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A INTERVENÇÃO DISCURSO

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A obra de arte empregada como discurso de ressignificação dos espaços e do meio urbano. A intervenção urbana como a proposta de um discurso de questionamentos e resistências, não somente de artistas, mas também da população e de seu meio.

Imagens criadas com o iphone SE
Por  Clébson Oscar

A intervenção artística, enquanto arte contextual, instaura uma efemeridade na qual a singularidade das relações redefine o “lugar cidade” pelo contato entre as pessoas e pelos desdobramentos surgido a partir das obras interventivas. Tentarei a partir disso articular aqui a relação artista – obra – espaço – público.

A partir dos anos 1970, iniciou-se uma diluição do caráter expositivo e convencional da obra de arte como o objeto (quadro, pintura, escultura, espetáculo, etc.) a ser contemplado em distanciamento e a partir de um dispositivo (galeria, museu, teatro, etc.). A produção da obra de arte sai então de um ideal de arte institucional e passa para o concreto da ordem da cidade a partir da atuação de artistas em outros espaços e dispositivos. Para muitas/os artistas não mais interessa pensar obras para a galeria ou museu, e muito menos a sua comercialização, importa-se cada vez mais que a obra esteja mais próxima do público, estando atrelada a um contexto mais de galeria-cidade.

Assim, numa fuga da institucionalização e numa construção por novas formas de se produzir e se expor, surgem formas e formatos distintos, dispositivos, sentidos e apontamentos diversos que são meios se produzir tais atos interventivos: pixo, lambe, grafite, performance, objeto, instalação, ação pontual, arte sonora, escultura, dentro tantos outros. É possível apontar três contextos diferentes acerca de artistas e a intervenção urbana: aqueles que saem da galeria para a rua; aqueles que já surgem da rua e permanecem nela; e aqueles que nascem da rua e vão para a galeria.

IMAGEM 2 – Legenda Você se vê na tv A gente se vê por aqui

“Você se vê na tv?” “A gente se vê por aqui?”

IMAGEM 3 – Legenda Acidum.

Acidum.

IMAGEM 4 – Legenda “Estupidos”, de Robert Panda IMAGEM 5 – Legenda “Estupidos”, de Robert Panda

Estupidos, de Robert Panda

A rua pode ser interpretada por muitos como uma extensão da galeria de arte, ou seja, um desdobramento dela; enquanto que é possível pensar a rua muito mais como uma ponte utilizada para se poder chegar até a galeria. Hoje é bastante comum encontrar grupos de arte urbana que já alcançaram espaço em exposições coletivas e individuais, lançar publicações de livros e catálogos como até conseguido mercantilizar as suas formas e marcas já conhecidas. E por outro lado, existem aqueles que querem pensar os seus trabalhos de fato para a cidade, em que ela se transforma em seus ateliês abertos.

Em se tratando em espaços ditos ‘públicos’, surgem questões a todo tempo: Que lugares são esses? Como eles são utilizados e assimilados pela população? Quais as suas questões e implicações? Como intervir nesses espaços e ressignificá-los a partir de suas circunstâncias espaciais, territoriais e temporais? Dentro dessas questões, a intervenção artística, sendo uma arte urbana como prática crítica, coloca em jogo a produção simbólica do espaço urbano, repercutindo as contradições, conflitos e relações de poder que o constituem.

Artistas que trabalham com intervenção urbana vêm suscitando questões de grande relevância para a arte contemporânea, colocando fortemente em pauta a relação público/privado: a superfície do muro de uma casa é de propriedade de seus moradores ou da cidade? Se a rua é pública, e se a parte externa dos muros dão para a rua e fazem parte da configuração visual da cidade, então intervenções nesses espaços realmente devem se configurar como invasão de propriedade? Nesse campo de tensões, a intervenção artística atua como dispositivo de reflexões estéticas e políticas, articulando e sobrepondo realidades.

“Em meio aos espaços públicos, as práticas artísticas são apresentação e representação dos imaginários sociais. Evocam e produzem memória podendo, potencialmente, ser um caminho contrário ao aniquilamento de referências individuais e coletivas, à expropriação de sentido, à amnésia citadina promovida por um presente produtivista. É nestes termos que, influenciando a qualificação de espaços públicos, a arte urbana pode ser também um agente de memória política. ” – Vera M. Pallamin.

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A busca por uma religação afetiva com os espaços, sejam eles degradados e abandonados, sejam eles espaços de fluxos da cidade, como também os lugares de significados históricos/sociais para a população. O próprio meio urbano se faz matéria de criação não apenas do artista, mas de todos aqueles que reinventam os sentidos dos espaços através de suas experiências, através de uma produção de uma estética compartilhada.

A obra não é de domínio somente do artista, ela transcende da autoria individual para a coletiva, se incorporando a cidade a partir de interferências feitas por outras pessoas, ganhando assim um novo corpo, um novo significado. Um exemplo disso é um mural de lambe-lambe feito da repetição de uma ilustração de uma boca aberta, que ganhou, com o passar das semanas, diversas frases escritas por cima de cada uma dessas bocas, frases como: “vamos fazer escândalo”, “respeite as minas” e entre outras. Tais frases acabaram por encorpar uma nova força para a intervenção inicial.

Numa ressignificação do espaço e da ordem, muros de concreto passam a ter varais de roupas; terreno baldio vira canteiro de girassóis; pneus, vasos sanitários e outros materiais se transformam em jardim em calçadas/praças; troncos de árvores viram casinha de cachorro ou bancos em praça. Entre tantos outros exemplos, praticados não por artistas e muito menos com intenções ‘artísticas’, são vistos por Fortaleza como também em outras cidades e meios urbanos, em que a população se apropria dos espaços públicos e intervém sobre as suas paisagens. Sendo assim, quem de fato pratica intervenção urbana não é apenas o artista, é também a população que reinventa os espaços e meios, interferindo na arquitetura urbana já estagnada pela ordem e a transforma a partir de suas necessidades e motivações.

“Nós podemos imaginar espaços os mais diferentes para as áreas públicas das cidades, mas essa utopia só tem sentido se considerada experimentalmente. Suas implicações e consequências devem ser estudadas na prática4. É importante que o significado da cidade possa nascer do seu uso, no curso da vida cotidiana, envolvendo nos processos decisórios as pessoas diretamente implicadas em cada diferente situação.” – Graziela Kunsch

IMAGEM 8 – Legenda Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.Intervenção realizada em 2014 na Praça Clóvis Bevilaqua.

IMAGEM 9 – Legendo Baião Ilustrado

Baião Ilustrado 

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CLÉBSON OSCAR- Artista visual, desenvolve trabalhos em instalação, vídeo, fotografia analógica e intervenção urbana, da qual também desenvolve uma pesquisa sobre o tema. Graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará e pela Vila das Artes. É roteirista e realizador, tendo dirigido dois curtas metragens que estão circulando por festivais e mostras de cinema, além de trabalhar com assistência de direção e montagem em cinema.

 

 

 

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