentro do rito de candomblé angola. Também toca o Mulheres da Família, projeto pessoal, no qual resgata a memória de algumas mulheres negras de sua família e o Mulheres Banto: estéticas africanas em terras paulistas, uma cartografia de mulheres angolanas imigrantes no Brasil e suas estéticas. Também é colaboradora de pesquisa e produção no Brasis, uma rede de brasileiros que juntos pesquisam cultura e cotidianos do país. Dentro do NoBrasil, atua como coordenadora de projetos e produtora.

Neomisia Silvestre

Neomisia Silvestre é jornalista, escritora e produtora cultural. Atua em projetos artísticos (teatro, dança e música) e socioculturais (juventude, periferia e militância negra). É um das idealizadoras da Hot Pente, projeto independente e itinerante de festa hip hop com protagonismo feminino; e uma das responsáveis pela criação, organização e articulação nacional do Movimento Marcha do Orgulho Crespo Brasil, iniciado em julho de 2015, em São Paulo, que pauta a valorização da estética negra. Escreve para o HuffPost Brasil.

Ficha Técnica:

Curadoria e Direção Criativa: Diane Lima

Coordenadora de projeto: Hanayrá Negreiros

Equipe de criação, produção e comunicação: Nando Cordeiro, Alê Gama, Neomísia Silvestre

Fotografia: Alile Dara Onawale

 

 

Agradecimentos: Lorena Vicini, Cynthia Lang, Chike C. Nwoffiah, Alê Gama, Mahal Pita, Tarcisio Almeida, Yasmin Thayná, Danúsia Maria, Juliana Luna, Camila Melo, Martin Giraldo, Fernando Velazquez, Gabriela Pacheco, Fernanda Júlia, Red Bull Amaphiko, Red Bull Station e Goethe Institute.