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Tempo de Cura

A única coisa que me faz agora ser palavra, foi a incapacidade de suportá-la dentro de mim. Ela não tinha nome, nem forma e foi difícil reconhecer a sua presença. Difícil reconhecer a sua existência. Elas eram as Vozes. Enquanto travava uma batalha com o invisível, se batiam para ser língua. Nesse período, me entreguei na busca por explicar o sentido-sentido até entender que elas eram nada mais que uma manifestação e uma defesa do meu corpo reagindo ao meu excesso de exposição à luta. Portanto, um tomar de consciência.

Irradia.

A partir de um perturbador processo de expansão do que ficava atrás dos meus olhos e entre eles, passei a ter constantes lapsos de esquecimento sobre a realidade. Tornei-me invisível como a onda de um raio, um passo atrás e um adiante, nunca aqui. Quando comecei a perder a memória, aprendi o valor da escrita. Percebi que inscrever-me era a única forma de me trazer de volta desse lugar tão gasoso e longícuo no qual eu sempre me perdia.

Lá, o tempo era suspenso, sem ordem, sem começo e nem fim. Um espaço onde tudo se aglomera e se junta.  Onde os tempos se emparelham e onde me tornei Zumbi.

É preciso antes de tudo criar um espaço imantado para que seja possível fazer uma viagem segura entre os tempos.

Esse é um texto em trânsito, única forma possível de escrever sobre uma terminologia que em si mesma, na teoria e na prática, encontra-se em constante movimento. 

O AfroTranscendence nasceu em 2015 como um programa de imersão em processos criativos para promover a cultura afro-brasileira contemporânea. 

Completando em 2017 a sua trilogia,  se concretiza também como um conceito e uma prática para criação de um espaço-tempo. 

Uma prática em constante experimentação na construção de um espaço e um conceito em trânsito para imersão entre os tempos. 

O tempo como unidade ligada a revisão histórica, aos traumas coloniais e epistemicídios; a reunião de saberes e tecnologias, ao legado ancestral, a energia vital, ao espiritual, ao pensamento crítico e a produção de conhecimento. 

O espaço como os processos de criação e de aprendizado coletivo, de experimentação de metodologias, ritos e passagens para conexão com as memórias; das trocas, dos afetos e encruzilhadas; de expansão da consciência e dos exercícios de imaginação, produção de sentido, rupturas e projeção de futuro. 

Sendo assim, as AfroTranscendências podem ser pensadas como um movimento de imersão entre os tempos na busca de conexão com os conhecimentos presentes na memória individual e coletivo com o objetivo de expandir a consciência, desenvolver um pensamento crítico e expressá-los em atos de criação.

Criando Comunidades Temporárias, em cada edição, 20 selecionados de uma chamada aberta advindos de diferentes práticas artísticas se juntam a especialistas, mestres, pesquisadores e artistas em um programa composto por falas, leituras, intervenções, palestras-performances, videoconferências e laboratórios. Cruzando esses conhecimentos que servem como arquivo, base de pesquisa e referência,  propõe-se ao fim a criação de uma experiência expandida transdisciplinar tendo como suporte a palavra, o corpo, o som, a imagem e a tecnologia. 

E como captar a ressonância desse movimento? Nasce assim, a nossa aproximação com o cinema.

Linguagem que possibilita a articulação desses vários espaços e tempos. Que reativa a memória, os eventos do passado e atualiza-os com o outro, no presente. Ao emparelhar as temporalidades através da imagem e do som, recria a experiência da imersão e nos conduz a um estar fora do mundo, juntos. Movimento de transcender e de viver em coletivo um Tempo de Cura.

Um filme de Ana Paula Mathias.

Diane Lima é curadora e diretora criativa. Mestranda em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, seu trabalho concentra-se em experimentar práticas artísticas e curatorias multidisciplinares, desenvolvendo dispositivos de aprendizado coletivo com foco em processos de criação e produção de conhecimento. Em suas intervenções discute assuntos como memórias ancestrais, espaços liminares, violências simbólicas, produção de sentido, justiça epistêmica, éticas e estéticas da resistência e a descolonização dos afetos e instituições. Os projetos mais recentes incluem a imersão em processos criativos AfroTranscendence que acontece anualmente no Red Bull Station;  o Festival de Cinema Africano do Vale do Silício; o programa de conscientização racial A.Gentes e a curadoria da exposição Diálogos Ausentes,  ambas iniciativas do Itaú Cultural. 

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